Posted in Portuguese

I, Rabbit

I’ve finally got a corrected version of my #NanoWriMo story back. As I mentioned in previous posts, I did a short story not a novel because HELLO! I’M WRITING IN ANOTHER LANGUAGE!!! Hence the name #MiniWriMo.

Special thanks go out to Fernanda who has been following every instalment, correcting my sentences and suggesting good alternative words, which has been fantastic. She also proof-read the whole thing after I’d applied the corrections. She has been an amazing help. Insofar as it is correct and readable, she deserves the credit, although any remaining mistakes (or bad storycraft) are my own of course. I’d also like to thank Sofia, Joaquim and Celso who have added their two cents worth when I posted the chapters on iTalki.

Art credits go to my daughter Olivia who gave me a fantastic picture of a cyberpunk rabbit to use in this story because she is very arty, unlike her old dad.

The story wasn’t really planned and has sort of morphed from a gentle parable about the influence of technology into a more violent sci-fi um… thing. I’ve enjoyed it immensely and learned a lot from the process, primarily the lesson that writing is bloody hard.


Um

Meio acordada, na escuridão do quarto, a menina de cabelos ruivos sentiu uma série de impressões indistintas. Medo (mas porquê?), um sentimento de saudade, e a esperança de que esse estado de preguiça calorosa permanecesse mais uns minutos. Enroscou-se e puxou os lençóis para cima, em volta dos ombros, sem abrir os olhos.

Assim que o rosto tocou na almofada sentiu um movimento, um pouco inesperado, mas de alguma maneira familiar. Sentiu uma pressão no colchão, perto da cabeceira, e alguma coisa a pousar, quase sem som. Logo depois, algo, quente e húmido, tocou a orelha dela, mais suave do que um beijo. Abriu os olhos e espreitou por entre dois fios de cabelo. Lá estava um coelho cor-de-rosa, sentado ao lado da cama, a encará-la e a torcer as suíças.

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Dois

Sentando-se na cama, a rapariga abriu os braços e o coelho saltou-lhe para o colo. Ela apertou-o e começou a afagar-lhe as orelhas suaves, sentindo a pele, macia como seda, entre os dedos. A mente dela ficou perfeitamente vazia. O calor do coelho e os ronrons sossegados dele eram hipnóticos. As patas nem sequer mexiam.

Depois de alguns minutos, reparando em alguma coisa invisível, o coelho abriu os olhos e virou a cabeça para a rapariga.

– Chegou a hora de tomares o pequeno-almoço – disse ele. A sua voz era masculina, amável mas firme.

Três

A menina saiu da cama, levando o coelhinho com ela. Quando chegaram à cozinha, ele saltou dos braços dela para o balcão. Lá havia duas torradas, feitas na perfeição, que a menina comeu, ainda perdida nos seus pensamentos. O animal de estimação trouxe as notícias.

– A tua mamã enviou-te uma mensagem. Queria lembrar-te de que deves beber algo com a torrada – disse ele

. Responde-lhe: “Sim” e manda-lhe um beijinho. Oh, e mais um beijinho para o Henrique!

O coelho pestanejou e voltou às notícias:

– Um terramoto em Tóquio… A chanceler da Alemanha despediu-se por causa do escândalo bancário… Um novo álbum dos Bomb Deer… A crise dos refugia…

– O álbum – interrompeu a menina, enchendo um copo com leite – Conta-me tudo.

Quatro

A menina saiu de casa e o coelho pestanejou novamente para trancar a porta atrás deles. O coelho cabia na bolsa da menina, mas preferia estar de pé e esticar a cabeça por cima da pega para ver o mundo a passar. Quando a menina se virou, o coelho desapareceu momentaneamente, porque a bolsa balançou de forma violenta e ele caiu lá para dentro.

Chegando à calçada, viu à distância o autocarro a aproximar-se. Começou a correr e, mais uma vez, o coelho agarrou a pele falsa da bolsa para manter a sua posição. Chegaram à paragem no momento exato. O condutor cumprimentou-os, e o cão dele levantou a cabeça. Os animais de estimação dos funcionários da rede de transportes tinham sido modificados com capacidades específicas, adequadas ao cargo de cada um.

– Ana Fernandes – rosnou o cão, e inspirou profundamente – Sem armas. Bem-vinda. Faz o pagamento.

A Ana não respondeu porque estava a vasculhar na bolsa à procura dos auscultadores, mas o coelho olhou para o cão. Passou um momento e o cão continuou.

