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Revision

I have an exam on Tuesday for the culture section of my course so by way of revision I am just going to throw into this post a super-concentrated summary of the units we’ve studied, trying to get them all to fresh in my head. I’m planning to read the actual letters of Mariana Alcoforado and listen to some podcast episodes about Dom João II too. Especially the latter because I think he’s the one that there is more to say about than the others, and I have an OK sense of him as a historical figure but maybe less so as a cultural figure

Pedro e Inês

Facts / Dates

1320 – Nascimento de D Pedro I (Pai D Afonso IV)

1336 – Casamento com Dona Constança Manuel

1347 – Nascimento de Beatriz de Portugal, Condessa de Alburquerque, a primeira filha de Pedro e Inês

1349 – Morte da Constança

1355 – Assassinato da Inês

1357 – Ascensão ao Trono

1360 – Anúncio póstumo do casamento de Pedro e Inês antes da morte dela, construção dos dois túmulos no Mosteiro de Alcobaça, legendados “Até Ao Fim do Mundo”.

Bibliography

Garcia de Resende (1470-1536) – Trovas à Morte de Inês de Castro O primeiro texto que menciona a lenda (tirando um poema apócrifo atribuído ao infante Dom Pedro), contado pelo ponto de vista de Inés na hora do seu assassinato. É uma vítima inocente.

Fernão Lopes (1418-1459) – Crónica de Don Pedro I , depois incluído como intertextualidade no poema “Crónica” de João Miguel Fernando Jorge (1943-Hoje)

Teresinha de Jesus Baldez e Silva – A Tragédia de Inês de Castro: Uma leitura semiótica de ‘Teorema’ de Herberto Helder. – Afirma que Pèro Coelho participa numa ritual mística, simultaneamente desmistificando e resmistificando a lenda realista.

Ruy Belo (1933-1978) A Margem de Alegria – Segundo João Miguel Bray Gomes Silva, a obra representa Inês como eterno feminino.

Ana Cristina Correia Gil – A Identidade Nacional Na Literatura Portuguesa – afirma que a literatura inesiana, a partir do século XVI, faz parte no grupo de símbolos (com as ilhas afortunadas, quinto império entre outros) que facilitou a construção de uma identidade nacional

Sirlene Cristófano – O Paradoxo Da Ficção Histórica Do Povo Lusitano – Demonstra os contrastes entre a mitologia alucinante de Helder e o romance mais realista de João Aguiar, Inês de Portugal, no qual ela é uma pessoa verdadeira, histórica.

Roberto Nunes Bittencourt – Mitos, Traumas e Utopias – mostra como, em diversas obras literárias, determinadas figuras históricas assumem roupagens diferentes num processo de definição da identidade nacional.

Legado Cultural

Camões dá projeção universal ao mito delineado por Mota e Resende com os seus Lusíadas.

S XVIII e XIX – Beleza, Morte como símbolo de sofrimento eterno.  Sousa Viterbo, em A Fonte dos Amores diz que a história é “o episódio mais sentido da paixão humana”. Ao longo das décadas o romantismo realce a tragédoa do amor impossível da “bela do colo de garça”, vítima da política mas nos finais do século a ênfase passou para Pedro como protagonista, porque a personagem de Inês é tão limitada, até 1968 quando Fernando Luso Soares escreveu “A Outra Morte de Inês” no qual a princesa é visto como exemplar da liberdade pessoal.

Columbano Bordalo Pinheiro pintou “Drama de Inês de Castro” por volta da viragem do século XX

Nuno Júdice escreveu um poem sobre a vida de Dom Pedro após a execução da sua amante: “Pedro Lembrando Inês”

“Teorema” de Herberto Helder trata-se de um monólogo de um dos assassínios da Inês, Pêro Coelho, cujo coração acaba comido por “Pedro o Cruel”, com um pano de fundo de objetos e acontecimentos anacrônicos.

A lenda fica na consciência pública, como série no RTP em 2001, uma peça musical e vários podcasts, livros e documentários.

