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Triângualho

Chegou uma nova planta ao nosso lote de terra na horta comunitária. Tem flores delicadas e brancas. O tronco tem três lados planos, na forma de um triângulo. É muito parecido às várias flores como, por exemplo, whitebells (não sei o nome em português mas é uma espécie de jacinto), snowdrops (galanthus) ou lírio-do-vale. Fiquei curioso e perguntei a um outro subreddit: será que alguém conhece esta flor? A sua resposta surpreendeu-me. A planta é uma espécie invasiva que veio da Europa. A flor, cujo nome é “Allium Triquetrum” (“alho de três cantos”, ou, na Austrália, cebola daninha), é membro da mesma família do alho e do alho francês. É muito saborosa mas, logo que se estabelece num sítio, as sementes e as raízes espalham-se por todo o lado e, em breve, deslocam as plantas nativas. Por isso, é ilegal plantar em lugares selvagens neste país. Mas de onde veio esta planta na margem da lote? Dei uma volta pela horta. Do lado de fora da cerca existem centenas de flores brancas. No canto da rua, perto da escola, há mais umas dezenas. E, ligeiramente mais distante, à beira do Rio Tamisa há uma fila destas flores a acenar às ondas.

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A Vida Louca Do Meu Avô

I’ve written about my grandpa’s memoirs before but I’ve been digging some more and decided to do a longer post about some of his career highlights. Thanks to Dani for the help.

Passei algum tempo no arquivo nacional hoje. Durante a estadia, reli algumas páginas das memórias do meu avô. Meu Deus. Lembro-me dele como um idoso que não dizia muito de interessante ou fora do comum.

Nasceu na Irlanda (que, àquela altura era unida e fazia parte do Reino Unido). Assistiu ao lançamento do navio “Titanic” em 1911 com 8 anos de idade. Depois, a maior parte da Irlanda tornou-se independente mas ele vivia num dos condados que permaneceram no RU. O meu avô costumou ir ter com os habitantes da aldeia durante a noite enquanto eles treinavam como membros dum grupo paramilitar. Erguia uma lanterna para que eles tivessem luz o suficiente. Tinha nove anos. Nove. Estavam constantemente à espera duma emboscada dos católicos. Um dia um navio trouxe um carragemento de armas oriundas da Alemanha para abastecer os paramilitares protestantes. Porquê? Acho que tem algo a ver com a Grande Guerra que teria lugar dois anos depois: os protestantes não queriam lutar com França (católica) contra os alemães (protestante) portanto seria vantajoso para a Alemanha se os protestantes ganhassem mais poder no país.

Muitos anos após a divisão* da Irlanda, o meu avô trabalhava num hospital na Birmânia quando os japoneses invadiram. Era responsável por muitos doentes de cólera e permaneceu até ao último minuto, muito depois da maioria dos ingleses se terem ido embora. Antes de sair, explodiu os carros abandonados para não dar aos invasores oportunidade de usá-los. Ganhou uma medalha por destruir carros. Hoje em dia há quem destrua carros sem incentivo mas, sei lá, ele tinha um talento.

Participou na guerra como médico militar.

O irmão dele, que também vivia na Birmânia, bazou na mesma altura, mas voltou ao país no ano seguinte com as forças especiais para cometer atos de sabotagem. Foi atingido por uma bala, foi preso e morreu numa prisão japonesa em 1943.

Após a guerra, o meu avô também regressou à Birmânia. Trabalhava no hospital de Rangoon em 1948 e ajudou a mãe do cantor Nick Drake quando ela deu à luz.

E estes são apenas os fatos que já sei da sua vida intensa!

*I wrote “partição” (partition) but that was changed. That sense of the word does exist but seems not to be the narural one to use in this context.

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A Revolução dos Cravos

Hoje, lembramo-nos dos membros das forças armadas que derrubaram o governo salazarista, devolvendo a Portugal a sua liberdade. Logo depois, as guerras em África terminaram*. Foi um processo penoso mas durante os anos que se seguiram, aquele ato de coragem por parte dos militares melhorou as vidas de milhões de pessoas e foi realizado quase sem derramamento de sangue – apesar de elementos da DGS terem aberto fogo sobre a população a porta da sede da PIDE. Quem me dera que mais revoluções fossem assim tão pacíficas e eficazes.

A propósito, durante os meses iniciais de aprender português, ouvi esta frase num podcast mas percebi “A Revolução de Escravos” que faz sentido até certo ponto. Já sei que “de escravos” não seria gramaticalmente correto mas para mim, um jovem de quarenta-e-tal anos, sem experiência neste mundo confuso de gramática portuguesa, nem sabia melhor.

*i wrote “foram levadas ao fim”, trying for “brought to an end” but I think it has more a sense of “carried to their end”, which is pretty much the opposite of what I was aiming for!

