Posted in Portuguese

Doomscrolling

Em tempos de transtorno no palco mundial, é muito fácil perder toda a esperança. Há uma palavra inglesa “doomscrolling” que encapsula bem este sentimento. As notícias são tão deprimentes que ficamos estupefactos e não conseguimos funcionar porque temos que saber mais e mais sobre o quão lixados estamos. Mas somos cidadãos de países democráticos e temos opções. Há sempre qualquer coisa, quanto pequena que seja, que podemos fazer para contrariar a ditadura e a guerra.

Expresso: Quer apoiar o povo da Ucrânia? Saiba como ajudar hoje, porque “amanhã pode ser tarde demais”

Twitter account of London Euromaidan which has been organising protests here in London asking for the UK government to do more.

“Russian Warship, Go Fuck Yourself”

With thanks to h_doofenschmirz for correcting my grammar in a few places here

Posted in Portuguese

A Discutir Comigo Mesmo

Tiveram uma vez uma discussão* ou um debate com outra** pessoa que não entendeu o vosso ponto de vista ou que reagiu mal a alguma coisa que nem sequer disseram? Acho isso muito frustrante. Estou a passar a manhã inteira a repetir a discussão. É ridículo. Estou em risco de desperdiçar o dia todo porque não consigo focar-me noutras coisas. Preciso de esquecer. Felizmente sou um velhote e geralmente esqueço-me de coisas facilmente.

Mas… É que… Não quero. Sinto-me como se perdesse um dente e quero enfiar a língua*** no buraco onde estava. Digo-me a mim mesmo:

“Calma pá. Pega nos auscultadores, meu burro**** e escuta, mas é, uma música punk até a memória fica perdida”.

“Pois é”, respondo “mas antes disso, só quero praticar mais uma vez o que teria dito, e o que irei dizer se alguma vez inventar uma máquina do tempo e viajar no tempo até àquele momento…”

E assim se passa uma, duas, três horas a fio. Burro, burro, burro.

I am Jack's lazy tendency to post animated gifs based on Hollywood movies

* I made the schoolboy error of using “argumento” here but it doesn’t mean quite the same thing as argument and certainly doesn’t fit here.

** tempting to write “uma outra” (another) but you only need outra. The corrector said “Uma outra” is “um gallicismo oitocentista” – a French import from the nineteenth century.

*** a língua not a minha língua as per the post I wrote a few weeks back abiut how possessive pronouns are sometimes unneeded.

**** When I first saw this sort of construction “seu burro” I couldn’t see what was going on. Its an exclamation, calling someone “you donkey” not discussing their donkey, if you see what I mean. Anyway, you can say “seu burro” (or tolo or palermo or whatever) and you can say “meu burro” but not – for some reason – “teu burro”.

Posted in Portuguese

Campo Vermelho

A semana passada foi um bico de obra para mim e trouxe vários transtornos à família toda: a carteira perdida de que falei ontem (ainda desaparecida – cancelei os cartões todos), a minha filha tem montes de trabalho de casa e ainda por cima foi traída por uma amiga, e a minha mulher anda preocupada porque teve uma entrevista de emprego mas ainda não sabe* o resultado. Estamos todos com muito stresse.

Fomos ver uma peça de teatro ontem à noite. O título era Red Pitch (Campo Vermelho). Tem lugar num campo de jogo num bairro em Londres onde três jovens negros praticam futebol. Têm os seus próprios sonhos, mas o seu bairro está num processo de modernização que vai dar cabo do** seu modo de vida. Soa pesado, eu sei e lá estávamos nós com as nossas cargas de stresse. Será que a peça acrescentaria mais miséria? Mas não a achámos pesada de todo. Acabou por ser muito divertida e muito engraçada. Apresentou um fim duma época mas com esperança pata a vida se formos valentes o suficiente, se trabalharmos e se ficarmos abertos às oportunidade que o destino apresenta.

*Just as an experiment I put “ouviu” here. As we might say in English “she hasn’t heard the result yet”. It was a no!

** I never see to use this expression right. I out “levar cabo a…” First of all, the expression is “levar a cabo” not “levar cabo a”, but that means carry something through right to the end – like if you were managing a project and you wanted to see it through to completion. The expression I should have used here is “Dar cabo de” which means to kill something off, end it or generally destroy it.

Posted in Portuguese

A Incontornável Vírgula de Oxford

Virgula

This text is in defence of the Oxford Comma, which is actually called Vírgula de Oxford or in Brazil, Vírgula de Oxónia. I’ve put notes at the bottom containing some of the more interesting corrections.

