A minha mulher trouxe uma cópia bonita deste livro quando chegou aqui no Reino Unido, há anos. A sua beleza não é porque a capa é colorida ou chique, mas sim por causa da simplicidade da capa. É branca com o nome do livro em letras vermelhas e o nome do autor em letras pretas. A contracapa é completamente limpa, sem números, sem palavras, sem código de barras.

Tentei lê-lo um ano atrás e o resultado foi uma humilhação. Estou exagerando, mas podes crer que não entendi patavina. No entanto, hoje em dia, o meu português está muito melhor. Consegui ler muito com a ajuda de um dicionário. Assim como o “A Costa Dos Murmúrios”, havia umas palavras desconhecidas que não se encontravam no dicionário porque o seu vocabulário é muito “rural”, e muito antiquado. Até uns amigos portugueses disseram-me que tiveram problemas com as obras do Torga. É isso que faz o livro ficar mais interessante!
Li o livro dentro duma semana. Às vezes, lia rápido em voz alta, para praticar a leitura, a pronuncia e a compreensão. Entretanto, acenei ao comboio de vocabulário enquanto ele passava à minha frente. Noutras vezes, lia mais devagar e fiz grandes esforços para entender tudo.
Não entendi tudo. Claro que não, mas segui o enredo (mais ou menos) da maioria dos contos e havia momentos de claridade em que conseguia ver a beleza do seu estilo. Mas havia poucos momentos como esses. O que mais chamou atenção foi o seu método de terminar uma historia. Não quero dar “spoilers” mas o ultimo parágrafo do conto “Morgado” foi arrebatador!
E, ainda por cima, o último conto do livro deixou-me sem palavras. A historia decorre na Arca de Noé. Na Bíblia, Noé enviou um corvo para buscar alguma terra não inundada, mas o corvo não voltou. Desesperado, Noé mandou uma pomba em vez do corvo e enfim a pomba voltou para a arca com umas folhas. Mas o enredo do conto de Torga é bastante diferente. O Corvo é um rebelde contra Deus e contra o sicofanta Noé. O pássaro preto não aceita o seu destino, preso num barco por causa dos pecados dos seres humanos. Arrisca a sua própria vida para voar longe da arca. Noé não ousa contar a verdade a Deus por causa de sua covardia. Compreendendo a autonomia do corvo, Deus tenta destruí-lo com ondas e com raios e… ah, desculpa, eu disse que não queria dar spoilers…
Bichos de Miguel Torga is probably available from Amazon but in this house we respect proper bookshops whose owners pay their workers and their taxes so I recommend either : Bertrand (in Portugal) or Foyles (in the UK)

Hoje, fui até ao Barbican Centre para ver um concerto de música lusófona de Portugal e do Brasil. A fadista Carminho está quase ao fim dum série de concertos nos quais ela canta as obras de Tom Jobim. Lamento que não tenho um grande conhecimento de musica brasileira, mas conheço o nome de Jobim, e dois membros da banda tinham o mesmo nome porque são os netos dele (ou.. Um neto e um filho…? Não sei…) além duma baterista e do violoncelista Jaques Morelenbaum.
Também cantou dois fados dedicados ao Jobim e um outro escrito por uma poeta brasileiro, Vinicius de Moraes.
A mulher era uma brasileira, a viajar sozinha. Tinha chegado o momento de voltar para casa mas tinha algumas dúvidas sobre a rede de transportes porque tinha de chegar ao aeroporto antes das oito. Normalmente sou mais do que inútil em situações deste tipo mas, por acaso, consegui ajudá-la. Então falámos durante uns minutos em português. Estávamos sentados num comboio o que era uma problema porque ela usou a palavra “trem”, e havia outras diferenças tal como “hora de rush” em vez de “hora de ponta”, mas conseguimos comunicar sem problemas e ela contou-me o que acha engraçado no sotaque inglês. A única coisa que me fez ficar ligeiramente envergonhado foi o momento em que saí da carruagem. “boa sorte e boas viagens” disse eu. Ela respondeu com alguma coisa que não percebi de todo.
Comecei a ler “A Costa Dos Murmúrios” de Lídia Jorge no inicio de Outubro, mas custou-me muito entender o enredo. O livro desenrola-se em Moçambique, no principio dos anos setenta, durante a guerra colonial e tem que ver com o horror inerente a um sistema daquele género, baseado em violência e arrogância que envenena as vidas das pessoas assim como o álcool metílico envenenou as pessoas que beberam o vinho logo do início do livro.