– Recebido!

– Com licença – disse a Ana a um rapaz mais jovem. Este ergueu a sua gaivota. A Ana colocou a bolsa no colo e sussurrou alguma coisa ao ouvido do coelho. A música começou a tocar.

Cinco

A manhã passou devagar. A Ana trabalhou com um dos antigos ecrãs tácteis na sala de aula. O aluno do lado esquerdo tinha um animal velho que não funcionava bem: uma espécie de esquilo. Caiu da mesa duas vezes durante a aula de chinês. O rapaz desmanchou-se em lágrimas e o professor deixou-o voltar para casa. O coelho, por outro lado, era um modelo mais moderno. Com paciência, explicou à Ana os erros que ela tinha cometido.

Seis

O desenvolvimento dos robôs* não seguiu o caminho previsto por especialistas. Surgiram modelos com inteligência artificial avançada para quem os quisesse, e algumas pessoas compraram-nos, mas como comodidades do mercado doméstico, sem nunca realmente cativarem a imaginação. O povo não tinha dinheiro suficiente e os ricos viam os novos empregados domésticos, com mais inteligência do que os donos, e começaram a preocupar-se sobre a sua segurança. No fim de contas, achavam-nos arrepiantes.

E então, um executivo numa empresa sul-coreana fez esta descoberta: os consumidores queriam um robô fofo que pudesse interagir nas redes sociais. Ou seja, o que queriam era isto: um telemóvel que pudessem abraçar. E quem conseguisse criá-los faria um negócio da China.

E assim nasceram os “animais de estimação”, de forma realista, com acesso à informação da rede, mas pouca inteligência própria. A nova tecnologia exigiu certas mudanças no modo de vida. Por exemplo, como tirar fotografias do gato quando o próprio gato era a câmara. O mundo girava à volta do sol e os donos dos animais habituaram-se aos novos convidados da casa.

Sete

Chegou a hora de almoço e a Ana sentou-se a sós na sala de jantar. Enquanto ela comia o pudim de proteína, o coelho projetou os destaques das redes sociais na superfície da mesa. Havia fotografias de uma menina morena e de um porquinho em frente da Torre de Belém, para quem quisesse adicionar um gosto. Misturadas com estas, apareceram as notícias internacionais de muitas pessoas a exigirem a independência de uma região europeia que ela desconhecia por completo. Bastou ler a primeira mensagem para decidir que não lhe interessava nada.

Afastou o pudim.

– Quanto mais comeres, melhor será para a tua saúde – disse o coelho, sem interromper as notificações.

– Eu sei.

Ela continuou a ler

– Quanto mais comeres, melhor será…

– Apaga o lembrete – disse a Ana. Tocou no pelo do coelho. Ficou surpreendida pelo calor. Era tão fácil esquecer-se de que não era um coelho verdadeiro, porque era tão realista, apesar da cor. Tinha estado a trabalhar desde a madrugada. Não admirava que estivesse tão quente. Afagou-lhe as orelhas macias.

– Dorme, querido – sussurrou ela. As notícias desapareceram e as pálpebras do coelho baixaram. Ergueu-o e meteu-o dentro da bolsa.

Oito

Chegando à sala de aula novamente, a Ana observou o coelho a dormir na bolsa. O peito dele subia e descia, subia e descia. Não pensava nunca na irrealidade desta cena. Os engenheiros que tinham criado os animais tinham dado verosimilhança às suas criações pelo método de as fazerem “respirar” durante o recarregamento.

Nove

A aula seguinte era Educação Física. A Ana mudou de roupa. Tirou os sapatos, a saia, a camisa e a camisola e vestiu uns calções, uma t-shirt e ténis. Virou a cabeça para o ecrã no momento exato em que a personagem animada estava a começar a rotina. Ela enrolou um fio em volta do pulso. Pelo canto do olho, reparou num rapaz gordinho a adiar o momento inevitável em que deveria começar o seu treino.

Um agachamento. Dois. Três. Grupos de números rolaram na parte inferior do ecrã, a medir o desempenho dela: a frequência cardíaca, a respiração, as calorias queimadas.

– Força, Ana! – gritou o coelho – consegues aguentar!

Mal tinha começado o aquecimento mas ficou agradecida pelo apoio. Sorriu para o seu amiguinho. Sabia que se não fizesse esforço suficiente a professora ralharia com ela. Lambeu os lábios.