Geralmente prefiro evitar erros de pontuação se for possível. Não sou muito picuinhas mas se vir um erro, corrijo. Mas há excepções. Se uma regra resulta numa frase ambígua ou pouco clara, antes quebrar a regra que deixar o leitor com dúvidas. É por isto, na minha opinião, que devemos exigir of uso da temível Vírgula de Oxford.

Quando se usa? Normalmente escrevemos listas assim: o primeiro item, o segundo item e o último. Não precisamos de usar uma vírgula entre o segundo e o último porque há um “e” mas considere-se a seguinte conversa:

Que* tipos de sandes** tens?

Queijo e fiambre, queijo e cebola e doce de framboesa e manteiga de amendoim.

Há uma certa ambiguidade: provavelmente há três opções: “queijo e fiambre”, “queijo e cebola” e “doce de framboesa e manteiga de amendoim” mas também pode ser “queijo e fiambre”, “queijo e cebola e doce de framboesa e manteiga de amendoim” ou “queijo e fiambre”, “queijo” e “cebola e doce de framboesa e manteiga de amendoim” ou várias outras combinações.

É provável que a maioria de nós já saibamos mas não é cem por cento óbvio, portanto o escritor tem a oportunidade de colocar uma vírgula antes do último item na lista, e antes do “e”.

Igualmente, ao escrever listas que contenham*** títulos ou qualquer coisa mais complicada do que uma única palavra, vale a pena inserir uma vírgula. Ainda que não seja certinha, qualquer coisa que ajude o leitor ou que faça com que o texto se leia melhor o texto é útil e ser claro é mais importante do que ser certinho.

* I used qual. I generally think of qual as meaning whic (which one is it?), as opposed to que, meanining what (what is it?) so I guess I was thinking which kind of sandwiches but in reflection that doesn’t really sound right does it, and maybe I was influenced by the fact that I was taking about sandw(h)iches. More about Qual vs Que here, on Ciberdúvidas.

**Side-note about sandes and sanduíches: bother are fine but sandes is more normal. It is a reduction of sanduíche, the latter being obviously an “estrangeirismo” based on an English word and therefore not very Portuguese-sounding but of course its tempting for us to use the more familiar word. Just to complicate matters further, technically sandes should be plural and sande the singular form, but “uma sandes” seems to be the default. In case you need more incentive to avoid saying sanduíche, consider this: sanduíche has the incredibly irritating characteristic of changing its gender across the Atlantic. It’s feminine in European Portuguese and masculine in Brazilian Portuguese. Whaaaaaaat? Sandes, people, don’t forget.

***Here and in the rest of the paragraph I completely failed to get I to subjunctive mode and blew all the grammar. It’s a good example of expressing an idea that has a lot of reliance on subjunctive tenses.

Posted in English, Portuguese

Expressões da Natureza

Doing homework from the new book. Here we go with idiomatic expressions that have to do with nature. I’ll skip all the obvious ones. Tirar o cavalo da chuva is in there for example. It’s an old favourite but I’ve mentioned it about a hundred times already.

  • Frio de rachar – splitting cold. Very, very cold.
  • Arranjar lenha para se queimar – to gather wood to burn oneself. Basically to create difficulties for yourself
  • Chamar-lhe um figo – To call something a fig. To eat /serve something you really like. Can also mean that you covet something.
  • Mandar à fava – to send someone to the bean. To send someone away or make it obvious you want them to get lost
  • Com a cabeça na lua – with one s head in the moon. Equivalent to “with one’s head in the clouds” in English
  • Mandar às urtigas to send someone to the nettles. To treat something as unimportant
  • Sol de pouca dura – Sun that doesn’t last long. Something good but transitory
  • Ter névoa nos olhos – To have fog in one’s eyes. To have blurred vision. This can be used both for the literal blurry vision but also figuratively when you don’t understand something
  • Aos quatro ventos – To the four winds. In all directions – just like in English, if you scatter something to the four winds.
  • Estar com um grão na asa – To have a grain in the wing. A state of mild euphoria or tipsiness

Posted in Portuguese

A Lusofonia

A lusofonia

A Lusofonia é o nome dado aos territórios mundiais onde se fala português. Mas para além disso, existe uma ideia de uma comunidade de povos unidos por uma história e um idioma partilhada*, mesmo que muitas pessoas vivem noutros países. Talvez o melhor encapsulamento desta ideia deja uma citação de Fernando Pessoa “Minha Pátria é a Língua Portuguesa”. Eu também sou cidadão dessa pátria, apesar dos erros que faço!

