A autora deste livrinho foi inspirada por um breve parágrafo num livro de Raul Brandão no qual ele fala duma pirata que, nos finais do século XIX, participava no tráfego de escravos. O homem tinha abatido dezenas de negros com cal em pó e depois reformou na costa onde cuidava o seu quintal. Ela tem um estilo muito leve. Retrata o protagonista da ponta de vista das plantas dele. Não julgam. Tanto lhe fazem se cuidado por um assassino . É uma obra hipnotizante, e ainda mais poderoso por causa da moderação da autora.
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Capitães da Areia de Jorge Amado – Opinião
I hope its clear from the review, but in case it isn’t, this is a great book to read, but don’t spend time studying the grammar because it’s a million miles from anything you’ll want to write in a PT-PT exam. See this post for the most glaring example but it’s not the only thing by any means.
Raramente leio livros brasileiros porque português brasileiro é tão diferente. Ainda por cima, o português neste livro é longe do padrão de português brasileiro: há montes de calão, expressões regionais e gramática específica à região onde a história tem lugar. Mas apeteceu-me ler porque ouvi tantas coisas boas sobre este autor e esta obra sobretudo. O livro conta a história dum grupo de jovens e meninos abandonados que moram num trapiche(1). Recordei-me dos “Lost Boys” de JM Barrie (o líder ate se chama Pedro, a versão português de Peter) ou as carteiristas do Fagin no Oliver Twist de Dickens. Mas o tom do romance é mais escuro.
São criminosos, temidos pela gente da cidade, mas ao mesmo tempo, são crianças que sentem saudades da segurança e da felicidade de um lar e uma família. São sempre à procura de uma “mãezinha” e querem ir brincar no carrossel. Sem hipótese de viver como crianças, tornaram-se homens, mas não só homens: criminosos. Roubam viúvas, exploram pessoas simpáticas, lutam com navalhas e punhais. A personagem principal, com quem o autor pretende nos simpatizemos, até viola uma rapariga, o que é contado de maneira gráfica, e fica surpreendido quando depois ela o pragueja.
Ao longo dos meses, as personagens andam pelos seus percursos – há tragédia e redenção, mas o pano de fundo contra o qual o enredo se desenrola é a violência e caos na sociedade brasileira nos anos trinta do século XX, e o autor retrata esta sociedade muito nitidamente. É um livro virtuosístico.
(1) Entendi esta palavra como “armazém” mas ao que parece, tem um outro significado em PT-BR: um cais. Acho que armazém faz mais sentido neste contexto porque não consigo imaginar dezenas de pessoas a dormir num cais! Mas vou ver o filme em breve e espero entender melhor depois.
“Cartas Inglesas” – Francisco Sousa Lobo

O autor deste álbum de banda desenhada foi inspirado pelas “Cartas De Inglaterra” de Eça De Queirós. Infelizmente, não as conheço e por isso talvez tenha perdido alguns pormenores.
Tem uma estrutura mais formal do que a maior parte de BD. É composto de 14 capítulos, cada um com 4 páginas, nem mais nem menos. Abordam vários assuntos na vida do artista: a sua psicose, a tacanhez dos ingleses, as feiras literárias, o natal e o antinatalismo (que não é um movimento contra o natal mas sim contra o nascimento!), entre outros. São vislumbres da sua vida, sem profundidade. O capítulo sobre Brexit, por exemplo, tem razão até certo ponto, mas 4 páginas de BD não são capazes de explorar as raízes profundas que deu no desabrochamento dessa flor absurda. Acabou por ser uma caricatura e mais nada.
O livro é bem apresentado e bem desenhado, em tons de azul. Comprei três livros do mesmo autor de uma vez, e não me arrependo desta decisão!
Thanks to Talures for the help.
“Breves Notas Sobre o Medo” de Gonçalo M Tavares
Não gostei deste livro, mas é provável que não o tenha entendido bem. As frases usadas pelo autor são compridas e complexas. Fiquei com a impressão que autor é pretensioso, porque havia tantas páginas que tive de reler, rereler ou até rerereler, mas muitas vezes as pessoas que acham obras de arte pretensiosas não as entendem e, uma vez que o meu português é fraco, podemos concluir que a minha opinião sobre este livro não vale nada.
“O Último Cais” de Helena Marques
Começando este livro, custou-me a entender o primeiro capítulo porque havia tantas personagens em duas linhas de tempo distintas que perdi logo o fio à meada. Desenhei uma árvore genealógica de como as várias pessoas estavam ligadas, que tornou a compreensão mais fácil, e depois fiquei absorvido na história.
O enredo anda à volta de uma família madeirense, principalmente um casal que vive nos finais do século XIX. Há uma narradora que está a contar a história mas ela é quase invisível. Poucas vezes faz referência ao seu próprio ponto de vista, cem anos depois, quando herda uma escrivaninha e vários papéis da sua tia, que também é neta do casal.
Cada capítulo é dedicado a um familiar, principalmente os elementos femininos, e a sua perspetiva. Embora Marcos, o marido do casal, seja central ao enredo, não é o protagonista. A autora está mais interessada na experiência das filhas e irmãs e outras mulheres; na primeira página há uma citação de Herberto Hélder* “Começa o tempo onde a mulher começa”.
