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Rabo de Peixe

Rabo de Peixe é uma série da Netflix cujo enredo se desenrola nos Açores. Os protagonistas são açorianos jovens, pescadores e empregados dum videoclube. Todos têm os seus próprios desafios na vida: por exemplo, o pai do protagonista é cego, o da amiga dele é um bandido. Sonham com* melhorarem a vida ou escaparem-se da ilha.

Rabo de Peixe
Rabo de Peixe (aka “Turn of the Tide”)

As vidas deles mudam por completo quando um barco se afunda perto da ilha, espalhando caixas de cocaína, embrulhadas em plástico, ao longo das praias. Em breve, toda a gente tem a sua parte da carga. Padres, médicos, velhas, todos andam com pó em volta das narinas. Os protagonistas que sabem navegar põem-se a recolher as caixas restantes de vários esconderijos inacessíveis entre as rochas a beira-mar.

Nos dias seguintes, um grupo de polícias chega de Lisboa para trabalhar lado a lado com as forças da região autónoma, mas também chega um membro da máfia italiana, dono da droga, que quer recuperar a cocaína perdida.

É uma das séries mais bem realizadas que já vi em português. A cinematografia é incrível e os atores, incluindo o comediante Salvador Martinha, protagonizam os seus papéis muito bem. Existem vários buracos no enredo, mas não há nada perfeito.

*I’ll never get used to the fact that you dream with something, not of something.

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Yeast of Yeetin’

Há uns dias uma jornalista feminista chamada Julie Bindel escreveu um artigo sobre o seu desdém com um tipo de pão: o sourdough, ou seja pão de massa ácida. A escritora é famosa no Reino Unido pelas suas opiniões fora de moda sobre um leque de questões polémicas, mas pela primeira vez foi alvo de “cancelamento” porque estava farta de comer pão grosseiro.

Pessoalmente, concordo com ela, mas apenas a noventa e nove por cento: numa entrevista ela disse que responsabiliza os homens machistas por terem infligido esta desilusão ao mundo. O quê? Tanto quanto sei, é mil vezes mais apreciado por mulheres. A minha esposa prefere, as minhas amigas online também gostam. Até existem mulheres aleatórias no Twitter que ameaçam retirar o meu direito de beber ginginha quando desprezo este pão desanimador. Elas sabem quem são(1).

Então porque é que Julie Bindel nos quer censurar a nós homens inocentes?

Deixem-nos em paz, feministas, estamos a comer pão normal. Com manteiga, caralho! Vocês devem é culpar a padeiriarquia(2)

The Pimping of Crustitution

(1) Bad form to make in-jokes, i know, but one of the correctors on the reddit group commented under something I’d said about sour things not being as good as sweet things, saying that I had lost the right to enjoy booze flavoured with sour cherries. So, I was just incorporating that into my rant, really.

(2) o trocadilho é desajeitado porque “patriarquia” não existe, segundo o priberam mas vi a palavra online e acho que o propósito é mais nítido do que seria se tivesse escrito ‘padeiriarcado’.

Thanks to Dani for the corrections

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Filha de Peixe Sabe Programar

Ufa, que alívio! A minha filha recebeu os resultados dos seus exames. Foi aceite* na universidade da sua primeira escolha. Vai estudar programação de videojogos na Universidade Abertay em Dundee, na Escócia. Estou tão feliz. Durante as últimas semanas, ela andava a dizer “chumbei, pai, eu sei que chumbei!” mas não, o seu trabalho deu em sucesso.
Pena que não saberá a alegria de migrar bases de dados como o seu pai, mas ser um criador de videojogos, por mais banal que seja, é trabalho honesto e não há vergonha nenhuma nisso.

* aceite vs aceita here

Obrigado pr01b1d0!

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Uma Conversa no Jardim

Falei com a anfitriã do Podcast sobre o qual escrevi há uns dias. Parece-me uma professora simpática, e o Podcast é uma ideia interessante. Éramos três: uma búlgara, uma espanhola e eu. O plano da professora é recrutar 15 pessoas de várias nacionalidades. Sendo fora de casa, no jardim do arquivo nacional, havia muito barulho de aviões a sobrevoar o bairro, rumo ao aeroporto Heathrow e de gansos à minha volta à procura de migalhas de pão. Quando ela marcar uma data para gravar o episódio, escolherei um lugar mais sossegado!

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Brasuguês Portuleiro

The book I’m reading right now is a classic Brazilian book, “Capitães da Areia” by Jorge Amado, about a group of street kids in Salvador da Bahia in the 1930s. My edition was published by a portuguese company called LeYa, and advertised under the government’s Ler+ initiative. At first, I thought someone at the publishing house had tweaked the language to make it more understandable to portuguese readers. Let me explain why, and why I was wrong.

