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E O Céu Mudou de Cor – Israel Campos

Neste romance angolano, vemos o mundo do ponto de vista de um jovem que mora num país opressivo, que é ficcional mas é uma versão (se não me engano) da Angola atual. Embora o narrador seja o protagonista, o personagem mais interessante (para mim) é o seu primo, Mateus. Idealista e lutador, este jovem enfrenta a corrupção quotidiana e recusa aceitar os comportamentos e as cunhas que estão a enfraquecer o seu país. Na perseguição deste objetivo, o Mateus, o narrador e um amigo deles, encontram o Sr. Zé que quer levar a cabo uma mudança social. O narrador é mais novo do que o Mateus e não entende perfeitamente o que está a acontecer ao seu redor.

Com humor e emoção, o autor lança uma crítica contra vários aspectos do sistema social. Claro que não conheço o seu país suficientemente para julgar quão exato seja esta crítica, e é muito provável que tenha perdido algumas coisas, mas foi interessante vislumbrar o mundo pelos olhos do seu protagonista.

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Vinil Rubro – Mário Freitas e Alice Prestes

Vinil Rubro

Coloquei este livro no cesto enquanto estava a a buscar um livro de que precisava. Fiquei desiludido. Gostei da arte, mas não tem uma história. Quanta história é que um criador é capaz de contar em 16 páginas? Ela está sozinha em casa com saudades de alguém? Pois, acontece, mas não há mais nada e o álbum deixou-me insatisfeito.

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Neon – Rita Alfaiate

Recebi esta BD como presente de uma amiga e comecei a ler quase de imediato.

Conta a história de uma rapariga que vive com o seu cão robô numa cidade quase vazia. A única outra pessoa que ela encontra no seu dia-a-dia é uma empregada do supermercado onde ela faz as compras. A autora faz com que a cidade inteira exista só para ela.

Há pouco diálogo mas a arte é incrível, e adoro como ela usa variações no estilo artístico para sinalizar as emoções da protagonista ou o “tom” da cena. Por exemplo, à volta da página 70, temos uma série de imagens embaciadas em preto e branco, uma que parece um desenho de um livro infantil, e uma muito realista, que espelha os sentimentos de pânico, isolamento e revelação quando ela vai à procura do cão e acaba por encontrar o cinema ao ar livre.

Adorei este álbum e irei procurar mais livros desta autora durante a minha próxima estadia em Portugal.

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The Walking Dead

Acabo de ler o décimo nono episódio da banda desenhada The Walking Dead. O primeiro foi um dos primeiros livros portugueses que li por completo, e achei-o um método genial para aprender português idiomático. Ainda recomendo que novos leitores experimentem BDs antes de enfrentar um romance.

Infelizmente, a editora Devir deixou de publicar a série após o volume 14 e depois nós leitores tivemos de mudar para a versão brasileira. Confesso que acho um chatice ler tanto calão brasileiro e tenho saudades do meu mundo perdido: Os EUA pós-apocalipticos à portuguesa!

Mas não desesperes! Há uma luz na escuridão! Segundo o site bandasdesenhadas.com, a editora voltará a publicar novos livros. Esperam completar o conjunto em 2025. Fico muito feliz e antecipo ler os próximos volumes em breve.

The Walking Dead 19
Even if you don’t know any portuguese, you can pretty much guess what they’re saying here and none of it is about flowers or kittens.

Entretanto, o Rick carioca não deixa de ser interessante. Este episódio conta a história da aliança entre as três colónias*: Hilltop, O Reino e… A outra cujo nome me escapa… Juntam-se para entrar em guerra contra o grupo de Negan. Ouvi dizer que o Negan se torna um aliado do Rick na série mas é quase inacreditável porque na BD é praticamente o diabo! De qualquer maneira, a ação neste livro é incrível, com poucas páginas perdidas em coisas de telenovela. Acho que é o melhor da série até agora.

Li este livro no app Kobo no meu telemóvel mas não recomendo, porque fiquei com dores na vista. Antes, experimenta o Wook e começa no início!

*I originally wrote “povoação” which I think would normally be used for population, as in “the population of the UK is increasing by 1% per year due to net immigration” but can also sometimes mean a village or settlement (the actual word I was trying to translate) according to Priberam, but it seems povoado is a more natural word, but apparently in the TV series they are referred to as colónias – eg here (but it’s Brazilian so uses a circunflexo)

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Perguntem a Sarah Gross – João Pinto Coelho

Perguntem a Sarah Gross ' José Pinto Coelho

Perguntem a Sarah Gross é um romance que gira à volta da protagonista, que (já adivinhaste?) se chama Sarah Gross, e uma outra personagem, Kimberley, que narra os acontecimentos em Connecticut. A ação abrange décadas e continentes diversos, e a narrativa vai saltando entre a Polónia nos anos vinte do último século e os EUA em 1968-9, e aborda os males de nazismo e do racismo dos Estados Unidos na era da luta pelos* direitas civis dos cidadãos negros.