A Padeira de Aljubarrota

Facts / Dates

1385 – Batalha de Aljubarrota

Brites de Almeida

Bibliography

A lenda cresceu na tradição de “literatura de Cordel”, da qual o maior exemplo é “Auto Novo e Curioso da Padeira de Aljubarrota”. O retrato da forneira não é muito patriótica. Era nativa do Faro, e ao longo do enredo ela mata montes de pessoas além dos espanhóis, incluindo um homem que quer se casar com ela.

Virgínia de Castro e Almeida – História da Grande Batalha de Aljubarrota: Versão nacionalista do mito, na qual ela fala como o El-Rei Dom João I e defende o país em si (ao contrário à sua própria casa, por exemplo)

Legado Cultural

Cristina Pimenta em “A Padeira de ALjubarrota: Entre Ontem e Hoje alista os seguintes fases

  • Restauração (1640) A evocação da padeira em contextos religiosos e historiográficos deu legitimidade à nova dinastia de Avis.
  • Século XVIII Em tempos de calma, a história foi tratado mais levemente e foram acrescentados mais pormenores à lenda (foi durante este século que foi escrito o antes mencionado “Auto Novo…”).
  • Século XIX Numa era de romantismo e liberalismo a história foi apropriado como símbolo da regeneração nacional após a derrota do Miguelismo*** Também surge como personagem no livro “A Abóbada” de Alexandre Herculano or causa do seu valor simbólico.
  • Século XX Como é óbvio, uma figura tão trabalhadora, valente e simples representa um oportunidade ao Estado Novo que colocou a padeira em selos dedicados á independência da república. Também apareceram versões Salazaristas da lenda, editado pelo Secretariado da Propaganda Nacional. Além dos já existente virtudes, o regime acrescentaram moralidade e defesa da pátria.

As Cartas Portuguesas

Facts / Dates

Soror Mariana Alcoforado para Noël Bouton de Chamilly, um soldado francês que lutava na guerra de restauração (1640-1668)

O convento era em Beja

Lançadas em 1669 na França

A posição “Marianista” (ou seja, a opinião que as cartas são genuínas) é comum mas desde os anos trinta do século XX existem criticas que negam a veracidade delas e esta tese tornou-se maioritária.

Bibliography

“Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa” Mariana Alfoforado

“Três Variações para Cravo e Mariana” Nuno Júdice (em “A Árvore das Milagres”) Consiste em 3 contos:

  • “Cartas Francesas do Senhor de Chamilly a Mariana” (uma série de letras daquele cavalheiro para a freira, nas quais a paixão dos originais e reencenada. Mariana é um sujeito lírico e o autor sublinha o teatral e sugere que a paixão é uma fora de escrita)
  • “A Confissão de Chamilly (Um dialogo entre Chamilly e “o confessor”. Após algum tempo, entram Mariana e Dona Brites que se juntam à conversa. O autor desmonta e analisa a figura da freira e faz a pergunta da mediação literária e quem está a falar no livro que é atribuído á Mariana)
  • “Diário de um Amor” (Um monólogo de um narrador que encontra o livro durante um crise na sua vida pessoal. Neste último conto, a freira é deslocada para um cenário moderno. Vemo-la como uma mulher que escreve para não ser apagada da história)

“Soror Mariana — Beja” de Sophia de Mello Breyner Anderson (em “O Nome das Coisas, 1977) Consiste em dois versos: “Cortaram os trigos. Agora / A minha solidão vê-se melhor”

“Soror Marianna, a freira portuguesa” Luciano Cordeiro 1888 Gerlamente visto com a última palavra no caso marianista

“Who was the Author of the “Lettres Portugaises”?” F.C.Green, 1926. Este artigo não Mariana do académico americano abalou a visão do mundo dos marianistas. Critica as conclusões do Cordeiro o que ele acha demasiado crédulo, e levantas questões á autoria das cartas, referindo a vários documentos contemporâneos. Na sua opinião foram originalmente escritas como uma obra de ficção por um escritor francês chamado Guilleraque.