O autor e poeta Angolano conhecido como “Ondjaki” deu a sua opinião sobre a lusofonia no festival internacional de literatura em 2014. Para o escritor, a lusofonia é uma comunidade de pessoas lusófonas de qualquer país, sejam de onde forem**, mas às vezes, ouve pessoas a falar como se a lusofonia fosse apenas os cinco países africanos. Perguntou porque é que se fala dele e dos outros escritores africanos como membros da “lusofonia”*** mas Saramago nem por isso. Tanto quanto eu entendo, o seu ponto de vista não é uma acusação de racismo ou de colonialismo. Afirma, isso sim, que somos todos iguais perante a língua.

Identifico-me muito com esta visão, como cidadão dum outro país expansionista: os países onde se fala inglês são os países que antigamente “pertenciam” ao nosso império e embora o passado seja o passado e o presente seja o presente, a comunidade linguística deve servir como um lembrete da nossa história partilhada, e é isso que é a chave para a cooperação no futuro.

CPLP

Lado ao lado com a ideia intangível da lusofonia, existe uma entidade política que representa a zona lusófona. O título dela é Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) e foi fundada em 1996. Tem o propósito de aprofundar a amizade e a cooperação entre os países lusófonos. Para além dos objectivos económicos (desenvolvimento, crescimento, negócios internacionais), esta amizade consiste em ligações culturais e desportivas. E sem dúvida a saúde da língua em si é importante, portanto a difusão do conhecimento de português faz parte da sua missão.

A organização é regida por um secretariado executivo cujos planos são concretizados por ação a outros níveis da estrutura governativa: o Conselho dos Chefes de Estado,**** e os conselhos dos ministros dos negócios estrangeiros e relações exteriores. Por seu turno, estes conselhos devolvem responsabilidade aos encontros mensais do comité de concertação permanente.

A CPLP tem uma presidência rotativa com um mandato que dura dois anos, para não ser dominada por um único país. Mas apesar disso, há quem afirmem que a organização é dominada pelo país mãis desenvolvido (Portugal) e o maior, e mais rico (Brasil). Da mesma maneira, a Comunidade de Nações (“Commonwealth”) que é a estrutura equivalente da “Anglosphere” (basicamente, a anglofonia) é alvo de críticas de quem veja todas as uniões intergovernamentais como símbolos do passado colonialista. Para mim, tais desequilíbrios são quase inevitáveis, mas não é motivo de desespero. Deve funcionar, isso sim, como um estímulo a trabalhar juntos para eliminar desigualdades e erguer os mais fracos ao patamar dos países desenvolvidos. É esse o sonho.

*I wrote “Compartilhado” in a couple of places but that’s a Brazilian thing and “partilhado” is more usual in PT-PT

** I wrote “sejam onde forem” thinking it meant “wherever they happen to be” but it was changed to “wherever they happen to be from”. I guess the reason for this was my poor verb choice. Sejam and Forem are both from ser, so you can use it in phrases havubg to do with where you are from since that’s a question of your identity. I probably should have written “estejam onde estiverem” since estar is the verb that deals with where you happen to be right now.

*** Talures kindly reminded me that there is another expression – PALOPs – which stands for Países Africanos de Língua Oficial Português, which covers this same group of countries. That’s definitely not what Ondjaki is talking about in the clip but it might be the origin of the confusion, I guess…?

**** The Oxford Comma is as much a pet peeve in Portugal as they are in the English-speaking world but I like them.

Posted in Portuguese

This Blows

Encontro de negócios com o inventor do soprador de folhagem:

“É tipo… Uma vassoura que emite gases com efeito de estufa…”

“Então… Não queremos investir nisso”

“E faz muito barulho. Soa como uma* moto”

“PORQUE É QUE NÃO DISSESTE ISSO ANTES? CALA-TE E LEVA O NOSSO DINHEIRO TODO!”

Posted in Portuguese

Esperto, Manhoso, What?

This is a text from a couple of days ago, based on the video I mentioned at the time. Most of the mistakes I made were pretty pedestrian: typos and such. But what piqued my interest was the attempt to find the right word to describe a response that was “a sick burn” or “a clever come-back” or something like that. In other words, not clever in the sense that it was informative, wise and well-considered but it was something sharp to completely undermine the opponent’s argument and turn the tables.

Vi um vídeo no tuitere hoje enquanto estava a comer o meu pequeno almoço. Um jornalista foi acusado por um deputado de Chega de ter feito afirmações falsas. O jornalista respondeu “Não sou eu que vou ser julgado amanhã por difusão de fake news e informações falsas. É o doutor, não sou eu”.

