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E O Céu Mudou de Cor – Israel Campos

Neste romance angolano, vemos o mundo do ponto de vista de um jovem que mora num país opressivo, que é ficcional mas é uma versão (se não me engano) da Angola atual. Embora o narrador seja o protagonista, o personagem mais interessante (para mim) é o seu primo, Mateus. Idealista e lutador, este jovem enfrenta a corrupção quotidiana e recusa aceitar os comportamentos e as cunhas que estão a enfraquecer o seu país. Na perseguição deste objetivo, o Mateus, o narrador e um amigo deles, encontram o Sr. Zé que quer levar a cabo uma mudança social. O narrador é mais novo do que o Mateus e não entende perfeitamente o que está a acontecer ao seu redor.

Com humor e emoção, o autor lança uma crítica contra vários aspectos do sistema social. Claro que não conheço o seu país suficientemente para julgar quão exato seja esta crítica, e é muito provável que tenha perdido algumas coisas, mas foi interessante vislumbrar o mundo pelos olhos do seu protagonista.

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O Chefe de Cozinha Está de Volta.

A segunda tentativa de fazer chanfana correu mil vezes melhor do que a primeira. A cozinha não acabou em chamas, ninguém morreu e enfim a carne era suculenta e deliciosa. Arroz de couve-flor não é o acompanhamento tradicional deste prato, mas não me importa: era preciso comer a couve-flor antes de ela ficar podre.

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Não Há Estrelas No Céu – Rui Veloso

Translation time! I quite like this one, and it has some good expressions in it. It’s about how hard it is to be young. I checked, and in case you’re wondering he released it in 1990 when he was 33, so we’ll let it pass.

PortuguaêsInglês
Não há estrelas no céu a dourar o meu caminho
Por mais amigos que tenha, sinto-me sempre sozinho
De que vale ter a chave de casa para entrar?
Ter uma nota no bolso p’ra cigarros e bilhar?
There are no stars in the sky gilding my path
No matter how many friends I have I always feel alone
What’s the point of a housekey to get in?
Or a note in my pocket for cigarettes and billiards?
A primavera da vida é bonita de viver
Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover
Para mim hoje é janeiro, está um frio de rachar
Parece que o mundo inteiro se uniu p’ra me tramar
It’s beautiful to live in the springtime of life
As soon as the sun shines, straight away it rains
For me today is January, freezing cold
It seems like the whole world is conspiring against me
Passo horas no café sem saber para onde ir
Tudo à volta é tão feio, só me apetece fugir
Vejo-me à noite ao espelho, o corpo sempre a mudar
De manhã ouço o conselho que o velho tem p’ra me dar
I spend hours in the café, not knowing where to go
Everything around is so ugly I just feel like escaping
I see myself in the mirror at night, my body’s always changing
In the morning I hear the advice the old man has for me
A primavera da vida é bonita de viver
Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover
Para mim hoje é janeiro, está um frio de rachar
Parece que o mundo inteiro se uniu p’ra me tramar
It’s beautiful to live in the springtime of life
As soon as the sun shines, straight away it rains
For me today is January, freezing cold
It seems like the whole world is conspiring against me
Vou por aí às escondidas a espreitar às janelas
Perdido nas avenidas e achado nas vielas
Mãe, o meu primeiro amor foi um trapézio sem rede
Sai da frente, por favor, estou entre a espada e a parede
I’m going over there, secretly, to look in at the windows
Lost in the avenues and found in the alleys
Mother, my first love was a trapeze with no net
Get out of the way please, I’m between the sword and the wall*
Não vês como isto é duro, ser jovem não é um posto
Ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto
Porque é que tudo é incerto, não pode ser sempre assim
Se não fosse o Rock and Roll, o que seria de mim?
You don’t see how hard it is, being young isn’t easy**
You have to face the future with a spotty face
Why is everything uncertain, it can’t always be like this
If it wasn’t for Rock and Roll, what wojuld become of me?
A primavera da vida é bonita de viver
Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover
Para mim hoje é janeiro, está um frio de rachar
Parece que o mundo inteiro se uniu p’ra me tramar
It’s beautiful to live in the springtime of life
As soon as the sun shines, straight away it rains
For me today is January, freezing cold
It seems like the whole world is conspiring against me
Não há estrelas no céu (não, não, não, não há)
Estrelas no céu (não, não, não, não há)
Estrelas no céu (não, não, não, não há)
Estrelas no céu (não, não, não, não há)
Estrelas no céu (não, não, não, não há)
Estrelas no céu…
There are no stars in the sky (no, no, no there aren’t)
Stars in the sky (no, no, no there aren’t)
Stars in the sky (no, no, no there aren’t)
Stars in the sky (no, no, no there aren’t)
Stars in the sky (no, no, no there aren’t)
Stars in the sky…

*Nice expression! Obviously an equivalent of “between a rock and a hard place”

**The translation is simplified, I think: as far as I can tell, “ser x não é um posto” is a way of saying it isn’t just an easy job that comes naturally, implying you really have to be worthy, or to work hard for it. See here for example, or here.