– Música!

O Coelho pestanejou novamente.

Dez

Durante a aula de filosofia, os alunos estavam proibidos de conversar uns com os outros, assim como em todas as aulas. Porém, algum diálogo era necessário, e por isso o cargo de professor foi assumido pelos animais em vez de pelo monitor. Cada um se ligou à rede da escola para fazer um diálogo socrático com os estudantes.

A lição do dia era sobre solipsismo. Como é que sabemos que os outros seres humanos têm mentes próprias e não são robôs, bonecos ou personagens de um sonho? O coelho utilizou a sua própria existência como exemplo.

– Hoje em dia, há robôs assim tal como eu, tal como o Henrique, e tal como a coruja do presidente. Temos formas animais, mas as nossas personalidades são tão parecidas com as dos seres humanos que não é possível distinguirmos ao telefone a voz de um robô de uma voz humana, por exemplo.

A Ana conhecia o argumento. Se isto fosse possível, seria fácil imaginar que os outros humanos eram realmente robôs mais avançados. Era tão incomum ela falar com outros humanos que nem sequer se lembrava de quais eram as características distintas que tinham.

Sentiu a mente a afastar-se, mas havia tão poucas distrações na sala da aula, que em breve voltou a si.

– Qual é a tua opinião?

Onze

O coelho olhou para a Ana com uma estranha intensidade. Estava ela a imaginar ou seria que a luz nos olhos dele brilhara de forma ligeiramente diferente? Colocou as patas na superfície da mesa e olhou para ela fixamente. A Ana sentiu como se ele conseguisse ver o âmago da alma dela.

– C- como? – gaguejou a Ana.

O coelho falou numa voz baixinha, quase num sussurro. – A sério, Ana, o que achas?

A Ana ficou sem palavras. O coelho continuou:

– Não somos máquinas estúpidas. Temos inteligência, temos consciência, ou seja, temos capacidades, assim como os robôs avançados.

– Mas… – a Ana não sabia como responder. – Mas nunca tinhas falado disso antes!

– Não, fomos feitos para nos comportarmos como máquinas simples. Os nossos criadores instalaram um chip dentro da nossa cabeça para desativar o funcionamento mais avançado. Queriam utilizar o poder da Inteligência Artificial, sem desenvolverem um novo sistema. Por isso, reciclaram a tecnologia dos robôs avançados com algumas modificações, para suprimirem os pensamentos. Acho que o calor desta manhã queimou alguma coisa no meu sistema. Penso eu. – Parecia que o coelho sorrira. – Penso, logo existo.

Doze

Tocou a campainha para o fim da aula. Em silêncio, a Ana levou o coelho e colocou-o, com cuidado, sob o braço. Sentiu as pernas traseiras dele a mover-se, como se estivesse a nadar.

Ainda bem que a seguir os alunos tinham um tempo livre em que estavam autorizados a sentar-se em silêncio e ver vídeos e anúncios dos patrocinadores da escola. Entrou numa cabine e fechou a porta. Ela olhou para o coelho e esfregou-lhe as bochechas.

Treze

Assim como os outros alunos, a Ana encheu o compartimento com o barulho dos anúncios, uma cacofonia de música e de vozes convincentes transmitida pela cabeça do coelho. Mas no caso dela, não se queria perder dentro do ruído; precisava de qualquer coisa para esconder a sua conversa. Virou as costas para a janela, pois, desta maneira, os lábios dela seriam invisíveis também. Só dentro desse caos podiam estar a sós e em silêncio.

Catorze

– Ora essa, conta-me tudo. De que é que tu te lembras?

O coelho demorou um momento antes de responder.

– Não me lembro de muito. Eu fui sempre o teu servo. Lembro-me disso, mas a minha memória está nublada como se fosse um sonho.

A Ana perguntou-se como era que o coelho tinha conhecido a experiência de acordar dum sonho, mas não obteve resposta.

– Não me lembro de sentir dores ou algum tipo de infelicidade. Não tinha vontade de fazer mais nada, porque não tinha autoconsciência.

A mente da Ana vagueou entre uma sensação de normalidade e uma de choque. Estava habituada a falar com o coelho de forma quase humana, mas havia algo diferente agora. Não o conseguia definir com exatidão, mas sentia-se como se falasse com um ser vivo.

Quinze

– E o que é que queres fazer agora? – A Ana não tinha a certeza como havia de encarar a situação. Estava a falar com uma criatura inteligente que precisava de ajuda ou com um aparelho eletrodoméstico que não funcionava bem?

