A canção mais poderosa (em termos historicos) de sempre – pelo menos na história do Festival Eurovisão da Canção foi mencionada durante um episódio da programa “No Such Thing As a Fish”. O anfitrião não sabe pronunciar o título, e a descrição dos soldados com “um Walkman e uma espada” é um pouco anacrónica numa revolução que teve lugar nos anos 70, mas ainda assim, é fixe que este facto histórico está a tornar mais conhecido, e fiquei com orgulho por saber isto antes dos concorrentes!
Category: Portuguese
Buraka Som Sistema in London. And It’s Free
Os Buraka Som Sistema, a banda electronica portuguesa vão reunir após um hiato, para tocar ao vivo num parque na zona sudeste de Londres no dia 7 de Agosto. O concerto faz parte de um festival gratuito, Miniteca, que pode ser uma oportunidade aproveitar a cultura portuguesa sem custo, mas pelos vistos haverá muito espanhol no ambiente também porque é um festival de música latina, não só portuguesa. Acho que vou escutar novamente a música deles, para ver se me apetece ir ver o espectáculo mas sendo um velhote, a música electrónica não me agradece assim tanto é provavelmente vou pulir esta oportunidade.

Ser Poeta – Florbela Espanca
Here’s my translation of this Florbela Espanca soneto which I mentioned in passing in yesterday’s post. It’s quite easy to translate the words, but translating poetry usually makes it feel a bit leaden so I hope I don’t do it too much dirt. The main reason it caught my eye was the title of the song based on it: “Perdidamente”. It’s one of those words that’s really hard to translate on its own. How would you translate it_ It looks like it ought to be “lostly” but we don’t really have such a word in english. I suppose “hopelessly” or “desperately” are in the right area, but neither is quite the same. Sod it, I’m going to translate it as lostly and the Oxford English Dictionary can bloody sue me!
| Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e cetim… É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente… É seres alma e sangue e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente! | To be a poet is to be taller, to be bigger Than men, to bite like one who kisses It is to be a beggar and give like one who is King of the Kingdom of Within and Beyond Pain It is to have the splendour of a thousand desires And not even to to know what one desires It’s to have in here a star that burns And to have the claws of a condor It’s to have an infinite hunger and thirst For a helmet, the mornings of gold and satin It is too condense the world into just one scream And it is to love you like this, lostly It is for you to be soul and blood and life in me And to say it, singing to everyone! |
Luís Represas – Na Curva do Horizonte
Morreu ontem Luís Represas, o cantautor* e ex’membro dos Trovante. Não o conheço bem, mas decidi experimentar os seus top 5 de vídeos no Tutube. Acho que já ouvi “perdidamente”, uma versão de “Ser Poeta” da escritora lendária Florbela Espanca” mas este dueto chamou-me mais a atenção
| Português | Inglês |
|---|---|
| A voz não veio de lá Quem me chamou eu não vi Se alguém ligou por ligar Quem me ligou não ouvi Entrei em casa e fiquei Em pé e quase a dormir Dos dias longos roubei Alguns minutos para viver para mim Só para não esquecer porque parti | The voice didn’t come from there I didn’t see whoever called me If someone called just to call Whoever called me, I didn’t hear I went in the house and stood there, almost asleep From the long days I stole Some minutes to live just for myself Just to remember why I left |
| Parti sem nunca partir Fiquei sem nunca ficar Saí sem nunca sair Voltei sem nunca voltar Falei sem nunca falar Gritei sem nunca gritar Guardei o que posso de mim Pensei e posso pensar | I left without ever leaving I stayed without ever staying I went out without ever going out I returned without ever returning I spoke without ever speaking I screamed without ever screaming I kept what I could of myself I thought and I can think |
| Felicidade faz bem Simplicidade maior A estrada não tem ninguém Mas tem um vento que cheira a amor Eu adivinho alguém Na curva do horizonte Se és tu que sinto chegar Não te escondas mais por trás do monte Sai Vem e dá-me a mão Vamos voar | Happiness is a good thing Simplicity is larger The street has nobody but it has a wind that smells like love I sense someone On the curve of the horizon If it’s you that I feel approaching Don’t hide yourself behind the mountain Come out Come and give me your hand Let’s fly |
| Parti sem nunca partir Fiquei sem nunca ficar Saí sem nunca sair Voltei sem nunca voltar Falei sem nunca falar Gritei sem nunca gritar Guardei o que posso de mim Pensei e posso pensar | I left without ever leaving I stayed without ever staying I went out without ever going out I returned without ever returning I spoke without ever speaking I screamed without ever screaming I kept what I could of myself I thought and I can think |
| Voltei sem nunca voltar Fiquei sem nunca ficar Saí sem nunca sair Pensei e posso pensar | I returned without ever returning I stayed without ever staying I went out without ever going out I thought and I can think |
*Obscure word this, but keen followers of this blog will remember it from the footnote of this post. It’s a cantor-autor – a singer-songwriter.
Boa Sorte, Espanha

