Já leram uma manga*? Está palavra significa Banda Desenhada em japonês. Acabo de ler uma chamada Os Gatos do Museu do Louvre. Os desenhos típicos deste género de livro cabem bem num pano de fundo de desenhos mais realistas do museu e dos seus arredores.
* I’ve been spelling it “mangá” up to now, but apparently that is Brazilian. Aside from this meaning of the word, manga can also mean “sleeve”, “mango” or “a crowd of people”. Confusing. For further whining about words with double meanings, see the footnotes of this text.
I don’t often review books in English here, but if you’re interested, it’s called The Cats of The Louvre. Thanks to Butt_Roidholds for the corrections.
Pardalita é um romance juvenil, contado por prosa (a tipografia parece ser escrita pela mão da narradora) com desenhos. Às vezes, as palavras e os desenhos combinam-se como banda desenhada.
A protagonista é uma adolescente portuguesa de dezasseis anos que tem um namorado e alguns bons amigos mas tem uma paixão escondida por uma rapariga da escola dela. A história é sobre a vida dela, com os amigos, a mãe (que é uma lutadora feroz pelos direitos dos refugiados) e o namorado, enquanto os seus sentimentos perante a moça desenvolvem-se.
É uma história simples e doce – uma leitura fácil, pouco exigente e com personagens simpáticas. É bem desenhada e bem escrita e curti as duas horas que passei a ler.
Here’s a series of short texts written over the last few days when we were in holiday in Wales. Thanks to Patis12, Dani_morgenstern and Cataphract for the corrections
Quarta-Feira
Eu e a minha família vamos amanhã para o País de Gales para participar no festival literário. Por isso, os próximos textos irão ser curtinhos, acho eu, mas não quero abandonar o streak!
Quinta-feira
Hoje, pretendo ir buscar um carro (aluguei o durante 3 dias) e conduzir para o país de Gales com* a Minha mulher, a nossa filha e a amiga, dela. Não gosto de conduzir. De todo. É frustrante, portanto ando de carro com a menor* frequência possível. Além de ser o primeiro dia das miniférias, é o aniversário da minha filha. Faz 17 anos. Atingiu a idade na qual pode aprender a conduzir. Quem sabe, talvez ela vá lidar com tudo isso de volantes e travões e gasolina na próxima vez.
*This word originally had a typo and was written as “come” which is a bit unfortunate given that “comer” means eat (which would be bad) and also has a slang meaning which, if anything, is even worse in this context.
**as rarely as possible. I originally wrote “de menos frequência…” but that’s wrong.
Sexta-feira
Aqui estamos no oeste do Reino Unido. Assim que chegámos*, a minha mulher caiu ao descer uma escada. Torceu o tornozelo e bateu numa parede com a cabeça. Felizmente não tem concussão (sei isso porque ela ainda odeia o Boris Johnson), mas tem dores no tornozelo apesar de usar um curativo e um saco de ervilhas congeladas. Jantámos num restaurante. Hoje é dia de fazer compras nas livrarias e ouvir vários autores
*I wrote “logo que chegámos” which is fine but assim que is better
Sábado
Estou à espera para ouvir um discurso de uma autora chamada Bernardine* Evaristo. Li um livro dela há uns dias e gostei imenso. Sobretudo, adorei a maneira através da** qual ela estabeleceu ligações entre as várias gerações de personagens.
Ela conta a história de um jovem que encontra uma professora pouco simpática. O capítulo seguinte fala desta mesma professora e explica os motivos dela, mas ela também fica chateada com uma colega da geração anterior que se torna protagonista do capítulo seguinte. Acho que isso é uma boa lembrança de que cada um de nós tem a sua própria história que guia as suas ações
*Since this is quite an unusual name in English and quite a common one in Portuguese, the autocorrect feature changed it to Bernardino, which was quite embarrassing. Did the same in Instagram too. . I dashed the day’s text off in the last 5 minutes before she came on stage though so typos are to be expected!
**I wrote “a maneira na qual” – literally “the way in which” but it seems that the Portuguese say it as “a maneira através de qual” – “the way across which” or “a maneira como” – “the way how”
Domingo
Como Queiram
Ontem à noite, fomos ver uma peça de teatro – o As You Like It* de William Shakespeare – ao ar livre. Foi incrível. Logo depois da peça acabar, começou a chuva. Agradecemos aos deuses do tempo por terem adiado** a tempestade até à noite.
