Falei com a anfitriã do Podcast sobre o qual escrevi há uns dias. Parece-me uma professora simpática, e o Podcast é uma ideia interessante. Éramos três: uma búlgara, uma espanhola e eu. O plano da professora é recrutar 15 pessoas de várias nacionalidades. Sendo fora de casa, no jardim do arquivo nacional, havia muito barulho de aviões a sobrevoar o bairro, rumo ao aeroporto Heathrow e de gansos à minha volta à procura de migalhas de pão. Quando ela marcar uma data para gravar o episódio, escolherei um lugar mais sossegado!
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Brasuguês Portuleiro
The book I’m reading right now is a classic Brazilian book, “Capitães da Areia” by Jorge Amado, about a group of street kids in Salvador da Bahia in the 1930s. My edition was published by a portuguese company called LeYa, and advertised under the government’s Ler+ initiative. At first, I thought someone at the publishing house had tweaked the language to make it more understandable to portuguese readers. Let me explain why, and why I was wrong.
As you probably know, (check here if you don’t) Brazilians typically address each other as “você” in their conversation and change the verb endings accordingly. “Tu” is more common in Portugal.
What’s weird about this book is, the characters all address each other as “tu”, after the European style, but the verb conjugations all use the você form. This looked like a mistake to me, so I went online to ask if maybe someone had screwed up at LeYa HQ.
Here’s my question in portuguese, and I’ll put a summary of the answer down below in English.

Estou a ler um livro brasileiro chamado Capitães da Areia, mas ao que parece a editora, Leya, mudou determinadas frases para soarem mais naturais a um leitor europeu. O resultado é… Surpreendente. Ou pelo menos eu fiquei surpreendido. Há montes de diálogo onde o pronome é “tu”, como se usa em Portugal, mas o verbo fica na terceira pessoa como se seguisse o pronome “você”
“Tu quer me fazer um favor”
e
“Tu liga para guarda?”
e
“Tu sabe, Sem-Pernas, que ele é um bicho calado”
Isto tudo está errado ou eu estou a enlouquecer? Ou… Talvez haja uma explicação melhor. É normal em PT-BR? A maior parte da história parece-me como o original (calão e vocabulário brasileiros, “trem” em vez de “comboio”, etcetera. Até há um daqueles “us” com hum… Umlaut… (Google) Trema! U com trema, que nem sequer existe em PT-PT, nem antes do AO nem depois.
Many of the replies said yes, this was a horrible disgrace, but there were quite a few brazilians who told me that all this is normal: it’s just a dialect spoken in some parts of southern Brazil. Besides, they added, the street kids haven’t really had the benefits of education, so it’s no surprise that they don’t have immaculate grammar.
There are a couple of ways of approaching the question of how to define good use of a language. The first is prescriptivism, which says there is one correct way of speaking and anything that deviates from it is wrong. The second is descriptivism, which starts from the premise that if people are speaking in a non-standard way and being understood by the people around them then they are just speaking a different version of the language, using different rules, and the linguists’s job is to describe what they’re doing, not to tell them they’re wrong. Most linguists and dictionary writers tend to be descriptivists on principle* with some exceptions**. I tend to be mostly descriptivist until someone tells me that ‘literally’ can mean ‘figuratively’, at which point I reach for my kalashnikov.
So, for example, you could argue that Brazilian portuguese is bad portuguese because it has diverged from the standard form of the language, spoken in Lisbon. But you could equally well say the same about Madeiran portuguese, or. Scouse English. In fact, if you wanted to be very hard-line about it, you could say portuguese is badly-spoken Latin since it has deviated from the language the Romans brought there in the third century BC.
Let’s say, for the sake of argument, that portuguese is it’s own language now, and that Brazilian portuguese is one among many dialects of Portuguese spoken in Portugal and it’s former colonies. But what about within Brazil? Is this Salvador de Bahia variant a separate dialect that has diverged and formed its own rules or are it’s speakers just hicks whose babbling would be scorned by educated people in Rio, let alonwle Coimbra?
The answer probably depends on your personality and your politics, but for me, as a learner, I just have to appreciate the book for what it is: a milestone of literature in portuguese. Let the linguists argue over the details.
If you’re studying a language, you should probably think like a prescriptivist because the people marking your work will be following a standard. If you use a você verb ending with someone you’ve addressed as tu, they won’t treat that as a delightful regional variation, they’ll just deduct marks. I made this point in what I thought was a light-hearted way to a strong descriptivist who told me “right and wrong don’t exist” when it comes to questions of language, but I got downvoted, suggesting most people disagreed. 😂