Poemagem – Sandra Acosta

O blogue de ontem foi uma descrição de um livro comprado no FLILP, mas comprei dois e hoje trago-vos o segundo: “Poemagem” de Sandra Acosta. Chamou-me a atenção porque o exterior é tão bonito: uma etiqueta elegante, colada numa capa dura azul escuro com um marcador vermelho. Falei com a autora que explicou que cada poema tem como assunto um lugar a qual ela tinha ido. Mas além da poesia, ela faz colagem e cada poema tem a sua própria ilustração. Embora não seja o maior fã de sempre da poesia, adoro a colagem (a obra do Graham Rawle por exemplo*!) e não resisti: comprei exemplar 323, assinado pela autora. Li-o no comboio, a caminho para Richmond. O livro é mesmo bom. Pois, é poesia, mas a poesia é brincalhão: brinca com palavras e com a tipografia. Existem cartões divetidos enfiados entre as folhas. Como um objecto, o livro é lindo – posso imaginar dar um exemplar como presente a um amigo. Fico muito contente com esta compra!
*I googled him and… Wait… What the shit? He died? Noooo!

Lauryn – Esta Sou Eu
Entre os escritores que conheci na Feira Literária Internacional de Língua Portuguesa, o mais jovem foi a Lauryn, que escreveu um livro sobre s sua vida e os seus pensamentos sobre ser jovem e negra, filha de dois africanos (Mãe do Cabo Verde e pai d São Tomé e Príncipe).

O livro é do género de ‘Little People Big Dreams’, cheio de lições que alimentam o auto-estimo e a ambição dos leitores. Mas além do facto de ter escrito (com ajuda da mãe, de certeza) um livro, o que mais me marcou foi a confiança da menina em aproximar-se aos visitantes. Ela abordou-me, mostrou-me o seu livro e explicou que foi traduzido em 4 línguas. Ela fala português por causa dos pais, mas a sua língua nativa é inglês. Explicou que é um livro juvenil mas também um livro para adultos, porque toda a gente deve entender determinadas coisas.
Respeito o espírito trabalhador dela, e comprei um exemplar do livro, que li ao chegar a casa.
FLILP – A Segunda Edição
Leitores deste blogue da “escola antiga” podem lembrar da FLILP – a Feira Literária Internacional de Literatura Portuguesa que visitei em 2024, na sede do Cara Livro ni Reino Unido. A feira está de volta com a sua segunda edição e eu fui ver como cresceu no intervalo.

