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Madeira 9 – Cafés e Cartazes

Living in the moment
Living in the moment (the moment is 1879, but I keep being reminded of 2023)

Começámos por tomar o pequeno-almoço no café Brunch Club. Como provavelmente já adivinharam, este café não é um autêntico café madeirense. Não, é uma armadilha para influenciadores. Depois, explorámos mais lugares da juventude da minha esposa, e andámos à vontade. Embarcámos num barco turístico às três horas e passámos 3 horas no mar entre o Funchal e as ilhas Desertas*. Vimos dois grupos de baleias-piloto, que me chatearem muito porque senti-me obrigado a largar o meu livro para vê-las. Mas consegui ler dois capítulos apesar da distração.

À noite, comemos sopa com pão de casa** e manteiga.

Por falar em “Armadilhas de influenciadores”, o que mais me chamo a atenção no Nono Dia das férias foram os cartazes colados a várias paredes que deploram a presença de tantos turistas na ilha. “Não sou turista, eu vivo aqui. A cultura da Madeira tem que*** voltar a ser a cultura da Madeira – QM Antifascismo”

Eu Vivo na Madeira

Pois é. Também vivo numa ilha onde temos turistas e imigrantes, incluindo madeirenses (sou casado com uma!), mas este ponto de vista: “há estrangeiros a mais, temos de preservar a nossa cultura” não é chamado “Antifascismo” por cá. Quase o oposto. É estranho como a política tem formas diferentes em lugares diferentes. Mas é um verdadeiro problema: em qualquer parte, temos de estabelecer um equilíbrio entre uma sociedade com as suas próprias tradições e a vontade das pessoas de viajar, migrar e trabalhar onde quiserem. Por causa do globalismo, esta tensão vai aumentar cada ano mais e não é nada fácil de resolver.

Tirei fotos dos cartazes como nós turistas costumamos fazer.

*The name of the island, not just deserted islands

**This isn’t just a way of saying “homemade bread” it’s an actual type of bread. Recipe here.

***Grammatically, it’s more correct to say “tem de” but that’s how it appears in the poster.

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Madeira 8 – Ensaio Sobre o Fim da Cegueira

Liguei ao oculista logo de manhã. Disse que os meus óculos já chegaram. Ótimo! Apanhei o autocarro para os recolher. Depois fui ter com a minha família a um café chamado A Penha da Aguila onde comemos bolos e sandes.

Passámos a tarde a andar a pé* pelas ruas. A Catarina mostrou-nos a sua escola primária (que é mil vezes mais bonita do que o edifício quadrado dos anos sessenta onde passei a minha infância entre os 5 e os 10 anos) e secundária (o Castelo de sonho da Barbie) e vários lugares da juventude dela. Também visitámos duas livrarias: uma Bertrand e a Livraria Esperança, que é uma loja vasta com três andares onde se vendem livros em** segunda mão, que ficam seguros*** por clipes e pendurados de ganchos nas paredes. As senhoras foram fazer manicura num salão e voltaram com as unhas pintadas de azul-turquesa e de verde brilhante.

O Castelo de Sonhos da Barbie Moniz

A Madeira é uma ilha onde as plantas crescem em toda a parte: há sol e chuva suficiente que qualquer espécie de planta pode florescer. E a cidade capital não é exceção: olhe onde olhar, há hortênsias, aloe veras, estrelícias (também conhecidas por “aves-do-paraíso”), azáleas e até bananeiras por todo lado, com as montanhas ou o oceano como pano de fundo. É uma festa de beleza. O governo proibiu a cor cinzenta há 30 anos mas ninguém reparou, porque já não existia.

*A couple of times in these accounts I’ve said “andar de pé” but de pé means standing. I should be “andar a pé”.

** em segunda mão, not de segunda mão.

***seguros not segurados. The past participle of segurar is segurado, but if they’re held there, we want the adjective form, seguro.