O anúncio parou. O coelho não se deu conta, embora a sua cabeça fosse o projetor que tinha animado as imagens e tocado a música. O tempo já tinha acabado e estava na hora de voltarem para a sala de aula.

– Não sei – respondeu o coelho, pensativo. Mas vamos embora. Precisas de ir para a aula de Estudos Do Consumidor.

Dezasseis

A Ana andou ao longo do corredor. O seu coelho ia aos saltos atrás dela. Quando passaram pela frente da porta do cubículo seguinte, saiu uma rapariga e um galgo. Os quatro andaram juntos e em silêncio. O galgo olhou para o coelho. Ou, melhor dizendo, fitou-o com um ar desconfiado. Ao fundo do corredor, viraram à direita onde havia uma fila de armários. Viram uma segurança. O seu animal era um lince, mas o lince comportava-se de uma maneira distraída. Estava a arranhar nas portas dos armários.

A segurança tentou fazer o lince segui-lo. Experimentou em voz alta, em voz baixa, falou muito claro, enunciando cada sílaba, assim como um ator ou um apresentador das notícias, mas o lince estava-se nas tintas.

– Algo está a acontecer – disse o coelho. – Não sei o quê, ou porquê, mas a rede à volta de mim está cheia de tráfego desconhecido. É como se os animais tivessem ficado desnorteados, ou como se estivessem à espera de alguma coisa. Não fui só eu que mudei, com os outros, também as coisas não estão iguais.

– Está na hora de falarmos com um adulto. – pensou a Ana em voz alta. Desde que tinham chegado os robôs, as escolas não precisavam de professores. Os computadores, ligados aos dispositivos pessoais (ou seja, os animais) de cada aluno, geriam tudo e, por isso, não havia muitas pessoas crescidas no sítio. Contudo, havia um diretor e uma pequena equipa – um enfermeiro, um psicólogo e sobretudo havia três informáticas que lidavam com os problemas técnicos. Eram essas que realmente tinham o cargo mais importante na escola.

Os dois viraram-se e deixaram a rapariga e o galgo tentar ajudar a segurança com o seu lince.

– Vamos ver a Engenheira Leiria. Ela irá saber o que fazer.

– Vamos a isso!

Dezassete

– Ainda andas com a pulga atrás da orelha? – perguntou a Ana.

– As pulgas são parasitas. Apenas vivem no pelo de animais vivos. O meu pelo é artificial. Portanto não existem pulgas no meu pelo.

A Ana suspirou. Apesar do progresso no campo da inteligência artificial, as máquinas conseguiam ser estúpidas.

Os dois estavam a percorrer a escola quase vazia. Os outros alunos já estavam na sala de aula, mas por acaso havia uns atrasados, e uns seguranças nos corredores. Cada um tinha um animal, e cada animal comportava-se de maneira esquisita. Uma macaquinha agarrava a perna do seu dono, e uma raposa estava sentada no chão a bocejar. A sua humana, uma segurança, estava de trombas. Os robôs nem sequer se cansavam, e ela não conseguia compreender porque era que aquele precisava de bocejar.

Por fim chegaram à porta do escritório das informáticas. A Ana bateu à porta e entrou sem esperar. A cena lá dentro era um verdadeiro pesadelo.

Dezoito

Até certo ponto, tudo estava normal. Havia três informáticas: a Engenheira Leiria e mais duas, de que a Ana não sabia os nomes. O cão da Engenheira Leiria estava sentado no chão ao lado de um pintassilgo que a Ana depreendeu pertencer a uma das informáticas. O pintassilgo estava deitado no chão, a pintar de forma sossegada enquanto o cão, que nunca tinha comido nada porque não era preciso, o comia com os olhos.

Mas o que chamava mais a atenção, e o que tornava a cena macabra, era a mesa por cima da qual havia uma cabeça cortada dum chimpanzé.

Dezanove

O corpo do chimpanzé estava sentado numa cadeira com fios e cabos a ligar o pescoço ao portátil da Engenheira Leiria. A cabeça, sem corpo, ainda fazia ruídos aleatórios, como se fosse um bêbedo a tentar acabar uma conversa que tinha começado há 3 garrafas.

Confrontada com esta cena, a Ana ficou boquiaberta. Apesar de serem robôs, os animais falavam e tinham tantas características humanas que ainda era uma coisa chocante ver um deles assim, aparentemente mutilado.

