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Brandura

Vamos continuar com esta leitura do “Ser Português”. O próximo capítulo aborda a brandura que, na opinião do autor é mais uma característica do povo português.

Mais uma vez, o autor apresenta exemplos; Dom João III, que foi demasiado brando para se opor à entrada da inquisição no país, e dos otomanos na Europa durante o seu reinado; Mário Soares, cuja popularidade se prendeu com este paradigma* nacional. Bastou-lhe ficar no centro, afastando-se igualmente das duas alas políticas e esse ar brando tornou possível a sua carreira apesar da falta de vontade reformista.

Também aponta a** sesta e a crença no destino como exemplares da brandura dos portugueses, o que faz todo o sentido. O carapau alimado também***. Sinceramente não entendo porque é que cada capítulo usa um prato para ilustrar um aspeto do caráter nacional. Talvez se entendesse, isto seria a chave que desvendaria tudo. Ou talvez não. E nós bretões: Qual será a comida que exemplifica a nossa alma coletiva? O Greg’s Sausage Roll, claro.

*One of those masculine ends-with-a words.

**Aponta doesn’t need a preposition. It means “point out” rather than “point”.

***I neglected to mention the other dish mentioned in the chapter: açorda. Well, it’s true, not much is milder than açorda, which is sometimes translated as bread soup, although it’s more like bread sauce. Is bread sauce even a thing in 2022? My mum still makes it at Christmas but I don’t recall seeing it anywhere else. It’s just mushed up bread with a bit of onion and a few herbs chucked in. Recipes here: açorda vs bread sauce.

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O Superman – Augusto Cid

António Ramalho Eanes (Eones, Superman) and Ernesto Melo Antunes (Melro). The image is, of course, aligned left

Ouvi falar deste livro no instagram. A Ana Luiz li-o há umas semanas. Naquela altura, eu estava a ler A Construção da Democracia em Portugal. “Epá!” pensei (mas confesso que pensei em inglês) “este livro tem bom aspeto e pode ser uma boa sobremesa depois de todo este espinafre não ficção” Comprei um exemplar duma loja de segunda mão porque é antigo e não é disponível nas livrarias online. Vale mesmo a pena. De súbito, todas as personagens da história que tinha lido anteriormente animaram se cá diante dos meus olhos. Eanes (EONES) no papel de Superman, nasceu no planeta CROPCON (baseado em Copcon que realmente na época pós-revolução) e viaja para Portugal onde tenta cumprir a sua missão histórica apesar dos esforços dos seus inimigos e concorrentes tal como Solares (Soares) e Fiasco (Vasco) Lourenço. Augusto Cid é, claro, um artista talentoso. O livro foi lançado em 1978, na época de instabilidade depois da revolução (Abril 1974) e a contrarrevolução (Novembro 1975), mas a sua carreira continuo até o seu falecimento recente. Dá para entender muito sobre o espírito do época, mas é óbvio que o autor tem desgosto do Eanes. A história não tem nada de simpatia pelo seu cargo. Portanto não é justo (mas quem disse que livros satíricos devem ser justos?) Recomendo a opinião de Ana Luiz neste site porque ela sabe mais do que eu e menciona algo da história do livro em si, e a resposta polémica do governo.

I usually put a link to the books I review on here but I don’t think you can get this easily. Augusto Cid has some more recent books though and you can buy those here.

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A Construção da Democracia em Portugal

A construção da democracia (Kenneth Maxwell)

Uff… Levei muito tempo nesta leitura mas valeu a pena. O escritor fez uma obra muito complete. O foco da história é a transição da ditadura para democracia, mas há um capítulo sobre a história mais longínqua do país. Dado este pano de fundo, ele explica os argumentos do General Spínola e os oponentes do regime Salazarista. É daí fora, mergulhamos dentro das águas turbulentos dos anos setenta: a guerra colonial, a revolução, a contrarrevolução, independência de Angola, despolitização das forças armadas, implantação de uma democracia viva, e o novo cargo do país dentro da CE e da NATO. A história mundial é sempre lá, lado a lado com os acontecimentos domésticos porque nada acontece num vácuo.

O que mais me chamou a atenção é a carácter esquerdista de tantas protagonistas nesta história. Claro está que a reação contra a extrema direita haveria de absorver uma influência da ala oposta, mas nunca apreciei antes disto, que o país aproximou-se tanto ao modelo soviético. Ao fim das contas, (nas palavras de autor, a lembrar-nos de uma profecia falhada de Kissinger) “Foi Karensky quem sobreviveu não Lenine. Foi o socialista moderado Mário Soares quem, no final, tornou presidente da República e o militar radical populista Otelo Saraiva de Carvalho quem foi, primeiro para a prisão e, depois, para a obscuridade”

Ups! Spoilers!