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O Guardador de Rebanhos – Alberto Caeiro

Tendo lido um excerto deste conjunto de poemas de Alberto Caeiro (um dos Heterónimos de Fernando Pessoa), decidi ler o resto, para acompanhar uma das minhas sessões de fazer um puzzle e ouvir audiolivros. Existe uma versão no youtube que é ótima, mas não pago pelo serviço sem anúncios e… ora bem, basta dizer que a poesia soa melhor sem anúncios…

Os poemas descrevem a sua vida solitária, a escrever poesia para estar sozinho, e a cuidar os seus pensamentos como se fosse um pastor a guardar um rebanho no campo. A filosofia deste poeta está em sintonia com a ruralidade no seu redor: “penso com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e os pés” e sente-se maior quando vê um céu aberto do que quando está numa cidade, rodeado por prédios. Um poema que me marcou é o número XX que compara o Tejo com o rio que corre pela sua aldeia. Ainda que o Tejo seja belo, é mais famoso, ou seja, mais público, e quando as pessoas o veem, pensam na sua história e no seu percurso da Espanha para o Atlântico e daí em direção à America. Mas o seu rio é o seu rio e mais nada, e “quem está ao pé dele está só ao pé dele”.

Acabei por ouvir três vezes, e acho que a gravação do poema seria um excelente acompanhamento para um passeio ou uma hora de jardinagem

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O Quinto Império

Ouvi falar do Quinto Império há muito tempo numa conversa com uma estudante de português que conheci no Insta, mas não pensei mais nele até recentemente quando traduzi o “A Vida na Estrada” dos Diabo na Cruz que se refere à ideia. Ainda mais recentemente, o nome de Padre António Vieira, (autor do Sermão de Santo António aos Peixes) surgiu numa aula, e aquele clérigo foi o divulgador principal do Império, portanto decidi resgatar este texto da pasta de rascunhos onde jaz desde 2022!

Visão de D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique (c.1665), Por Frei Manuel dos Reis – MatrizPix, Domínio público

Mas afinal, o que é o tal Quinto Império? Eis um Resumo da página de Wikipédia:

O Quinto Império é uma crença milenarista que fazia parte da mitologia do país durante a expansão do seu império ultramarino, e emprestou legitimidade e apoio religioso a esta fase de conquista. Foi construído a partir de textos anteriores, principalmente o mito das três idades promulgado pelo monge Joaquim de Flora e teve como origem o livro do Daniel, onde aquele profeta viu uma estátua com pés de barro e, apesar de ser composta de várias metais, os pés eram vulneráveis a uma pedra atirada por um inimigo. Segundo o Padre, cada parte da estátua representa um império do mundo antigo e o Império Português seria a pedra que derrubaria tudo, sendo o quinto e último império que duraria durante mil anos, estabelecendo a paz por todo o mundo e realizando a vontade de Deus.

É quase indispensável para um novo reino expansionista ter uma ideologia forte para motivar os seus funcionários e soldados

Os três pilares do movimento são os seguintes

  • O estabelecimento da nação portuguesa após a Batalha de Ourique*, supostamente com a ajuda de Jesus Cristo e o Anjo Custódio de Portugal (o assim chamado Milagre de Ourique). Isto seria a pedra descrita no texto supra.
  • O messianismo de Gonçalo Annes Bandarra, ligado à obra do historiador D. João de Castro, inventor da ideia da “Quinta Monarquia”
  • A restauração portuguesa sob a liderança de D. João IV após o desastroso período de domínio espanhol que se seguiu à morte de D. Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir e cujo resultado foi a crença que o novo rei restauraria a glória de Portugal e seria a cabeça deste novo império.

Este mito persistiu e serviu como pano de fundo d’A Mensagem, uma coletânea de poemas da autoria de Fernando Pessoa. Já li estes poemas sem preparação mas acho que é um livro que precisa de mais conhecimento do contexto histórico e cultural.

*Sou burro, eu sei, mas este nome “ourique” lembra-me da palavra ouriço, portanto imagino esta batalha como um exército de porcos-espinhos a lutar contra os mouros para a glória de Portugal e um grande cozido de minhocas e besouros.

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How Fernando Pessoa Saved Portugal

Yesterday’s post was about the strange case of Fernando Pessoa’s advertising slogan for Coca Cola in 1927. As I mentioned, there seem to be a few different perspectives on the motives of the people involved, but I don’t think the facts of the matter are in doubt.

Anyway, it turns out that there’s a short movie about the incident. It’s made by a French company but it’s in portuguese with English subtitles. Someone’s put it on Facebook. Hurry though, it might not be there forever. It’s a good length and very easy to follow, so I can recommend it even if your listening skills are underdeveloped.

The film has a slightly playful, surreal tone. The name of the drink os given as “Coca Louca” and it translates the slogan as “First you’re surprised, then you’re possessed”, then plays with that idea of possession by showing the minister for health convinced that the drink contains evil demons which need to be cast out by an exorcist with a bottle opener in the shape of a crucifix!

It also depicts the poet not as Pessoa himself but as Álvaro de Campos, one of the heteronyms, who appears in the film as a separate person, looking just like the man himself.

A still from the movie "Como Fernando Pessoa Salvou Portugal"
Fernando Pessoa Working Up a Thirst
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Álvaro de Copos

Ontem, escrevi um texto sobre Humberto Delgado, o “General sem Medo”. Na mesma altura, os aderentes da outra ideologia extremista, o comunismo, alcunharam-no de General Coca-Cola, troçando dele por ser um fantoche da OTAN* e dos EUA.