Choveu a cântaros. Ao chegarmos a casa, ouvimos a chuva a bater no telhado como se fosse uma bateria. As ovelhas lá fora, no campo estavam a balir***. Coitadinhos.
*There are various Portuguese translations. Older versions might be called “como vos aprouver” and more recent “como queiram”
**I originally wrote “terem-se travado” aiming for something like “having restrained themselves”. I’m not sure if this was actually wrong or if the marker just thought I was talking nonsense. I have a weird way of expressing myself in English and maybe it just sounds like mistakes in Portuguese….?
***balir os a good word. It means “to bleat”.
Epílogo: Segunda-Feira
As férias devem deixar-nos descansados mas voltamos para casa sempre exaustos* e cheios de sono. Queremos encher os dias todos com atividades, o que torna as férias mais ocupadas do que os dias de trabalho. Preciso de dois dias de descanso em casa depois de três dias de descanso num outro lugar.
*To my shame, I put sempre in the wrong place again.
Este livro de Miguel Pires e Majory Yokomizo é uma banda desenhada que conta a história de um velho que vive numa ilha. Todos os dias, pesca no mar com romãs como isco e apanha pedaços de vidro que, ao ser montados (tipo puzzle), revelam as suas memórias. O leitor vem a entender que este homem tem demência e a sua ilha é uma alegoria – um exílio mental onde fica prisioneiro enquanto não se lembra da sua própria vida.
Acho que o escritor lida com este assunto desafiante de modo muito sensível. Os desenhos e o argumento funcionam bem juntos e o resultado é tocante.
While I was reading As Telefones Someone asked me if I was enjoying the book because the author “is pretty militant” which surprised me because I don’t really get that from the books at all. There’s one racist incident I remember from Marremoto, but I don’t really get strong militant vibes. Obviously, by writing about people in the margins of society like Boa Morte da Silva, I guess there’s an implied criticism of the system as a whole there, but I don’t think it’s any more than an author should feel for the subjects of her books. And what’s literature for if not to show us a different perspective on life?
I tried watching an interview with her to see if I could understand what he meant. Here she is on RTP2, drinking coffee with José Navarro de Andrade and talking about Maremoto. My first impression as that she just comes across as just a writer wanting to talk about her book. OK, she admits the dreadful crime of not having read O Ano Da Morte de Ricardo Reis by José Saramago, but she doesn’t say anything I’d describe as “militant”. Interestingly, (if I’m understanding correctly) the interviewer tries, at around the eleven minute mark, to get her to admit that the inconsistencies in the biography of the main character are because she is trying to make him a pastiche, representative of all African immigrants in Lisbon, to which she says, no, the protagonist is just writing his own story in the form of a letter to his daughter and he isn’t always a reliable or coherent narrator. QA lot of his personality comes from a real person she knows and yes, it’s messy, but that’s how life is sometimes.
I’m not sure where the idea that she is militant comes from. She seems very empathetic – to the point of avoiding any attempt to educate the reader because she feels like it gets in the way of the protagonist’s own voice.
She quotes Peter Geach, husband of Elizabeth Anscombe, in the closing minutes. I can’t find the quote online but it’s something like “It’s possible for a man to lose his one chance while he is still young, and live to be old, feeling happy and at ease in the world but in the eyes of God, be dead”. That’s heavy stuff, man, but it’s Christian ethics, not Marxism, feminism, CRT or whatever. So I’m at a loss to know where this “militant” thing has come from, unless she was more of a firebrand in her youth.
Today’s post is a review of “As Telefones*” by Djaimilia Pereira de Almeida.
Este livro deu-me água pela barba**. É fino mas o vocabulário é difícil. Mas, apesar de ser uma leitura desafiante, não fiquei aborrecido porque a autora, Djaimilia Pereira de Almeida, sabe escrever. As frases fluem bem e há momentos de humor, tal como a conversa entre a mãe e a filha na qual a mãe explica que espíritos malignos começam a voar às três de manhã. Afirma que estes espíritos entram pelas janelas abertas e “aproveitam-se das mulheres que dormem sem cuecas”. Acrescenta que essas mulheres dão à luz (ou seja dão à escuridão) bebés que elas amamentam no mundo dos espíritos como amantes do diabo. Quando se acordam nem sequer percebem que já não são elas mesmas, mas estão a viver uma vida paralela no mundo das trevas. Sim senhora.