* If you haven’t read “The Meaning of Everything” by Simon Winchester I can recommmend it, and it addresses why early lexicographers made this choice.
**There have been some famously sarcastic and biased definitions in English dictionaries in the past. More recently, prescriptivist tendencies have come out in attempts by activists to get the meanings of words changed in order to short-circuit debate and bring about social change in a more top-down way. The most famous was this one in the aftermath of the George Floyd murder.
Um Encontro Imprevisto
True story. I know it sounds made up, but it’s not, I swear. Thanks to Dani for the corrections.

Eu e a minha filha fomos ao pub ontem para participar no “Quiz” deles (um concurso de perguntas e respostas). Desta vez, convidámos a prima dela, mais uma nativa da Madeira, para participar na nossa equipa. Fomos pelo caminho à beira do rio porque é sempre bonita ao fim da tarde. Ela ia a falar sobre o seu ator preferido, Reece Shearsmith, que está atualmente numa série da Netflix.
Após algum tempo, havia um grupo de pessoas a andar na direção oposta e, atrás delas, duas ciclistas. Parámos para deixar as ciclistas passar, e o homem do grupo, vendo que havia alguém parado na sua frente, levantou a cabeça para dar uma olhada à sua volta. Assim que vi o seu rosto apercebi-me de que era o rosto do Reece Shearsmith.
Pus-me a andar de novo, boquiaberto. Ouvi a Olivia a perguntar “O quê???”.
“Isto aconteceu mesmo?” disse eu
“Aconteceu, sim” respondeu. “Mas porquê?”
E continuámos para o nosso destino, mais velhos e mais sábios*.
Ela contou a história à sua prima e (através do aplicativo Discord) a alguns amigos, mas não quer revelar o encontro nas redes sociais porque ninguém vai acreditar em algo tão rebuscado.
Ganhámos o quiz porque somos génios mas isso foi apenas a segunda coisa mais incrível da noite.
*We went on our way, older and wiser. I like this as a phrase and I enjoyed translating it, but really it’s likely to sound a bit weird in portuguese. It’s a bit self-indulgent to expect quotations to translate frictionlessly from one language to another.
“Ideias Concretas Sobre Vagas” de Ricardo Araújo Pereira
Ricardo Araújo Pereira é um dos humoristas mais confiáveis que já li: sempre que abro um livro dele, fico divertido e, às vezes, até aprendo algumas coisinhas. Nunca encontrei um livro dele aborrecido (mas nunca experimentei o que fala de futebol!)
Neste livro, o ganda Ricardo vira a sua atenção para a pandemia e os transtornos, as parvoíces e todas as mudanças daquela época na história do nosso mundo. Ler o livro é uma espécie de viagem no tempo: é quase possível adivinhar a semana na qual um capítulo foi escrito, analisando o que ele menciona: o confinamento, as medidas contra infeção, como lavagem de entregas, máscaras, o horrível vídeo de estrelas a cantar “Imagine” e por aí fora. E não desilude.
Tanto quanto sei, o título é um trocadilho baseado no duplo significado de “vagas”: como substantivo é um sinónimo de “ondas” e como adjetivo é a forma feminina e plural de “vago” que significa “impreciso”. Portanto pode significar “sobre as vagas do vírus” ou “sobre ideias vagas”.
Madeira – O Epílogo