Mas décadas antes disto, tinha havido mais uma história interessante sobre a bebida e a reação portuguesa ao capitalismo americano. A Coca-Cola foi lançada no mercado português em 1927. Naquela altura, Fernando Pessoa era um escritor comercial além de ser um poeta (ou melhor “além de ser muitos poetas”) e escreveu um slogan para a marca: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”**. É um bom slogan, mas implica algo sobre o produto cujo ingrediente principal era basicamente cocaína: era muito viciante. O governo de Salazar já pensava em proibir o refresco, mas o slogan confirmou a decisão. Foi banido durante o resto da época da ditadura e não foi vendido no país até 1977, quando Mário Soares, então primeiro ministro da República, negociou um empréstimo de 300 mil dólares.

A cronologia é confusa: uma página tem uma imagem do Soares a apertar a mão do Presidente Ronald Reagan, mas Reagan passou a ser presidente em 1981. Os motivos também são confusos. Uma página deu impressão de Pessoa ter tentado derrubar o governo Salazarista com o slogan. Duvido disso. Suspeito que a maneira de contar a história depende do escritor e da sua opinião de Pessoa e do capitalismo americano. Pessoa escreveu um slogan para a marca. Então, isto significa que ele gosta da bebida? Ou que foi um ato de sabotagem? Salazar baniu-o porque era anticapitalista e queria proteger as empresas nacionais? Ou porque foi um capitalista que cedeu sob pressão do poeta? Os comunistas falam mal da Coca-Cola porque é uma ferramenta do capitalismo ou porque preferem o Compal?

*OTAN is NATO in portuguese but NATO is often used just because that’s the standard way of writing it and, after all, it’s an international organisation.

**How to translate this? The “-se” pronouns effectively make the verbs able to be used without an object, and the two verbs are cognates of “estranges” and “entrances”. First it estranges then it entrances… Hm, it doesn’t sound idiomatic does it? First it seems weird, then you’re hooked. Something like that is probably better.

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It Was A Good Effort

I feel a bit sorry for this fella trying to tell an interesting anecdote about that time he met the widow of Portugal’s favourite writer. Only one problem: Fernando Pessoa wasn’t married and, having died in 1935, even if he had been, it seems unlikely his widow would be in a fit state to hang around in museums having bants with Irish tourists.

People reckon he must have meant José Saramago, whose widow, Pilar Del Rio is still very much with us.

It’s so sad though. Great story, he’s showing interest in the local literature and football, it’s working, but he just muddled up the name. Oof. Totally the sort of thing I’d do but thank goodness, if it were me, there wouldn’t be anyone around to film it.

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Segue o Teu Destino

Translating one of the poems I’ve been learning. It’s by Ricardo Reis, one of Pessoa’s Hetronyms. I found it a bit inspiration-postery at first but it’s really grown on me, especially the last two lines of the first verse and the last two lines of the last:

Portuguese versionTranslation
Segue o teu destino.
Rega as tuas plantas.
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De Arvores alheias.
Follow your destiny
Water your plants
Love your roses
The rest is just the shadow
Of other people’s trees
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.
Reality
Is always more or less
Than we want
We alone are always
Equal to ourselves
Suave é viver.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
It’s easy to live
It’s great and noble always
To live simply
Leave pain on the altar
Like a votive offering to the gods
Vê de longe a vida.
Nunca interrogues.
Ela nada podes
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Look at life from afar
Never question it
It can’t tell you
Anything. The answer
Is beyond the gods
Mas serenamente
Imito o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
But serenely
Imitate Olympus
In your heart
The gods are gods
Because they never think of themselves
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The War on Ter Que-ism

I’ve seen occasional grammar guides arguing that it’s technically incorrect to use “ter que” to indicate obligation. For example in “101 Erros de Português que Acabam com a Sua Credibilidade” by Elsa Fernandes, she says “Ultimamente tem-se vulgarizado o uso da construção *ter que* para significar obrigação […] os especialistas indicam que, nesse caso, a forma mais correta é ter de.”
This ciberduvidas article makes the same point 

But this morning I was reading through (and trying to memorise) Mar Português by Fernando Pessoa and I noticed it has this couplet

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor

This looks like the great man is using tem que in exactly the way “os especialistas indicam” is wrong. Borrowing a phrase we sometimes use about Shakespeare, “I’d rather be wrong with Fernando Pessoa than right with Elsa Fernandes”, but I asked on Reddit to see if anyone else had thoughts on what might be going on. After all, the poem also includes an old-fashioned spelling of the words “rezaram” and “nele”, so maybe the language has drifted a bit since his day. It doesn’t seem so though.

“Ter que” is used a lot in Brazil, and as Elsa says, its increasingly common in colloquial speech in Portugal too. It’s technically wrong but seems to be one of those things that is used a lot. If teenagers and Fernando Pessoa are using it then it’s probably safe to call it a de facto standard. Best avoided in exams, but it seems as if it would be pedantic to pick someone up on it in normal conversation.

So what is “ter que” supposed to be for? It’s quite similar but it is more to do with ownership than obligation. So “tem muito que contar” means “he has a lot to tell”. In other words, he has a lot of experience, he’s an interesting guy. As opposed to “tem de contar muito” which means he’s obliged to tell you a lot.

Tenho muito que fazer = I have a lot on my plate
Tenho de fazer muito = I am being forced to do a lot

I had a complaint about the low quality of the pun in the title, so if you prefer you can think of it as “Ter Que’s Voting For Christmas”

I’m sorry.