Deste vez, a feira teve lugar no Goldsmiths College. Ugh. Acho que seria mais rápido e mais fácil ir para Lisboa.
Cheguei às 12 e meia e percebi que a feira era maior do que em 2024. Claro que não chega aos calcanhares das feiras de livros nacionais, como a Feira do Livro de Lisboa, mas não é nada surpreendente: Inglaterra não é um país lusofono – de que é que estava a esperar?
Estava de língua amarrada. Mas, apesar do meu constrangimento, falei com várias pessoas: poetas brasileiros, autores angolanos, artistas portugueses, dois ingleses que estavam ali para publicitar um evento no qual um colega deles, um tradutor, iria entrevistar Gonçalo M Tavares (um autor muito bem conhecido) sobre a tradução do seu novo romance.
Conheci uma menina anglo-africana. Nasceu cá em Londres mas o seu pai é são-tomense e a mãe cabo-verdiana. Vou falar mais nela amanhã. Também falei com um tipo daqueles que pensem sempre em negócios. Contou-me como escreveu um livro de auto-ajuda em 19 dias. O tipo facilita empreendedores, líderes de negócios e outros egoístas escreverem as suas autobiografias e desabafos sobre esta sociedade que não valoriza o empreendorismo o suficiente, ou sei lá o quê. Estou a brincar: respeito o seu espírito trabalhador mas a minha natureza é mais relaxada e não entendo o “hustle culture”.
Bazei após uma hora, mas ou menos, com dois livros novos. Mas quem me dera que estivesse mais preparado.
Simplesmente Maria
No livro O Retorno, o narrador diz que a sua irmã sonha dw que o Alberto de Simplesmente Maria está a sua espera no aeroporto.
Fiquei curioso. Ao que parece foram feitos seis telenovelas com aquele título. O mais óbvio é o de 1971 (3 anos antes dos eventos narrados n’O Retorno) mas segundo a Wikipedia não existem Alberto nenhum no seu elenco, portanto deve estar ou a série argentina (1967) ou a peruana (1969).
Hm… Parece-me pouco provável. Sei lá. Faria uma pergunta no r/Portugal mas seria chato explicar aos jovens como funciona a linha temporal deste cenário…
Os Gafanhotos – e-Fólio B
This is e-Fólio B, from Literatura e Cultura Portuguesas – Época Contemporânea, about A Costa Dos Murmúrios. The question is based on the short story which forms the introduction to the book. It’s called “Os Gafanhotos” (“The Locusts”) and the protagonist of the main story reads the short story, which seems to be describing a younger version of herself, living in the colonies, in a culture that very much looks down on the natives of the country. Part way through the story, a cloud of locusts comes and surrounds the gathering, and I think we’re meant to see the portuguese colonists themselves as a biblical plague of locusts laying waste to everything they settle on. The main book is all about Eva unravelling the rosy view of empire that is explained to Evita buy the other guests at the party in os Gafanhotos. Finally, on the last page, as the body is pulled from the sea, she talks about how the words she has heard were becoming isolated sounds, the sounds murmurs, as the last stage before silence, which speech is followed by:
…disse Eva Lopo, rindo. Devolvendo, anulando “Os Gafanhotos”
and the question asks us to Indique e comente um exemplo de uma passagem de “Os Gafanhotos” que Eva Lopo tenha “anulado”. To be honest, i really struggled with this essay. It came directly after a massive work deadline and my head just wasn’t in the game, so I freestyled it and was amazed when, once again, I got a surprisingly decent mark for the work!
Resposta
O desenvolvimento da protagonista do romance é inextricavelmente ligado à sua crescente desilusão com a versão da vida colonialista exemplificada n’Os Gafanhotos, e assim quase todos os acontecimentos levam a cabo a anulação do conto e da ingenuidade da Eva.
Mas para mim, talvez a frase mais agridoce do conto seja uma que vem logo na última página. “Todos, incluindo Evita, compreendiam que o excesso de harmonia, felicidade e beleza provoca o suicídio mais do que qualquer estado” (OG p38).
No conto, Evita está “a chorar baixinho” (OG p38) quando este pensamento surge no fluxo da consciência dela, e é por isso que a autora do livro (The docente corrected this to “o narrador” and said not to identify the two “de carne e osso”, but I don’t think I agree – this part of the story really feels like the lens has pulled back and we‘re getting addressed directly by the writer… but I could be wrong of course!) nos conta, no final do livro que “rindo”, ela anulou, de uma vez por todas, Os Gafanhotos. Evita é ingénua, Eva desiludida, mas paradoxalmente a última é que acaba rindo e a outra em lágrimas. Porque é que a reação dela é tão diferente? Talvez porque, sabendo mais do que a Evita sobre a realidade da sociedade, ela entende melhor. Ao resgatar as memórias perdidas na narrativa oficial, ela é curiosamente mais livre.
O caminho até este estado de entendimento é longo. A “rebelião de selvagens” é revelada como guerra sangrenta na qual o seu marido faz parte. O marido, que antigamente se interessava pela matemática (I wrote “engenharia” ‘ how weird, I could have sworn it was that!), deixou morrer os seus sonhos na perseguição dum novo: o heroísmo. No processo, tornou-se uma sombra do seu major, um bruto, ou seja, um selvagem. Entretanto, na cidade, os negros inocentes perdem as vidas por causa de umas garrafas de vinho envenenado de metanol.
Pensando nas contradições do passado, Eva Lopo escreve, no primeiro parágrafo do terceiro capítulo “Definitivamente, a verdade não é o real, ainda que gémeos, e n’Os Gafanhotos, só a verdade interessa. Por isso não teria sido útil introduzir o gesto do alferes com a faca na boca e o sangue a abrir e a alastrar como uma estranha flor” (p85). Noutras palavras, ela acha a narrativa d’Os Gafanhotos demasiado “unida e (…) infragmentada” (p85) (the correction here was that it is a general proposition and not specifically about Os Gafanhotos— OK, fair point, although in a question about os Gafanhotos, referencing a paragraph where she has said Os Gafanhoto is interested in the truth, and the truth is too unitary and unfragmented, I feel like I can extrapolate to say that, yes, she thinks this about OG too – especially when I only have one side of A4 to make my argument… But maybe my tendency to reject criticism is holding back my development… I have thought about it though, I’m not just sticking my fingers in my ears and going la-la-la) enquanto a realidade de traição, de veneno, de sonhos perdidos, de murmúrios abafados é “disperso e irrelevante”. Esta tema reaparece n’Os Memoráveis da mesma autora.
Afinal, a ironia da citação supra, sobre o suicídio e a beleza não é errada. A beleza da ilusão de um império resultou numa sociedade apodrecida e uma falta de respeito aos cidadãos negros. E um império que não sabe distinguir entre os inocentes e os rebeldes rapidamente faz dos inocentes mais rebeldes. Assim, o suicídio é do império.
Bibliografia
Jorge, Lídia (1988) “A Costa Dos Murmúrios” 16ª Edição, Dom Quixote 1995
