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Cadernos da Água – João Reis

Este livro é meu terceiro do João Reis. Geralmente, acho o seu estilo um pouco difícil: a frequência com que estico o braço para agarrar o dicionário é cem vezes maior do que quando estou a ler um thriller como Segredo Mortal, por exemplo. Mas esta vez, consegui ler o livro inteiro sem sentir que estava a perder alguma coisa por falta de domínio da língua. Pois bem, qualquer evidência de progresso é muito bem-vinda!

Cadernos da Água - João Reis
Cadernos da Água

O género do livro é completamente diferente do último. Trata-se duma história distópica que se passa num futuro próximo mas não é ficção científica ou futurista como Admirável Mundo Novo, por exemplo. É um romance quase profético que conta a história de um possível futuro que pode acontecer daqui a poucos anos. As alterações climáticas dão em escassez de água e de comida (porque o crescimento das plantas também depende da disponibilidade de água). Segue-se uma sucessão de eventos catastróficos incluindo uma nova pandemia e uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Se não me engano, o livro foi escrito antes da guerra atual mas ainda assim… O enredo às vezes é indistinguível das notícias!

No meio deste transtorno, uma guerra surge entre os países do sul da Europa e do norte de África. A Península Ibérica torna-se um campo de guerra; a República portuguesa dissolve-se e portugueses e espanhóis (entre outros) fogem para a Escandinávia e Alemanha. O meu país não é mencionado. Quem sabe? Talvez as ilhas tenham afundado sob as ondas do Atlântico durante “o primeiro evento” ou talvez o primeiro-ministro seja a Priti Patel. Mas seja como for, durante este exílio, os sul-europeus vivem em “centros de acolhimento” e é aí que a protagonista do livro começa a escrever no seu caderno.

O futuro, segundo este romance, é sombrio, até desolador, mas será esse o futuro se não fizermos mudanças na nossa vida. Não há motivo para ser otimista.

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RAPLGBTQIA+

O humorista Ricardo Araújo Pereira tornou-se alvo de críticas anteontem por ter escrito sobre uma série de outdoors lançada pela Fox Life através da sua marca ABCLGBTQIA+. Ele sublinhou o excesso de pudor dos desenhadores que definiu palavras como “homossexual” em termos de atração “romântica” e “afetiva” sem mencionar o sexo. Afirmou que esta definição não indisporia o seu “Tio Alfredo” (cuja existência tenho alguma dúvida mas na escrita do humorista é representativa de homens homofóbicos em geral) mas omite algo indispensável do significado desta palavra.

Ainda por cima, a Fox Life suporta uma definição de “bissexual” que consiste em “atração […] por dois _ou mais_ géneros.” que implica que a bissexualidade não tem nada a ver com sexo nem com “bi”.

Pois, não sou gay nem trans portanto provavelmente não me diz respeito mas é evidente que há um problema aqui: as definições destas palavras tão importantes nas lutas de direitos civis da geração passada estão diametralmente opostas à ortodoxia desta geração de ativistas que afirma que o género é mais importante do que o sexo e há um leque de géneros, não apenas dois.

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Bombeiros

Desde o texto de ontem, ando a ver vídeos no meu feed, com incêndios a devorar árvores e casas. São assustadores. Os bombeiros estão a fazer um trabalho indispensável nesta altura, a resgatar animais e pessoas, e a combater as chamas. Que esta situação acabe depressa e que o povo seja poupado mais uma tragédia dessas que se passaram nos últimos anos.

Incidentally, not gay, but the shirtless-and-using-a-lamb-as-a-scarf look that has been all over the Portuguese papers lately is making me reconsider my life choices. That shit is hawt.

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Os Incêndios

Estou a ver vídeos nas redes sociais que mostram incêndios em Portugal. Até certo ponto, um aumento da taxa de incêndios é inevitável numa época de mudança climática mas há quem acredite que o governo é capaz de fazer mais para melhorar a situação. Não tenho opinião porque não moro lá mas parece que há muitas pessoas aflitas que culpam os responsáveis políticos por não terem introduzido leis para proteger o povo e a sua propriedade.

Claro que todos os cidadãos dum país têm alguma medida* de responsabilidade também: lixo descartado no chão é combustível. Uma beata pode causar um fogo, para não falar de churrascos e fogueiras.