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Madeira 7 – O Longo Caminho

Saímos do alojamento no Porto Moniz e mudámos de casa para um apartamento no Funchal. Parámos duas vezes durante a viagem: em Santana, para ver as casas Típicas e comer os melhores pregos de sempre, e depois perto do cume* do Pico Ruivo, onde fomos montanha acima a pé. Doía-nos a barriga por causa de termos comido os pregos ótimos. Havia nuvens de ambos os lados do trilho, e sentíamo-nos como se estivéssemos a caminhar pelo céu. Era tão dramático! Estamos no Funchal agora. O estacionamento não é nada fácil e as ruas são muito caóticas, mas precisamos menos do carro. Sei lá, talvez possa ficar no parque de estacionamento até ao fim da semana ou até ser devolvido à empresa de aluguer. O apartamento é aconchegante. É há uma máquina de café que não usa aquelas cápsulas das quais os portugueses gostam tanto por qualquer razão!

Pico Ruivo in a brief moment of relatively little cloud

Fiquei encantado com os lagartos que vemos por todo o lado. Fez-me perguntar à minha esposa se havia ratos e ratazanas na ilha, porque achava que a população seria menor se houvesse roedores para os comer. Ela só respondeu “Jesus!”, que levei como “sim, temos.”**

*I wrote “pináculo” originally, but although that can mean the pinnacle of a mountain its primary meaning is as the high pint of a building. Cume seems to be better.

**The following day, I started seeing signs around the place saying “Perigo! Zona em Desratização” Danger – area in de-ratification, warning people about poison having been laid out.

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Madeira 6 – Carrancas

Domingo começou devagar. Ficámos em casa até à hora de almoço, li, vi uns programas televisivas e relaxámos. De tarde, fomos à praia, mas depois de sentarmo-nos na areia preta durante 20 minutos, as nuvens esconderam o sol e logo depois começou a chuva. As ruelas do* Seixal estavam completamente engarrafadas, portanto ficámos presos no carro durante uma meia hora com motoristas a fazer carranca, uns aos outros até que alguém teve bom senso suficiente para usar a marcha-atrás. Jantámos num restaurante, e bebemos coquetéis. Queria ir ver o Toy que alegrou uma festa organizada pelo PSD perto do Funchal mas não havia horas para o início do concerto e não nos apetecia passar tanto tempo a caminho de Chão da Lagoa sem saber quando devíamos chegar.

*Well I’ll be gosh-jiggered! Seixal, like Funchal, takes an article because Seixal is an area where there are lots of seixos (pebbles)!

Crazy how quickly the clouds moved in. It had been like a furnace just a few minutes earlier

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Madeira 5 – Pneus* Like Jagger

Sábado!

Estávamos mais bem dispostos do que no dia anterior.

Demos uma voltinha de carro ao longo da costa, fazendo pausas nalguns miradouros e sítios interessantes. O carro andava devagarinho e as vezes abanou um pouco, o que percebemos, enfim, ter sido resultado dum prego no pneu dianteiro esquerdo. Uma chatice, mas não causou grande transtorno porque o ar saiu devagarinho até chegámos a um estação de serviço onde um mecânico conseguiu consertá-lo.

Almoçámos num restaurante à beira do mar na** Calheta e depois…. Adivinhaste? Certo: subimos montanha acima para a Eira do Serrado. A minha filha tirou-me uma foto na qual pareço o Keanu Reeves num dia bom. A sério, sem exagerar, estava tão fixe. O CR7 teria chorado ao ver a minha lindeza… Até que reparámos num problema: a minha braguilha*** estava aberta. Que vergonha. Graças a Deus, existem aplicações de editar fotos.

Descemos para a altitude onde seres humanos conseguem viver sem garrafas de oxigénio e voltámos para o alojamento. Jantámos num restaurante onde os empregados tinham sotaque espanhol**** e comemos bolo do caco com manteiga e alho. Havia outras coisas também mas o BDCCMA foi o destaque.