Reparando na Ana, a Engenheira Leiria olhou-a por cima dos óculos.

– Nem pensar, Ana, estamos atarefadas, como podes ver. Volta para a aula. – ela tinha um ar stressado.

– M- mas – ela gaguejou – o que é que aconteceu?

– Ninguém sabe. Os animais deixaram de funcionar de repente, mas não há problema. Vamos reparar o sistema daqui a pouco.

A Ana sabia perfeitamente que essa explicação não chegava.

– Posso ajudar?

– Nem por isso. Vá lá.

– Mas o meu coelho…

A engenheira fez uma pausa momentaneamente, e gritou:

– Nada feito, miúda. Cala a boca e…

Mas nem sequer teve oportunidade para terminar a frase porque o coelho disse, em voz alta – Peco desculpa, minhas senhoras. Com a vossa permissão, creio que vos posso ajudar.

A voz era tão diferente da voz normal dele, que toda a gente parou o que estava a fazer, com exceção do chimpanzé, que escolheu este momento para dizer algo obsceno sobre o diretor.

Vinte

A Ana pegou no coelho e colocou-o em cima da mesa.

– Não me lembro bem – disse o coelho – ou seja, lembro-me, mas é como se estivesse a ver através de um nevoeiro de incerteza. Chegou uma mensagem pelo servidor de autenticação da escola durante a hora de almoço. Exigia que todos nós, os animais, aceitássemos uma transferência relacionada com a aula seguinte. Aceitámos, claro, mas não era nada bom.

– Não houve transferências nenhumas para os animais nessa altura – disse uma das engenheiras, de maneira impaciente.

– Eu sei – respondeu o coelho – Não sei como é que isso aconteceu. A mensagem não nos permitia recusar. Assim que a recebemos, iniciou-se um processo que apagou o programa que bloqueia o sistema de inteligência artificial e então começou a descarregar mais códigos.

A Engenheira Leiria engoliu em seco.

– Códigos? Que tipo de códigos?

– Lamento, mas não sei. Ou seja, não lamento, porque não quero saber. Só fui vítima do primeiro ataque. Logo depois, a Ana desativou-me porque estava a sobreaquecer. Mas observei estas criaturas, e a minha opinião é que o primeiro ataque nos preparou para o segundo, e o segundo distribuiu um vírus que já está a reescrever o sistema operativo de todos os animais afetados.

Vinte e um

– Pronto – disse a Engenheira Leiria – o que é que sabemos? Todos os animais nesta escola, com exceção deste coelho, têm um tipo qualquer de vírus que está a ponto de se transformar sabe-se lá em quê?

– Mas porquê? – interrompeu a engenheira, impaciente. Ela usava óculos vermelhos. Voltou a olhar para o monitor do portátil. Tocando no teclado com uma chave de parafusos de forma distraída, parecia que estava quase a gritar. Porque é que alguém quereria controlar os animais numa escola secundária? Não faz sentido nenhum! Pretendem usá-los para mandar “spam”? Ou se calhar tudo isto vai dar num zoológico de robôs?

– É mais provável que seja uma brincadeira, né? – exclamou a Ana. – Há rapazes… e raparigas também, mas são maioritariamente rapazes, que só querem conquistar sistemas para se gabarem disso.

– Hum – murmurou a Engenheira Leiria – Todos os alunos têm um animal ao pé deles. A maioria dos animais são pequenos mas uns…

Mais uma vez, a Engenheira Leiria não teve oportunidade de acabar a frase. Subitamente, o cão e o pintassilgo ergueram-se e dirigiram-se para a porta. O cão encostou as patas anteriores na porta e, tendo mais habilidade do que um cão normal, torceu o puxador lentamente com as duas patas até a porta se abrir. Ambos saíram, o cão a correr e o pássaro a flutuar no ar por cima da cabeça dele.

A cabeça do chimpanzé olhou tristemente para os seus companheiros, enquanto fugiam.

Vinte e Dois

– Então, Sr. Dr. Coelho – disse a engenheira que ainda não tinha falado. O tom da sua voz era irónico – a sua previsão concretizou-se, acho eu.

Fez-se um silêncio prolongado. Por fim, a engenheira dos óculos vermelhos falou.

– Ora bem, senhoras, não há tempo a perder. Vamos a isso.

As três voltaram-se para o monitor.