As Telefones
Mas além destas opiniões malucas da velha, há uma sensação comovente perante a relação entre mãe e filha que se conduz na série de conversas por telemóvel e pessoal.
* Wait, what? Telefone is a masculine word so why isn’t it Os Telefones. I asked about this on reddit r/Portuguese and nobody was very sure, not having read the book, but the popular theory (best explained by u/Uyth) was that it was “Uma Alcunha” – a kind of nickname, usually based on some physical characteristic of a person (think “Blackbeard” in English). Why would that be? Well, sometimes you’ll see a placename like “O Arco do Bandeira” where the article doesn’t match the noun. In this example, Bandeira means flag and it is a feminine word. The reason for the mismatch is because Bandeira isn’t a word as such, it’s someone’s name – a businessman named Pires Bandeira had the arch built in the Baixa Pombalina district and it is still named after him today. If the person has an alcunha, it works the same way. Say if someone has been given a nickname which is a feminine word (say “carica”), but they are male. He would be called “o carica” – the feminine word gets a masculine article because of who the name is attached to. So in the title of the book, maybe the Djaimilia Pereira de Almeida is referring to these women as The Telephones because the book is about their long-distance conversations – and that’s why she used “As” in place of “Os”. Best guess. It isn’t spelled out in the book, but that’s what it seems like.
**Não costumo usar barba mas demorei tanto por causa de olhar no dicionário tantas vezes que a minha barba cresceu e já pareço Moisés.
Here’s a review of the audiobook of Vidadupla (“Double Life”) by singer, poet, author and rennaissance man Sérgio Godinho. I listened to it on the Bertrand “Biblio” app, but as I mentioned before, it’s a bit unreliable in that it seems to pause itself when the screen dims or… Something… Something isn’t quite right, at least in the Android version, so I had to keep pinging it to wake it up. That’s probably OK at home but it’s a bit annoying if you’re gardening at the same time, as I was. If you haven’t already seen it, there’s a whole page about different sources of Portuguese audiobooks here. Thanks to Patis12 and Dani_Morgenstern for the corrections
Acabei de “ler” este Audiolivro do Sérgio Godinho hoje. É uma coleção de contos e o vocabulário é bastante fácil para um aluno do meu nível. Mas tinha uns problemas.
É que… A narradora tem uma voz hipnótica portanto (estou envergonhado por admitir) dei por mim a ficar repetidamente distraído* pelo ritmo da leitura e logo depois perdi o fio à meada. Rebobinei a gravação várias vezes mas afinal não apreciei o livro tanto quanto merece. Ou talvez sou eu que não mereço livros bons.
Bem, de qualquer maneira, gostei do que ouvi. Nem sequer sabia que o Senhor Godinho tinha escrito livros. Já ouvi várias músicas dele. É óbvio que é um homem que sabe criar coisas bonitas.
Here’s a review of the massive beach thriller I’ve been reading, “Segredo Mortal” by Bruno M Franco. I’ve possibly been a little harsh on it, given that it’s a thriller and not meant to be scrutinised too closely but hi ho. It’s a relatively easy read: if you’re at B2 you’ll probably hardly touch your dictionary and even a confident B1 could read it without enduring serious brainfires. It’s available at Bertrand of course and I’m sure I’ve seen it in the excellent Portuguese Language section of the Charing Cross Road branch of Foyles too, but can’t seem to find it on their site, so maybe it’s in-store only, or maybe that was just a beautiful dream. Amazon might have it too if you are a fan of evil companies.
A abertura dum bom thriller captura sempre a atenção do leitor. Geralmente há várias personagens em situações de perigo ou a enfrentar um mistério, e o autor alterna os capítulos entre as cenas, deixando os enredos desenrolar até fica claro qual é o fio que une todas estas histórias, e qual é a força sinistra por trás dos eventos. Se o escritor cumprir esta tarefa com êxito, a bolha delicada da nossa credulidade fica intacta até ao final. Não pedimos mais do que isso.