Aqui vamos nós, logo de manhã (às três e meia! Que horror!)
Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiii!!! Pelo menos aprendi a gritar em português.
Ufa, chegámos, sãos e salvos.
Madeira 12 – Dia de Fazer as Coisas Todas
Agora que escrevo isto, pergunto-me como é que fizemos tanto num só dia, mas fizemos e nem sequer nos sentiamos apressados. último dia, conseguimos tudo que tínhamos planeado: eu corri logo de manhã antes dos outros acordarem. Tomámos o pequeno-almoço no café Penha D’Aguia e visitámos duas igrejas, incluindo a Sé e o Museu de Arte Sacra. Depois, fui buscar o carro ao estacionamento e fomos todos à praia para um breve mergulho, e fomos ainda ao topo do Pico do Areeiro acima das nuvens. A vista era incrível. Quando voltamos para o Funchal, estacionámos o carro num lugar estratégico e fomos comer num restaurante de que tinha gostado quando jantámos lá há uns dias. Experimentei a poncha e a cerveja madeirense, Coral. Deitei-me cedo para estar pronto para o dia seguinte porque temos um voo muito cedo.

Agora que escrevo isto, pergunto-me como é que fizemos tanto num só dia, mas fizemos e nem sequer nos sentíamos apressados.
Madeira 11 – ao longo da costa
Hoje, fomos de carro ao longo da costa para visitar vários sítios : o Centro da Banana da Madeira, um restaurante em Porto do Sol, a Câmara de Lobos, Cabo Girão, a Igreja de São Mateus, e uma livraria num bairro nos arredores do Funchal onde há muitos hotéis e prédios altos modernos. Parece um trecho de terra a beira do rio Tamisa! Chegámos a casa às 8 horas da noite e jantámos pão, manteiga, queijo e chouriço.

Amanhã será o último dia das férias e estamos ansiosos para não desperdiçar o tempo restante. Planeamos em nadar mais uma vez, em visitar um museu, e em comer e beber várias coisas que ainda não experimentámos. Ainda não tive a prazer de provar esta ‘poncha’ com a qual toda a gente está tão entusiasmada. A tragédia de ser o único condutor!
Madeira 10 – As Pessoas que Moram na Colina
Antes de a família acordar, saí de casa e corri pelas ruas da cidade, desfrutando do ar fresco e das calçadas vazias.
Mais tarde, fomos todos à estação do teleférico e viajámos até aos jardins da Quinta “Monte Palace”. Almoçámos e demos uma voltinha de pé. Numa parte do jardim havia um grupo de fotógrafos à espera de duas pessoas: um homem e a namorada. Ele fizera planos para a pedir em casamento. Ficámos por perto e, a julgar pelos gritos, ela aceitou e já está a sua noiva!

Às 4 horas e meia, a madrinha da Catarina chegou à entrada dos jardins botânicos. Ela e o marido levaram-nos a sua casa onde passámos três horas agradáveis. Moram numa casa que construíram do princípio numa colina. É bonita e a vista da varanda é incrível. Comemos uma fatia de bolo caseiro e bebemos um copinho de ginjinha, também caseira*, e uma chávena de chá. A Catarina e a madrinha falaram das suas vidas e de pessoas conhecidas de** ambas. Eu tentei falar com o marido mas além de ele ter o sotaque madeirense tinha tido um acidente vascular. Portanto era difícil entendermo-nos, mas eu disse algumas coisinhas sobre a nossa vida, e até consegui fazer umas piadas. A Olivia ficou tão entediada que ocorreu*** um milagre: ela estava incentivada a falar português, o que basicamente nunca acontece. Com as poucas palavras que ela tem, e o francês da escola (a madrinha tinha sido professora de francês antes de se reformar), ela conseguiu comunicar. A madrinha é muito simpática e a família também. Segundo a Wikipedia, o papel dos padrinhos é serem “pais espirituais” e “no batismo, têm a obrigação de**** auxiliar os pais da criança na sua educação religiosa”. A Catarina é casada, não só com um ateu, mas um ateu protestante, mas se a madrinha dela estava desiludida com a sua afilhada, escondeu bem a desaprovação! Sou introvertido e regra geral fico desconfortável com desconhecidos mas não houve problema porque foram tão acolhedores.
Depois, o casal deu-nos uma boleia para a cidade e nós jantámos na varanda dum restaurante ótimo, olhando os transeuntes em baixo.
Foi um dia muito agradável.
*I wrote “caseiro”, which would have been right if she’d made the glass but as you’ve probably guessed, it was only the drink she’d made! Adjective endings can change the actual meaning if a sentence!
**Wow, unexpected preposition here: “known of both”, not “known to both”
*** I used “passar-se” instead of “ocorrer” but it doesn’t work on its own like that: it means “freak out”
****I the original it says “têm como obrigação auxiliar” but I lost the “como” and didn’t change the test of the sentence to compensate. Bad paraphrasing.
Madeira 9 – Cafés e Cartazes

