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Lendo Livros Fora de Ordem

18619684No inicio do mês, li um livro que faz parte duma saga de 4 livros. Já li o primeiro em 2017 e apeteci-me em continuar a historia. É uma obra de ficção científica com elementos de espionagem e por isso é difícil seguir todos os pormenores das vidas de todas as personagens. Às vezes, o escritor menciona pessoas e acontecimentos que não me lembrava. “Pois”, pensei, “deve ser algo que me esqueci do primeiro livro ou talvez muito tempo tenha se passado neste mundo literário entre os dois primeiros livros”.

Ora bem, se calhar já adivinhaste a verdade: eu tinha saltado o segundo volume. Este livro nas minhas mãos era o terceiro! Quando cheguei naquela revelação, foi tarde demais para abandonar, portanto continuei. Felizmente, fez sentido (mais ou menos) apesar disso.
Lembrou-me dum outro erro. Fiz quase a mesma coisa com um outro livro de ficção cientifica. Naquela altura, foi um audiolivro do “The Time Traveller’s Wife”  [O Mulher do Viajante no Tempo]. Eu comecei na segunda metade do livro. Mais uma vez, não diminuiu muito o meu prazer, porque o enredo salta do passado ao futuro e de volta para o passado!

Ouvi falar dum livro chamado “The Unfortunates” [Os Desgraçados? Os Desafortunados?] de BS Johnson, que foi lançado em mil novecentos sessenta e nove e que se vendia numa encadernação* com vinte e sete capítulos deparadas lá dentro. O leitor podia ler vinte e cinco em qualquer ordem, desde que começasse no primeiro e terminasse no último. Hei de lê-lo em breve!

 

* = Or “pasta” (folder) – Pasta AZ and Pasta Arquivo are given as options. Ananda even linked to Portuguese Staples.  More detail on the italki question page.

Thanks to Luís, Alisson and Thamires for the help fixing the errors.

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É Tudo Uma Questão de Tempo – José Jorge Letria

47586435_756354014698324_6635581299585187840_nMais uma tentativa de apreciar a poesia portuguesa… Gosto muito de José Jorge Letria desde ouvi um poema dele num podcast. Foi a primeira vez (e continua a ser quase a única vez!) que gostei de um poema português. Lamento que ainda falte paciência para ler poesia em qualquer língua, e o problema fica ainda pior quando tenho de alcançar o dicionário a cada 4 linhas! Mas de vez em quando uma luz penetra a escuridão da minha ignorância e consigo ver a beleza da escrita. Às vezes reli os poemas mais de uma vez para aumentar a experiência.

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Salazar – Agora, na Hora da Sua Morte

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Este livro é uma biografia de Salazar. O ditador outrora de Portugal está perto da morte, a assistir a sua própria vida que desenrola-se como um filme ou um sonho.

Adoro a atmosfera alucinatória das imagens, que combinam desenhos, propaganda da ditadura e fotografias, mas fico frustrado por não saber o suficiente sobre a sua carreira para ser capaz de distinguir ficção de facto, sonho de realidade, biografia de opinião política. Porém, acabei com a ideia que os autores acreditam que o ditador tinha altos ideais para fazer crescer a economia do país e melhorar a alma do povo, mas sob a superfície era tudo apodrecimento, violência e receio. O capítulo mais poderoso, na minha opinião, trata d'”A Lição de Salazar”, a série de 7 cartazes ilustrando as valores do novo estado tal como a vida bucólica, comunidade, poder militar, respeito pelas autoridades. Depois de cada cartaz, os personagens da imagem mudam, tornam-se mais sombrios. O pai da família ideal torna-se ameaçador e bate a mãe, enquanto as crianças encolhem-se nas cadeiras. Entretanto, na casa do povo, homens discutem opressão até às polícias chegarem. A contraste entre a retórica e a realidade está muito bem feito.

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O Banqueiro Anarquista – Fernando Pessoa

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O Banqueiro Anarquista é um conto escrito pelo famoso poeta Fernando Pessoa. Faz parte duma coleção (também chamada “O Banqueiro Anarquista”) publicada pela* Relógio d’Água.