As you probably know, (check here if you don’t) Brazilians typically address each other as “você” in their conversation and change the verb endings accordingly. “Tu” is more common in Portugal.

What’s weird about this book is, the characters all address each other as “tu”, after the European style, but the verb conjugations all use the você form. This looked like a mistake to me, so I went online to ask if maybe someone had screwed up at LeYa HQ.

Here’s my question in portuguese, and I’ll put a summary of the answer down below in English.

Capitães da Areia - Folha da Guarda

Estou a ler um livro brasileiro chamado Capitães da Areia, mas ao que parece a editora, Leya, mudou determinadas frases para soarem mais naturais a um leitor europeu. O resultado é… Surpreendente. Ou pelo menos eu fiquei surpreendido. Há montes de diálogo onde o pronome é “tu”, como se usa em Portugal, mas o verbo fica na terceira pessoa como se seguisse o pronome “você”

“Tu quer me fazer um favor”

e

“Tu liga para guarda?”

e

“Tu sabe, Sem-Pernas, que ele é um bicho calado”

Isto tudo está errado ou eu estou a enlouquecer? Ou… Talvez haja uma explicação melhor. É normal em PT-BR? A maior parte da história parece-me como o original (calão e vocabulário brasileiros, “trem” em vez de “comboio”, etcetera. Até há um daqueles “us” com hum… Umlaut… (Google) Trema! U com trema, que nem sequer existe em PT-PT, nem antes do AO nem depois.

Many of the replies said yes, this was a horrible disgrace, but there were quite a few brazilians who told me that all this is normal: it’s just a dialect spoken in some parts of southern Brazil. Besides, they added, the street kids haven’t really had the benefits of education, so it’s no surprise that they don’t have immaculate grammar.

There are a couple of ways of approaching the question of how to define good use of a language. The first is prescriptivism, which says there is one correct way of speaking and anything that deviates from it is wrong. The second is descriptivism, which starts from the premise that if people are speaking in a non-standard way and being understood by the people around them then they are just speaking a different version of the language, using different rules, and the linguists’s job is to describe what they’re doing, not to tell them they’re wrong. Most linguists and dictionary writers tend to be descriptivists on principle* with some exceptions**. I tend to be mostly descriptivist until someone tells me that ‘literally’ can mean ‘figuratively’, at which point I reach for my kalashnikov.

So, for example, you could argue that Brazilian portuguese is bad portuguese because it has diverged from the standard form of the language, spoken in Lisbon. But you could equally well say the same about Madeiran portuguese, or. Scouse English. In fact, if you wanted to be very hard-line about it, you could say portuguese is badly-spoken Latin since it has deviated from the language the Romans brought there in the third century BC.

Let’s say, for the sake of argument, that portuguese is it’s own language now, and that Brazilian portuguese is one among many dialects of Portuguese spoken in Portugal and it’s former colonies. But what about within Brazil? Is this Salvador de Bahia variant a separate dialect that has diverged and formed its own rules or are it’s speakers just hicks whose babbling would be scorned by educated people in Rio, let alonwle Coimbra?

The answer probably depends on your personality and your politics, but for me, as a learner, I just have to appreciate the book for what it is: a milestone of literature in portuguese. Let the linguists argue over the details.

If you’re studying a language, you should probably think like a prescriptivist because the people marking your work will be following a standard. If you use a você verb ending with someone you’ve addressed as tu, they won’t treat that as a delightful regional variation, they’ll just deduct marks. I made this point in what I thought was a light-hearted way to a strong descriptivist who told me “right and wrong don’t exist” when it comes to questions of language, but I got downvoted, suggesting most people disagreed. 😂

Cancelled for my prescriptivist tendencies

* If you haven’t read “The Meaning of Everything” by Simon Winchester I can recommmend it, and it addresses why early lexicographers made this choice.

**There have been some famously sarcastic and biased definitions in English dictionaries in the past. More recently, prescriptivist tendencies have come out in attempts by activists to get the meanings of words changed in order to short-circuit debate and bring about social change in a more top-down way. The most famous was this one in the aftermath of the George Floyd murder.

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Um Encontro Imprevisto

True story. I know it sounds made up, but it’s not, I swear. Thanks to Dani for the corrections.

Reece Shearsmith

Eu e a minha filha fomos ao pub ontem para participar no “Quiz” deles (um concurso de perguntas e respostas). Desta vez, convidámos a prima dela, mais uma nativa da Madeira, para participar na nossa equipa. Fomos pelo caminho à beira do rio porque é sempre bonita ao fim da tarde. Ela ia a falar sobre o seu ator preferido, Reece Shearsmith, que está atualmente numa série da Netflix.