Os primeiros capítulos do “Segredo Mortal” não nos desiludem: uma tempestade, a descoberta de vários cadáveres, um jovem perseguido por um soldado, um assassino em série prestes a sair do seu lar…
E de forma geral, os capítulos que se seguem correm bem. O autor sabe escrever. O diálogo, o desenvolvimento das personagens, os encontros, a acção, tudo se lê bem, mas há pontos fracos quando se mete a explicar as ligações entre os elementos do enredo: por exemplo, a cena na qual os polícias ouvem o testemunho dum grupo de cientistas sobre as origens da tempestade: a sua explicação não faz o mínimo sentido. Se estivesse lá, eu diria “mas porquê?” de cinco em cinco segundos. Simplesmente não acreditei nos motivos por trás do enredo.
Por causa disso*, muitas outras coisas não bateram certo na ausência da minha “fé” no caroço do enredo: as mortes de várias pessoas; a existência de alguém que é simultaneamente um maluco assassino em série e um assassino profissional bem controlado; a entrada dos pais duma personagem importante; o relacionamento dos dois polícias (que deu num dos epílogos mais bizarros que já li na minha vida). Tantas, tantas coisas!
E por falar nos dois polícias, o livro poderia ser mais fino por cem páginas se os protagonistas soubessem o significado da palavra “Parceiro”. Duas vezes o homem entrou sozinho num sítio, para dar com o assassino em série. Quando a segunda vez chegou, eu estava a falar em voz alta, “Pá, és o parceiro dela. Leva-a contigo e talvez tenham hipótese de prender o gajo sem ficares esfaqueado pela segunda vez neste livro!”
Spoiler alert: deixou-a no carro e ficou esfaqueado pela segunda vez naquele livro. Eh pá!**
A minha filha aconselhou-me a deixar de ler mas estou contente por ter aguentado: o autor conseguiu o desfecho do enredo e apesar dos problemas, o livro é divertido.
*I originally wrote “por resultado” (as a result) but that’s not very idiomatic
**Just to contradict what I wrote in the footnotes of the Herman José text a few days ago, one of the suggested changes was to write “epá” on place of “eh pá”. I dunno, I think I’m just going to stick with this spelling, regardless of the fact that different people have different ways of writing it. It might seem a bit fussy to some but you can’t please all the people all the time.
Ontem, reli uma banda desenhada dos anos oitenta chamada “Quando o Vento Soprar”. Conta a história dum casal de idosos. Lembram-se da segunda guerra mundial porém quando a terceira se desencadeia, não estão preparados apesar de seguir os conselhos do governo.
O livro foi editado durante a (primeira) guerra fria e é muito deprimente que parece tão relevante nos dias de hoje.
I usually write reviews of Portuguese books but in this case it’s the Raymond Briggs classic, When The Wind Blows
Today’s text only had one correction. I can’t really believe that and suspect the corrector was being lenient so there might be a few more cock-ups in here. I knew it was too good to be true. I’ve amended it now. Thanks to Dani for the corrections.
Há um livro de Evelyn Waugh chamado “Scoop”. Em português o título é “Enviado Especial” porque Scoop não se traduz bem. Literalmente significa “pegar numa porção de algo com uma ferramenta ou utensílio tal como uma colher de servir ou uma concha” mas também tem um significado figurativo – ser o primeiro jornal/jornalista a anunciar uma notícia super-interessante.
O livro conta a história de um jornal, o “The Daily Beast” (sim, como o website – roubaram o título do Waugh!), cujo proprietário se chama Lord Copper (Senhor Cobre, Dom Cobre*? Eu sei que um nome não se traduz mas diverte-me traduzir na mesma). É uma personagem assustadora. Os seus funcionários não ousam negar nenhuma afirmação que venha dos seus lábios, por muito errado que esteja.
Portanto, se tiver razão, os funcionários dizem “Sem Dúvida Senhor Cobre” (definitely Lord Coooere), mas se estiver errado, só dizem “Até certo ponto, Senhor Cobre” (Up to a point, Lord Copper)
* correct answer for a translation of the English word Lord is Lorde.