Este livro surpreendeu-me, porque, pelo título, tinha assumido que fosse uma homenagem à revolução que decorreu em Abril de 1974, mas não é! O poema que deu o seu nome à antologia foi escrito em 1965! Mas o poeta teve um papel ativo na luta contra a ditadura, portanto aquele espírito revolucionário permeia a sua obra, quer durante aqueles anos escuros, quer nos poemas escritos após o estabelecimento da democracia. Portanto, eu não estava assim tão longe da verdade!
Este livro é uma coleção de contos que têm a atmosfera de contos de fadas: as personagens são reis, princesas e feiticeiras, entre outras. Mas apesar destas histórias curtas terem o mesmo tom dos contos infantis, há algo mais escuro nos temas das narrativas. E a estrutura da linguagem e a escolha das palavras dão um ar muito mais “adulto” à coleção.
A autora é uma brasileira muito premiada, mas o meu exemplar foi publicado pela editora Tinta de China para leitores portugueses. Como sempre, o livro, como objeto físico, é muito bonito, com capa dura cantos redondos e folhas grossas. Até cheira bem.
Antes do nascimento da nossa filha, eu e a minha mulher fomos de férias para o Algarve com os meus pais e passámos um dia na praia numa cidade chamada Olhos de Água. Naquela altura nem sequer tinha tido uma única aula de português mas ainda assim, era óbvio o que queria dizer aquele nome.
Mas assumi que “eyes of water” significasse “lágrimas” ou algo do género, e talvez houvesse uma história de uma grande tragédia no passado desta pequena povoação, mas não tínhamos smartphones em dois mil e fosse-quando-fosse, portanto não havia método de verificar a minha teoria. Não pensei mais nisto, até anteontem, quando li a seguinte frase num livro: “E em cada quieto olho-d’água se defronta com uma nova imagem, sem que nenhuma seja aquela que mais deseja.” Desloquei-me para a estante onde vive o meu dicionário.
Um olho-d’água é uma fonte, ou seja uma nascente de água. Então, o nome da localidade tem origem na presença da várias fontes de água doce perto da praia. Está bem, isso faz todo o sentido.
Aliás, vi a página da Wikipédia e… Uau, há tantos hotéis em volta da cidade nos dias de hoje. Não me lembro de haver tantos edifícios grandes quando lá estivemos lá, 20 anos atrás.
É que… Peguei neste livro porque apeteceu-me ler algo fácil, mas embora seja um conjunto de contos infantis, com 94 páginas e muitas ilustrações, está cheio de palavras desconhecidas e gramática emaranhada.
Ora bem, segundo todos os livros que já estudei, a frase “Levasse a irmã” não deve* existir, mas olha, lá está na página. Que raios? Pensei muito e acho que percebo. A autora está a “reciclar” a gramática da frase anterior: “pediu-lhe que atendesse (…) o último (…) pedido” e depois, esclarecendo a ação implicada, podia ter dito “ou seja, pediu-lhe que levasse a irmã” mas ela não queria repetir as primeiras palavras, portanto limitou-se a acrescentar as palavras reveladoras.
Dito isso, acho que seria melhor se a frase fosse separado da frase anterior com uma vírgula em vez de um ponto final, mas não sou o rei da gramática e talvez esteja completamente errado!
*I originally wrote “deve não existir”, trying to imitate a sort of modern, affected way of emphasising the strength of feeling in english by shifting the “not” to another part of the sentence: “It needs to not exist” instead of “it doesn’t need to exist”. This seems not to be a thing in portuguese. Oh well, it was worth a try.
Aparentemente não estou no pico de forma, porque fitei esta palavra durante quinze segundos antes de ter certeza de que, não, não é um novo tempo verbal mas sim uma gralha muito óbvia que o redactor devia ter apanhado!
Acho que este livro precisa de mais redação. Uma leitora no Goodreads queixou-se da falta de um fio condutor entre as histórias, mas para mim, às vezes, faltava um fio condutor entre as vinhetas individuais das crónicas! Achei alguns contos um pouco confusos.
