Aqui Dentre Faz Muito Barulho é um livro desses que fazem um ninho na mesa de cabeceira durante umas semanas porque o formato (pequenos textos de 2-3 páginas) é perfeito para quem precisa de ler alguma coisinha antes de dormir. Não exige muito do leitor, não nos deixa perturbados, e se não nos lembrarmos o que limos no dia anterior, não importa, porque a leitura de hoje tem um novo assunto. Já li vários livros do mesmo género, escritos por Miguel Esteves Cardoso e Ricardo Araújo Pereira. Este não me fez soltar tantas gargalhadas como previsto. Achei-o inesperadamente pensativo.
Levei-o comigo à Madeira em Novembro e terminei-o nos últimos dias de Dezembro.
Acabo de ler o panfleto deste nome da autoria de Gabriele Giuga, sobre a obra de Amália Rodrigues, com ênfase na canção Barco Negro. É claro que o autor* tem melhores conhecimentos da teoria de música do que eu (o que não é grande elogio porque não sei nada). Ele escreve minuciosamente sobre a sequência de colcheias aumentadas e semicolcheias e ostinatos rítmicos e não sei mais o quê. Não entendo muito mas em suma, afirma que um fado bem escrito tem as suas sílabas dispostas de tal modo que não impedem o ritmo da música. Ou melhor, se for bem escrito, a letra terá um ritmo natural e quando é lido em voz alta, sugere a forma da música, ainda que as guitarras fiquem caladas.
Não sabia que este Fado tem raízes no Brasil. O original é chamado Mãe Preta escrito por Caco Velho. Tem um ritmo muito semelhante mas mais animado. A letra foi proibida em Portugal pela censura do Estado Novo, mas com uma letra de David Mourão-Ferreira (o criador da maioria dos fados mais famosos de Amália), o samba tornou-se uma canção de amor e o ritmo abrandou-se para ser mais adequado às casas de fado.
*apparently Gabriele Giuga is a dude. The e on the end of his first name really threw me. Thanks to Cristina for spotting this and other errors.
It’s Atirar Para o Torto by Margarida Vale de Gato. Just about every page brings me a whole crop of obscure vocabulary. It makes it hard to get absorbed in the flow. I underlined the mysterious strangers on this page because there were so many I couldn’t keep track. Some are obvious (“forçosamente”,”desdiz”), others I’d seen before but couldn’t remember (“frincha”) and others are total mysteries (“vesgo”). Outrossim looks like it’s combining ‘outro’ and ‘assim’ but it’s “likewise” (another one like that) rather than what I thought at first: “otherwise” (like something else entirely)
Even the title of the book was a mystery: “Atirar para o torto”. Torto can mean someone who has a physical deformity of some sort – they’re lame or cross-eyed – as in Que Mulher é Essa by A Garota Não, so I wondered in a vague way if she was taking about some sort of persecution of disadvantaged people. That wouldn’t be a great title for a poetry book though. “Para o torto” means something like “wide of the mark”, so if you threw something at me but your aim was way off, you could say you had thrown “para o torto”. So the book means something like “Shooting and Missing”.
Edit – I’ve been re-listening to old episodes of Say It In Portuguese and the word Torto comes up in this episode, so if you want to know more, have a listen.
Coloquei este livro no cesto enquanto estava a a buscar um livro de que precisava. Fiquei desiludido. Gostei da arte, mas não tem uma história. Quanta história é que um criador é capaz de contar em 16 páginas? Ela está sozinha em casa com saudades de alguém? Pois, acontece, mas não há mais nada e o álbum deixou-me insatisfeito.
Hoje é o dia 25 de Abril, portanto parecia-me apropriado ler alguma coisa que falasse do aniversário do estabelecimento da democracia em Portugal. A autora, Alice Vieira conta a história através de um conjunto de 7 pessoas, cada uma a falar com uma menina que está a fazer uma pesquisa sobre a revolução. Os narradores contam as suas experiências à menina e falam com ela*, mas ouvimos apenas as vozes dos testemunhos, e o diálogo não é diálogo mas sim um monólogo capturado no gravador da protagonista silenciosa!
O livro foi lançado em 1999, 25 anos após os tanques darem à luz uma nova fase na história do país. Naquela altura, havia quem estivesse preocupado com a falta de entendimento dos eventos do passado. Hoje passaram-se mais 25 e os resultados da recente eleição indicam que talvez haja ainda menos entendimento, já que os anos setenta parecem um conto datado.
*I wrote “falar a ela” because all the dialogue is just their side of the conversation. “Falar com ela” seemed to suggest two-way traffic which is why I avoided it. It’s a little like listening to one side of a telephone conversation. You know there’s someone else involved but you can only hear the person next to you on the train. In the end, I put “com” back in but altered the corrected sentence a bit to reframe it. I hope it makes sense!