A Sarah é uma protagonista com um espírito indomável mas também tem um segredo escondido no seu passado, que vem a ser desvendado com o desabrochar dos eventos da história.

Perguntem a Sarah Gross está disponível como audiolivro para quem quiser ler com os ouvidos!

*Good example of a context where, as an english speaker you (or at least I) would naturally be inclined to write para

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A Noite – José Saramago

A Noite ' Saramago

A Noite é o… Hum… Sétimo Livro de Saramago que já li, mas é diferente dos outros porque é uma peça de teatro. A ação passa-se no escritório da redação do Jornal de Lisboa nos anos setenta. Durante o primeiro ato, conhecemos as personagens, os seus cargos na empresa e as suas atitudes face ao governo de Marcelo Caetano. Um rádio está a tocar em* pano de fundo. Após algum tempo ouvimos “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, e começamos a perceber (se ainda não soubéssemos) em que noite especifica a peça é passa-se. Mais tarde ainda, a abertura do “Grândola Vila Morena” toca, o que causa o editor do turno de noite gritar “Desliga-me isso” e as luzes apagam-se, deixando o palco na escuridão.

No segundo ato, os jornalistas ouvem os boatos da revolução que está em curso, e tentam averiguar os factos. Uma clivagem abre-se entre os apoiantes do regime (principalmente os gestores, o editor e o diretor) e os socialistas (os trabalhadores na sala de impressão**, alguns jornalistas) que vêem com entusiasmo a ditadura a chegar ao fim.

O caos daquela noite é muito bem ilustrado, e o autor também retrata as divisões no país daquela época pelo exemplo de uma empresa cuja estrutura espelha a estrutura da sociedade. Para mim, o pior do livro é o desfecho: achei o coro de vozes demasiado óbvio, como se fosse uma propaganda, mas suponho que, da perspetiva de 1979 (quando a peça se estreou) era importante defender a liberdade, contra quem ainda tinha saudades da PIDE, e talvez seja por isso que às últimas 2 páginas da peça faltam uma certa sutileza visto por gente moderna!

*Em, not no. In background, not in THE background

**A Gráfica would also work for print room

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A Implosão – Nuno Júdice

O autor e poeta Nuno Júdice faleceu há pouco. Já li um livro dele, mas foi um livro de poesia e basicamente a minha perspetiva no mundo da poesia é barbárica, até no meu próprio idioma, portanto decidi comprar um romance dele. E que romance desafiante! Fui em busca de opiniões de outros leitores e encontrei um ensaio escrito por um académico da Universidade Católica de Portugal, que fala da “intertextualidade com alguns textos de Guerra Junqueiro ou O Marinheiro de Fernando Pessoa” e logo percebi que este texto podia estar fora do meu alcance!

Mas segui em frente e li o livro e gostei, apesar de tudo. Lembrou-me d’À Espera de Godot de Samuel Beckett, tendo como protagonistas duas pessoas num sítio irreal, com poucas outras pessoas. Falam de coisas que nem sempre fazem sentido: um caixão que talvez contenha armas, escondidas sob um cadáver que talvez seja também a pátria… Os dois têm um diálogo que anda em rodapés, tendo como assunto o seu passado na clandestinidade e a traição por sabe-se lá quem. Criticam o declínio do país e a desilusão das esperanças dos revolucionários do passado, e julgam que o Portugal de hoje, com os seus laços com a UE e as suas modernices é pouco melhor do que o Estado Novo, mas a atmosfera é tão absurda que é difícil (ou pelo menos eu acho difícil) entender o que o autor queria transmitir.

Nota-se que o ensaio fala da “geração de 70”, o que eu assumi significa “a geração que participou na revolução”. Mas enganei-me: A geração de 70 foi um movimento da década de 70 do século XIX. Pois… mais um assunto de mais uma pesquisa de mais um dia… Mas isto tudo alimentou o sentimento de estar perante uma obra cuja profundidade* não sou capaz de explorar!

*Depth, not depths. I translated too literally from english.

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O Que Dizer Das Flores

O que dizer das flores

Este livro tem uma capa bonita mas não julgamos um livro pela capa. Felizmente a história também vale mesmo a pena.

Não é uma história com um único protagonista. Há várias personagens que têm as suas próprias vidas e os seus próprios segredos, mas acho que o enredo centra-se* no pai da Catalina, cuja fuga da cadeia suscita a questão de se é** culpado ou inocente.

Mas o maior segredo de todos é este: de vez em quando, a narração passa para a primeira pessoa mas os protagonistas não interagem com quem está a falar, fazendo-nos*** perguntar, quem está a narrar isto tudo? O mistério desvenda-se ao longo do tempo, caso não tenhamos já adivinhado.