Após algum tempo, havia um grupo de pessoas a andar na direção oposta e, atrás delas, duas ciclistas. Parámos para deixar as ciclistas passar, e o homem do grupo, vendo que havia alguém parado na sua frente, levantou a cabeça para dar uma olhada à sua volta. Assim que vi o seu rosto apercebi-me de que era o rosto do Reece Shearsmith.

Pus-me a andar de novo, boquiaberto. Ouvi a Olivia a perguntar “O quê???”.

“Isto aconteceu mesmo?” disse eu

“Aconteceu, sim” respondeu. “Mas porquê?”

E continuámos para o nosso destino, mais velhos e mais sábios*.

Ela contou a história à sua prima e (através do aplicativo Discord) a alguns amigos, mas não quer revelar o encontro nas redes sociais porque ninguém vai acreditar em algo tão rebuscado.

Ganhámos o quiz porque somos génios mas isso foi apenas a segunda coisa mais incrível da noite.

*We went on our way, older and wiser. I like this as a phrase and I enjoyed translating it, but really it’s likely to sound a bit weird in portuguese. It’s a bit self-indulgent to expect quotations to translate frictionlessly from one language to another.

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“O Último Cais” de Helena Marques

Começando este livro, custou-me a entender o primeiro capítulo porque havia tantas personagens em duas linhas de tempo distintas que perdi logo o fio à meada. Desenhei uma árvore genealógica de como as várias pessoas estavam ligadas, que tornou a compreensão mais fácil, e depois fiquei absorvido na história.

O enredo anda à volta de uma família madeirense, principalmente um casal que vive nos finais do século XIX. Há uma narradora que está a contar a história mas ela é quase invisível. Poucas vezes faz referência ao seu próprio ponto de vista, cem anos depois, quando herda uma escrivaninha e vários papéis da sua tia, que também é neta do casal.

Cada capítulo é dedicado a um familiar, principalmente os elementos femininos, e a sua perspetiva. Embora Marcos, o marido do casal, seja central ao enredo, não é o protagonista. A autora está mais interessada na experiência das filhas e irmãs e outras mulheres; na primeira página há uma citação de Herberto Hélder* “Começa o tempo onde a mulher começa”.

Seria muito fácil para um livro que tem lugar numa ilha ser insular ou paroquial, mas a autora deixa uma janela aberta para o mundo lá fora: Marcos participou na luta contra a escravatura em África após a sua abolição na Europa e nos Estados Unidos, e outros capítulos abordam o movimento pelos direitos das mulheres, conhecido por sufragismo, o crescimento do sentimento republicano e até o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica na forma de um cabo telefónico sob o Atlântico. Assim situando o seu elenco num palco mundial, pintando numa tela grande (estou a misturar metáforas mas não me importa), a autora evita um sentido de claustrofobia.

Adorei o livro e estou muito contente que mo tenham recomendado antes das nossas férias na Madeira.

*i originally wrote this as “há uma citação na primeira página de Herberto Hélder” (there’s a quote on one first page from Herberto Hélder) but that is confusing because “a primeira página de Herberto Hélder” makes it sound like HH has pages, and he probably doesn’t.

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“Ideias Concretas Sobre Vagas” de Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Araújo Pereira é um dos humoristas mais confiáveis que já li: sempre que abro um livro dele, fico divertido e, às vezes, até aprendo algumas coisinhas. Nunca encontrei um livro dele aborrecido (mas nunca experimentei o que fala de futebol!)

Ideias Concretas Sobre Vagas

Neste livro, o ganda Ricardo vira a sua atenção para a pandemia e os transtornos, as parvoíces e todas as mudanças daquela época na história do nosso mundo. Ler o livro é uma espécie de viagem no tempo: é quase possível adivinhar a semana na qual um capítulo foi escrito, analisando o que ele menciona: o confinamento, as medidas contra infeção, como lavagem de entregas, máscaras, o horrível vídeo de estrelas a cantar “Imagine” e por aí fora. E não desilude.

Tanto quanto sei, o título é um trocadilho baseado no duplo significado de “vagas”: como substantivo é um sinónimo de “ondas” e como adjetivo é a forma feminina e plural de “vago” que significa “impreciso”. Portanto pode significar “sobre as vagas do vírus” ou “sobre ideias vagas”.

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“Choupos” de Adília Lopes

Choupos de Adília Lopes
Choupos

Ouvi falar desta autora e, logo no dia seguinte, um livro dela caiu no meu cesto no FNAC. Confesso que o achei um pouco aleatório. Poesia, aforismos, esboços verbais… para mim, há nisto uma certa falta de coerência, mesmo que tenha gostado de várias páginas.

Não sabia o que queria dizer o título. É uma espécie de árvore – a que nós chamamos de “Poplar”.