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Musings

Corrected texts – thanks Dani

1

Desperdicei o dia a jogar um videojogo. Mas porque é que digo “desperdicei”? Será que é porque não fiz nada de importante? Mas precisamos de dias desses. É preciso divertir-se. Talvez sejam os dias cheios de coisas importantes que são desperdiçados.

2

Há uma semana um colega que não conhecia pessoalmente (só através do MS Teams) enviou-me uma mensagem. “Estiveste no Richmond Park anteontem? Acho que te vi”.

Mas em inglês, ‘tás a ver?

Eu respondi, também em inglês que estive, sim, e falámos sobre as nossas corridas. Ele corre mais rapidamente do que eu.

No fim de semana passado, vi-o a correr na direção oposta à minha*. Dois fins de semanas seguidos** … Acho que está a espiar-me em nome dos recursos humanos.

* I really struggled with this. There’s a word, “contramão” Which I tried to use but it’s no good here. It’s more about going the other way in traffic – a contraflow.

**masculine because the “fins” are masculine even though semana isn’t. And they’re “seguidos” not “a fio”. When I first write it I gave the impression that I’d net him every day for two weeks not just in two successive weekends.

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Um Cadáver Entre os Alhos

Fui à horta esta tarde para regar as sementes e as plantinhas, mas fiquei chocado por ver um rato morto na terra entre os alhos. Nojento!

Levei-o numa pá, escavando a terra abaixo. Carreguei-o para a cerca e atirei-o fora. Espero que me esqueça disso antes da colheita porque não quero lembrar-me desta cena enquanto estou a comer o alho.

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May e Might

Nothing makes you realise quite how little you know about your own language like explaining it to someone else. This one wasn’t too bad since I’d at least thought about it before. This is me explaining the difference between the words “may” and “might”. Thanks to Dani for correcting me.

Hoje, expliquei a uma portuguesa como usar estas duas palavras inglesas. Ela pediu-me; não sou um desses homens didáticos que desabafam sobre a gramática por qualquer motivo. Antigamente, achava que compreendia a minha língua toda, mas cada vez que explico os aspetos básicos da língua, percebo que há montes de coisas que não obedecem regra nenhuma. Mas felizmente já tinha explicado may e might a mais alguém, portanto não era assim tão difícil: já tinha um esboço da explicação em mente.

Propriamente, “might” é um indicador de possibilidade e “may” tem a ver com permissão. Porém, no nosso dia-a-dia, usamos os dois de modo errado tantas vezes que esta regra não se aplica. Tenho exemplos mas não vale a pena escrever inglês neste subreddit.

Gostei de ter a oportunidade de falar em português.

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Uma Falha de Comunicação

A minha filha fez o nosso jantar. Ela pediu-me para descascar as batatas, o que eu fiz mas por qualquer razão ela achava que eu também as tinha cozido.

Como resultado*, quando chegou a hora de esmagar as batatas para fazer o puré, apercebemo-nos de que devíamos fazer outros planos.

Acabámos por comer macarrão com molho de azeitonas porque era mais rápido.

*I would have sworn blind that “As a result” was “por resultado” but no, no it isn’t.

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Film Reviews

Reviews of films we’ve been watching lately. Well, not really reviews so much as witterings. Gratitude as always to Dani for the corrections.

The Evil Dead 2

Ando a prosseguir a minha estratégia de educar a minha filha sobre os filmes do passado para que ela entenda as referências nos filmes mais modernos. Agora que está obcecada com A Liga dos Cavalheiros, filmes mencionados pelos membros do elenco tornaram-se instrumentos de pedagogia. Hoje vamos ver o Evil Dead 2. Contém uma cena na qual a mão do protagonista fica possuída por forças maléficas e ele tem de lutar contra o seu próprio braço. Esta ideia foi roubada pelos escritores da Liga.

Evil dead - grooy

(and later)

Gostámos muito do filme que vimos ontem. É muito engraçado e muito chocante. Sangue a jorrar de buracos na parede, mãos más a rastejar no chão como um mouse ratinho, demónios, motosserras… De que mais precisam?

Hoje é último dia das férias da Páscoa, portanto a minha tarefa do dia é motivar a adolescente a estudar o máximo possível. É deprimente, e geralmente não faria nada disto mas a época dos exames está à porta e estes exames são os mais importantes da sua vida até agora: os exames que determinam se ela vai para a universidade da sua escolha.

An American Werewolf in London

Da série “Idosos educam adolescentes sobre os filmes dos anos oitenta”, o nosso filme do dia foi “Um Lobisomem American em Londres”.

Tinha expectativas baixas. Gostei do filme quando o vi pela primeira vez, mas geralmente os filmes.do passado acabam por ser uma desilusão. Mas adorámos este filme. Até os efeitos especiais pareceram modernos. Melhores do que os modernos. Rimo-nos muito, e ela deu-lhe cinco estrelas no Letterbox.

Capitães de Abril

Estávamos a falar sobre o Dia da Liberdade ontem e eu sugeri que procurássemos uma versão do filme Capitães de Abril com legendas para ver depois do jantar. Encontramos uma versão de alta qualidade no YouTube e começámos.