Seria muito fácil para um livro que tem lugar numa ilha ser insular ou paroquial, mas a autora deixa uma janela aberta para o mundo lá fora: Marcos participou na luta contra a escravatura em África após a sua abolição na Europa e nos Estados Unidos, e outros capítulos abordam o movimento pelos direitos das mulheres, conhecido por sufragismo, o crescimento do sentimento republicano e até o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica na forma de um cabo telefónico sob o Atlântico. Assim situando o seu elenco num palco mundial, pintando numa tela grande (estou a misturar metáforas mas não me importa), a autora evita um sentido de claustrofobia.
Adorei o livro e estou muito contente que mo tenham recomendado antes das nossas férias na Madeira.
*i originally wrote this as “há uma citação na primeira página de Herberto Hélder” (there’s a quote on one first page from Herberto Hélder) but that is confusing because “a primeira página de Herberto Hélder” makes it sound like HH has pages, and he probably doesn’t.
“Manual de Instruções” de Nuno Markl e Miguel Jorge
Este livro é uma versão BD de um filme que não veio a ser realizado. A qualidade dos desenhos é básica e o diálogo é parecido com o estilo das sitcoms britânicos dos anos setenta: cru e sem sofisticação. Não sendo incrível, deu-me duas boas horas de sorriso sem rir em voz alta.
“Choupos” de Adília Lopes
Ouvi falar desta autora e, logo no dia seguinte, um livro dela caiu no meu cesto no FNAC. Confesso que o achei um pouco aleatório. Poesia, aforismos, esboços verbais… para mim, há nisto uma certa falta de coerência, mesmo que tenha gostado de várias páginas.
Não sabia o que queria dizer o título. É uma espécie de árvore – a que nós chamamos de “Poplar”.
“E Agora” de Raquel Sem Interesse
Encontrei este livro enquanto estava à procura de uma outra BD. Li-o logo porque me apetecia mais do que a minha leitura principal (é boa mas… densa!)
O livro é divertido, mas não consigo dizer porque é que o apreciei tanto. Pouco acontece. Ela nasce, cresce, trabalha e no final atinge algum sucesso. Não há grande drama, e talvez tenha sido disto mesmo que gostei: muitos autores querem aumentar o drama das suas vidas, exagerando os seus sofrimentos e ganhando a simpatia do leitor. A Raquel fala, sim, de vários colegas mal dispostos e até (uma vez) de “abuso” mas estes transtornos aparecem como obstáculos a superar e ela nunca assume o papel de vítima. Enfim, isto é inspirador: é uma história quotidiana, mas a protagonista é trabalhadora e aberta às possibilidades da vida. Quando cai num buraco, começa de novo e melhora a situação, por mais difícil que seja.
Há elementos de sorte nisto tudo: ela é inteligente, com bons amigos, um namorado simpático e uma família apoiante, mas a vida dela não é um mar de rosas. Como toda a gente, ela joga as cartas que tem, e pessoalmente, gostei da sua maneira de lidar com os problemas.
“Mary John” de Ana Pessoa
This book was the source of a couple of the recent posts about new vocabulary like “as fresh as a lettuce” and “playing for Benfica“. It seems like a straightforward read at B1/B2 level. The grammar isn’t too complex, but it’s light and funny and has plenty of nice idiomatic expressions, including a rare in-the-wild sighting of “tirar o cavalinho da chuva”. Thanks to Cataohract for the corrections
O “Mary John” é um livro juvenil que conta a história duma adolescente chamada Maria João. No início do livro, ela tem um fraquinho por um rapaz que mora no mesmo bairro, mas o rapaz, que é ligeiramente mais velho, acaba por namorar com uma “lambisgóia” (nova palavra!) que chega na praceta onde o grupo de amigos passa o tempo. A lambisgóia fuma e tem piercing no umbigo e fala com a protagonista de maneira desrespeitosa por causa da idade dela, principalmente.
Após algum tempo a mãe da protagonista informa-a de que os dois têm de mudar de casa para uma outra cidade. Lá, no novo lugar, ela conhece um rapaz e os dois apaixonam-se.
Não há mais nada: é uma história quotidiana, sem reviravoltas, sem grandes revelações. Mas é doce: o diálogo entre as amigas na escola é engraçado e os conselhos da mãe e da avó dela sobre amor e sobre rapazes fazem todo o sentido sem serem demasiado “pedagógicos”. Ela cresce durante o percurso do livro e passa a uma nova fase da sua vida.
O aspeto mais esquisito do livro é a estrutura dele: é contado como se fosse uma carta ao rapaz original da praceta. Não entendo porquê. Explica-lhe quão diferente é a vida dela 4 meses depois de mudar de casa. Talvez ela queira escrever a versão mais nova de si próprio mas não tenho certeza. De qualquer modo, espero que ela não envie ao coitado de moço! Além de conter informações que ele não quereria saber, tem 180 páginas!
Em Todos os Sentidos de Lídia Jorge
Este livro é um conjunto de 41 crónicas que Lídia Jorge apresentou num programa de rádio. Mistura-se memórias e pensamentos sobre a vida, história e o mundo em geral.








