No livro que estou a ler, há um conto sobre um chimpanzé chamado Golo. Este primata* gosta de brincar com uma máquina de escrever automática. Um dia, Golo martela nas teclas durante algum tempo com os seus dedos grossos e além de números, letras e símbolos aleatórios, produz a seguinte frase: “Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para muito longe”.
Para mim,”Menina e Moça” não é mais nada do que um fado de Carlos do Carmo, mas é evidente que o protagonista conhece a frase e que não tem nada a ver com o cotovelo no castelo. Ao longo dos dias, mais parágrafos aparecem da mesma novela. Fiz uma pesquisa e descobri que “Menina é Moça**” é um romance pastoral escrito por Bernardo Ribeiro em meados do século XVI. É considerado o primeiro livro do seu género na península ibérica e foi editado quando um tal Miguel de Cervantes ainda estava a usar uma fralda***.
*As personagens humanas dizem “macaco”, pois não existe uma tradução equivalente da nossa “ape” mas acho que primata é melhor.
**The text wiki uses is different from what Golo comes up with. I don’t know if there’s any significance to that or if there are just different manuscript versions with slight differences in wording.
***OK, OK, he was about 7 I think, but these geniuses are often late developers, I hear.
Uau! Que espectáculo incrível! As minhas expectativas do concerto de Carolina Deslandes eram baixas; gosto de algumas canções dela, mas regra geral, aquele estilo de música não é o meu preferido. Mas ainda que não me sentisse otimista, a realidade do concerto esmagou-me. Ela cantou todas as canções de que mais gosto, e além disso muitas canções boas de outros (Rui Veloso, Sérgio Godinho, António Zambujo e Amy Winehouse) e criou um ambiente animado e feliz naquele espaço íntimo.
Entre as canções, ela falou e brincou com o público. Entendi quase tudo, mas tive de perguntar à Catarina sobre umas coisas que me passaram ao lado. Por exemplo, para ilustrar quantas tugas há nesta cidade, ela contou uma história sobre uma peça de teatro que ela foi assistir com uma amiga quando morava cá em Londres. A amiga comia alguma coisa e uma funcionária do teatro disse que “you can’t eat tha’ ‘ere”. Quando a funcionária virou as costas, a amiga disse (em português) “que estúpida” e a funcionária voltou a virar-se, com um gesto muito português e disse (também em português) “estúpida és tu”, que deixou a amiga da Carolina baralhada porque não sabia que as suas palavras seriam compreendidas.
Entendi isto tudo, mas no final da anedota a amiga sacou uma sandes, embrulhada em alumínio, porque “Tuga que é tuga ________”
Ao que parece, as palavras que perdi foram “leva merenda”.
Antes do espectáculo principal uma artista portuguesa chamada Raquel Martins, que mora em Londres já há 7 anos tocou umas músicas. Levou uma convidada ao palco e aqui tenho mais uma confissão: achei que ela disse que a convidada era a sua irmã, mas que disse irmã num sotaque invulgar. Mas errei. O convite foi a cantora Irma!
Estou a caminho do concerto de Carolina Deslandes mas a minha esposa estragou tudo ao fazer uma reserva num restaurante espanhol. Olha! “Pan”, “Queso”, “Beringena”. Falam um português pior do que os brasileiros! Estou a perder fluência com cada minuto que passa.
A primeira vez que disse “O meu autor português favorito é…” conclui a frase com “Afonso Cruz”. Gostei imenso do seu “Os Livros que Devoraram o Meu Pai” e “Para Onde Vão os Guarda-Chuvas” foi o meu primeiro calhamaço português. Mas hoje em dia acho os seus livros um pouco irritantes. Este é quase uma paródia do “À Espera de Godot” e dei comigo a bater com os dedos na mesa de impaciência.
O “Tangerina” é uma banda desenhada de Rita Alfaiate. É curto e arrepiante. Uma opinião com duas frases não é muito, mas o livro não tem muito diálogo nem enredo.