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She’s a Pun Goldmine

Toda a gente terá ouvido falar disto, claro, não é nada novo, mas o Partido Democrata nos EUA já disse adeus ao seu candidato presidencial e está num processo de escolher um novo candidato para perder a eleição em Novembro*

A candidata mais provável tem um nome, Kamala, que dá (pelo menos) duas hipóteses de trocadilhos. O mais comum é “com mala”, mas acho que este vídeo sugere mais uma alternativa.

O nome do seu oponente, Trump, significa “Peido” em inglês (EN-GB), portanto fico feliz por ver que os democratas também têm um candidato cujo nome é uma fonte de risadas juvenis.

Boa sorte, Kamala (se for candidata mesmo), seja com ou sem mala, espero que venças aquele palhaço cor de laranja.

*I know this sounds negative, but if I’m pessimistic now it’ll be less of a shock later when the inevitable happens. We are, as they say on Dad’s Army, doomed.

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“Aquilo É Estado”

Mais uma expressão encontrada no meu romance angolano, “E O Céu Mudou de Cor”. Durante uma conversa entre a tia e o irmão do narrador e o filho dela, ela anda a repetir a expressão “aquilo é Estado”, com letra maiúscula na última palavra. Fiquei ligeiramente confuso porque não entendi o que significa Estado neste contexto, mas após ter perguntado à minha professora, e depois pedido conselho aos sábios do Reddit, parece-me óbvio, e mal acredito que o achei difícil.

A tia é um funcionário num serviço na administração pública (o governo, o estado) e por isso é pouco trabalhadora. Há quem ache que todos os funcionários no setor público têm esta atitude e sem dúvida existem também funcionários que realmente têm. A falta de responsabilidade por parte de uma pessoa cujo emprego é garantido, e a falta de financiamento disponível para desembolsar bens ao público dá num serviço que realmente não serve para nada. Os funcionários fazem orelhas moucas aos clientes.

Ou isso acontece mesmo ou um cliente que foi recusado por um funcionário culpa a preguiça e a arrogância dos funcionários. Mas é claro que, neste livro, a tia do protagonista é assim: uma funcionária que não funciona, um exemplo de corrupção do baixo nível.

Um membro angolano da comunidade r/Portugal confirmou que a frase e o sentimento são comuns em Angola.

Mas claro que Angola não é o único país que tem estes problemas. Existem por todo o lado, mas acho que o escritor pretende criticá-los na sua própria terra. Mais tarde na mesma história, o irmão diz que ele vai procurar trabalho e a tia responde com mais um exemplo de injustiça: “Não te preocupes(…) Nem vais ter que te dar ao trabalho de procurar por emprego nenhum. Já tenho uma cunha montada para ti (…) Já tá tudo acertado (…) podes até começar já amanhã se quiseres, o meu chefe não se importa”. A oferta é rejeitada porque o seu sobrinho não quer ficar metido num compromisso injusto: “Os tempos mudam e vão mudar, tia!”

Esta palavra “Cunha” já é conhecida porque surgiu no diálogo do “As Crónicas dos Bons Malandros” sobre o qual escrevi há 3 anos. Significa uma oferta de ajuda, emprego, ou outra bem, feita por uma pessoa influente, e é mais um exemplo de corrupção.

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Chanfana

A única vez na minha vida que comi carne de cabra foi em Coimbra, num restaurante perto do centro comercial. O prato é chamado chanfana, e é uma receita tradicional à base de carneiro ou de cabra.

Chanfana

Se a carne for velha, não importa, porque será assada até se tornar tenra e por isso esta receita é vista como boa opção para carne dura de animais mais maduros. Tradicionalmente, a carne é assada numa caçoila de barro preto com vinho tinto, alho, pimenta e folhas de louro.

A receita é muito antiga mas existem diversas histórias sobre a origem. Como resultado, há duas regiões que disputam a coroa da terra da chanfana. O concelho de Miranda do Corvo é conhecido por ser a Capital de Chanfana. Entretanto, Vila Nova de Poiares é a Capital Universal da Chanfana e tem uma marca registada para demonstrar a sua supremacia no mundo da carne assada.