O conto trata-se da vida dum homem rico, burguês que afirma que, ao contrário do que a gente pode achar, é um anarquista, e não simplesmente um anarquista teórico, mas um anarquista a sério que aplica a teoria à sua própria vida. Aqueles gajos que atiram bombas são meros amadores comparados com o banqueiro. Sentado num restaurante, o banqueiro conta ao seu amigo como é que as reviravoltas do seu raciocínio o levaram ao seu actual modo de viver. É um bom exemplo de como uma pessoa se pode enganar, por sofisma e acaba por adoptar um modo de viver ao contrário às suas crenças mais fortes por um método aparentemente puro e rigoroso. É muito engraçado.

Acho que o livro se lê bastante bem. Como um novato da língua portuguesa, fiquei preocupado por começar um livro escrito por um dos gigantes de literatura portuguesa, mas há muitos palavras de política e economia que tornam tudo mais fácil porque são muito parecidas com os cognatos ingleses.

*=I would have gone for “pelo” because Relógio is masculine but it’s the name of a publisher (a editora) so it’s feminine.

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O Pintor Debaixo Do Lava-Loiças

11732049“O Pintor Debaixo Do Lava-Loiças” é o quarto livro que já li de Afonso Cruz. Até agora, é a mais difícil de todas as suas obras para mim, um aluno da língua portuguesa, mas ainda é bastante fácil. A história começa no Império Austro-Húngaro ao final do século XIX e continua pela primeira guerra mundial até a segunda. Pelo caminho, o protagonista, Jozef Sors (baseado em Ivan Sors, o avô do autor) serve o seu país na primeira guerra, posto num balão, apaixona-se, enche muitos cadernos de desenhos, sobretudo de olhos, viajam para os estados unidos e perde os seus pais.

Há muitos capítulos curtos e muitos tratam-se dum discurso sobre uma questão filosófica. O autor brinca com ideias da mesma maneira que no seu livro infantil “A Contradição Humana”, mas de forma mais desenvolvida. O livro também me lembra do audiobook que acabei de ouvir hoje: “Night Train to Lisbon” porque ambos contam histórias de homens da Europa central que chegam em Portugal. O escritor do último leva-o muito mais a sério. Em ‘O Pintor Debaixo do Lava-Loiças’ existe absurdidade, piadas e até desenhos. Infelizmente, cada um é um duplo imagem por causa da baixa qualidade do papel: o leitor pode vê-las no verso do papel também.

Enfim, gostei de ler o livro, mas o final deixou-me insatisfeito porque senti que a história ficou inacabada.

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Segredos da Língua Portuguesa (Marco Neves) #8

O oitavo capítulo continua no tema de erros, mas passa de “erros falsos” para “erros verdadeiros”. O autor dá muitos exemplos de erros, gralhas e mal-entendidos, e sublinha algumas ambiguidades. Por exemplo, será que “a maioria das pessoas…” toma um verbo plural ou singular? O mesmo problema encontra-se em inglês também. Como sempre, há uma mensagem simples para o leitor: os erros alheios nas redes sociais não importam o suficiente para que se humilhe alguém publicamente. Seria melhor enviar uma mensagem privada ou até ficar calado.

No fim de contas, isso parece um conselho muito útil.

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Segredos da Língua Portuguesa (Marco Neves) #7

O Capítulo sete trata de supostos erros gramaticais e daquelas pessoas chatas que acreditam que existem regras contra várias frases e palavras comuns e ficam inchadas com orgulho pelo seu conhecimento secreto.

Entre outros exemplos, há pessoas que acreditam que “obrigada” não existe, e que devemos dizer “desfazer a barba” em vez de “fazer a barba”.  Este tipo de pessoa existe na Inglaterra também e não há dúvida que em qualquer outro país há pessoas que chateiam toda a gente com as suas opiniões sem pés nem cabeça. Às vezes, uma editora dá-lhes oportunidade e publicam as suas obras para irritar ainda mais pessoas.

Entre outros exemplos, há pessoas que acreditam que “obrigada” não existe, e que devemos dizer “desfazer a barba” em vez de “fazer a barba”.  Este tipo de pessoa existe em Inglaterra também e não há dúvida que em qualquer outro país há pessoas que chateiam toda a gente com as suas opiniões sem pés nem cabeça. Às vezes, uma editora dá-lhes oportunidade publicaram-nas para irritar ainda mais pessoas.