… Just means to darken. Of course it isn’t that unusual that I come across a word I don’t recognise but this one jumped out at me because it doesn’t really look like a portuguese word at all. The origin is Latin, apparently: obnubilare – and it’s related to nuvens – and were imagining the thing being obscured by clouds.
Just finished the backlog of corrections on my travelogues. Thanks as always to Cristina for spotting my many terrible errors. Normal errors will resume shortly.
Ai que dia desgastante! Olhem, vou contar uma história mas têm de me prometer não a contar à minha esposa porque ela irá gozar comigo.
Acordei cedo, tomei o desjejum e chamei um táxi. Infelizmente, quando cheguei no aeroporto, enfiei a mão no bolso em busca do meu telemóvel mas não estava lá. Deixei-o no táxi. Entrei em pânico porque ninguém consegue sobreviver sem telemóvel em 2024. Após cinco minutos de não saber o que fazer abordei um grupo de agentes de PSP e expliquei a situação. Ligaram para o telemóvel. O taxista ouviu-o e atendeu e em breve voltou ao aeroporto com o meu dispositivo. Dei-lhe uma gorjeta generosa pelo seu transtorno.
Regra geral, sou um passageiro nervoso mas depois de quase perder o telemóvel, a possibilidade de cair do céu e morrer numa bola de fogo parecia-me menos ameaçador, e o resto da viagem passou-se sem incidentes.
Estou muito contente com o número de experiências consegui cumprir durante a minha breve estadia na cidade capital.
Hoje, comecei com um passeio na feira da Ladra. Uau! Não comprei nada mas adorei ver tanto lixo misturado com tesouros escondidos. Até houve um tipo com dois braços de um manequim. Quem é que imagina vai comprar tal coisa?
Absolute legend
Depois, fui a pé para o Museu Nacional do Azulejo. Sem dúvida é mais impressionante do que o Museu do Fado. Gostei tanto que caminhei na direção certa.
A rota prescrita pelo Google Maps sugeriu uma mudança de autocarro para comboio na estação de Arroios. Por acaso, a pastelaria Aloma, premiada em Setembro de 2024 por fazer os melhores pastéis de nata, fica lá perto, portanto fiz uma pausa, comi uma bifana num “snack bar” e depois provei um pastel. Concordo com os árbitros mas comi mais um para ter a certeza. Também tomei um cafezinho. Os três custaram menos do que um café e mais nada em Londres. Apesar do prémio, o café tinha poucos clientes. Acho que os influenciadores não ouviram falar do concurso. Ainda bem. Dei uma espreitadela a uma livraria na mesma rua mas estava encerrada. Falei com um português que também queria entrar na loja. Vivia em Somerset durante algum tempo. Acabei por desistir antes dele.
“Hey man, when in Rome” – Fantastic
O último destino** foi o jardim do museu de Lisboa onde decorria o Festival Iminente. Estava um ambiente incrível apesar de ser mais pequeno do que pensava. Havia centenas de pessoas numa zona limitada com dois palcos. Assisti a alguns mini-concertos. Gostei acima de tudo da Suzana, a mulher nesta foto
Quanto aos grupos de homens, gostei menos. Pareciam-me mais estereotipicos, como rappers americanos com muito orgulho mas pouca imaginação (mas nota-se bem que esta é apenas a minha impressão). Disseram “façam barulho” muito. Já faziam barulho o suficiente, obrigado.
Até os bebés bebem cerveja
Mas gostei de percorrer o evento e ver a felicidade dos participantes. Bebi um “Maracujão” (sumo de maracujá+Licor Beirão) e assisti ao breakdancing, comprei um livro (que surpresa) da artista Tamara Alves e vi as esculturas de Robert Panda. Saí após uma hora e meia. Gostei muito, mas o fumo dos charros alheios era tanto tanto que não suportei mais.
E aqui estou eu, pronto para dormir, a ouvir as buzinas dos carros na rua
*Destino can be destiny or what we think of as a destination. Destinação exists too and apparently can mean the same as destino in some circs, but only as a secondary meaning and it doesn’t sound right. It’s main meaning is the act of setting a destination.