Quando estudas português durante anos e finalmente chegas na secção C-H-A-N-F no dicionário.

É muito importante não confundir “chanfana” com “chanfrado” porque ninguém quer pedir um prato de carne assada e receber um guru de auto-ajuda, mesmo se for bem passado com umas boas mãos cheias de alho.

I actually made chanfana the day after writing this. It was so bad it almost caused a diplomatic incident between Portugal and Britain. Halved the ingredients but didn’t reduce the cooking time enough and it was very, very dry.

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Cabidela

Scratching – Note-taking on this chat show. Like the last one, it’ll be rough, just trying to understand it, and typing while they are talking so probably missing a lot, so the end result won’t be very polished

O chefe é o presidente da rota e veio fazer cabidela tradicional. Há duas galinhas na cesta

Uma cabidela não precisa de galinha – pode ser de coelho, cabrita, lampreia, leitão ou mais

Galo do campo, sangue, louro, sal, pimenta, vinho tinto, cebola, água… hum…. O chefe fala enquanto o rui corta a cebola e prepara o caldo com água, cebola e ossos

Uma espanta-espíritos – um presente dos fãs da programa?* Uma bandeja**

Coloca o caldo na panela com a cebola e depois a carne de galinha.

O rui trabalha num restaurante em Viseu. O apresentador tem ar desajeitado.

Arroz vai para a panela.

Mais caldo e o chefe está a falar de visitar mais de quarenta restaurantes. Gostou de ver as suas maneiras de cozinhar. Vinhos – todas as regiões. Importante ter a quantidade certa de sangue e de vinagre. Três colheres de sopa de vinagre num copo de sangue. Precisa de arroz bom e uma boa galinha. Qualidade de vinagre e de vinho conta.

Explica critérios de julgamento na concorrência – apresentação, qualidade das ingredientes, aspetos técnicos

Coloca o sangue, tempera o prato e dá um toque de vinagre.

Eh pá, está a servir a comida mas como é que o arroz já está cozido? No final. os apresentadores revêm a receita. Para ser sincero, não me parece assim tão saboroso mas o chefe é que sabe.

*Não, são prendinhas do CERCI

** And I missed conchas de vieiras (um molusco) e ainda uma medalha e um tabuleiro lindíssimo

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Mais Aventuras da Minha Mãe

Escrevi um texto ontem sobre a minha mãe, e eu sei que há de haver muitas pessoas que querem saber mais sobre o seu modo de vida. Não? Pois, não me importa, preciso de um tópico. Calem-se!

Ela tem muitos amigos mas há alguns mais bem-vindos do que outros. Na mesma semana em que ela precisou de ajuda com o caixote de lixo, foi visitada pela outra avó da sua neta (a mãe da mãe da filha do meu irmão… talvez este texto precise de uma árvore genealógica para ilustrar isto). Chegou para fazer uma visita de médico* mas acabou por ficar durante mais de uma hora a falar a cem à hora, interrompendo a rotina (a rotina da minha mãe consiste em fazer todas as palavras cruzadas crípticas nos jornais em 5 minutos e, a seguir, milhares de sudokus). Ainda bem que a visitante partiu, porque se tivesse ficado mais cinco minutos a minha mãe matava-a.

Como os portugueses dizem, “o hóspede e o peixe aos três dias se aborrece”, mas há quem aborreça após 3 horas.

*Like “a flying visit”

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A Recolha do Lixo

O livro “E O Céu Mudou de Cor” de Israel Campos começa assim:

E o autor descreve muito bem o nojo de encontrar um enxame moscas a voar em volta de um caixote de lixo cujo conteúdo está a apodrecer durante duas semanas. Felizmente, este tipo de situação não é muito comum, mas acontece de vez em quando, por exemplo quando há uma greve.

O parágrafo fez-me lembrar uma conversa sobre a minha mãe que precisa às vezes da ajuda do meu irmão e os seus amigos que moram ao pé dela. Ela não gosta de aceitar sempre, porque prefere fazer todas as tarefas domesticas sozinha para se manter em forma. Os caixotes de lixo têm rodinhas, portanto, quando passa a recolha de lixo, é bastante fácil para ela levá-los para a calçada. Mas quando estão cheios os caixotes, pesam duas ou três vezes mais do que ela. Por exemplo, há uns dias, quando retirei as ervas daninhas, o caixote de reciclagem de lixo verde estava a transbordar, e um amigo prestativo veio colocar os caixotes todos na terça-feira seguinte. Que simpático!