Um lagarto contempla suicídio na Eira do Serrado

*autocorrect changed this word, and I came within a split second of publishing it on reddit as “Penis Like Jagger”, which, considering Reddit doesn’t allow you to change titles, would have meant having to change my name and move to Argentina. Yeah, the zip was open but it wasn’t that open.

**Calheta takes an article because a Calheta is a kind of bay, usually between cliffs.

*** Braguilha =trouser zip/button – ie the fly

**** They had a Spanish accent, not they had Spanish accents.

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Madeira 4 – It’s the Fanal Countdown

Na sexta-feira, subimos montanha acima (estas palavras podem iniciar qualquer história que tem lugar nesta ilha) novamente. Há lá uma floresta com um trilho de caminhada com vistas incríveis. Gostei imenso mas a adolescente tinha-se esquecido de tomar o pequeno-almoço (ai ai*) e acabámos por desistir da caminhada após 4 quilómetros e tal.

Almoçámos em casa e depois fomos à piscina. Nadámos e lemos até comecei a chuva. Lemos mais em casa até à hora de jantar.

Estávamos todos maldispostos. Portanto deitámo-nos cedo para estarmos de melhor humor no próximo dia.

This is also where we saw the tentilhões I mentioned, by the way.

* I originally wrote “Suspiro” for ‘sigh’ but that’s just not a thing in portuguese.

Thanks to LuisFGCosta for the corrections.

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Madeira Day 3

No terceiro dia das nossas férias, acordei cedo (como sempre!) e fiz os meus planos para a manhã. Pesquisei oculistas perto daqui. Encontrei vários, e até há um nos arredores do* Funchal onde não é necessario marcar consulta. Refresquei o meu conhecimento das letras do alfabeto porque não quero ficar com um par de óculos forte demais por ter pronunciado “E” como “I” ou algo do género.

Fui de carro até ao centro comercial, fiz o exame e comprei uns óculos novos. Senti-me orgulhoso pelo facto do funcionário mal ter tentado falar inglês – apenas quando fiquei confuso sobre lentes de “graduação negativa” mas a minha confusão não era linguística mas sim matemática!

Os novos óculos chegarão no dia 25 ou 26, o que é mais rápido do que normal para quem tenha olhos lixados como os meus. Parece-me uma empresa eficiente: exames à visão grátis, óculos rápidos e… Isto é o mais incrível de tudo: a loja está aberta até às 23h todos os dias! Quem precisa de um exame à visão às 23h? Talvez exista muita gente naquela zona que costume ficar a beber na tasca até tarde e, a caminho de casa, bata num candeeiro de rua com o rosto, partindo os óculos.

Fiquei preso numa fnac que não me permitiu sair sem três livros. Que chatice!

Mais tarde, fomos ao poço das lesmas (Que nome bonito!) para nadar, e depois a um restaurante em São Vicente onde experimentei peixe-espada grelhado enquanto as mulheres partilharam uma espetada madeirense.

Updated with corrections from rubenmiq and dani. Thank you both!

*Most towns don’t take a direct article like this and they usually only do when they are named after some other geographical feature: so o Porto, o Rio and so on. A Funchal is an area planted with funchos – ie, fennel plants. Well well, the more you know!

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Velocidade Madeirense 2 – Ligação Óculo

I originally published this a couple of days back but I’ve updated it with some really interesting corrections from Dani

Levada do Moinho

No segundo dia da estadia a minha família ficou na* cama até tarde mais uma vez. Quando acordaram, fomos ao topo da montanha para dar um passeio no PR7 (Percurso Recomendado Sete) “Levada do Moinho”. O tempo estava belo: fresco sem ser frio, húmido sem encharcar tudo e nebuloso sem esconder as vistas. Adorámos o nosso tempo que lá passámos.

