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É Tudo Uma Questão de Tempo – José Jorge Letria

47586435_756354014698324_6635581299585187840_nMais uma tentativa de apreciar a poesia portuguesa… Gosto muito de José Jorge Letria desde ouvi um poema dele num podcast. Foi a primeira vez (e continua a ser quase a única vez!) que gostei de um poema português. Lamento que ainda falte paciência para ler poesia em qualquer língua, e o problema fica ainda pior quando tenho de alcançar o dicionário a cada 4 linhas! Mas de vez em quando uma luz penetra a escuridão da minha ignorância e consigo ver a beleza da escrita. Às vezes reli os poemas mais de uma vez para aumentar a experiência.

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Orphans of Marx

“Órfãos de Marx” from “É Tudo Uma Questão de Tempo” by José Jorge Letria

Orphans of Marx

(Roughly translated on the train)

We had never read Marx

But we talked as if we were heirs

Of the old German jew who wrote in London

The general theory of that vast utopia

That would finally make us

Fighters for the most generous of illusions:

The transformation of the world

In the end, what did we transform?

We believed that the books,

The murals and the closed fists

Opened doors to a better age.

Many gave up, others wound up owing to

Marxism the shattering revelation

Of their first great passion, fleeting and suffocating.

Sometimes we sat on the benches

Of the avenue named after Liberty

Drunk on dreams and purpose

And we even proselytised the sparrows and pigeons

For our romantic struggle.

And we discovered that among us

Were scoundrels and even worse,

Because its not the quality of the belief

That makes the quality of the believer

Now that my second grandchild

Is on the way and the first

Has the most beautiful smile in the world

I can’t shake off the mournful question:

Where did we go wrong? Who failed in our name?

What will I have to say to them

When they ask me: grandpa, was it you

In this picture, trying to change the world?

If I knew now where old Marx

Ended up, I would want to know

If it’s possible to reach happiness

Through the class struggle.

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Instagram

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Isto é um lembrete da altura em que a frase “não há razões para estarmos* alarmados**” foi usada nos dias ainda mais escuros do que os actuais, e quando os Estados Unidos tinham um presidente melhor. Estou mesmo maravilhado com os escritores e jornalistas que trabalharam juntos durante a Segunda Guerra Mundial para manterem o povo motivado, apesar de que alguns exemplos já parecem doutro planeta. Claro que isso é propaganda e hoje em dia parece-nos algo sinistro mas… Ora, nos anos quarenta*** foi muito importante que todos trabalhassem juntos.

 

*=I originally wrote “estar” which is what Público uses in its news report but Sophia assures me Público slipped up and it should be infinitivo pessoal.

**=Se não ouviu dizer disso, a frase “no need for alarm” refere-se a esta historia nos jornais http://www.dn.pt/mundo/interior/londresatentados-trump-critica-reacao-de-presidente-da-camara-de-londres-8534412.html

***=Actually should just be a 40 but I like writing out the words, if ony because it helps me to rememberhow to spell them!

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A Vida Nos Livros

“A Vida No Livros” de José Jorge Letria – Tradução

Nem dez vidas me bastaram, eu sei

Ten lifetimes wouldn’t be enough, I know

para ler os livros que fui arrecadando

to read the books I’ve been collecting

e que me desafiam para que

and that challenge me because

me perca neles como um peregrino

I lose myself in them, like a pilgrim

nas rotas de um mitigado desespero.

on the trails of a muted despair

Sou eu que pertenço aos livros

It’s me that belongs to the books

e não o contrario, já o disse tantas vezes

and not the other way around, I’ve said it many times

pois o que eles vão entesourando

because the treasure they are hiding

é a pequenez do tempo que me resta

is the shortness of the time that remains to me

para os ler e neles me encontrar.

to read them and find myself in them

Os livros falam de vidas e de guerras

The books speak of lives and wars

e eu só falo do que os livros contam,

and I only talk about what the books tell me

esquecido que ando do que vivi

oblivious that I’m wandering from what I lived

e bem podia e devia contar-vos.

and can and should tell you

São os livros que me acenam

It’s the books that move me

apontando-me para os mostradores

pointing me to the faces

dos seus relógios imóveis e opacos,

of their motionless, opaque clocks

assim como quem diz: por mais que vivas,

as if they were saying: no matter how you live,

por mais que faças, tu partirás

no matter what you do, you will depart

e nós, bem ou mal, havemos de ficar,

and we, good or bad, have to stay

porque não nos cansámos de viver

because we never got tired of living

a ficção de que são feitas estas vidas.

the fiction from which these lives are made

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Era Uma Vez Um Cravo

notebook_image_767045“Era Uma Vez Um Cravo” é um livro escrito por José Jorge Letria sob a forma de um poema. Conta a história de um cravo na manhã do dia 25 de Abril de 1974. Uma florista ofereceu-o a um militar que passou pela frente da loja dela. Pô-lo na sua espingarda. Há muitos desenhos da vida lisboeta na madrugada da revolução: as praças, as pessoas com penteados e roupas típicas dos anos setenta… Mas até para mim, um cidadão de um outro país, o poema deu-me um sentido de emoções do povo: a alegria, o orgulho, o alívio de serem libertados enfim.