Infelizmente já era tarde, portanto não conseguimos ver o filme até ao fim. A minha filha estava a resmungar “estou cansada”, pousando a cabeça sobre a mesa de olhos fechados. Como resultado, fez o que faz quando não lhe apetece ver um filme: queixa-se dos protagonistas: “os soldados só querem fazer guerras e as mulheres é que sofrem” e assim por diante. Decidimos deixar o filme para um outro dia no qual ela não estaria de trombas. Espero que esteja mais recetiva à história noutro dia.

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Shorties

Short texts, corrected. Thanks for the help, Dani.

Raymond Briggs

Time for Lights Out

Acabo de ler um livro de Raymond Briggs, que é mais conhecido por ter ilustrado e escrito (hum…. Escrito? Não há diálogo, tanto quanto me lembro, mas pelo menos há de ter escrito o enredo, não é?) “The Snowman” (O Boneco de Neve), o livro que inspirou o desenho animado que se tornou um clássico de Natal. O autor escreveu muitos livros incríveis, incluindo o Fungus the Bogeyman (Hum… Fungo o… Bicho Papão???) mas este livro é uma compilação de poemas, desenhos e citações sobre a velhice e a mortalidade. Termina como a chegada do próprio a um lar de idosos*. A sombra da morte está sempre presente no texto mas não se torna deprimente nem mórbido por causa disso**. É só uma consciência da finitude da vida.

* I really messed this sentence up. First, o wrote “a sua própria chegada”, literally translating “his own arrival” but I should have written “the arrival of himself”. I also wrote “num” in place of “a um”. He arrived at the home, not in it. And finally I write “velhos” in place of the more polite “idosos”.

**I wrote “por resultado” instead of “por causa disso”. Unlike English you can’t just say “as a result” and leave it dangling.

Reece Shearsmith

The Unfriend

Ontem à noite a minha filha foi assistir a uma peça de teatro com a sua amiga. Uma das estrelas é Reece Shearsmith, um ator e comediante cuja carreira começou antes de ela nascer. Ela está obcecada com a obra dele, portanto esperou perto da porta do teatro para pedir um autógrafo e uma selfie. Estava muito contente quando chegou a casa.

Aguarelas

Tenho três aguarelas pintadas pelo meu avô que faleceu há trinta anos. Têm estado na casa dos meus pais desde a morte dele. O meu avô era médico de profissão e um pintor amador, portanto não são obras-primas; longe disso, mas estou com vontade de emoldurar o melhor e pendurá-lo numa parede cá em casa.

The vocabulary in this area is not that different from English:

Aguarela =watercolour, or a watercolour painting.

Pintura =The act of painting or just an actual painting.

Quadro =a framed painting

Desenho =a drawing

Moldura =a frame for a painting

Caça Aos Ovos

Todos os anos, organizo uma caça aos ovos de Pascoa em casa. Consiste numa sequência de pistas. Cada uma aponta para a pista seguinte e tem um ovo, o pequeno. No fim, ela chega ao último ovo que é maior.

Estou ligeiramente triste porque a minha filha tem 17 anos e daqui a um ano não irá querer uma caça de ovos. Ainda por cima é possível que ela não esteja em casa connosco porque estará a estudar numa universidade na Escócia.

Eu e o Coelho da Páscoa passaremos o dia em casa a chorar e a comer chocolate para abafar as dores nos nossos corações.

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A Gorda – Opinião

Here’s a corrected review of a book I’ve been listening too lately called A Gorda (The Fat Woman) by Isabela Figueiredo. It has had rave reviews (this guy, for example, names it as his first, second and third best book of 2022) and… Well, it’s not the easiest book I’ve ever read, and I probably didn’t get all the nuance but I hung in there and managed to follow. The vocabulary is passable for upper-intermediate readers. You can buy the book at Bertrand or grab the audio version to listen to on your phone using the Kobo App.

A Gorda de Isabela Figueiredo

A Gorda é um romance escrito por Isabela Figueiredo, que retrata uma portuguesa da minha geração, que “transporta (…) ou seja arrasta” 40 quilogramas de peso com ela. Ao longo da sua vida, sofre muitos problemas e muitos reveses. Nasceu no ultramar e volta para Portugal nos anos setenta com os outros retornados (se não me engano esta foi a experiência da autora também). Perde os pais e é traída por amigos, colegas e amantes e sente-se constrangida pelos efeitos deste peso excessivo, mas tem vontade de viver a sua vida, portanto recusa soçobrar.

Durante o percurso da história, a autora faz referência aos eventos da época na qual a protagonista se encontra: o Incêndio do Chiado, a crise financeira de 2008-9 e vários outros. Isto situa-nos na história do país e reforça a realidade da protagonista. Lembra-nos que pessoas assim existem mesmo, e a história não é uma fantasia abstrata sem ligação ao mundo verdadeiro.