Depois, voltámos a casa, para agarrarmos os fatos de banho e fomos à praia de Seixal onde a areia é preta, mas não por causa dum derramamento de crude**. E aí o dia saiu errado: para quem usa óculos dia após dia, é fácil esquecer-se de que estão na cara e… Para resumir uma longa história, perdi-os no Oceano Atlântico. Bolas. Chamei um táxi para ir buscar o par sobressalente (sou o único que sabe conduzir), o que (mais vale ser otimista neste cenário infeliz) me deu uma oportunidade de falar com um taxista madeirense (um homem interessante que tinha trabalhado na Venezuela durante muitos anos). Mas não há dúvida que esta parvoíce nos fez perder*** muito tempo.

Acho que vou tentar visitar um oculista amanhã se for possível (e se puderem fazer os óculos novos depressa) porque os sobressalentes são antigos e fazem-me doer os olhos.

Chega de autocompaixão! À noite, subimos montanha acima de carro mais uma vez e comprámos uns pastéis e pãezinhos numa padaria… Sei lá… Duzentos metros abaixo da lua. Passei tempo com a minha mulher de modo relaxado o que acontece com muito pouca frequência nos últimos tempos. Foi uma noite agradável, ainda que a Catarina estivesse um pouco desfocada.

* This one sounds odd too English ears since, if you translate it literally, it seems to imply they were both in the same bed. I originally write “em cama” which is too much of a Britishism. So, yes, “na cama” is a generic expression and applies no matter how many people you’re talking about, so you can say King Charles and Rishi Sunak were “na cama” without fear of causing a scandal.

** Yes, “crude”, on its own. This usage can be found on the RTP site here for example. It was corrected from “óleo cru” but I don’t think cru has exactly the same usage as crude. I can find examples of “óleo cru” being used but actually they seem all to be Brazilian, I think…? Here for example. And I think petróleo is probably the word I should have used… OK, I know petrol and crude oil are two different things, but if you Google “derramamento de crude site:.pt” you get more sites showing spillages of “petróleo” (this is the first result) usually with pictures showing black goo flowing out of the side of a ship (eg here – this is the second result in the Google search) , than you do for crude. The RTP page mentioned above is the third Google result, and only the first to use Crude in its headline. I dunno… Maybe journalists aren’t always using the right word. Both words exist, anyway. You’ll just have to work out from the context what specific substance is being scraped off the local marine wildlife.

*** I wrote “esta parvoice desperdiçou muito tempo” but things/actions don’t waste (desperdiçar) time, only people do. A situation like this can only cause the desperdício. So it made us waste/lose time, it didn’t waste it directly, if you see what I mean.

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Madeira Day 1

Acordei cedo mas a família não. Elas estavam ainda mais cansadas do que eu*.

Saímos de casa às 14:00 e passámos a tarde nas piscinas naturais do Porto Moniz. Gostei muito das piscinas apesar de serem frias; quando reuni coragem suficiente para mergulhar na água gelada, foi muito refrescante, e as ondas quebravam nas rochas espetacularmente. Depois, aluguei três espreguiçadeiras (candidata a melhor palavra portuguesa) e sentámo-nos a ler os nossos livros. Levei “O Último Cais” de Helena Marques comigo. No primeiro capítulo, ela fala de “Mergulhos no mar bravio do Porto do Moniz”. A vida imita a arte… Ou ao contrário, não sei.

As piscinas naturais do Porto Moniz

Jantámos num restaurante de peixe. O porco é uma espécie de peixe não é? De qualquer maneira, experimentei a Caçoula à Moda Antiga dos Açores. Deliciosa!

Thanks to rubenmiq for the corrections.

* By making it a new sentence, I can get away with this. I originally write it “a família… estavam… cansadas” and that’s wrong if course because família is singular. The new sentence allows me to switch to discussing two individuals.

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Madeira Day 0

Aqui vamos nós.

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaargh

Uffa, chegámos, sãos e salvos.

Bad form to scream in English, I know. If I’d had more presence of mind, I’d have gone with Ah! or Ai! but nobody’s perfect.