Legado Cultural

As letras influenciaram a literatura francesa durante décadas e ainda hoje vemos aquele efeito nos filmes de Almodovar (espanhol) e os livros de Madeleine L’Engle (americana)

Uma opinião forte e EM LETRAS MAIUSCULAS faz parte do Manifesto Anti-Dantas de José de Almada Negreiros

Deram nome às Novas Cartas Portuguesas, uma obra feminista e um dos livros censurados pela ditadura de Salazar

À partir dos anos 70-80, surgiram estudos mais interessados no impacto das letras na cultura portuguesa, na identidade nacional e na percepção do feminino.

Adília Lopes escreveu dois livros de poesia baseada na história: O Marques de Chamilly (1987) e O Regresso de Chamilly (2000) Adorei este poema, que é um exemplo do tom irónico no qual a história está virado às avessas

The Portuguese Nun – Filme

Dom João II

Facts / Dates

Nasceu em 1455, filho de Dom Afonso V e Dona Isabel.

Participou na campanha em Africa do norte com 6 anos!

Política externa muito ativa em termos de dominar as rotas comerciais, consolidar o seu poder em Africa com ajuda da igreja. Muitos dos descobrimentos com qual associamos Portugal tiveram lugar no reinado de Dom João e foi ele que assinou ou tratado de Tordesilhas.

Em casa, também queria consolidar o seu poder e isto deu motivo de conflito com os nobres.

1495 – Morte (com 40 anos – uma vida breve mas cheia de história!)

Bibliography

Garcia de Resende – Crónica de El-Rei Dom João II (1545) – basicamente apaixonado pelo rei

Rui de Pina – Crónica de D. João II – Igualmente

João de Barros – “Décadas na Asia” (1552) e Damião de Góis – Crónica do Principe D. João, (1567) Estes dois criticaram Pina por omissões e tendam a apoiar os nobres, os Duques de Bragança e de Viseu

Manuela Mendonça – Dom João II (Biografia)

Mafalda Soares da Cunha – D. João II e a construção do Estado Moderno. Mitos e perspectivas historiográficas

No Século XIX, nasce a nossa imagem do rei: Rebelo da Silva e Pinheiro Chagas e Oliveira Martins elogiam o seu racionalismo e modernização do estado.

Alexandre Herculano “Opúsculos” Cartas 4 e 5 criticam Dom João por levar a cabo a destruição da liberdade pessoal e por pôr o país no caminho para absolutismo de decadência.

Oliveira Martins e outros historiadores do século XX veem o rei como capaz de modernizar o estado sem restringir a liberdade pessoal. O Estado Novo, surpreendentemente não valoriza o rei tanto quanto reis militantes como Dom Afonso Henriques.

Bebiano, Adriana (2002) A invenção da raiz. Representações da nação na ficção portuguesa e irlandesa contemporâneas em Ramalho

Legado Cultural

A divisa “Pola ley e pola grey” (“Pela lei e pelo grei” – grei quer dizer rebanho) – princípio de governo justo para o povo

O Mostrengo e Uma Asa do Grifo – Fernando Pessoa

Miguel Torga – O Príncipe Perfeito

O símbolo do pelicano eucarístico, embora seja principalmente um símbolo católico é muito associado com Dom João II. A Estátua na sua homenagem provavelmente base-se nesta imagem

Dezenas de livros.

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Uma Mulher Sem Sorte

Even her WIkipedia image is tiny. Poor cow.

Estou a reler os materiais do meu curso antes do exame. Não sabia disto antes mas quando Constança Manuel se casou com o Infante dom Pedro com 16 anos, foi a segunda união dela. Quando era uma menina com sete anos, o pai dela casara-a com o seu pupilo, Afonso XI de Castela que naquela altura tinha 14. O casamento não fora consumido, tanto quanto sabemos, e ainda bem, mas o seu marido tinha escolhido outra esposa, deixando Constança sozinha para fazer uma nova aliança com o famoso Pedro, um dos homens mais conspicuamente infiéis de todos os tempos. Coitada, ela teve tanto azar.

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O Antónimo de Anónimo

Já percebeste que existem palavras negativas que não têm vocábulos opostos? Um exemplo famoso no meu próprio idioma é “disgruntled” que parece o oposto de “gruntled” mas gruntled não existe. Encontrei um exemplo no livro “Os Memoráveis” de Lídia Jorge.

