Li mais uma banda desenhada logo depois d’O Segredo de Coimbra. Rugas foi escrito em espanhol, se não me engano, mas já vi vários leitores portugueses a ler e a curtir a versão traduzida. A história tem muito em comum com o enredo do filme “Voando Sobre Um Ninho de Cucos*” mas é mais pacata. O protagonista é um banqueiro reformado que chega a um lar de** idosos. Receia a possibilidade de ficar perdido por causa da sua doença mental. Um outro internado, (que corresponde ao papel desempenhado por Jack Nicholson no filme) tenta ajudar os menos sortudos a manter a sua independência, mas ao mesmo tempo não hesita em tirar partido da sua inocência. É uma personagem interessante: caótico mas com coração de ouro. Os quadrinhos são bem desenhados e a história bem contada. Li com muito prazer.
*One Flew Over the Cuckoo’s Nest has a Brazilian and a Portuguese translation. In Brazil it’s “Um Estranho No Ninho”
**A home of old people, not a home for old people!
Today’s review is about a historical novel called O Último Ano em Luanda (the Last Year in Luanda). I’ll link to the papery book here but as I say in the review, I used the audiobook and I was really impressed by the narrator’s clear, uncomplicated reading voice so I’d defintely recommend it for a confident, intermediate level learner.
Thanks to Dani for the corrections
O Último Ano em Luanda
O Último Ano em Luanda é um romance de Tiago Rebelo que eu “li” com os ouvidos. O enredo tem lugar durante os últimos anos do império português – antes e depois da Revolução dos Cravos. Os protagonistas mudam-se para Angola apesar do movimento de libertação estar a ganhar força. O marido é um piloto que ganha dinheiro a fazer contrabando, mas a situação militar, o caos do retorno dos portugueses e os laços dele com os rebeldes levam a família até à beira do desastre. O livro tem a atmosfera dos filmes clássicos americanos sobre a guerra do Vietname. O suor, o terror, a falta de lei e ordem. Todos se combinam numa história incrível, e a narradora lê numa voz nítida, o que ajuda muito!
First of a series of reviews of books I’ve read recently. Thanks to Dani for the corrections.
O Segredo De Coimbra
Esta banda desenhada serve principalmente como veículo duma exposição dos vários tesouros científicos armazenados na universidade: aparelhos experimentais fabricados durante a infância do nosso conhecimento do mundo físico. Um pesquisador obcecado com espelhos e a “anamorfose” agenda uma reunião com um professor do Gabinete de Física. Os dois falam-se e o historiador conta a história de um príncipe, preso numa ilha. O príncipe está a ser enganado pelo seu conselheiro, que usa as mesmas ilusões óticas usadas nos aparelhos científicos que aparecem nos quadrinhos. Acima de tudo, é óbvio que o autor do livro estava fascinado pelo espírito de inquérito daquela época.
In English, as you know, FROL stands for Farting Raucously Out Loud, but I came across the same word in the title of a book I’m trying to read (God the vocabulary though – I don’t know how much more of this I can take!)
The book is Ronda Das Mil Belas em Frol by Mario de Carvalho. Here it is ony my Insta, but obviously the caption is just a silly joke.
Apparently Frol can refer to the foam on a wave: sea-spume, something like that. But it’s also an archaic spelling of “flor”, apparently. So they’re beautiful women in bloom. Makes sense. I find it really odd that the old spelling is so much like a joke, as if someone has deliberately swapped two consonants for a laugh and it caught on.
Este livro é meu terceiro do João Reis. Geralmente, acho o seu estilo um pouco difícil: a frequência com que estico o braço para agarrar o dicionário é cem vezes maior do que quando estou a ler um thriller como Segredo Mortal, por exemplo. Mas esta vez, consegui ler o livro inteiro sem sentir que estava a perder alguma coisa por falta de domínio da língua. Pois bem, qualquer evidência de progresso é muito bem-vinda!
Cadernos da Água
O género do livro é completamente diferente do último. Trata-se duma história distópica que se passa num futuro próximo mas não é ficção científica ou futurista como Admirável Mundo Novo, por exemplo. É um romance quase profético que conta a história de um possível futuro que pode acontecer daqui a poucos anos. As alterações climáticas dão em escassez de água e de comida (porque o crescimento das plantas também depende da disponibilidade de água). Segue-se uma sucessão de eventos catastróficos incluindo uma nova pandemia e uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Se não me engano, o livro foi escrito antes da guerra atual mas ainda assim… O enredo às vezes é indistinguível das notícias!
No meio deste transtorno, uma guerra surge entre os países do sul da Europa e do norte de África. A Península Ibérica torna-se um campo de guerra; a República portuguesa dissolve-se e portugueses e espanhóis (entre outros) fogem para a Escandinávia e Alemanha. O meu país não é mencionado. Quem sabe? Talvez as ilhas tenham afundado sob as ondas do Atlântico durante “o primeiro evento” ou talvez o primeiro-ministro seja a Priti Patel. Mas seja como for, durante este exílio, os sul-europeus vivem em “centros de acolhimento” e é aí que a protagonista do livro começa a escrever no seu caderno.
O futuro, segundo este romance, é sombrio, até desolador, mas será esse o futuro se não fizermos mudanças na nossa vida. Não há motivo para ser otimista.
Pardalita é um romance juvenil, contado por prosa (a tipografia parece ser escrita pela mão da narradora) com desenhos. Às vezes, as palavras e os desenhos combinam-se como banda desenhada.