Espero que este ano todos nós fiquemos seguros. E depois, espero que o mundo acorde para os perigos** que corremos com um aquecimento global descontrolado.

*I wrote “uma medida”, translating “a measure of responsibility” but it needs to be alguma – “some measure”

**I used “risco” on place of “perigo” here, but although “correr o risco” (run the risk) does exist in Portuguese, it doesn’t seem to be the natural choice here.

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Uma Resposta A Uma Carta à Revista Maria

Today’s text is a reply to a social media post on which a woman asked what the hell is going on with men. She asked this because a guy she went on a date with told her he wasn’t going to walk her home and then, when she had mentioned this online she got a lot of grief from dudes who said that he was lucky to escape from such a selfish person. Weirdly she seemed unsure whether she did the right thing in refusing to see him again. I mean… Why would you?

Provavelmente o gajo não tinha interesse em continuar o relacionamento (a noite não correu bem?), mas ainda assim, devia oferecer-se para levar-te a casa por cortesia. A não ser que tivesse um compromisso (por exemplo, se já tivesse ficado de ir ao hospital visitar a mãe doente ou ao seu próprio casamento, logo depois do encontro), não há desculpa para não se oferecer, sobretudo se estivesse escuro e se te sentisses insegura. Acho que és tu que és sortuda. Não queres ficar com um javardo desses

Quanto aos comentadores, haverá sempre porcos entre nós. Não os deixes arruinar a tua opinião sobre o sexo em geral. Sou duma geração anterior à tua mas ainda assim… Tenho toda a certeza de que existem homens que são homens nesta geração também (mesmo que certos comentários nesta conversa pareçam desmentir o meu otimismo!)

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A Corrida

Capítulo 1 (Domingo)

Vou participar numa corrida daqui a duas horas. Não me sinto em condições para correr. Acho que vai ser difícil… Vou na mesma, mas fica a dica: antes duma corrida, bolo de chocolate não vale a pena*. Existem rações mais nutritivas.

Capítulo 2 (Segunda feira

Meias de corrida

É provável que vocês estejam à espera duma atualização sobre a minha corrida de ontem e que não dormiram por se perguntarem “Mas conseguiu ganhar a medalha? E será que ele marcou um novo recorde da distância do seu grupo etário?”

Infelizmente, fiz uma série de escolhas pouco sábias. Fui de bicicleta até ao campo de corrida. Uma hora de ciclismo sob o sol abrasador não é aconselhável. Ainda por cima, antes de sair da casa, não bebi nada a não ser café. Tomei uns goles de água logo antes do início mas foi muito pouco e muito tarde. Rapidamente, fiquei desidratado e sobreaquecido e logo depois abrandei a minha velocidade e a corrida tornou-se uma caminhada. Nem sequer posso culpar o bolo de chocolate.

* It was rightly pointed out that this is crazy talk, chocolate cake is always worth it.

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Quando As Aves Atacam

No bloggers were harmed during the making of this post. Thanks to u/poyoduhmerduh for the corrections and to u/dani_morgenstern for the second pass, strafing the surviving cockups.

Galinha-d'água
Dial M For Moorhen

Eu e a próxima geração da minha família fomos ontem ao jardim botânico para ler e apanhar sol. Sentámo-nos num banco. Eu comecei a ler o “Cadernos da Água” de João Reis e ela abriu o calhamaço de Stephen King, “Under The Dome” (a opinião dela: “tem havido tipo 50 personagens femininas. O autor descreve as mamas delas e depois, elas morrem”)

Havia várias aves ao nosso redor: patos, gansos, galinhas-d’água e cisnes. Uma galinha-d’água aproximou-se de nós e eu disse “Olha, temos os restos duma sandes na mochila. Se calhar esta avezinha gostaria de umas migalhas…?” Enfiei uma mão lá dentro e tirei o pão. Mas logo que a ave viu, lançou-se na minha direção e o bico dela atingiu o pedaço de pão.

Gritei. Mas… Gritei de modo mesmo macho, entendem? E deixei cair o pão, a embalagem, o livro e muitas outras coisas.

Quando vier a guerra entre pássaros e seres humanos, é evidente que não sou o herói do qual a nossa raça precisa.