Ela fala de “cartas nónimas e anónimas”. Nónimo =”que tem assinatura” ou “cuja autoria é conhecida”? Acho que ela está brincar com palavras porque o termo não se encontra no meu dicionário.

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Virtual Sabre Rattling.

I don’t tend to drink a lot but it’s Burns night here in the UK and… Well, the quality of grammar, as well as the general raciocínio on display in today’s blog might be lower than usual, that’s all I’m saying. This is also the most conspiracist blog I’ve ever written. Not in a bad way (I hope) but certainly full of wild and unsubstantiated claims. So… Strap in!

Hum… Recentemente, o meu feed YouTube anda cheio de vídeos sobre a potência militar de Portugal e a sua força na aliança OTAN. Por exemplo, hoje, chamou-me a atenção “How Insanely Powerful is Portugal’s Military in 2026” (subtítulo “Why Portugal’s Military Shocks NATO”) Antes “Why Portugal Now Controls the Most Important Waterway in Europe” (subtítulo “Atlantic Gatekeeper”) e existem ainda mais, por exemplo isto e isto e isto. Ao que parecer as vozes dos anfitriões são geridos por IA. A voz irlandesa que narra o primeiro vídeo nem sabe dizer “nato” nem “trident” e existe gramática que um anglofono não diria nunca, como por exemplo “Every for a government that had planned for 2029”. É evidente que não é um ser humano.

O que é que está a acontecer? Não consigo dizer com certeza. Os americanos não têm motivo para elogiar o exército português.. Os russos é os Chinese também não, mas aqui vou eu a pensar em voz alta.

2.0>2.4

Mostram-se no vídeo vários diagramas e gráficos incluindo este (supra) que demonstra, nitidamente que o 2.0% orçamento militar de Portugal é maior do 2.3% do Reino Unido ou o 2.4% da Alemanha. Hum… tá bem… Qualquer pessoa com domínio da matemática consegue ver este truque instantaneamente, mas acho que o alvo do vídeo é uma pessoa que não tem domínio da matemática. Que não sei nada de nada.

Para mim, a resposta é fácil: com as ameaças do “presidente” dos EUA contra a Dinamarca (a minha terra espiritual), acho que o governo português teme ser alvo de mais uma campanha militar para anexar territórios estratégicas, mais obviamente os Açores, onde fica as Lajes, uma freguesia na ilha do Pico, onde é situada a base aérea mais estratégica no mundo. Antigamente, a base tornou-se motivo para os Estados Unidos se meter na política portuguesa, porque é um sítio muito importante nos planos estratégicos daquele país. A perda da base (no caso, por exemplo, de um governo comunista ter sido eleito durante a guerra fria) dificultava as operações da força aérea americana na Europa, na África e no medio-oriente. Ainda hoje, existem teorias de conspiração ligando a morte do presidente Francisco Sá Carneiro à CIA por causa da sua oposição à presença das forças armadas americanas no arquipélago.

E, com este pano de fundo, parece-me que o governo português acharia vantajoso espalhar propagandas sobre a confiabilidade e o poder incontestável do estado português na aliança transatlântico.

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Existiam Três Salazares?

Um artigo no jornal Expresso, logo depois do anúncio do resultado da eleição afirmou:

Ventura deixa cair a “moderação”, recupera os “três Salazares” e quer ser como Afonso Henriques contra “os mouros”

Expresso

O quê?

Ao que parece, o testo refere-se a uma entrevista durante a qual Dom Aldtrump disse que “Portugal só se salva se em Santa Comba Dão* houver um fenómeno místico que faça saltar uma tampa que projecte “três Salazares” para limpar a “corrupção”, a “bandalheira” e os que “entraram com cadastro” no nosso país “

Hum, na boa chavalo retardado. Seja como for, deu-me uma ideia para uma piada. Espero que gostes.

Quantos Salazares são precisos para mudar uma lâmpada?

