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Mais Pensamentos Sobre o “Ruínas” de Hugo Lourenço

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Vamos fazer uma pausa para apreciar o nome da editora – Esfera do Caos (que não deve ser confundido com “Esfera dos Cãos*” que publica apenas romances sobre futebolistas caninas)
*=eu sei, eu sei…

[contém spoilers]

Desde que escrevi o meu comentário sobre este livro, tive umas conversas com outros leitores e até com o autor, através do Goodreads, e nos comentários do Youtube, e aprendi mais coisas que queria partilhar convosco:

Embora já tenha mencionado o clima económico, não percebi que o livro tenha a ver com jovens de uma idade especifica, que chegou à maturidade na época de austeridade – conhecidos como a “geração a rasca“.

Assim como vários outros livros (o “Ulysses” de James Joyce é o mais óbvio), o romance tem um modelo, ou um padrão na mitologia grega, especificamente os deuses Apolo e Dioniso. Confesso que mal conheço a história deles, e é por isso que não percebi a ligação, apesar da nota de rodapé ao fundo da página 113.

O video no canal “Aprendiz de Leitor” lembrou-me que o nome do livro – Ruínas – refere-se à memoria – “As memórias são como ruínas, sim”.  No desenlace, o autor remete para o primeiro capítulo, e a ligação entre a memória e os sentidos (o cheiro a gasolina, que, neste livro, funciona como o sabor das madeleines de Proust*). Ainda por cima (na minha opinião), pode ser igualmente uma metáfora das vidas das personagens: Um é morto, um desapareceu, e o narrador sente a falta deles. As vidas deles e os sonhos para o futuro, e o potencial que cada um possuiu – todos ficaram em ruínas. Mas o livro não é pessimista, e deixa o leitor com esperança de algo a surgir das ruínas.

*=Like most people, this is literally the only thing I know about Proust: he ate some little cakes and wrote a really long book about it.

This post and the previous one, with a couple of footnotes are now on Goodreads.


Thanks again to Fernanda for the patient help with corrections for this text

 

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Opinião – Ruínas (Hugo Lourenço)

30086640_1629230217173729_341835609570017280_n(1)Ouvi falar deste livro através dum canal de Booktube. Conta a história de dois homens – o Daniel e o Ricardo e um terceiro, o narrador. Ou seja, trata-se da vida do narrador e a sua relação com estes dois indivíduos. Os dois têm fundos e vidas muito diferentes, e acho que o narrador está à procura das causas da diferença. Pergunta-se, se fizesse algumas coisas diferentes, se as vidas dos amigos teriam sido melhores. A acção desenrola-se no Portugal de hoje, e os três sentem os efeitos do clima económica e social.

Percorrendo a história há uma série de conversas entre as personagens nas quais, falam de diversos assuntos – suicídio, o mercado editorial, Marilyn Monroe. Achei-os fascinantes, como se Haruki Murakami decidisse escrever um diálogo socrático. (Não me peçam para justificar a comparação com Murakami porque não sou capaz). Às vezes, além de ser o meu preferido parte do livro tornou-se uma fraqueza também porque durante os últimos capítulos o narrador imaginou uma conversa com um amigo desaparecido, e explicou os seus sentimentos e arrependimentos sobre a situação. Depois, proferiu um discurso que descreve várias cenas de literatura e cinema e utilizou-as para acrescentar mais pormenores.

Sinto que recebi demasiada informação: explicou demais e não mostrou o suficiente. Cá para mim, como leitor, prefiro tirar uma mensagem ou um significado do enredo, mas fiquei com a impressão que as ideias cresceram até ao ponto em que se tornaram mais importantes do que a história.

Mas sobretudo, aproveitei o tempo na companhia destes personagens e das suas conversas, e estou contente por ter lido um livro que não é aborrecido e não é difícil demais para um estrangeiro!

 


Thanks Fernanda for corrections in the main body of the review

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Opinião – “A Hora Da Estrela” de Clarice Lispector

notebook_image_886683Não costumo ler livros brasileiros por causa das diferenças da gramática e vocabulário, mas tenho ouvido apenas boas coisas sobre essa escritora, e estamos no mês do dia internacional da mulher (os meus amigos do booktube chamam-no “Marco Feminino”) e por isso, pensei, “porque não ler alguma coisa diferente?”
O livro é fininho mas muito denso. A historia é contada por um narrador, ou um falso autor, que se chama “Rodrigo S M” e que se apresenta como um personagem no conto. O vocabulário não é difícil, mas há muita subtileza e filosofia, até ao ponto em que, as vezes, a historia parece menos importante do que os pensamentos do narrador sobre a problema de escrever livros. Enfim, o livro é um bom exemplo dum livro no qual “entendo as frases mas não compreendo os capítulos”, mesmo que não tenha nenhum capítulo!