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Dia Mundial da Poesia

jose_letriaTradução

O poema nasce de um impulso,
The poem is born of an impulse
de uma febre, da tirania de uma miragem,
from a fever, from the tyranny of a mirage
da tentação sonora de uma metáfora,
from the sonorous temptation of a metaphor
do vazio que teme transformar-se em nada.
from the emptiness that fears becoming a void
Depois é a escrita, é o trabalho da mão
Then comes the writing, the work with the hand
sobre a matéria incandescente das sílabas.
on the incandescent material of syllables.
E, quando damos por nós, é de corpo inteiro
And when we discover ourselves, it’s the whole body
que estamos na fragilidade do poema
that we are in the fragility of the poem
como se tivéssemos ousado cavalgar numa nuvem
as if we had dared to ride on the back of a cloud
para desafiar todos os poderes do céu.
to challenge all the powers of heaven
Quem ousará explicar este sortilégio?
Who dares explain this sorcery?
Nem sequer os deuses, pois esses
Not even the gods, because they
nasceram da própria erupção do verbo,
were born in their own verbal eruption
da explosão da prece fingindo ser capaz
from the explosion of prayer that claims to be capable
de vencer o sofrimento e o assombro.
of conquering suffering and dread.
O poema nasce, afinal, da ilusão
The poem is born, after all, from the illusion
de que ainda resta algo para ser dito
that there still remains something to be said
e de que o silêncio é um cativeiro fugaz
and that silence is a brief captivity
em que as palavras se amotinam
in which the words rebel
para de novo voltarem a ser voz.
to return to being a voice again.

José Jorge Letria, O Livro Branco da Melancolia (2001)

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Os Painéis Publicitários

billboardsDurante a aula de hoje, havia um texto sobre painéis publicitários. Lembrei-me do poema “Song of the Open Road” (A Canção da Rua Aberta”) de Ogden Nash, o poeta e humorista americano

Decidi fazer uma tradução:

Acho que nunca verei
Um painel publicitário tão bonito como uma árvore
Talvez, a menos que caiam os painéis,
Eu nunca verei uma árvore

Em inglês:

I think that I shall never see
A billboard lovely as a tree
Perhaps, unless the billboards fall
I’ll never see a tree at all.

(em algumas publicações, a terça linha começa “indeed” em vez de “perhaps”)

3 verbs and I only got one of them right. Confusing conjuntivo weirdness blinded me to the obvious “just put it in the future tense” option!

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Os Feijões: Uma Poema

Eis uma tradução dum poema de William Shakespeare para praticar as minhas orações proporcionais

notebook_image_679298Os Feijões, os feijões
São bons para o coração* 
Quanto mais os comeres
Mais te peidas
Quanto mais te peidares
Melhor te sentes
Portanto vamos comer feijões
Em todas as refeições

Desculpem-me, os meus amigos, mas menti. Não foi escrito por Shakespeare. Eis a verdade, crua e nua:É um poema do pátio da escola, mas “O Cisne de Avon**” teria o escrito se não estivesse ocupado em escrever todas estas peças de teatro!

I’m slightly embarrassed at how many people offered corrections on this and saw me at my worst, telling fart jokes I remembered from 1977, but never mind. Anyway, footnotes:

*=I want this to be “os corações” for the rhyme but tbh, “for the hearts” doesn’t really make sense unless you happen to be a Time Lord, so poetry loses out to biology in this case.

**=”The Swan of Avon”. I have no idea if this phrase means anything at all outside of this little island.

Thanks again to Sophia, Rubens and Beatriz for corrections on iTalki

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Por Falta Dum Prego

Tentei traduzir um poema inglês, usando o pretérito imperfeito do conjuntivo… Espero que o efeito não seja demasiado horrível….

Se não houvesse um prego, a ferradura perder-se-ia.

Se a ferradura se perdesse, o cavalo cairia.

Se o cavalo caísse o cavaleiro seria morto.

Se a cavaleiro fosse morto, o exército se renderia

Se o exército se rendesse, o Reino seria arruinado.

Por falta dum prego, o Reino seria arruinado.

Reflections

This is a translation of a poem in English that has quite a few variations but goes something like this:

For want of a nail the shoe was lost,
for want of a shoe the horse was lost,
for want of a horse the knight was lost,
for want of a knight the battle was lost,
for want of a battle the kingdom was lost.
So a kingdom was lost—all for want of a nail.

I only picked it because it seemed like a good excuse to use a lot of subjunctives.

When I originally wrote it I made the silly mistake of simply looking up the word “nail” in the dictionary and simply using the first word (“Unha”) that came up. Thus it was that I published a notebook entry in iTalki that seemed to suggest that the kingdom could be lost because of the lack of a fingernail!