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Malhão Malhão

Deparei-me novamente com este vídeo no insta. Tinha visto antes mas acho que a cena ganhou mais relevância face à xenofobia de André Ventura. Convém lembrarmo-nos de que os nossos compatriotas vivem em outros países mesmo que os estrangeiros vivem nos nossos países. Neste vídeo, portugueses celebram a sua cultura num palco no Luxemburgo.

A música é Malhão Malhão. Foi cantado por muitas pessoas ao longo dos anos, mas o melhor vídeo que já encontrei no YouTube é este de Linda de Suza

O Malhão é uma espécie de dança oriunda do Minho, e existem muitas canções que usam o ritmo para a gente dançar, como por exemplo Malhão de Portugal ou Malhão das Pulgas

The dance in full, complete with Amália Rodrigues’s voice and the full saia rodada action!

Então porquê “Malhão Malhão”? Não tenho certeza, mas é óbvio que as letras se referem a uma pessoa. Segundo a Wikipedia (versão inglês) a pessoa em questão é um “winnower”* ou seja uma pessoa que separa os cereais das suas testas. Pode ser, pode ser, mas segundo o Priberam, Malhão, quando é aumentivo de malho não significa nada mais do que o utensílio**. Mas também pode significar “pessoa hábil e experiente”. Tendo lido as letras, acho que a pessoa a quem o narrador está a falar não é experiente, é uma jovem, uma rapariga que o narrador quer namorar. Ainda por cima, nas letras que encontrei Online, Malhão tem letra maiscula. Até pode ser uma alcunha! Noutras palavras, Malhão Malhão é um malhão (música para dançar) sobre um malhão (pessoa hábil/pessoa que trabalha na agricultura e/ou pessoa chamada “Malhão”).

Ai Jesus, tanta incerteza!

As letras são repetitivas mas basicamente é isto:

Ó Malhão, Malhão que vida é a tua?
Comer e beber, ai trrim-tim-tim
Passear na rua

Oh, Malhão, Malhão, what is your life like
Eating and drinking, trim-tim-tim
Strolling in the street

Ó Malhão, Malhão quem te deu as botas?
Foi o caixeirinho, ai trrim-tim-tim
O das pernas tortas

Oh Malhão, Malhão who gave you your boots?
It was the boxmaker, trim-tim-tim
The one with the crippled legs

Ó Malhão, Malhão quem te deu as meias?
Foi o caixeirinho, ai trrim-tim-tim
O das pernas feias

Oh Malhão, Malhão, who gave you your socks?
It was the boxmaker***, trim-tim-tim
The one with the ugly legs

Ó Malhão, Malhão ai Margaridinha!
Eras do teu pai, ai trrim-tim-tim
Mas agora és minha

Oh Malhão, Malhão, oh little Margarida
You were your father’s, trim-tim-tim
But now you’re mine.

*winnowing, in case you don’t know, is an agricultural term, meaning separate out the wheat from the chaff proper to grinding it into flour.

** specifically: Utensílio para malhar cereais, composto de dois paus ligados por uma correia, sendo um curto e grosso (pírtigo), e outro um cabo comprido e delgado (mango).

“malho”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/malho.

***Caixeirinho has multiple meanings too. It could also be an old word for someone who works on a shop (at the “caixa”)

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Pão Por Deus

This one is inspired by yesterday’s post in which I was initially suspicious of the loja online because it mentions Halloween, in English. Hallowe’en (“dia das bruxas”) is an old celtic tradition but its best-known manifestation, with pumpkins and vampires and slutty nurses is all American cultural hegemony. I’ve been seeing posts talking about Portuguese traditions and I thought it might be fun to talk about this one…

O vídeo (infra) foi feito por mais uma loja online, Madeirense Puro, que tem, como foco, outros portugueses. Já escrevi sobre o livro dele e acho que existe uma sequela mas ainda não tenho. No vídeo, os empregados fingem estar numa manifestação contra o Halloween (“abaixo as aboboras!”) e a favor do Pão Por Deus. Segundo a página da Wikipédia, Pão Por Deus é uma tradição religiosa que tem laços ao festival que domina esta estação do ano mas tem lugar no próximo dia, o dia de todos os santos e portanto coloca a ênfase no lado santo da estação em vez do lado do caos e terror!

A tradição tem raízes na noção de alimentar os defuntos e de pedir esmola em tempos de fome. Especificamente, a tradição de ir de porta em porta a pedir pão “por deus” é associada com a época do terramoto, que também aconteceu no dia de todos os santos. Hum… se não me engano, este facto piorou a situação ainda mais porque as velas acesas nas igrejas causaram incêndios, acima dos danos do terramoto em si. Mas seja como for, continua como tradição até aos dias de hoje. Contudo, como podem ver neste segundo vídeo (narrado em português brasileiro – desculpa!) a sombra dos estados unidos cai através a tradição. Vemos crianças a usar cornos do diabo, chapéus de bruxa e até fantasias de abóboras. Porém, têm também sacos decorados, e a procissão decorre durante as aulas em vez da noite, com os pais.