Contos? Não quero dizer “bandas desenhadas”? À primeira vista os contos são bandas desenhadas mas não há balões de diálogo, apenas textos curtos que fazem parte da narração da anedota. O livro trata de uma série de histórias curtas sobre uma personagem ou um evento na história da cidade. Cada uma é ilustrada com um traço caricaturistico, mas não chega a ser uma banda desenhada.
Bem, não estou a resmungar, achei várias histórias na antologia interessantes; aprendi muito e até “roubei” umas ideias para fornecer conteúdos ao meu blogue! Havia personagens bem conhecidas como Carlos do Carmo e Santo António e mais algumas que eu pessoalmente não conhecia, como por exemplo as duas Júlias e Madame Brouillard, Mas o livro não se lê bem, o que é uma pena porque podia ser ainda melhor se os autores tivessem prestado mais atenção aos textos e feito algumas mudanças para reunir os fragmentos como um todo satisfatório.
No mesmo livro, deparei numa nova palavra que também tem a ver com roupas, especificamente com roupões:
Ainda que não tivesse visto esta palavra, não perdi tempo em perceber o significado. Xadrez é o jogo de tabuleiro que nos anglófonos chamam de “Chess”, portanto, um roupão axadrezado é simplesmente um roupão feito de tecido que tem um padrão quadrado. Não têm de ser quadrinhos de preto e branco igual a um tabuleiro de Xadrez como o fato do Benny no jogo Fallout New Vegas…
…O roupão colorido de Arthur Dent também é axadrezado.
Este padrão é também chamado simplesmente de “xadrez”, como, por exemplo, nesta loja online (uma camisa, porque é evidente que não é apenas roupões). A palavra “enxadrezado” também existe mas não encontrei exemplos daquela forma na Internet.
Um sinónimo que pare quem não goste de falar de jogos é “escaqueado” mas acho que esta palavra é rara porque quando pesquisei o Google devolveu montes de páginas sobre pessoas esfaqueadas!
Todos estes particípios têm os seus verbos: axadrezar, enxadrezar, escaquear.
Como já disse, estou a participar numa maratona literária e uma das categorias é “um género que não costumas ler” e eu escolhi uma antologia de poesia de Manuel Alegre. Sendo homem*, não me dou com poesia, mas o dia 21 deste mês era o Dia Mundial da Poesia, portanto decidi engolir o sapo. Li metade do livro, incluindo este verso na página 20:
“Meu amor disse que eu tinha uns** olhos como gaivotas”. Esta metáfora marcou-me não por ser valida*** mas por não fazer sentido. Porque é que o amante compara os olhos da amada a umas gaivotas? As gaivotas fazem muito barulho. Roubam batatas fritas dos turistas na praia. São brancas. É verdade que voam no céu azul, mas quem tem olhos azuis com íris**** brancas? Ou íris azuis com pupilas brancas? A adequação da expressão terá a ver com a distância, o isolamento ou a vigilância de uma gaivota no céu? Não percebi bem. O amante é um marinheiro e talvez tenha uma perspetiva diferente do que a que nós, que passamos a vida em terra firme, temos.
Mas afinal, esta metáfora é uma metáfora mesmo? Costumo pensar em qualquer expressão deste género como uma “metaphor” em inglês, mas sei bem que temos uma outra palavra, menos eufónica, nomeadamente “simile”. Os professores nos anos oitenta adoravam explicar a diferença, mas não sei se ainda existe nos currículos do século XXI.
E os portugueses também fazem esta distinção? Sim! E a palavra “símile” existe e tem o mesmo significado mas regra geral usa-se “comparação”. O site Ciberdúvidas tem vários artigos sobre metáforas mas nem uma única referência à palavra “símile”, dizendo “comparação” no seu lugar. Veja-se, por exemplo*****, este artigo.
Sei bem como explicar em inglês mas vou pedir um empréstimo ao Ciberdúvidas de certas palavras para preencher as lacunas no meu vocabulário!