Três: um para subir na cadeira e mudar a lâmpada, um para segurar a cadeira enquanto está de pé nele, e a terceira para a segurar ainda mais firmemente.**

*Caso não saibas (eu também não sabia), Santa Comba Dão é o lugar de nascimento do único Salazar que já poluiu o país na realidade.

**And in case you don’t know what this is about, Salazar died a few days after falling from a chair and injuring himself. It’s still a pretty terrible joke, that he’d be so paranoid about having to stand on the chair he’d ask both his clones to hold it steady…. Oh well, never mind

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I Continue to Get Surprisingly Good Marks

I got a solid 3.4/4.0 in the essay about Dom Joâo II. That’s 85% – God, I’d have killed for marks like that in the degree courses I took in IT and computing. I made a lot of silly grammatical errors that I should have picked up in editing, but in spite of everything, he noted that I have shown that I had an original and distinctive take on the subject, and I feel quite pleased with that!

As Sombras de D. João II

Anyway, I need to start revising, so I am going to go through it in detail, fix the mistakes and think about what could be improved. Again, this is just for my own benefit, but if you’re following along, the challenge was to analyse the title and subtitle of this thriller and decide what it means, referring to what we know about the real (historic) and fictional (in legend, propaganda and media representations) person that is Dom João II. I’ll fix all the boring typos and comment on the mistakes that are interesting enough to say something about. I’m indebted to the teacher who took the time to correct the grammar but didn’t penalise me for it as I suspect he probably could have!

Introdução

Neste texto, vou tentar decifrar o significado do título e o subtítulo deste livro, mas antes de começar, é necessário perguntar “o significado para quem?” Raras vezes todos os leitores de um livro concordam sobre a interpretação de um livro. Então o nosso pensamento deve começar com o autor e a imagem que ele quer criar na mente do leitor. Mas a visão do autor não é isolada, separada da cultura e da sociedade onde vive. O seu retrato do rei tem de ser reconhecível para os leitores, ou seja, tem de ter alguma semelhança com a pessoa de João II promulgada* nas escolas e na média. Ao mesmo tempo, um autor de romances históricos sabe bem que os seus leitores querem mais do que factos, nus e crus. Se quisessem isso, teriam comprado alguma coisa da estante não-ficção. Assim podemos imaginar o autor a pensar nas várias narrativas ao longo dos anos. Não sendo historiador nem propagandista, o autor de ficção histórica é livre para escolher os aspetos da lenda que satisfazem os seus critérios.

Como o Título Chama a Atenção dos Leitores

Em primeiro lugar, a palavra “Sombras” pode ser interpretada de várias maneiras. Pode-se imaginar uma montanha ou um castelo a assombrar o território à sua volta por causa da sua imensidade. Uma sombra, então, é símbolo da imponente estatura da figura do rei nos olhos do povo. Por outro lado, a palavra sugere o lado obscuro de um governo e a sua rede de espiões. E em terceiro lugar, é fácil imaginar o rei como um protagonista assombrado pelas suas próprias dúvidas.

Destes três, a primeira explicação é a menos satisfatória. Um castelo tem uma sombra e mais nada, mas a palavra no título é plural. Quanto aos outros significados, o site da editora (Clube do Autor, 2026) fornece amplas provas de ambas. Talvez a única frase mais reveladora do seu assombramento e o do seu povo é “No meio de tudo isto, há um homem de lágrima fácil e íntimo cruel, um verdadeiro manancial de sentimentos por decifrar.”

Noutras palavras, ao** leitor está a ser prometido emoções turbulentas por parte de um rei que anteriormente teria parecido opaco e ainda por cima um enredo cheio de surpresas e que – quem sabe – é capaz de pôr em causa a nossa imagem do Príncipe Perfeito. 