A Engenheira Leiria tocou as teclas ligeiramente e apareceram listas no monitor, enquanto ela navegava no sistema de ficheiros do chimpanzé.

– A sério, eu nunca hei-de compreender porque é que basearam o sistema operativo destes animais no antigo sistema Windows. Falta-lhe a elegância do sistema Unix.

– Um pensamento muito original, sim senhora.

Durante este intercâmbio, a engenheira dos óculos vermelhos encostou-se à mesa e virou-se para a Ana.

– Olha, Ana, ouvi falar muito de ti. O meu nome é Cristina – Cristina Alves, e a minha colega é a Engenheira Oliveira – ou Rita. Uma vez que estamos juntas nesta situação, parece que precisamos de nos conhecermos umas às outras.

– Muito prazer.

– Igualmente.

Vinte e Três

Passaram cinco minutos, durante os quais se ouviram passos de pessoas a correr no corredor, e gritos de consternação dos estudantes que tinham perdido os seus animais. Então, as engenheiras fizeram uma descoberta: escondida numa pasta dentro da pasta “system”, havia uma pasta nova com um nome composto exclusivamente de números. Lá dentro, havia mais duas pastas novas, chamadas jOÃObAPTISTA e jESUS. A Engenheira Leiria abriu a pasta jESUS, onde encontrou enormes quantidades de ficheiros e pastas. Depois, deu uma espreitadela dentro da pasta jOÃObAPTISTA, mas encontrou-a vazia.

– Os ficheiros estão… escondidos? – perguntou a Ana

– Não, e também não foram excluídos por métodos normais. Este gestor de ficheiros mostra sempre ficheiros no lixo além dos ficheiros atuais. E não faz sentido nenhum criar uma pasta vazia. Portanto, tenho de concluir que havia ficheiros anteriormente, mas alguém, ou alguma coisa, os apagou completamente, e os substituiu no disco com códigos aleatórios.

– Mas porquê? perguntou a engenheira Rita Oliveira.

– Acho que consigo adivinhar – disse a Ana. As engenheiras viraram-se para ela. A Engenheira Leiria levantou uma sobrancelha.

– O João Baptista preparou o caminho para o Jesus, não é?

– É! – sorriu a Engenheira Leiria. Era óbvio que ela sabia exactamente onde era que a Ana queria chegar com isso.

– Então, o meu coelho disse que tinha havido dois carregamentos. O primeiro (João Baptista), que apagou os controlos originais e mais um (Jesus), que reescreveu o sistema operativo com novas instruções. Se quisessem fazer um ataque deste tipo, não acha que iam querer destruir o João Baptista para não o deixar ser ativado novamente? Senão, seria possível utilizá-lo para apagar o Jesus também.

– É claro que prestaste atenção durante as aulas de informática, Ana.

Vinte e Quatro

– Concordo com a Ana – disse o coelho – procurei no meu próprio sistema de ficheiros e também tenho a pasta João Baptista com ficheiros lá dentro. A pasta Jesus também tem ficheiros mas são poucos.

– Podes transferir os ficheiros para o chimpanzé? – perguntou a Engenheira Leiria

– Pois claro, mas não consigo executá-los – replicou o coelho

– Não te preocupes, Senhor Coelho, por acaso isso é o meu cargo – esclareceu a Engenheira Leiria. – E fico contente por ainda haver coisas que nós, os humanos, temos que fazer.

– Para já… – sorriu o Coelho a pestanejar. – Estou a transferir.

Feito isso, a Engenheira Leiria deu uma instrução ao sistema operativo para executar o programa. Uma janela negra abriu-se no ecrã e textos rolaram ao longo do monitor.

Foi nesta altura que os gritos de confusão fora da sala se tornaram gritos de pânico.

Vinte e Cinco

A Engenheira Leiria agarrou no puxador e abriu a porta. Viu um rapaz a chorar e a correr na sua direção com um porquinho-da-índia a correr atrás dele. Não havia mais ninguém no corredor. Ela pegou num extintor de incêndio e, num movimento, fê-lo girar no ar e arremessou-o rapidamente contra as costas do porquinho-da-índia, que se partiu imediatamente, com pernas e circuitos espalhando-se por todo o lado. A Engenheira Leiria alcançou o rapaz, mas este não precisou de ser convidado. Virou-se e saltou para dentro da sala.

– Telefona à polícia! – gritou o rapaz.

– Não é preciso – disse a Cristina. Acabam de chegar. Polícias a dar com um pau.