Começámos por tomar o pequeno-almoço no café Brunch Club. Como provavelmente já adivinharam, este café não é um autêntico café madeirense. Não, é uma armadilha para influenciadores. Depois, explorámos mais lugares da juventude da minha esposa, e andámos à vontade. Embarcámos num barco turístico às três horas e passámos 3 horas no mar entre o Funchal e as ilhas Desertas*. Vimos dois grupos de baleias-piloto, que me chatearem muito porque senti-me obrigado a largar o meu livro para vê-las. Mas consegui ler dois capítulos apesar da distração.
À noite, comemos sopa com pão de casa** e manteiga.
Por falar em “Armadilhas de influenciadores”, o que mais me chamo a atenção no Nono Dia das férias foram os cartazes colados a várias paredes que deploram a presença de tantos turistas na ilha. “Não sou turista, eu vivo aqui. A cultura da Madeira tem que*** voltar a ser a cultura da Madeira – QM Antifascismo”

Pois é. Também vivo numa ilha onde temos turistas e imigrantes, incluindo madeirenses (sou casado com uma!), mas este ponto de vista: “há estrangeiros a mais, temos de preservar a nossa cultura” não é chamado “Antifascismo” por cá. Quase o oposto. É estranho como a política tem formas diferentes em lugares diferentes. Mas é um verdadeiro problema: em qualquer parte, temos de estabelecer um equilíbrio entre uma sociedade com as suas próprias tradições e a vontade das pessoas de viajar, migrar e trabalhar onde quiserem. Por causa do globalismo, esta tensão vai aumentar cada ano mais e não é nada fácil de resolver.
Tirei fotos dos cartazes como nós turistas costumamos fazer.
*The name of the island, not just deserted islands
**This isn’t just a way of saying “homemade bread” it’s an actual type of bread. Recipe here.
***Grammatically, it’s more correct to say “tem de” but that’s how it appears in the poster.
Madeira 8 – Ensaio Sobre o Fim da Cegueira
Liguei ao oculista logo de manhã. Disse que os meus óculos já chegaram. Ótimo! Apanhei o autocarro para os recolher. Depois fui ter com a minha família a um café chamado A Penha da Aguila onde comemos bolos e sandes.
Passámos a tarde a andar a pé* pelas ruas. A Catarina mostrou-nos a sua escola primária (que é mil vezes mais bonita do que o edifício quadrado dos anos sessenta onde passei a minha infância entre os 5 e os 10 anos) e secundária (o Castelo de sonho da Barbie) e vários lugares da juventude dela. Também visitámos duas livrarias: uma Bertrand e a Livraria Esperança, que é uma loja vasta com três andares onde se vendem livros em** segunda mão, que ficam seguros*** por clipes e pendurados de ganchos nas paredes. As senhoras foram fazer manicura num salão e voltaram com as unhas pintadas de azul-turquesa e de verde brilhante.

A Madeira é uma ilha onde as plantas crescem em toda a parte: há sol e chuva suficiente que qualquer espécie de planta pode florescer. E a cidade capital não é exceção: olhe onde olhar, há hortênsias, aloe veras, estrelícias (também conhecidas por “aves-do-paraíso”), azáleas e até bananeiras por todo lado, com as montanhas ou o oceano como pano de fundo. É uma festa de beleza. O governo proibiu a cor cinzenta há 30 anos mas ninguém reparou, porque já não existia.
*A couple of times in these accounts I’ve said “andar de pé” but de pé means standing. I should be “andar a pé”.
** em segunda mão, not de segunda mão.
***seguros not segurados. The past participle of segurar is segurado, but if they’re held there, we want the adjective form, seguro.