Não estava a entender porque é que a pessoa que partilhou o clipe achou que foi uma resposta demolidora. Pensei que o jornalista queria dizer “o povo vai ver este vídeo e formar a sua opinião”. Mas estava a falar mais literalmente. O deputado realmente estava num processo por ter difamado um ex líder dum outro partido. Sabendo isso, o vídeo (e a resposta das redes sociais) fez mais sentido!

Demolidora! That’s the word I went for in the end. How do you describe a really good zinger, an answer that sends your opponent away with their tail between their legs. Inteligente? Well, it probably is intelligent, but that’s not enough. Manhoso (cunning) seems wrong. Likewise sagaz, certeira, astuto: all in the right area but they don’t seem to fit. I opted for “esperto” but that’s more like something you’d say about a clever animal. You can use it about a human, but you have to be careful to make sure the context and intonation are clear because it’s easy to sound like you’re being ironic and putting the person down. I think I’ve mentioned “Chico Esperto” before, but that’s really used to describe someone who is either a selfish, untrustworthy piss-taker or someone who thinks they’re clever but isn’t.

Anyway, after knocking it back and forth, I settled on Dani’s suggestion of Demolidora – ie a demolishing response, which puts an end to the other side’s argument. That works for me!

Posted in Portuguese

Ciberataques

Here’s a text I wrote in Writestreakpt a couple of days ago about the hack of the Portuguese Vodafone network. I’ve put some notes at the bottom based on the corrections kindly supplied by leao_louro

Segundo as notícias, a perda de serviços móveis de Vodafone Portugal ontem foi resultado de um ataque criminoso.

Este problema piora todos os anos. Criminosos e terroristas são capazes de roubar os dados de empresas e até de governos regionais para pedir resgates. Além de perder milhões de dólares, a reputação da empresa (ou da sua marca) está em jogo e caso a vítima do ataque seja uma organização que faz parte da rede de apoio a* pessoas vulneráveis, pode haver perda de vida, mesmo que a empresa pague.

Para não se tornarem alvo de ataque, as empresas do mundo têm de treinar os seus empregados para perceber os riscos que correm no dia-a-dia. Para além disso**, muitas estão no processo de transferir os seus dados para plataformas como Amazon Web Services, onde há mais segurança, embora se perca alguma conveniência porque os funcionários têm de esperar enquanto os aplicativos se conectam à “nuvem”. O Jeff Bezos gosta muito disto mas para nós é um chatice.

Uma vez que os ciberataques são possibilitados pela anonimidade das criptomoedas, o preço desta vigilância e os danos causados quando os criminais são bem sucededidos*** é um tipo de imposto que todos nós pagamos pela Bitcoin.

*Another one of those stray prepositions. I wanted to write “para” but switched to “de”, but no, I should have picked “a”.

**I used “ainda por cima” instead of “para além disso” but that was a wrong choice since its more often used when you’re emphasising something bad. “My wife left me and on top of that, she took my favourite mug” would be a good case to use ainda por cima

***I wrote “quando os criminosos sucedem” but succeed in the sense of “do well” isn’t really a thing. The definitions of suceder on Priberam all have to do with happening afterwards, taking the place of, or inheriting. So “bem sucedido” is where it’s at, baby.

Posted in Portuguese

Adolescentes e Doenças Mentais

More Than a Woman

Today’s text is a bit grim I’m afraid. Sorry. Obviously feeling a bit fragile when I wrote it yesterday, so be warned! The book I’m describing is “More Than a Woman” by Caitlin Moran, if you’re interested. It’s very mixed, the full laughter-and-tears experience.

O livro que estou a ler é muito bom. Se tivesse de escolher uma só palavra para o descrever, a palavra seria “engraçado” porque faz me rir em voz alta muitas vezes mas há partes muito sérias, principalmente sobre a doença mental da filha da autora. O pesadelo começou com um distúrbio alimentar mas piorou até a coitadinha ficar* muito doente e ter de ir para o hospital várias vezes depois das suas tentativas de se suicidar.

Acabou por recuperar, graças a Deus, e conseguiu salvar-se depois de anos de sofrimento.

O que mais me marcou foi uma referência ao filme favorito dela: High School Musical. Durante um período mais difícil nonpercurso da sua doença a mãe dela sugere que elas se aconcheguem no sofá para verem o filme, que é também o favorito da minha filha. Senti um nó na garganta porque me lembrou que isto é algo que pode calhar a qualquer um de nós e as raparigas são ainda mais vulneráveis.

*= até + infinitive caught me off guard here! I wrote até… ficou… teve