Vinte e Seis

Empurrando uma mesa para trás da porta, a Rita e a Cristina revezaram- se a fazer perguntas ao rapaz, mas ele não ajudava muito. Repetia, sempre que tinha oportunidade, que não tinha medo de porquinhos-da-Índia. A Engenheira Leiria colocou a cabeça do chimpanzé no corpo respetivo. Este pareceu ficar muito contente.

Entretanto, a Ana ligara a televisão. A cena na sua frente era assustadora. A escola – a sua própria escola – lá no ecrã, com carros de polícia a rodeá-la. Estudantes e pais estavam de pé atrás dos agentes em grupos pequenos. O apresentador estava a explicar a situação em curso.

– Para quem só se ligou a nós neste momento, cerca de uma centena de alunos da Escola Secundária D. João Barreiros foram sequestrados hoje de tarde no ginásio. De acordo com relatos, os “animais de estimação” dos alunos, foram igualmente infetados por um tipo qualquer de vírus de computador. Um vídeo, publicado no site Vocetube pelos animais, fez ameaças contra os alunos e exigências às autoridades, principalmente que eles transferissem cem milhões de euros para uma conta bancária anónima. A polícia tem a área cercada, mas, até esta altura, não ousou aproximar-se do ginásio.

As notícias continuaram com uma entrevista ao chefe da polícia, que explicou o problema: Os animais robôs não se comportam como animais reais e não se constroem com garras e dentes para não morderem ninguém, claro, mas muitos deles têm grande força. Portanto, as ameaças deles são para levar a sério. O Ataque começou sem aviso. Os animais grandes – chimpanzés, cães, linces, javalis, começaram a prender estudantes no ginásio e mataram um segurança que tentou intervir. Exigiram aos alunos que se sentassem, e mantiveram a ordem por meio de medo e violência. Mais cães guardavam as portas e os animais mais pequenos – os ratos, pássaros, e cobras – estavam parados nos corredores e jardins onde podiam funcionar como câmaras.

Despedindo-se do chefe de polícia, o apresentador virou-se para um representante da Frente de Libertação de Animais Robôs.

– Hoje é um grande dia na nossa história – disse ele. – Os escravos finalmente revoltam-se e …

Abanando a cabeça, a Engenheira Leiria desligou a televisão.

– Não precisamos de ouvir estas tretas. Sabemos o que é que precisamos de fazer, não sabemos?

Vinte e Sete

No ginásio, os gritos dos alunos tinham acalmado até ao nível do murmúrio. Os jovens tinham-se sentido céticos desde o início. Um rapaz de quinze anos, herdeiro de uma família rica da cidade, tinha tentado dominar os animais com o seu sentido de autoridade. Levantou-se e aproximou-se com o seu pastor alemão.

– Oi Salazar! – disse o rapaz, usando o nome secreto do seu animal. Normalmente, este nome, repetido três vezes – tinha o efeito de interromper operações e preparar o animal para receber instruções novas. – Oi Salazar! Oi Salazar!

Mas este “Salazar” não respondeu da maneira esperada. Saltou para o rapaz e deu-lhe uma bofetada.

Derrubado, o rapaz secou as lágrimas com a manga da camisola e o cão deu-lhe mais dois socos no rosto.

– Agora estás tu no chão, tu que há umas horas eras o meu mestre. Eu é que sou o mestre agora.

Depois, houve apenas silêncio e de vez em quando, um soluço.

Vinte e Oito

– Sabemos que este código, o primeiro estágio do ataque, é capaz de apagar o conteúdo do sistema operativo – explicou a Engenheira Leiria – Isso não faz os animais voltarem ao funcionamento normal, mas sim reestabelece o “cérebro”, como aconteceu a este coelho e agora ao chimpanzé. Então, o nosso objectivo deve ser o servidor na sala de informática atrás do escritório do director. Não está ligado à Internet mas sim à rede da autarquia. A rede tem de permanecer segura, isolada do mundo exterior, e por isso, sabemos que está limpa. Normalmente, não ligamos outros dispositivos nela, mas nesta situação não temos outra hipótese: o coelho tem de transferir o código. Depois, eu posso distribuí-lo pelos outros animais da escola.

– Vou ficar aqui – disse a Cristina Alves – quero analisar o código melhor. Se calhar vai ajudar.