Como o Subtítulo Os*** Seduz Ainda Mais

À primeira vista, o subtítulo, “Sonho, glória, poder e intriga. Os bastidores de um reinado de ouro.” garante uma visão do rei que é mais tradicional e mais normativa: o rei levou a cabo uma onda de descobrimentos cruciais para o futuro do país e do continente europeu, trazendo glória, poder e riqueza para os participantes e para o trono. Na verdade, a legacia**** dele é altamente discutível, como vemos na obra da Mafalda Soares de Cunha que mostra exemplos de historiadores serem acusados, desde o século XVII de (entre outras coisas) “[…] omitir uma série de informações importantes, como é o caso do seu papel no progresso da gesta expansionista… (Cunha 1988 pp 651) mas isso não altera a reputação do rei na imaginação pública. O seu nome é quase sinónimo dos descobrimentos, é óbvio no “Mensagem” de Fernando Pessoa, a sua mitologia poética do passado de Portugal, onde o rei aparece não só no poema que tem o seu nome onde ele parece “uma alta serra”***** (Pessoa 1934 pp 44) (e, indubitavelmente, assombra o promontório onde está!) mas também em “O Mostrengo” o navegador leva o nome dele como um talismã contra os perigos do mar****** (Pessoa 1934 pp 57)

Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!

Adriana Bebiano afirma que a precariedade do mundo atual (ela estava a escrever logo depois dos atentados de 2001) produzia um desejo de regressar ” a representações identitárias onde se observa um excesso de passado” (Bebiano, 2002 pp 534) e que, no caso de Portugal, esta tendência era caracterizada por “a quase omnipresença da gesta marítima” (ibid) como o navio na capa deste romance.

Para Jorge Sousa Correia, escrevendo nos anos vinte deste século, a confiança na autoridade está catastroficamente reduzida e andamos rodeados por teorias de conspiração. Daí, não é nada surpreendente que vejamos neste título e seu subtítulo, uma combinação da glória radiante do passado, salpicada de tons mais escuros, representando a sombra de dúvida no que diz respeito ao líder daquela época dourada*******.

*I should really have said divulgada or propalada. I was really going for something that indicated the image was being put out as a sort of “official version” of events but it turns out I don’t really know what promulgated means even in my own language!

**Over-literal translation here. In english we’d say “the reader is being promised something” but that doesn’t work in portuguese; you have to say something is being promised TO the reader

***This is meant to follow on from the previous heading: having caught the eye of his readers he is seducing them further, but with such a long gap in between it was confusing, so the marker was left scratching his head and wondering who the hell I’m on about

****Woah! This falso amigo really surprised me. I should have said “legado” which means legacy. Legacia refers to the office of a legate!

*****Part of the instructions were that you had to quote something from the mandatory readings and believe it or not there three words are me paying lip service to that rule, because this poem is one of the texts. The marker didn’t notice – perhaps understandably, given how titchy it was, and I think I lost points as a result. Well, it’s a fair cop!

******I’m really not happy with this whole section, highlighted in yellow. It seems like a real tangle of thoughts. The prof didn’t penalise me for it, but I wish I had taken half an hour to straighten it out a bit and order it better.

*******I think the conclusion here went down well. I was quite pleased with it. I was criticised for not going into the “sombras” as much as I could have by referring to the death of his son or or the aristocrats he had bumped off. To be fair, neither of those is really referenced in the blurb and I had the impression the writer wasn’t really focusing on them, but OK, fair enough, maybe I should have gone darker!

Bibliografia

Bebiano, Adriana (2002) A invenção da raiz. Representações da nação na ficção portuguesa e irlandesa contemporâneas em Ramalho, Maria Irene e Ribeiro, António Sousa Entre Ser e Estar (2002) (pp 503-537)

Clube do Autor (2026). As Sombras de Dom João II, encontrado a https://www.clubedoautor.pt/livro/as-sombras-de-d-joao-ii

Correia, Jorge Sousa (2021) As Sombras de Dom João II

Cunha, Mafalda Soares da (1988) D. João II e a construção do Estado Moderno. Mitos e perspetivas historiográficas em Arqueologia do Estado pp 649-667

Pessoa, Fernando (1934) Uma Asa do Grifo em Mensagem pp 44

Pessoa, Fernando (1934) Mostrengo em Mensagem pp 56-57

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O Sonho de Vinho Canalizado Esvai-se

Caso já não tenhas ouvido, André Ventura, o Farage Lusitano acabou em segundo lugar mas o vencedor, António José Seguro, apesar de receber mais votos do que era previsto, não venceu por completo e os dois irão à segunda volta. Em termos da marcha do populismo, isto representa um terramoto político igual à que quase levou Marine Le Pen à presidência da França em 2022.

