A Revolução dos Cravos

Hoje, lembramo-nos dos membros das forças armadas que derrubaram o governo salazarista, devolvendo a Portugal a sua liberdade. Logo depois, as guerras em África terminaram*. Foi um processo penoso mas durante os anos que se seguiram, aquele ato de coragem por parte dos militares melhorou as vidas de milhões de pessoas e foi realizado quase sem derramamento de sangue – apesar de elementos da DGS terem aberto fogo sobre a população a porta da sede da PIDE. Quem me dera que mais revoluções fossem assim tão pacíficas e eficazes.
A propósito, durante os meses iniciais de aprender português, ouvi esta frase num podcast mas percebi “A Revolução de Escravos” que faz sentido até certo ponto. Já sei que “de escravos” não seria gramaticalmente correto mas para mim, um jovem de quarenta-e-tal anos, sem experiência neste mundo confuso de gramática portuguesa, nem sabia melhor.
*i wrote “foram levadas ao fim”, trying for “brought to an end” but I think it has more a sense of “carried to their end”, which is pretty much the opposite of what I was aiming for!
Musings
Corrected texts – thanks Dani
1
Desperdicei o dia a jogar um videojogo. Mas porque é que digo “desperdicei”? Será que é porque não fiz nada de importante? Mas precisamos de dias desses. É preciso divertir-se. Talvez sejam os dias cheios de coisas importantes que são desperdiçados.
2
Há uma semana um colega que não conhecia pessoalmente (só através do MS Teams) enviou-me uma mensagem. “Estiveste no Richmond Park anteontem? Acho que te vi”.
Mas em inglês, ‘tás a ver?
Eu respondi, também em inglês que estive, sim, e falámos sobre as nossas corridas. Ele corre mais rapidamente do que eu.
No fim de semana passado, vi-o a correr na direção oposta à minha*. Dois fins de semanas seguidos** … Acho que está a espiar-me em nome dos recursos humanos.
* I really struggled with this. There’s a word, “contramão” Which I tried to use but it’s no good here. It’s more about going the other way in traffic – a contraflow.
**masculine because the “fins” are masculine even though semana isn’t. And they’re “seguidos” not “a fio”. When I first write it I gave the impression that I’d net him every day for two weeks not just in two successive weekends.
Um Cadáver Entre os Alhos
Fui à horta esta tarde para regar as sementes e as plantinhas, mas fiquei chocado por ver um rato morto na terra entre os alhos. Nojento!
Levei-o numa pá, escavando a terra abaixo. Carreguei-o para a cerca e atirei-o fora. Espero que me esqueça disso antes da colheita porque não quero lembrar-me desta cena enquanto estou a comer o alho.
A Fevereiro You Can’t Sweat Out
Corrected text about going to a book launch. Now I know what you’re going to ask, so let me answer you in advance: (1) No, I don’t know how I got from. “I went to an event in February and felt a bit nervous” to this title based on the name of an album by Panic! At the Disco and (2) Yes, the picture is probably a cry for help.

Estava a falar com a Talures hoje a manhã e lembrei-me dum evento a que assisti há três anos. O título era “Difficult Women – The Defining Fights of Feminism”. Fazia, parte do lançamento dum livro de Helen Lewis, mas juntou-se a Caroline Criado Perez que também tinha lançado um livro com um título semelhante no ano anterior. As duas foram entrevistadas por Samira Ahmed, uma jornalista que, naquela altura, se tinha ela própria estreado nas manchetes*, por ter processado o seu empregador (a BBC) por lhe dar um salário menor do que um jornalista** que apresentava o mesmo programa. E venceu.
A maior parte da conversa girou em torno dos conteúdos do livro da HL, porque era o mais recente, mas a CCP (a Caroline, não o Chinese Communist Party) também falou sobre a sua interpretação do feminismo e vários pontos interessantes no livro dela.