O Podcast preferido de todos os novatos na aprendizagem de português é o Practice Portuguese, e o Rui fez um vídeo com uma amiga sobre as tradições regionais do Pão Por Deus e o dia das bruxas. Falam também dos bolos tradicionais (receita aqui). Como sempre, falam nitidamente e num sotaque deste lado do Atlántico, que é sempre bem vindo.

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Hatters Gonna Hat

Este texto está a apodrecer na pasta de rascunhos desde Outubro de 2024 mas aqui estamos na semana gloriosa do chapéu e estou a sacudir o pó dos seus parágrafos e a prepará-lo para a publicação.

Fiquei curioso sobre a identidade deste homem, o Chapeleiro António Joaquim Carneiro.

A vida dele é assunto da maior banda desenhada de sempre. Ou seja, é ilustrada numa série de imagens pintadas em azulejos no museu do azulejo em Lisboa, onde fui após a maratona de Lisboa no ano passado. A história é menos interessante do que imaginei. O tipo não foi um herói nacional mas sim um chapeleiro (uau, à sério??) cuja habilidade e esforço resultaram em lucros impressionantes. Na época na qual o modista viveu (o século XVIII), sucesso ofereceu oportunidade de se juntar à burguesia, e ele mudei de casa da sua aldeia para a cidade onde encomendou o conjunto de azulejos para imortalizar a sua vida. E quem nega a eficácia desta estratégia? Quem teria ouvido do chapeleiro António Joaquim Carneiro em 2025 se não tivesse mandado alguém criar estas obras da arte?

Não existe mais informações, tanto quanto sei, sobre a vida do homem, além delas contidas nas imagens, mas há uma pagina que descreve minuciosamente a forma deste formato: “Painel rectangular. Medalhão oval no centro limitado por grinalda rematada por filactera com as extremidades enroladas.” O que se segue é uma descrição da imagem em si, mas os pormenores do enquadramento fascinaram-me. Não vou gastar energia em memorizar as palavras porque nunca mais as usarei, mas é fixe, não achas?

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Cante Alentejano

Quando escrevi sobre a mudança da marca diacrítica no site do Jazz Café, não tive qualquer plano para lançar uma série, mas olhem, vai continuando a semana dos chapéus. Hoje volto ao tópico do Cante Alentejano.

Desde 2014, este género musical é considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Esta honra é compartilhada com mais um género musical português, o fado. Consiste em dois cantores e um coro. O primeiro cantor é o ponto, e o segundo o alto. Mas cuidado, ambas estas palavras tem mais do que um significado. Eu sei menos que nada sobre a teoria da musica portanto fiz uma pesquisa e as definições relevantes do dicionário Priberam são o número 40 de Ponto: “Solista que inicia uma moda* no cante alentejano” e o numero 30 de Alto: “Solista de voz aguda que se segue ao ponto e que antecede a entrada do coro no cante alentejano.”

Portugal, August 2022: Tribute to cante Alentejano, monument in Monsaraz by Lago do Alqueva, Alentejo, Portugal

Se virem este vídeo, verem os dois solistas em ação: O ponto, de barba, na primeira fila, canta a primeira estrofe. Depois, o alto, quase escondido na segunda fila, entoa o primeiro verso da segunda estrofe antes do coro (incluindo ambos os solistas) cantarem o resto em uníssono. Este coro é o mesmo que colaborou com Zambujo no vídeo de ontem, O Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento. Neste contexto, um rancho é um grupo folclórico mas a palavra tem mais significados entre os quais “Grupo de pessoas, especialmente em marcha ou em jornada” também descreve o conteúdo deste vídeo!

I think the title of this video is wrong. I believe the song is called “A Moda do Chapéu

Quando ouço o cante alentejano, lembro-me sempre do Male Voice Choir (Coro da voz masculina) tradicional do País de Gales. Ambos têm raízes na cultura céltica, ambos nascem entre gente rural em aldeias marginais, longe do capital e ambos são cantados, tradicionalmente, por homens vestidos de roupa domingueira**. No caso do coro galês, isto aconteceu (tanto quanto sei) por preferência, mas em Portugal, a roupa tradicional foi reforçado pela influência conservador do Estado Novo que queria fomentar o património para os seus próprios motivos, mas basta do Estado Novo, já falei a mais daqueles gajos. Arruínam sempre tudo que eles tocam, e não quero associar o cante com o homem que caiu da cadeira.