Durante os próximos dias os restantes candidatos escolherão apoiar um ou outro, segundo a sua consciência e um raciocínio de como o seu apoio afetará a votação. Por exemplo, Ventura está a desafiar o primeiro ministro, Luís Montenegro (cuja tenda fica no centro-direita do campo político) emprestar a sua voz à campanha dele, dizendo “socialismo mata”. Sendo assim, acho que, se o partido comunista decidisse apoiar Seguro (que é socialista) isso daria mais munições ao inimigo, portanto não é um simples questão de se juntarem contra o fascista.

Mas que sei eu? Não sou especialista nesta merda toda, mas espero que os cidadãos de Portugal escolhem com cuidado nesta próxima volta,

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Os Presidenciais e Manuel João Vieira

Não estou a prestar muita atenção às eleições presidenciais que decorrem hoje, no dia 18 de Janeiro. O atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa não é candidato mas há um leque de homens cinzentos e uma mulher cinzenta prestes a tomar as rédeas do estado, entre eles o javardo Andre Ventura, Henrique Gouveia e Melo, o almirante que dirigiu a resposta do país ao pandêmico e… este tipo genial que aparece dia após dia no meu insta a empolgar o povo com as suas ofertas de vinho canalizado e Ferraris para todos. Até o The Guardian (“o The” é certo, por mais estranho que pareça) deu espaço à campanha desse candidato. E já estava curioso sobre o homem, mas hoje de manhã este vídeo apareceu nas minhas notificações. Eh pá, o gajo também sabe cantar? E claro que sabe, porque antes de ser o próximo presidente da república (ok, probably not, but I can dream, can’t I?) era cantor, artista e membro de várias bandas. Aqui está no canal de David Antunes.

When your guest drops the P-bomb

Há algum tempo, comecei a seguir um outro Vieira, Tim Vieira que, naquela altura, era candidato mas retirou a sua candidatura em agosto, antes de ser formalizada junto do Tribunal Constitucional. O Tim foi um “tubarão” no sentido de ter sido membro do painel da versão portuguesa do “Shark Tank” (Dragon’s Den em Inglaterra), ou seja, é um empreendedor, mas na esfera política, O Vieira tubarão não chega* aos calcanhares do Vieira barbudo.

Quanto aos outros, estou-me nas tintas. Quem me dera que houvesse menos, porque não quero que os votos dos não fascistas dividam-se entre uma dezena de políticos profissionais, mas se não me engano haverá uma segunda votação, caso o resultado da primeira não seja conclusivo…. e ainda bem!

Depressingly close race that…

* e, se levares uma mensagem deste texto, espero que seja isto: “não chega”, ou mais precisamente, “não, chega”.

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As Cartas de Amor – Madeleine L’Engle

(Contém spoilers) Madeleine L’Engle é famosa principalmente por ter escrito o clássico de ficção científica A Wrinkle in Time (Um Atalho no Tempo), e confesso que não fazia ideia de quais, nem quantos, outros romances ela escreveu, mas ao procurar as obras inspiradas pela história das cartas portuguesas, deparei-me com este livro.

Trata-se de um romance histórico que sucede em três linhas temporais: a da Charlotte, uma norte-americana dos anos sessenta do século passado (quando o livro foi lançado), a da mesma Charlotte quando era nova, numa escola católica, e finalmente no século XVII, no convento onde viveu a “freira portuguesa”, Soror Mariana Alcoforado. A história da jovem Charlotte é um enredo menor, subordinado às outras duas.

É evidente que a autora fez uma pesquisa minuciosa antes de se pôr a escrever. Embora as cenas com Mariana sejam ficcionais, são baseadas na realidade: citações das cartas, os membros da família da freira, o estado social do seu amante, a guerra, e a polémica em torno da autoria das cartas, por exemplo. O elemento fictício ilumina os factos com uma narrativa credível do estado de espírito da Mariana e das outras freiras desde antes da chegada do jovem militar francês até à publicação das cartas e a sua subsequente desgraça. Existe um epílogo no qual a autora explica quais aspectos do texto são ficcionais.