Uma metáfora (“metaphor” em inglês) é uma aproximação entre dois termos ou dois objetos sem usar uma partícula de comparação. Assim a aproximação é implícita. Por exemplo
O nosso parlamento é uma pocilga.
Uma comparação (“simile” em inglês) é quase igual, mas, neste caso, usamos a partícula para criar distanciamento do objeto da comparação.
O nosso parlamento é como uma pocilga.
Ambas as figuras de linguagem usam-se na poesia, mas é importante em certas situações, saber a diferença.
*This is a silly joke and not meant any more than I’d I’d said “being British, I never ever use grammar” or “like most people born in the nineteenth century, he had never heard of sexual intercourse because it had yet to be invented”
**The grammar checker doesn’t like this and I suspect it might be an example of poetic language not being like normal spoken language
***I lazily write “apta” as in “an apt metaphor”. Whoops! That seems to be a false friend because that’s not really a thing, and apto has more a sense of “capable”. Valido seems better or possibly adequado (which is another of those words that has a similar meaning but a slightly different weight in Português than its equivalent – “adequate” – in English.)
****Íris is the singular and the plural when it’s used in this sense.
*****I keep putting “por exemplo” et the end of the word, regardless of what else is going on in the sentence but that’s not really how it’s done in portuguese. It’s viewed as an adverb so it gravitates toward the verb. Here’s a Ciberdúvidas article about Por exemplo.
Testing Reader Theories
Thanks to Cristina of Say It In Portuguese for the help with this text. Quite a lot of mistakes crept into the first version. I’m sort of surprised it wasn’t even worse, though, because it’s always hard describing complicated aspects of Portuguese in portuguese.
Here’s a translation of a relatively upbeat, but very traditional Lisbon Fado written by Ricardo Borges de Sousa in the early years of the twentieth century and sung here by Maria Teresa de Noronha. It is well-enough regarded to be the subject of a whole episode of “A Trilogia do Fado” on RTP, but it isn’t the only version of the song; there seem to be lots of variants each with their own set of lyrics.
🇵🇹
🇬🇧
Quem me dera que voltasse O doce tempo de além Sentada junto à lareira A ouvir cantar minha mãe
If only you would came back The sweet, far-off time Seated together at the fireside Listening to my mother sing
Ó tempo, tempo ditoso Da vida eterno sorriso Que tornas em paraíso Um mundo tão enganoso Quando à minha mãe, choroso Após um beijo na face Lhe pedia que cantasse Uma trova de bonança Esse tempo de criança Quem me dera que voltasse
Oh time, happy time Eternal smile of life That turns in paradise Into such a deceptive world When my mother, tearful, After a kiss on the face was asked to sing A soothing song** That time of childhood If only it would come back
Tempos que não voltam mais Da nossa infância ridente Em que eu vivia contente Correndo atrás dos pardais Das paredes dos casais Que a nossa aldeia contém Branquinhas como a cecém Mudas como a gratidão E recordam com paixão O doce tempo de além
Times that will never come again Of our laughing childhood When I lived happily Chasing sparrows From the walls of couples That lived in our village White as lillies Mute with gratitude And they remember with live The sweet far-off time
*I really struggled to make sense of the first four lines when I was following the lyrics on letras.com because it has the word “ternas” in place of “tornas”, and fair enough, it does sound like that, but I couldn’t make it make sense. Why is it feminine and plural? is he talking about herself and her friends? But how does that follow on with the line before and after? It was definitely fishy but it could make sense if she was talking about that idyllic scene turning into a deceptive world, so maybe “torna-se”, but that would have the “se” in front of the verb because it’s after que. Tornasse? But why would it be subjunctive? I had a look around but most online sources seem to have screen-scraped letras.com so they had the same word. Then I found a site that used “terras”. I hate that less, but I still don’t buy it. And then finally I came across this site that uses “tornas” and I am absolutely ready to believe that!
**I wasn’t sure about this one, but when you look up trova and bonança, it makes sense. I tried the whole line in gtranslate and it said “a thunderous bonanza” which doesn’t really fit the mood.