Dw i’n hoffi y cerddoriaeth ma ond mae cerddoriaeth portugaleg ym well (I hope I didn’t screw that up too badly – I’m only about 6 months into the duolingo course)

Apesar das semelhanças superficiais, existem diferenças marcantes. Os galeses harmonizam mais. Não têm os dois solistas e não cantam de chapéu num supermercado. Segundo a Wikipédia, as origens do cante incluem elementos da tradição grega e dos colonizadores árabe.

A página da Wiki fala no seu último paragrafo, da estagnação do cante desde a segunda guerra mundial quando a mecanização da agricultura causou um declínio da tradição de cantar na lavoura. Como resultado o género sobrevive em grupos tradicionais como uma curiosidade ou uma atração turística. Não sou especialista, claro, mas parece-me que a forma não tem tenta flexibilidade como o fado, nem hipótese de se dinamizar por hibridação com outros estilos como aconteceu com o fado nas últimas décadas. E não importa assim tanto. Não precisamos de cante alentejano com um rapper a fazer beats entre as estrofes. Às vezes, podemos deixar a tradição em paz, perfeito no seu próprio nicho.

* AI meu deus, não quero sobrecarregar o texto de definições mas nota bem que “moda” também tem um sentido diferente neste contexto. É uma cantiga!

**Not a word I had come across. It means “relative to Sunday”. So roupa domingueira is your Sunday best! Not that anyone has Sunday best now, it was a dying concept even when I was young but I recognise it as something people had in books and comics written by the generation before!

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Dance, Dance

So I keep seeing people on Instagram doing this dance and I wondered why…

It didn’t help that I didn’t… hey, I’m writing in English. Why? …que nem sequer sabia o título da música. Perguntei ao Shazam. É isto:

O branco é Lucenzo, um português, e o negro um porto-riquenho que se chama Don Omar, ou simplesmente “El Rey”. Os dois cantam numa mistura de idiomas num iate, rodeados por uma meia dúzia de modelos aborrecidas. O vídeo, lançado em 2010, é um dos mais vistos no YouTube porque foi um grande sucesso em muitos países da América e Europa. Basicamente em todo o mundo exceto o Reino Unido.

Kuduro é uma palavra angolana e segundo o Google, pode ser uma combinação das palavras “Cu duro”. Danza, igualmente não é Português nem espanhol: acho que é crioulo.

Mas onde nasceu a dança*? Não faz parte do vídeo original. Quem inventou?

Sinceramente não faço ideia. Tentei três vezes fazer a pergunta no reddit mas cada uma foi apagado instantaneamente. Sei lá porquê. Mas tenho a certeza de que a dança é portuguesa. Outros países têm outros passos. Veja-se por exemplo este vídeo de três portuguesas e três espanholas a dançar lado a lado.

Ah ah, sou um crítico cultural, trazendo as notícias de há 15 anos. Espero não me ter enganado. Estou a ler nas entrelinhas por causa da conspiração do reddit para esconder a história deste fenómeno cultural!

*Re-reading this, I hope it’s obvious I’m talking about the dance in the video, not kuduro itself, which is also the name of a dance but is not the dance she’s doing… ai, it’s a bit complicated, sorry.

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A Vida de Estudante

Um dos meus objetivos durante este ano é estudar um curso da Universidade Aberta. Já tentei candidatar-me há algum tempo mas não suportei o site dela. Voltei a carga durante a semana passada e por acaso as candidaturas estavam abertas até ao dia 17 de Junho. Ora bem, hoje é o dia 17, e… inscrevi-me num curso chamado “Formação Modular Certificada em Literatura e Cultura Portuguesas”. Sinceramente, preferia a FMC em Literatura e Cultura Portuguesa, o que é igual mas tem “História Cultural e Artística Portuguesa” em vez de “Temas de Literatura Portuguesa” como a terceira unidade do curso. Infelizmente, este curso é ausente do formulário de candidatura e depois de tanto tempo não aguentei mais. Escolhi a segunda opção.

Ah ah, aqui vou eu mais uma vez, a aprender coisas novas (se for capaz!). Mal tenho noção de como funciona o curso mas uma longa viagem começa com um único passo e neste caso o passo em questão consiste em 35 euros e uma hora frustrante de preencher o formulário.