Quando chegou a hora de fazer perguntas***, o primeiro interlocutor era um homem que queria denunciar a entrevistadora, o que provocou uma grande risada por parte de toda a gente. Eu estava a pensar em fazer uma pergunta mas mesmo que não fosse demasiado tímido (sou muito introvertido), não quereria seguir tal parvoíce!
Mas do que me lembro, acima de tudo, é da sensação de nervosismo e de constrangimento na sala de audiências. O discurso decorreu no dia 25 de fevereiro de 2020, uma mês antes do início do “lockdown” em Inglaterra, mas até naquela época, já tinha começado a usar máscara nos transportes públicos. Deitei a máscara fora quando cheguei ao centro da cidade para não ser ridicularizado**** mas não deixei de sentir paranoia e de me perguntar se haveria alguém na sala que tinha visitado a China. E se não me engano havia outros lá que sentiam um pouco o mesmo nervosismo.
*Nice construction this: she had been in the headlines in her own right.
**I wrote “um jornalista masculino” But You don’t really need the adjective because the article tells you he’s male!
***I just write “a hora de perguntas”. Nope. Not the time for questions but the time to ask questions.
****I still can’t quite believe this word exists
May e Might
Nothing makes you realise quite how little you know about your own language like explaining it to someone else. This one wasn’t too bad since I’d at least thought about it before. This is me explaining the difference between the words “may” and “might”. Thanks to Dani for correcting me.
Hoje, expliquei a uma portuguesa como usar estas duas palavras inglesas. Ela pediu-me; não sou um desses homens didáticos que desabafam sobre a gramática por qualquer motivo. Antigamente, achava que compreendia a minha língua toda, mas cada vez que explico os aspetos básicos da língua, percebo que há montes de coisas que não obedecem regra nenhuma. Mas felizmente já tinha explicado may e might a mais alguém, portanto não era assim tão difícil: já tinha um esboço da explicação em mente.
Propriamente, “might” é um indicador de possibilidade e “may” tem a ver com permissão. Porém, no nosso dia-a-dia, usamos os dois de modo errado tantas vezes que esta regra não se aplica. Tenho exemplos mas não vale a pena escrever inglês neste subreddit.
Gostei de ter a oportunidade de falar em português.
Uma Falha de Comunicação
A minha filha fez o nosso jantar. Ela pediu-me para descascar as batatas, o que eu fiz mas por qualquer razão ela achava que eu também as tinha cozido.
Como resultado*, quando chegou a hora de esmagar as batatas para fazer o puré, apercebemo-nos de que devíamos fazer outros planos.
Acabámos por comer macarrão com molho de azeitonas porque era mais rápido.
*I would have sworn blind that “As a result” was “por resultado” but no, no it isn’t.
Film Reviews
Reviews of films we’ve been watching lately. Well, not really reviews so much as witterings. Gratitude as always to Dani for the corrections.
The Evil Dead 2
Ando a prosseguir a minha estratégia de educar a minha filha sobre os filmes do passado para que ela entenda as referências nos filmes mais modernos. Agora que está obcecada com A Liga dos Cavalheiros, filmes mencionados pelos membros do elenco tornaram-se instrumentos de pedagogia. Hoje vamos ver o Evil Dead 2. Contém uma cena na qual a mão do protagonista fica possuída por forças maléficas e ele tem de lutar contra o seu próprio braço. Esta ideia foi roubada pelos escritores da Liga.

(and later)
Gostámos muito do filme que vimos ontem. É muito engraçado e muito chocante. Sangue a jorrar de buracos na parede, mãos más a rastejar no chão como um mouse ratinho, demónios, motosserras… De que mais precisam?
Hoje é último dia das férias da Páscoa, portanto a minha tarefa do dia é motivar a adolescente a estudar o máximo possível. É deprimente, e geralmente não faria nada disto mas a época dos exames está à porta e estes exames são os mais importantes da sua vida até agora: os exames que determinam se ela vai para a universidade da sua escolha.
An American Werewolf in London
Da série “Idosos educam adolescentes sobre os filmes dos anos oitenta”, o nosso filme do dia foi “Um Lobisomem American em Londres”.