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[IN]Pertinente – Podcast

In pertinente podcast
[IN]Pertinente

I can’t remember if I’ve mentioned this podcast before: I heard about it a while ago on twitter and Portuguese tweeps were praising it as being an good listen. It’s put out by the Fundação Francisco Manuel Dos Santos. They bring together experts, eggheads, brainboxes and boffins to discuss a different topic each week, ranging over politics, economics, science and society. I have quite a few “serious” podcasts in Portuguese and tend not to be very good at listening to them because they require sustained concentration over an hour or so which is usually more than I can cope with, so I usually stick to shorter stuff. As a result, it’s been on my list for a while but I hadn’t given it much eartime.

Anyway, recently I listened to an episode about Britain and I found it both easy to understand and very detailed and interesting, so I based that day’s Portuguese text on it. And just to confirm my good opinion, the marker said it was one of her favourite podcasts too!

Now obviously when I say “easy to understand” I don’t mean the language is simplified: you’ll still need to be at a decent intermediate level of learning to follow it, but they speak clearly, don’t talk over each other, don’t ramble or drone on in a monotone or do any of the other things podcast hosts sometimes do that make it hard to follow the thread of what they’re saying. I appreciate that and I hope the episode I heard was representative of the series as a whole.

Anyway, here’s what I wrote. Thanks to Dani for correcting it.

Hoje, ouvi um podcast chamado In Pertinente. Os apresentadores estavam a falar sobre a história do meu país. Tocaram nos temas* “Astérix e os Bretões”, Shakespeare, Alan Turing, Blackadder, a guerra entre a Escócia e a Inglaterra e mais alguns outros. Fiquei muito impressionado com a profundidade da discussão. Não costumo de ouvir mas acho que, de futuro, isso vai mudar!

*I originally wrote tocaram no “Astérix e os Bretões” but it seems you need to write “touched on the theme(s)…” and not just “touched on..”

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A Greve dos Comboios

Os sindicatos que representam condutores, engenheiros e outros trabalhadores na indústria de trânsito público chamou uma série de greves. O que está em causa são os escalãos salariais*, e a segurança laboral no setor. Nesta época de inflação, acho que esta não vai ser a última greve neste verão, mas vamos ver.

Ontem**, a minha esposa foi ver um espetáculo num sala de concertos do outro lado da cidade com uma amiga dela***. Viram os Dia Verde, o Rapaz da Precipitação Radioativa e hum… Chiador****. Ela estava preocupada porque não tinha a certeza de como voltar para casa mas afinal não ouve problema nenhum porque ainda havia comboios em andamento apesar da greve e ela chegou a casa antes da meia-noite.

Também tinha a hipótese de ir ver o Milton Nascimento há uns dias mas não foi porque não achava que seria capaz de voltar depois do concerto mas ao que parece, não haveria problema naquele dia também!

*Pay scales. I put “taxa de salários” for rates of pay, but that’s too literal a translation from English

**I originally had “ontem” buried in the sentence as we would in English: “she went to a concert yesterday with…” but its more natural to out the time component at the start: “yesterday she went to a concert with”

***I wrote “com a sua amiga” – “with her friend” but that’s too literal: in Portuguese it conveys the idea that she only has one friend.

****OK, OK, já sei que não se traduzem nomes de bandas. Green Day, Fallout Boy & Weezer

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Gelado de Groselha-Preta

Gelado de Groselhas-Pretas

Thabks to Heike Dio for suggesting a recipe. Sorry it wasn’t vegetarian haggis. This is very nice though. And thanks Mi_lx for the corrections

Aqui está a receita de como fazer este gelado. É fácil. Nem sequer é necessário uma máquina de gelado!

São necessários quinhentos gramas de groselha-preta*. Lavar e colocar a groselha preta numa panela com quatro colheres de sopa de água e o sumo de um limão. Quando as bagas estiverem a ferver, baixar a temperatura e deixar cozer durante dez minutos. Entretanto, juntar 600 millilitros de natas e uma lata de leite condensado numa recipiente misturar até ficar uma creme espessa.

Por os frutos cozidos para uma peneira e esmagar com o lado convexo dum colher para extrair o sumo através da rede. Descartar os peles e sementes (e folhas e formigas e qualquer outra coisa que possa ter sido apanhada por acidente durante a colheita).

Mistura a fruta e o creme. Colocar tudo num recipiente no congelador. Espera durante seis horas. Come. É bom não é?

*It hurts my heart to write this as singular. I feel like I am using one giant blackcurrant. But this is how you do it, apparently!