Me and the boys getting ready for our first seminar
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Coming Soon #4: Capitão Fausto

Em quarto lugar, temos os Capitão Fausto, que vão tocar em Dalston em Maio. O cantor da banda é Tomás Wallenstein, que apareceu naquele vídeo dedicado a Sérgio Godinho. A banda toca música rock e o estilo dela mudou ao longo dos anos (este vídeo foi gravado há mais do que uma década) mas parece-me que os membros têm uma visão criativa que é original e que me chama a atenção apesar de não ser uma banda que adoro cem por cento (a voz do Wallenstein, por exemplo, não é exatamente esmagadora). Em vez de uma sala de concertos, este espetáculo decorre num pub. Acho irresistível a ideia de ver esta banda famosa num lugar tão íntimo.

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Manual SOS – Madeirense Puro

Comprei este livro educativo porque queria desvendar os segredos daquela criatura admirável, a Madeirense. E estepilha, não me desiludiu! Ua cão!

O texto dá muitos exemplos das expressões idiomáticas e do vocabulário do arquipélago, assim como da cultura, mas, para mim, as páginas mais úteis são as que explicam o sotaque e que realçam as diferenças entre o da Madeira e o da ilha de São Miguel nos Açores*. Já ouvi montes de madeirenses a falar e sei que existem semelhanças entre os dois sotaques mas não percebi especificamente como a voz madeirense diverge da voz micaelense. Em suma é isto: fala de boca bem aberta. Esta dica, combinada com as páginas sobre a substituição de vogais dá para entender porque os madeirenses falam assim.

As páginas do livro têm imensas cores, com ilustrações bonitas e, em algumas há códigos QR para ligar a uma gravação ou um recurso online para esclarecer algum tópico. O livro é muito divertido e elucida muitas dúvidas. Recomendo aos homens que têm uma esposa madeirense e como resultado “têm tude“. Se não entendes patavina quando ela fala precisas disto!

Ah mãe, ca cagança!

*Nunca antes me perguntei “porque é que se diz OS Açores enquanto são ilhas e ilha é feminina?” É porque existe uma regra de que lugares como O Porto e A Costa do Marfim, cujos nomes se referem a uma coisa específica tendam de adotar o género daquela coisa, e neste caso um açor é uma espécie de ave de rapine (o nosso “goshawk”)

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Mariza

(Edited this and the previous one. Lots of typos recently. Sorry. All this typing while walking and typing while on the bus is taking its toll, apparently. Thanks to Cristina for the corrections)

O concerto de ontem foi esmagador. Ela cantou muitas canções que adoro, como por exemplo “Gente da Minha Terra”, “Senhor Vinho” e “Estranha Forma de Vida”. Havia quase dois mil portugueses na sala mas eu sentei-me ao lado de dois brasileiros. Que azar! Aproveitei a oportunidade de lhes ensinar o básico da língua portuguesa.

Após a última música, ela voltou ao palco para cantar mais uma que não conheço, mas deve ser muito famosa. Porque toda a gente cantou em uníssono. Vou estudar as letras em breve.

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Cantiga da Burra

Ouvi uma versão desta canção recentemente no canal de David Antunes + the Midnight Band, que é sempre uma fonte de maravilhas e o desempenho neste caso é mesmo esmagador, uma vez que é tocado quase exclusivamente em instrumentos infantis (o vídeo está debaixo da tabela de letras nesta página) O original saiu em 2012 e foi lançado por Sebastião Antunes e Quadrilha. O Sebastião não é um familiar do David apesar de os dois partilharem um sobrenome, mas o David tocou várias vezes a canção ao vivo nos seus próprios espetáculos e o Sebastião até apareceu no canal do David também.

A música teve muito sucesso e (tanto quanto sei) muita gente gosta dela. A versão original é invulgar por incluir uma gaita de foles. O meu pai sabia tocar a gaita de foles escocesa e por isso estou predisposto a gostar a canção apesar de me sentir por outro lado dum abismo cultural de cem milhas de largura.

PortuguêsInglês
Deram-me uma burra
Que era mansa que era brava
Toda bem parecida
Mas a burra não andava
A burra não andava
Nem prá frente nem pra trás
Muito lhe ralhava
Mas eu não era capaz
Eu não era capaz
De fazer a burra andar
Passava do meio dia
E eu a desesperar
E eu a desesperar
Ai que desespero o meu
Falei-lhe no burrico*
E a burra até correu
They gave me a donkey
That was tame and that was wild
Everything seemed fine
But the donkey wouldn’t move
The donkey wouldn’t move
Neither forward nor backward
I yelled at it a lot
But I couldn’t
I couldn’t
Make the donkey move
It was after midday
And I was in despair
And I was in despair
Oh, I was in such despair
I told her about the (male) donkey
And it even started running

*This seems to be disputed. When I first wrote this I copied the lyrics from A Música Portuguesa and it says “falhei-lhe”. It seems like that version appears on quite a lot of pages dotted around the web, but I am reliably informed that the non-h version is the right one, so there you go!