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Opinião – Como é Linda a Puta da Vida

28432696_336827316811327_6148354819342991360_nO que mais me impressionou deste livro foi a maneira como o escritor comunica ideias bastante interessantes e complexas nitidamente, sem precisar de frases inchadas com palavras compridas. Eu, como estrangeiro, quase nunca tive de abrir o dicionário, mas apesar disso nunca houve nenhum capítulo aborrecido ou simples de mais.

(Tentei muitas vezes publicar este texto no iTalki com o título do livro na caixa do título na página mas sempre falhei. Pergunto-me se a quinta palavra é proibido! Nunca tive problemas com filtros mas nunca se sabe. Não é uma palavra que costume de utilizar!)

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Opinião – A Avó e a Neve Russa (João Reis)

These are some notes I wrote yesterday for a video review which I’ll probably make in the next day or two. Part of it has been corrected on italki by Fernanda and Karla – Obrigado as duas – but there was too much to fit in the box so I cut some out and hence there might be some errors remaining #UNCORRECTEDPORTUGUESEKLAXON! There’s also a shortened version on Goodreads.
Ouvi dizer deste livro através dos canais duns booktubers portugueses. Muitos deles mencionaram que o compraram e vários já o leram e gostaram. O autor é muito activo nas redes sociais e da a impressão de ser simpático (mas eu diria isso de alguém que curtiu os meus instagrams). Achei que o livro tinha bom aspecto. Portanto, comprei-o no site da Fnac. A história é contada por um menino de dez anos. Às vezes, as opiniões dele parecem reacções normais duma criança, mas, noutras situações, parecem mais maduras, mais adultas do que os pensamentos dum rapaz daquela idade – e também, na maneira com qual fala com a avó e o irmão, como se fosse ele que tinha que cuidar deles. Descreve-se como “homenzinho” por causa do seu papel na família. De forma geral, a voz do narrador fez-me lembrar outros livros contados por crianças num mundo adulto, tal como o “Espiões” de Michael Frayn ou “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto” de Jonathan Safran Foer. Também, de vez em quando, alguma coisa no registo da leitura fez-me pensar em “O Estranho Caso do Cão Morto” de Mark Haddon. Pensava que isso foi por causa da minha falta de conhecimento da língua mas depois vi um video de uma das minhas leitoras preferidas e disse que ela também perguntou-se se o narrador tivesse qualquer espécie de autismo ou Síndrome de Asperger. Mas não tem.
A Avó e a Neve RussaEste rapazinho mora no Canadá com a sua avó e o seu irmão. O irmão, que se chama Andrei, é adolescente e passa os seus dias a fumar canábis, ou algo do género (não é nomeado no texto). Antigamente a avó vivia na Ucrânia, na União Soviética, perto de Chernobyl onde o seu marido morrera. Ela tem dores de pulmões por causa de radiação – tem cancro e talvez mais problemas por cima. Também acho que tem uma espécie de demência. O rapaz deixa-lhe recados para ela fazer as coisas do dia-a-dia.
Existem outros estrangeiros perto da família – da Itália, da China, da Nigeria e até dum país chamado Portugal. Um aluno na escola goza com o rapaz e chama-lhe “Russkiy”. A grande aventura da segunda metade do livro é uma viagem que o narrador e o seu amigo, Matt, realizam para irem procurar uma cura para a doença da avó. Matt é judeu, e o holocausto torna-se uma tema menor do livro.
Há passagens no livro que eu achei um pouco lentas, mas como devem saber, leio português muito devagar e por isso, a minha percepção destas subtilezas não é o melhor guia para quem quiser saber se é um livro bom – não fiquem desanimados por minha causa! Apesar disso, o livro é encantador. O desenlace é muito triste, muito querido e muito adequado à história dessa velha e do seu neto.
Aliás, tenho uma pergunta. Li dois comentários no Goodreads, e também ouvi num video que o menino não tem nome mas acho que tem, sim. Há uma carta na página 211 em que… cá para mim, chama o menino como “Alexei” mas não é óbvio no contexto porque aparece em parênteses e por isso é possível que mal entendi. Talvez fosse o nome do jornal, ou um o pretérito perfeito, primeira pessoa dum verbo desconhecido a mim “alexar”. (Ei, meu amigo, sabes o que fiz? alexei!) mas é um nome russo, e eu simplesmente assumi que fosse o seu nome.
Links: Bertrand / Amazon