Tinha expectativas baixas. Gostei do filme quando o vi pela primeira vez, mas geralmente os filmes.do passado acabam por ser uma desilusão. Mas adorámos este filme. Até os efeitos especiais pareceram modernos. Melhores do que os modernos. Rimo-nos muito, e ela deu-lhe cinco estrelas no Letterbox.
Capitães de Abril
Estávamos a falar sobre o Dia da Liberdade ontem e eu sugeri que procurássemos uma versão do filme Capitães de Abril com legendas para ver depois do jantar. Encontramos uma versão de alta qualidade no YouTube e começámos.
Infelizmente já era tarde, portanto não conseguimos ver o filme até ao fim. A minha filha estava a resmungar “estou cansada”, pousando a cabeça sobre a mesa de olhos fechados. Como resultado, fez o que faz quando não lhe apetece ver um filme: queixa-se dos protagonistas: “os soldados só querem fazer guerras e as mulheres é que sofrem” e assim por diante. Decidimos deixar o filme para um outro dia no qual ela não estaria de trombas. Espero que esteja mais recetiva à história noutro dia.
Morena
I did a Tiago Bettencourt translation the other day, so let’s have a go at “Morena” too, not becaue it’s my favourite song of his, but because it has some nice guitar work.
OK, potentially controversial decision: I’m translating “Morena” as “Brunette”, because that’s the closest I can get to a literal translation. It’s not quite right though, for two reasons. Firstly, there’s a sense of the person’s skin being tanned or olive-toned as well as their hair being dark brown; and secondly, I think referring to women as blondes, brunettes, redheads has a slightly disrespectful tone in english (at least in some circles) and I think that’s less true in portuguese. That’s partly a linguistic thing: in Portuguese it’s more usual to use an adjective as a noun – for example “um inglês” not “um homem inglês” – and partly because we have a tendency to overthink things in the english-speaking world, especially a certain very large country situated a few hundred miles north of Brazil. Anyway, with that dislcaimer, let’s crack on.
| Portuguese | English |
| Esta morena não sabe O que o dia tem para lhe dar Diz-me que tem namorado Mas sem paixão no olhar Tem um risinho pequeno E que só dá de favor Corpo com sede de quente Mas que não sente calor Mas que não sente calor Esta morena não dança Quando lhe mostro Jobim Talvez não goste da letra Talvez não goste de mim Cabelo negro sem regra Caindo em leve ombro nu Feito de morno passado E amor que nunca cegou E amor que nunca cegou Morena no fundo quer Tempo para ser mulher Morena não sabe bem Mas eu no fundo sei Que quando o véu lhe cai Quando o calor lhe vem Sempre que a noite quer Sonha comigo também Há sítios que ela não usa Por não saber que estão cá Há mares que ela não cruza Por não ser eu a estar lá É de mim que ela precisa Para lhe dar o que não quer Talvez lhe mostre caminhos Onde se queira perder Onde se queira perder Esta morena não chora Com um fado negro de Oulman Nem com um poema de O’Neill Na primeira luz da manhã Sabe de tantos artistas Canta-me letras de cor Mas não lhe passam por dentro Não lhes entende o sabor Não lhes entende o sabor Morena no fundo quer Tempo para ser mulher Morena não sabe bem Mas eu no fundo sei Que quando o véu lhe cai Quando o calor lhe vem Sempre que a noite quer Sonha comigo também Esta morena não corre Quando a chamo para mim | This brunette doesn’t know What the day has to give her She tells me she has a boyfriend But without any passion in her eyes She has a little laugh That she only gives as a favour Body that thirsts for warmth But doesn’t feel heat But doesn’t feel heat This brunette doesn’t dance When I show her Jobim Maybe she doesn’t like the lyrics Maybe she doesn’t like me Black, unruly hair Falling on a light, naked shoulder Made by boredom gone by And love that never blinded her And love that never blinded her Deep down, the brunette wants Time to be a woman The brunette doesn’t really know But deep down, I know That when her veil falls When the warmth comes back to her Whenever the night chooses She dreams of me* too. There are places she doesn’t use Because she doesn’t know they’re here There are seas she doesn’t cross Because I’m not there It’s me she needs To give her what she doesn’t want Maybe I’ll show her paths Where she wants to lose herself Where she wants to lose herself This brunette doesn’t cry with the dark fado of Oulman Nor with the poetry of O’Neill In the first light of morning She knows so many artists She sings me lyrics by heart** But they don’t get inside her She doesn’t understand their flavour She doesn’t understand their flavour Deep down, the brunette wants Time to be a woman The brunette doesn’t really know But deep down, I know That when her veil falls When the warmth comes back to her Whenever the night chooses She dreams of me too. This brunette doesn’t run When I call her to me |
*= Remember “sonha comigo” might look like “dreams with me” – implying they are sleeping together – but it means “dreams of me”, which is a different kettle of fish! One of those instances where the use of prepositions can give you a slightly different mental image if you’re not careful.