A protagonista é uma adolescente portuguesa de dezasseis anos que tem um namorado e alguns bons amigos mas tem uma paixão escondida por uma rapariga da escola dela. A história é sobre a vida dela, com os amigos, a mãe (que é uma lutadora feroz pelos direitos dos refugiados) e o namorado, enquanto os seus sentimentos perante a moça desenvolvem-se.
É uma história simples e doce – uma leitura fácil, pouco exigente e com personagens simpáticas. É bem desenhada e bem escrita e curti as duas horas que passei a ler.
Comprei este livro há um ano e 3 dias, no dia 12 de junho de 2021. Transferi-o pata a estufa logo depois. Está lá há um ano, a ser mordiscado por caracóis. Já fiz quase trinta por cento. Apesar da capa ser basicamente lixada, as páginas vazias permanecem surpreendentemente limpas. Acho que é capaz de sobreviver mais dois anos!
Este livro de Miguel Pires e Majory Yokomizo é uma banda desenhada que conta a história de um velho que vive numa ilha. Todos os dias, pesca no mar com romãs como isco e apanha pedaços de vidro que, ao ser montados (tipo puzzle), revelam as suas memórias. O leitor vem a entender que este homem tem demência e a sua ilha é uma alegoria – um exílio mental onde fica prisioneiro enquanto não se lembra da sua própria vida.
Acho que o escritor lida com este assunto desafiante de modo muito sensível. Os desenhos e o argumento funcionam bem juntos e o resultado é tocante.
While I was reading As Telefones Someone asked me if I was enjoying the book because the author “is pretty militant” which surprised me because I don’t really get that from the books at all. There’s one racist incident I remember from Marremoto, but I don’t really get strong militant vibes. Obviously, by writing about people in the margins of society like Boa Morte da Silva, I guess there’s an implied criticism of the system as a whole there, but I don’t think it’s any more than an author should feel for the subjects of her books. And what’s literature for if not to show us a different perspective on life?
I tried watching an interview with her to see if I could understand what he meant. Here she is on RTP2, drinking coffee with José Navarro de Andrade and talking about Maremoto. My first impression as that she just comes across as just a writer wanting to talk about her book. OK, she admits the dreadful crime of not having read O Ano Da Morte de Ricardo Reis by José Saramago, but she doesn’t say anything I’d describe as “militant”. Interestingly, (if I’m understanding correctly) the interviewer tries, at around the eleven minute mark, to get her to admit that the inconsistencies in the biography of the main character are because she is trying to make him a pastiche, representative of all African immigrants in Lisbon, to which she says, no, the protagonist is just writing his own story in the form of a letter to his daughter and he isn’t always a reliable or coherent narrator. QA lot of his personality comes from a real person she knows and yes, it’s messy, but that’s how life is sometimes.
I’m not sure where the idea that she is militant comes from. She seems very empathetic – to the point of avoiding any attempt to educate the reader because she feels like it gets in the way of the protagonist’s own voice.
She quotes Peter Geach, husband of Elizabeth Anscombe, in the closing minutes. I can’t find the quote online but it’s something like “It’s possible for a man to lose his one chance while he is still young, and live to be old, feeling happy and at ease in the world but in the eyes of God, be dead”. That’s heavy stuff, man, but it’s Christian ethics, not Marxism, feminism, CRT or whatever. So I’m at a loss to know where this “militant” thing has come from, unless she was more of a firebrand in her youth.
Today’s post is a review of “As Telefones*” by Djaimilia Pereira de Almeida.
Este livro deu-me água pela barba**. É fino mas o vocabulário é difícil. Mas, apesar de ser uma leitura desafiante, não fiquei aborrecido porque a autora, Djaimilia Pereira de Almeida, sabe escrever. As frases fluem bem e há momentos de humor, tal como a conversa entre a mãe e a filha na qual a mãe explica que espíritos malignos começam a voar às três de manhã. Afirma que estes espíritos entram pelas janelas abertas e “aproveitam-se das mulheres que dormem sem cuecas”. Acrescenta que essas mulheres dão à luz (ou seja dão à escuridão) bebés que elas amamentam no mundo dos espíritos como amantes do diabo. Quando se acordam nem sequer percebem que já não são elas mesmas, mas estão a viver uma vida paralela no mundo das trevas. Sim senhora.
As Telefones
Mas além destas opiniões malucas da velha, há uma sensação comovente perante a relação entre mãe e filha que se conduz na série de conversas por telemóvel e pessoal.
* Wait, what? Telefone is a masculine word so why isn’t it Os Telefones. I asked about this on reddit r/Portuguese and nobody was very sure, not having read the book, but the popular theory (best explained by u/Uyth) was that it was “Uma Alcunha” – a kind of nickname, usually based on some physical characteristic of a person (think “Blackbeard” in English). Why would that be? Well, sometimes you’ll see a placename like “O Arco do Bandeira” where the article doesn’t match the noun. In this example, Bandeira means flag and it is a feminine word. The reason for the mismatch is because Bandeira isn’t a word as such, it’s someone’s name – a businessman named Pires Bandeira had the arch built in the Baixa Pombalina district and it is still named after him today. If the person has an alcunha, it works the same way. Say if someone has been given a nickname which is a feminine word (say “carica”), but they are male. He would be called “o carica” – the feminine word gets a masculine article because of who the name is attached to. So in the title of the book, maybe the Djaimilia Pereira de Almeida is referring to these women as The Telephones because the book is about their long-distance conversations – and that’s why she used “As” in place of “Os”. Best guess. It isn’t spelled out in the book, but that’s what it seems like.
**Não costumo usar barba mas demorei tanto por causa de olhar no dicionário tantas vezes que a minha barba cresceu e já pareço Moisés.