Gostei d’O Mangusto, mas o livro mais recente da mesma autora é uma desilusão. Não havia nada que me agarrou. As personagens não me interessaram, não havia um enredo, nem diálogo divertido e é tão mal desenhado que muitas vezes eu nem sequer sabia quem estava a falar.
Se este livro tivesse algo que pode ser chamado “um enredo” seria sobre um grupo de mulheres que combinam ir ao ginásio diariamente, mas na verdade, isso acontece pousas vezes, e a protagonista (se for possível dizer “este livro tem uma protagonista”) é chata. Não faz jus a nada, está a namorar com um homem casado, não tem sentido de humor nem qualidades notáveis. Não me lembro do nome dela, e quero lá saber.
Tendo lido um excerto deste conjunto de poemas de Alberto Caeiro (um dos Heterónimos de Fernando Pessoa), decidi ler o resto, para acompanhar uma das minhas sessões de fazer um puzzle e ouvir audiolivros. Existe uma versão no youtube que é ótima, mas não pago pelo serviço sem anúncios e… ora bem, basta dizer que a poesia soa melhor sem anúncios…
Os poemas descrevem a sua vida solitária, a escrever poesia para estar sozinho, e a cuidar os seus pensamentos como se fosse um pastor a guardar um rebanho no campo. A filosofia deste poeta está em sintonia com a ruralidade no seu redor: “penso com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e os pés” e sente-se maior quando vê um céu aberto do que quando está numa cidade, rodeado por prédios. Um poema que me marcou é o número XX que compara o Tejo com o rio que corre pela sua aldeia. Ainda que o Tejo seja belo, é mais famoso, ou seja, mais público, e quando as pessoas o veem, pensam na sua história e no seu percurso da Espanha para o Atlântico e daí em direção à America. Mas o seu rio é o seu rio e mais nada, e “quem está ao pé dele está só ao pé dele”.
Acabei por ouvir três vezes, e acho que a gravação do poema seria um excelente acompanhamento para um passeio ou uma hora de jardinagem
Acabo de ler o panfleto deste nome da autoria de Gabriele Giuga, sobre a obra de Amália Rodrigues, com ênfase na canção Barco Negro. É claro que o autor* tem melhores conhecimentos da teoria de música do que eu (o que não é grande elogio porque não sei nada). Ele escreve minuciosamente sobre a sequência de colcheias aumentadas e semicolcheias e ostinatos rítmicos e não sei mais o quê. Não entendo muito mas em suma, afirma que um fado bem escrito tem as suas sílabas dispostas de tal modo que não impedem o ritmo da música. Ou melhor, se for bem escrito, a letra terá um ritmo natural e quando é lido em voz alta, sugere a forma da música, ainda que as guitarras fiquem caladas.
Não sabia que este Fado tem raízes no Brasil. O original é chamado Mãe Preta escrito por Caco Velho. Tem um ritmo muito semelhante mas mais animado. A letra foi proibida em Portugal pela censura do Estado Novo, mas com uma letra de David Mourão-Ferreira (o criador da maioria dos fados mais famosos de Amália), o samba tornou-se uma canção de amor e o ritmo abrandou-se para ser mais adequado às casas de fado.
*apparently Gabriele Giuga is a dude. The e on the end of his first name really threw me. Thanks to Cristina for spotting this and other errors.
Ao contrário da opinião anterior, não tenho muita coisa para dizer sobre este livrinho. Consiste em 40 teses mas realmente são 20 pares de epigramas mordazes, que comparam o papel do poeta com o do crítico da sociedade (ou pelo menos acho que é isso que ele quer dizer com “o social”).
Por exemplo:
Se o social chegou à fase adulta, o poeta ficou na infância.
Se o social não passou da infância, o poeta tornou-se adulto.
Parece que têm métodos e modos de viver que são diametralmente opostos mas sabendo algo sobre a carreira do autor, duvido que ele quer insinuar que um é melhor do que o outro ou que um deles não vale nada.