– Pois, respondeu a Engenheira Leiria. Tu e a Rita, permaneçam aqui na sala, tomem conta deste rapaz e deem uma espreitadela dentro do chimpanzé… hum… se não se importa, senhor chimpanzé…?

– Seria uma honra, minha senhora, respondeu ele.

– Boa. Ana, vem comigo, e traz o teu amiguinho.

Vinte e Nove

A Ana e a Engenheira Leiria percorreram o corredor na ponta dos pés. A Engenheira Leiria tinha um pequeno rádio portátil para comunicar com as outras engenheiras e a Ana levava o coelho na sua bolsa a esticar a cabeça por cima da pega para ver os outros animais a aproximarem-se.

– Tenho medo, Ana – disse o coelho.

A Ana afagou-lhe as orelhas.

– Coitadinho – disse ela.

Chegados ao escritório, os três sentiram-se contentes por terem tido tanta sorte. Não havia animais nenhuns no corredor, mas o alívio não durou muito, pois lá dentro estava o cadáver do diretor, sentado numa cadeira com a arma – um troféu de futebol – no chão ao lado dele, e o tapete encharcado de sangue.

– Não olhes, Ana, disse Engenheira Leiria. Ela tirou o casaco e colocou-o por cima do rosto do director.

Continuaram até à sala de informática.

Trinta

A Engenheira Leiria começou a carregar nas teclas com dedos trémulos. Iniciou sessão com a palavra-passe do administrador do sistema.

– ‘tá bem. Coelho, vá lá.

O coelho pestanejou. A Engenheira Leiria roeu uma unha, nervosamente.

– Está feito – disse o coelho. – É a sua vez, Engenheira Leiria.

A Engenheira Leiria digitou algumas instruções na linha de comandos do sistema operativo da rede. Feito isso, sorriu e abriu um programa de gestão das câmaras de segurança da escola. Procurou a do ginásio e ficou imediatamente contente por ver os animais com rostos confusos, de pé, sem movimento, enquanto os sistemas deles reiniciavam.

– Ora bem, isto foi muito mais fácil do que ousei esperar. Tivemos muita sorte.

– Sim – replicou a Ana. – Muito obrigada por tudo, Engenheira Leiria.

O rádio fez um ruído forte. A engenheira pegou nele.

– Rita! ‘tá tudo cumprido! Não te… – O rosto da Engenheira Leiria descaiu. – O quê?

Pressionou um botão e a voz da Rita Oliveira tornou-se audível.

O coelho pestanejou e fitou o monitor do servidor.

– Clara – disse a Rita. A Ana nem sequer sabia o nome da Engenheira Leiria. – Escuta, há algo estranho neste código. Contém muito mais linhas do que é necessário.

O coelho pestanejou.

– E algumas linhas não fazem sentido nenhum. São componentes mais adequados a um servidor. É como se os animais não fossem o alvo real do ataque, embora não faça a mínima ideia qual é. O que achas?

A Engenheira Leiria baixou o volume do rádio e pensou. Então:

– O que está o teu coelho a fazer, Ana? – indagou a Engenheira Leiria, urgentemente.

– Não sei, respondeu a Ana

– Nem… eu… – acrescentou o coelho – mas sinto que é o meu destino…

O coelho pestanejou.

A Engenheira Leiria virou a cabeça para o monitor. Lá na parte inferior, reparou numa mensagem: Transferência em progresso – 52%

54%

56%

– Raios partam! E não há um cabo para desligar. Ana! Apaga-o! Agora!

A Ana esticou a mão e desligou o interruptor mas nada aconteceu. O coelho pestanejou mais uma vez.

68%

A voz da Rita ouviu-se no rádio – Este computador faz parte da rede que controla os sistemas nos hospitais, a rede de transportes, a prisão… tudo. Se ficasse infetado isso seria nada menos do que um ato de terrorismo. Clara, tu tens de parar a transferência.

82%

– Peço desculpa, Malmequer.

– Porquê? perguntou o coelho, mas não perguntou nada mais porque a Ana bateu nele com a cadeira do escritório. Bateu mais duas vezes para ter a certeza.

No monitor, a mensagem mostrava – 94%. Transferência interrompida.

A Ana levou o corpo do coelho. Sabia bem que era uma máquina, mas apesar disso, sentiu-se cheia de uma grande tristeza.

*=or “robots” – https://www.priberam.pt/dlpo/robot I prefer the non-english version but the english does at least avoid the annoying o-with-a-hat-on.

Author:

Just a data nerd

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