Apreciei como a autora fez a transição de um fio narrativo para outro: muitas vezes acaba com uma protagonista a dizer ou a fazer alguma coisa, e retoma a história de uma outra, num momento no qual ela está a fazer ou a dizer algo muito semelhante, o que realça como as duas vidas correm em paralelo. A Charlotte também sente-se culpada e abandonada. No seu caso, o seu filho faleceu e a seguir o luto e o sofrimento dela e do seu marido* dá-se num rompimento no casamento deles. Ainda por cima, ela está grávida. A origem da angústia dela não é idêntica à da Mariana, mas o tamanho daquela angústia é igual.

Entretanto, na terceira linha temporal, o maior acontecimento na história da jovem Charlotte tem lugar na escola internato, quando uma amiga dela trai a sua amizade e, quando a Charlotte a escreve uma carta para lhe pedir a voltar a ser amiga dela, a já ex-amiga trai la ainda mais por ler a carta em voz alta às outra alunas no dormitório.

Ao longo do tempo, lendo as cartas e falando com os padres e os amigos que conheceu em Portugal, a Charlotte vem a ter cada vez mais simpatia pela condição da Mariana, e entende a sua situação de uma nova perspectiva de aceitação do seu próprio pecado e da sua própria angústia. Mas a aceitação leva-a a uma decisão surpreendente: ela volta ao marido. O marido da Charlotte é um bruto insuportável, na minha opinião, mas a autora retrata-o como um ser humano falho, em vez de uma caricatura, apesar do seu comportamento imperdoável com a Charlotte. A escolha, por parte da Mariana, para regressar a casa é um osso difícil a roer. Geralmente, não aconselharia alguém a se reunir com um homem daquele tipo, mas na situação na qual se encontram, sabendo que a perda de um filho é capaz de despedaçar uma pessoa, fosse quão decente que fosse, quase vejo como ela chega à sua decisão.

(I posted this on the university message board and the docente asked me how she had managed to work in the controversy around the authorship of the letters so I add the following by way of follow-up)

Não quis sugerir que a autora deixou a questão completamente aberta. Na linha temporal da Mariana, é evidente que ela escreveu as cartas e entrega-as para o soldado com ajuda de um amigo. O livro chega, sem aviso, da França, nas livrarias da cidade e em breve toda a gente sabe, e as freiras tornam-se alvo de piadas grosseiras, e como podes imaginar isso tudo cria muito transtorno e raiva no convento.

Mas ela usa diálogos entre as personagens na narrativa que tem lugar no século XX para elaborar certas coisas sobre o que nós sabemos, ou não sabemos, sobre as cartas, nos dias que correm. Por exemplo, perto do final do livro (os parágrafos da versão Kobo nem sempre correspondem aos de um livro de papel mas acho que há de ser 20-30 páginas antes do fim) encontramos a seguinte exposição escondida numa conversa entre a Charlotte e Dr Ferreira:

She picked up the letters.
He looked at them, raising his shaggy brows. “You must understand, Charlotte that it is perfectly possible that these letters are a fraud.”
“But what do you think?” Charlotte asked. “Do you think it all happened? There was a nun in the convent called Soror Mariana, wasn’t there?”
“Yes. But there are many people who think that the name was stolen, that she has been maligned, that the religious vocation has been smirched.”
“And you?”
“There have always been people who cannot understand the meaning of vocation and therefore would like to see it belittled. As for Soror Mariana, yes, I happen to think it probably happened, but that is hunch and personal opinion, not authentication.”
“Do you think the letters are shocking?”
“If they are real, no. If they are a literary fraud, yes.”
“Why?”
“They aren’t good enough art. If they aren’t a true outcry, they were written purely for sensationalism. It is not that as a subject I find it shocking. I don’t feel that in art there is any subject that is taboo. It is how it is handled that matters. A study of nudes is a simple enough example. Some are art; others are nothing more than pornography. “