Nas últimas páginas há um “exercício” que é claramente uma piada e que dá para entender que o livrinho é uma espécie de brincadeira, o que não está nada mal. Confesso que me faltava de alguma coisa fácil depôs do último conto d’A Inaudita Guerra da Blábláblá.
Este livro reúne seis contos que têm elementos de humor e do realismo mágico. São divertidos e cheios de surpresas. Já falei da história sobre o chimpanzé que digitou o “Menina e Moça”. São todos iguais. Loucuras e mais loucuras.
O último conto custou-me ler porque tem lugar no passado e com resultado é sobrelotado com palavras desconhecidas. Por exemplo, olha esta jóia:
Desconheço…
Torrão = pedaço de terra aglomerada.
Megera = mulher antipática
Atear = Lançar fogo, fomentar
Engrolar = Dizer ou fazer mal à pressa
Esconjuro = Exorcismo
E não tinha toda a certeza sobre
Soleira = limiar da porta*
Bento = abençoado
Nem sequer me lembro de há quanto tempo li uma frase com 5 palavras desconhecidas e 2 pouco-conhecidas. Sinto-me como um noviço.
Também quase gritei quando vi esta gramática.
Já agora, eu sabia, teoricamente, que a contração de “nos” e “(l)o” existia, mas nunca me tinha deparado antes com tal coisa. Ainda por cima, o substantivo ao qual se refere o “lo” é o “castigo”** mas há nada mais nada menos do que três substantivos femininos intervenientes. Que fonte de confusão! Perdi sono por causa desta frase, malta.
*it’s hard to even define this one without resorting to other hard words. It’s a doorstep though, mmmkay?
**In case anyone is reading this who is not a fan of pronoun ju-jitsu and can’t follow my explanation, the bottom line is that no-lo means “it to us” so it goes”…know how to accept the punishment […] to accept submissively the imposition of whoever gives IT TO US”. Oof.
Este conto faz parte de uma série, editada na primavera deste ano, de livros com nomes de cidades*. Que eu saiba, não são histórias originais: não tenho certeza, mas eu sei que Rita Ferro escreveu um livro chamado “Brevíssimo Dicionário dos Snobes: Lisboa, Cascais e Mais“. Suponho que este livro é um extrato daquela obra maior, em edição capa dura, com fotos bonitas uma tradução inglesa alternando com a versão original. Ou seja, é uma isca para turistas. Vende-se nos museus, lojas de recordações e outros lugares onde os otários estrangeiros podem ser encontrados. A capa é azul com uma foto da Casa das Histórias Paula Rego no centro, o papel é suave, cheira bem e, no final das contas, este livro, como um objecto do consumerismo é altamente satisfatório.
(Aliás, o livro também se refere à história do “suicídio” de Alistair Crowley, com ajuda de Fernando Pessoa perto da Boca do Inferno, ao oeste de Cascais. Já conhecia a história porque aparece na BD Crónicas de Lisboa. Podes ler a história aqui e há um bónus: contem a expressão “voltar à carga“)
Mr Crowley, what went on in your head?
*I tried “nomeados por cidades” – likely too literal translation of “named after/for cities” but it doesn’t work.
Cuidado Com o Cão é o segundo livro de Rodrigo Guedes de Carvalho que já li e gostei mais do que o primeiro (mas li o primeiro há três anos e tal, e custou-me ouvir um audiolivro inteiro naquela altura!)
O romance conta as histórias de várias pessoas cujos destinos parecem estar interligados, e de quatro cães, que igualmente podem ser o mesmo cão(!)
Comecei o livro há meses mas deixei de ouvir porque não tinha tempo. Voltei ao início em Outubro e retomei a história durante a minha estadia em Portugal. Fez-me companhia durante as horas a caminho entre vários lugares interessantes. O narrador é excelente e gostei dos pensamentos das personagens mas também adorei as divagações sobre as suas obsessões musicais. Explica-se bem os laços que nos ligam aos cantores que nos chamam a atenção.