É interessante ler um desabafo assim em português porque, geralmente, leio livros do mesmo género na minha própria língua com uma mistura de alegria e horror. Em inglês há sempre uma divisão entre os “prescriptivists” (pessoas que querem prescrever as regras e insistem que toda a gente deve segui-los até quando o resultado é feio ou absurdo), e os “descriptivists” (pessoas que preferem descrever a língua e acham que – por exemplo – Literalmente (“Literally”) agora significar “muito” ou ainda pior “figurativamente” porque há burros que o usam assim). Prefiro o conselho de A.P. Herbert que escrevi que novidades linguísticas devem ser apoiadas quando fazem a língua mais flexível e mais poderosa, mas temos de lutar contra neologismos que fazem tudo mais confuso. Noutras palavras: pessoas que abusam “literally” devem ser presos numa masmorra onde podem ser roídos pelos ratos.

Mas por outro lado, o A.P. Herbert odiou a nova (naquela época) palavra “televisão” e talvez estas batalhas não valha a pena de lutar…

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Segredos da Língua Portuguesa (Marco Neves) Intervalo

#UNCORRECTEDPORTUGUESEKLAXON

Entre os capítulos seis e sete, há um Intervalo em que o autor elogia um artigo na revista “New Yorker”, chamado “The Talking Cure“.

O argumento do artigo pode ser resumido num titulo dum secção do capitulo: “As Crianças Precisam de Palavras Como de Vitaminas” ou seja, tem um instinto para línguas faladas e precisam de adultos que querem falar com eles  para alimentar a sua fome de palavras porque a sua inteligência não se cresce senão num ambiente rico em palavras. Devem fazer parte numa conversa que faz sentido e em que os pais ouvem e responder as palavras de criança também, obviamente. Ou seja, se não participem em diálogos, e não ouvem historias, não podem absorver as regras, as palavras que precisam para ser adultos inteligentes, livres e com confiança!

Concordo cem por cento, e seguimos esta filosofia quando nasceu a nossa filha. Infelizmente, o que mais lamento é que demorei tanto para aprender português, a língua da minha mulher, e por isso não conseguimos fornece-la com um ambiente rico em duas línguas.

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Segredos da Língua Portuguesa (Marco Neves) #6

#UNCORRECTEDPORTUGUESEKLAXON

No sexto capítulo, Marco Neves volta para vários assuntos dos anteriores. Começa com a vaidade de quem acredita que o seu sotaque não é sotaque mas nada mais e nada menos do que o padrão de língua, e todos os outros são meras tentativas de falar português assim. Também, faz-nos lembrar a historia alternativa do capítulo 5, e que o relacionamento entre português brasileiro e português europeu é igual ao relacionamento entre português e galego. O seu objectivo é fazê-nos ver a língua do Brasil com olhos novos, não como errado, nem outra língua, nem uma ameaça a versão que se fala em Lisboa, mas sim como mais um membro da família de línguas, que cresceu (se perdoar o meu metáfora misto…) da mesma raiz romana, e que mantém o mesmo nome. Claro, português brasileiro compartilha muitas coisas em comum como português europeu e é igualmente capaz de ser um idioma da poesia e da literatura.

O autor confronta uma ideia, exprimido por um português que “Tenho aversão a ler em brasileiro”. Embora não faça parte neste dialogo por não ser lusófono, acho este ultimo sentimento o mais surpreendente para mim, como um inglês. Nós também temos um primo mais grande, uma outrora colônia transatlântica que fala a nossa língua e tem uma voz muito alta no palco do mundo. As vezes, queixamos da sua influencia nos meios de comunicação, e os barbarismos e modernices (nunca se diz que alguns são mais propriamente velhices!) semeados nas mentes dos nossos filhos pelas séries e filmes daí, mas nunca, mas mesmo nunca ouvi alguém a dizer que ele tem aversão de ler (ou de ver ou de ouvir) narrativas estadunidenses.

 

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Dado o assunto, seria eu uma hipócrita se dissesse que preferia correções em PT-PT? 🙂