**= Letras “de cor” sounds like it should mean colourful lyrics but there’s an older meaning of cor that is the same as coração, so it’s just like the english expression “knowing something by heart”

Shorties
Short texts, corrected. Thanks for the help, Dani.
Raymond Briggs

Acabo de ler um livro de Raymond Briggs, que é mais conhecido por ter ilustrado e escrito (hum…. Escrito? Não há diálogo, tanto quanto me lembro, mas pelo menos há de ter escrito o enredo, não é?) “The Snowman” (O Boneco de Neve), o livro que inspirou o desenho animado que se tornou um clássico de Natal. O autor escreveu muitos livros incríveis, incluindo o Fungus the Bogeyman (Hum… Fungo o… Bicho Papão???) mas este livro é uma compilação de poemas, desenhos e citações sobre a velhice e a mortalidade. Termina como a chegada do próprio a um lar de idosos*. A sombra da morte está sempre presente no texto mas não se torna deprimente nem mórbido por causa disso**. É só uma consciência da finitude da vida.
* I really messed this sentence up. First, o wrote “a sua própria chegada”, literally translating “his own arrival” but I should have written “the arrival of himself”. I also wrote “num” in place of “a um”. He arrived at the home, not in it. And finally I write “velhos” in place of the more polite “idosos”.
**I wrote “por resultado” instead of “por causa disso”. Unlike English you can’t just say “as a result” and leave it dangling.
Reece Shearsmith

Ontem à noite a minha filha foi assistir a uma peça de teatro com a sua amiga. Uma das estrelas é Reece Shearsmith, um ator e comediante cuja carreira começou antes de ela nascer. Ela está obcecada com a obra dele, portanto esperou perto da porta do teatro para pedir um autógrafo e uma selfie. Estava muito contente quando chegou a casa.
Aguarelas
Tenho três aguarelas pintadas pelo meu avô que faleceu há trinta anos. Têm estado na casa dos meus pais desde a morte dele. O meu avô era médico de profissão e um pintor amador, portanto não são obras-primas; longe disso, mas estou com vontade de emoldurar o melhor e pendurá-lo numa parede cá em casa.
The vocabulary in this area is not that different from English:
Aguarela =watercolour, or a watercolour painting.
Pintura =The act of painting or just an actual painting.
Quadro =a framed painting
Desenho =a drawing
Moldura =a frame for a painting
Caça Aos Ovos
Todos os anos, organizo uma caça aos ovos de Pascoa em casa. Consiste numa sequência de pistas. Cada uma aponta para a pista seguinte e tem um ovo, o pequeno. No fim, ela chega ao último ovo que é maior.
Estou ligeiramente triste porque a minha filha tem 17 anos e daqui a um ano não irá querer uma caça de ovos. Ainda por cima é possível que ela não esteja em casa connosco porque estará a estudar numa universidade na Escócia.
Eu e o Coelho da Páscoa passaremos o dia em casa a chorar e a comer chocolate para abafar as dores nos nossos corações.