Recomendo este livro para quem quiser experimentar um audiolivro português que seja mais adulto do que, por exemplo, O Principezinho, mas que não quer sofrer com um narrador que não fala nitidamente. Está tão bem lido que um ouvinte de nível B2 ou mais consegue entender.
Acabo de ler o livro que comprei no Festival Iminente, sobre a arte de Tamara Alves. Há pouco texto no livro e é bilíngue, mas ignorei o texto inglês porque não sou cobarde!
O livro consiste em quadros exibidos nas galerias como Galeria Underdogs em Lisboa, e em murais ao ar livre. Os quadros são excelentes: não há dúvida de que a artista é talentosa e sabe desenhar figuras realistas, mas também cria desenhos mais abstratos ou fantasmagóticos… Hum queria dizer “fantasmagóricos” mas acho que a minha gralha produziu, por engano, um adjetivo que até serve para descrever vários! São mais ou menos realistas, e incluem corpos e caras humanos e, às vezes, lobos. Fizeram-me lembrar filmes e séries da cultura popular, principalmente um filme do Studio Ghibli, chamado A Princesa Mononoke.
Mas para mim, os murais é que dominam a obra. O estilo da artista fica bem nas paredes da cidade. Em alguns exemplos, parecem fazer parte da paisagem. E os fotógrafos que tiraram as fotos exploraram o formato do livro para acentuar a beleza do ambiente em volta de cada um. Acima de tudo, gostei de um mural no qual o rosto de uma mulher é dividido em duas metades: uma velha pintada a preto e branco e uma mais nova e colorida. O fotógrafo dispôs a imagem numa página dupla com a divisão mesmo no centro, na divisão entre as duas folhas.
Num outro exemplo, um mural aparece entre duas árvores à noite. O fotógrafo iluminou a cena, mas a luz iluminava as folhas da árvore. Acho que usou um tempo de exposição longo porque as folhas, que flutuam ao vento estão tremidas estão bem iluminadas, que dá à fotografia um ar onírico.
No livro que estou a ler, há um conto sobre um chimpanzé chamado Golo. Este primata* gosta de brincar com uma máquina de escrever automática. Um dia, Golo martela nas teclas durante algum tempo com os seus dedos grossos e além de números, letras e símbolos aleatórios, produz a seguinte frase: “Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para muito longe”.
Para mim,”Menina e Moça” não é mais nada do que um fado de Carlos do Carmo, mas é evidente que o protagonista conhece a frase e que não tem nada a ver com o cotovelo no castelo. Ao longo dos dias, mais parágrafos aparecem da mesma novela. Fiz uma pesquisa e descobri que “Menina é Moça**” é um romance pastoral escrito por Bernardo Ribeiro em meados do século XVI. É considerado o primeiro livro do seu género na península ibérica e foi editado quando um tal Miguel de Cervantes ainda estava a usar uma fralda***.
*As personagens humanas dizem “macaco”, pois não existe uma tradução equivalente da nossa “ape” mas acho que primata é melhor.
**The text wiki uses is different from what Golo comes up with. I don’t know if there’s any significance to that or if there are just different manuscript versions with slight differences in wording.
***OK, OK, he was about 7 I think, but these geniuses are often late developers, I hear.
A primeira vez que disse “O meu autor português favorito é…” conclui a frase com “Afonso Cruz”. Gostei imenso do seu “Os Livros que Devoraram o Meu Pai” e “Para Onde Vão os Guarda-Chuvas” foi o meu primeiro calhamaço português. Mas hoje em dia acho os seus livros um pouco irritantes. Este é quase uma paródia do “À Espera de Godot” e dei comigo a bater com os dedos na mesa de impaciência.