Lê-se bem, e até me fez rir. A minha única queixa é que queria ter lido o primeiro livro da série. Ouvi dizer que não era necessário lê-los em sequência mas há muitas referências aos acontecimentos do Onde Cantam os Grilos e acho que perdi algo por não conhecer as personagens antes de ler este segundo volume.

*gira à volta (revolves around) would have worked too, and is quite common, but some pedantic types might object to it being a tautology.

**Writing a stern note to myself because I wrote “for” here, instead of é. The “se” and the whole way it is joined onto the rest of the sentence seems to be setting it up for a subjunctive (future or maybe imperfect), which is what I thought, but I was wrong, because it isn’t setting up a hypothetical situation. If it was like “se for culpado, irá para a cadeia”, it would be subjunctive, but not here. Super-tricky, that one, at least for my way of thinking…

***I think strictly speaking there should be an extra “nos” here – Making us ask ourselves – but it sounds clunky and sometimes it’s better to be ungrammatical and soung good than be super’accurate and sound like a dork.

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Uma Aventura nas Férias da Páscoa

Uma Aventura nas Férias de Páscoa

Estou cada vez mais impressionado com esta série de livrinhos. Uma Aventura nas Férias de Páscoa conta a história dos nossos heróis a resgatar a Custódia de Belém, que foi roubada durante um nevão que aconteceu, inesperadamente, perto da Páscoa.

As autoras têm um feitio didático, portanto usam o romance para educar os leitores sobre as histórias da Custódia de Belém e o seu criador, os moinhos de maré no concelho de Seixal (na margem sul do rio Tejo) e não sei mais o quê.

Logo que terminei, abri a página do Kobo para comprar Uma Aventura na Ilha de Madeira.

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O Que Dizer Das Flores

Ando a ler 872 livros em simultâneo mas comecei ontem “O Que Dizer Das Flores” de Maria Isaac que tem uma capa bonita.  Existe um vídeo no YouTube no qual a autora lê o seu primeiro capítulo. Confesso que não entendi tudo apesar de ouvir três vezes, mas não fiquei desencorajado. Li o capítulo com os meus olhos, segundo a vontade de Deus. Gostei imenso, e li-o mais uma vez, sublinhando as palavras desconhecidas e as palavras que conheço mas que não fazem parte do meu vocabulário falado.

Tenho muita vontade de ler este livro. Além de ser interessante (até agora!) é desafiante. Acho que me vai desafiar, mas não é tão difícil que me vá chatear a cabeça.

Eis um resumo do capítulo que usa o maior número possível de palavras que me chamaram a atenção.

O capítulo apresenta um padre chamado Elias Froes, que vive em Monte-o-Ver, um vilarejo pequeno e parado, povoado por “ilustres atrapalhadas” e enjeitados incluindo os membros do seu rebanho.  Apesar de estarem ocupados com cochichos e pequenos dramas, mantém-se otimistas. Por exemplo, um tal cantoneiro tenta fazer o melhor com o que lhe sobra nesta esquina esquecida do país. Esmera-se no seu trabalho e acaricia as árvores. Como pano de fundo, a autora descreve uma paisagem montanhosa, com campos de arroz alagados e canaviais.

O padre, um homem bondoso, desloca-se para a igreja. Enquanto anda pelo caminho uma aura de pó embranquece a bainha da batina.

Cruza-se com uma criança empoleirada num murro. Debaixo da aba do seu chapéu de palha, cumprimenta-a como Catalina. Ela está resguardada pela folhagem do castanheiro e olha para o padre de soslaio. Tem o pato de estimação ao pé dela.

O padre pisa nos paralelos* da praça do município na hora de fechar**. Os lojistas saúdam-no enquanto rodam a sinalética nos vidros. Devolve-lhes os cumprimentos. A única exceção é o dono do Café Central, Jorge Mondego, um homem pouco simpático, nascido entre as barracas dos baldios longe do canavial, que levanta a mão num gesto ambíguo, ao qual o padre responde à cautela para não o incomodar.

Mas o padre tem um segredo. Irá morrer. Claro que todos nós esticamos o pernil no final de contas mas o padre tem os pés para a cova: leva no bolso um parecer médico que oficializa o destino.

“O rodar de sinalética” confused me but I’m pretty sure it means this. The rotation of signage. Everyone is busy shutting up shop and turning their signs round.

*The word paralelepípedo means cuboid, like the shape of a brick, and an individual brick is called a paralelos, so this just means he’s set foot on the pavement which is made of these rectangular bricks.

**I originally put “hora de fechamento” and that seems fine in Brazil but not in Portugal.

O Que Dizer Das Flores” is a standalone, but I’m told a earlier book, “Onde Cantam os Grilos” has some of the same characters, and so does a later work, Quantos Ventos na Terra, so if you are the sort of person who likes everything to be part of a trilogy, be aware that this is the middle book, and you don’t want to start here!