Este conjunto de contos interligados é incrível. Quero comparar Joaquim Mestre a um autor britânico cuja obra está muito na moda hoje, Alasdair Gray, autor do livro “Poor Things” que foi recentemente adaptado ao cinema. O seu “Unlikely Stories Mostly” também tem ilustrações e também tem elementos de humor e de magia, mas talvez a obra do Gray seja ainda mais lúdica e ainda mais mágico. Uma comparação mais apropriada seria com Calvino ou com Borges. A escrita é onírica, assombrada pela morte, mas tem uma simplicidade e um humor que avivam a leitura. Após algum tempo, vemos os laços que ligam os contos, uns aos outros, tornando o livro quase um romance episódico. Sem dúvida vou procurar mais livros do mesmo autor.
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Vinte e Cinco a Sete Vozes
Hoje é o dia 25 de Abril, portanto parecia-me apropriado ler alguma coisa que falasse do aniversário do estabelecimento da democracia em Portugal. A autora, Alice Vieira conta a história através de um conjunto de 7 pessoas, cada uma a falar com uma menina que está a fazer uma pesquisa sobre a revolução. Os narradores contam as suas experiências à menina e falam com ela*, mas ouvimos apenas as vozes dos testemunhos, e o diálogo não é diálogo mas sim um monólogo capturado no gravador da protagonista silenciosa!
O livro foi lançado em 1999, 25 anos após os tanques darem à luz uma nova fase na história do país. Naquela altura, havia quem estivesse preocupado com a falta de entendimento dos eventos do passado. Hoje passaram-se mais 25 e os resultados da recente eleição indicam que talvez haja ainda menos entendimento, já que os anos setenta parecem um conto datado.
*I wrote “falar a ela” because all the dialogue is just their side of the conversation. “Falar com ela” seemed to suggest two-way traffic which is why I avoided it. It’s a little like listening to one side of a telephone conversation. You know there’s someone else involved but you can only hear the person next to you on the train. In the end, I put “com” back in but altered the corrected sentence a bit to reframe it. I hope it makes sense!
O Almanaque da Língua Portuguesa
Este livro é uma caixa de delícias, dispostas em forma de um calendário. Cada mês tem a sua lista de datas importantes (dias nacionais, aniversários de autores), uma dúvida do mês, dicas para melhorar a escrita, listas de palavras saborosas e umas amostras da perícia do autor no campo da história do desenvolvimento da língua portuguesa.
O formato do livro é perfeito para quem tem pouco tempo ou que anda distraído (como eu nas últimas semanas!) e que quer ler algo interessante mas fácil entre as tarefas do dia-a-dia. Há ideias que aparecem nos seus outros livros mas de forma menos pormenorizada e menos pesada. E também existem novidades.
Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento (Marina Colasanti)
Este livro é uma coleção de contos que têm a atmosfera de contos de fadas: as personagens são reis, princesas e feiticeiras, entre outras. Mas apesar destas histórias curtas terem o mesmo tom dos contos infantis, há algo mais escuro nos temas das narrativas. E a estrutura da linguagem e a escolha das palavras dão um ar muito mais “adulto” à coleção.
A autora é uma brasileira muito premiada, mas o meu exemplar foi publicado pela editora Tinta de China para leitores portugueses. Como sempre, o livro, como objeto físico, é muito bonito, com capa dura cantos redondos e folhas grossas. Até cheira bem.
Thanks to Cristina for the corrections
Coisa Que Não Edifica Nem Destrói – Ricardo Araújo Pereira
Neste livro, o humorista Ricardo Araújo Pereira fala da sua vocação: o humor. Não admirará ninguém que o livro é engraçado e que dá motivos de reflexão nos tempos de hoje, como grande parte da obra dele. Fala sobre as raízes de humor e os métodos que os mestres usam para o produzir. Também fala sobre a tendência das pessoas, tanto nesta época quanto no passado, para ficarem zangadas e não aceitarem as piadas feitas sobre elas próprias. O exemplo mais recente é o de Chris Rock, mas há muitos ditadores e ainda mais terroristas que querem matar quem não obedece às regras aleatórias que eles querem impor à gente.
O autor dá muitos exemplos e citações selecionadas da história incluindo Roland the Farter e Ronnie Corbett (da Inglaterra), Mark Twain e Bill Hicks (dos EUA) e Dario Fo e Rabelais (de outros países europeus) para demonstrar a natureza universal do humor.
Depois de comprar o livro, percebi que existe um podcast com o mesmo título que contém não só os textos do livro mas também mais capítulos e entrevistas com comediantes e escritores. E não custa nada… Ora bem, não faz mal, tenho um livro bonito e uns conteúdos extras. É um bónus.
Thanks as always to the ever-patient Cristina of Say it in Portuguese for eviscerating my linguistic infelicities before they could be unleashed upon an unsuspecting world.
O Mangusto

Who knew I’d have two posts mentioning mongooses less than a week apart? Well, here we are!
“O Mangusto” é uma banda desenhada sobre uma jardineira que está atormentada por um mangusto que destrui as plantas da* sua horta. O Mangusto nunca aparece na história e ao que parece não existe – ela está a passar por uma crise pessoal e acho que esta ideia fixa é um método de transferir os seus sentimentos para algo fora de si.
O livro foi escrito e desenhado por Joana Mosi (conhecida por “Mosi” no Goodreads mas sei lá eu por quê!) Embora seja mais simples (em termos de estilo artístico) do que um outro livro para o qual ela contribuiu – “O Outro Lado de Z” – este é muito melhor. Colaborou naquele livro com um escritor que, francamente, não tem o talento que ela tem. Neste livro, foi ela que criou tudo, e o produto tem ar de ser uma obra completa, realizada por alguém que sabia o que queria fazer.
*of her garden not in her garden – I make this kind of mistake all the time through thinking too englishly.
Uma Família Madeirense – João França
Here’s a review of the book that’s been doing my head in for a while. Not recommended for beginners, but very interesting if you’ve got the spoons to stick with it to the end. Special bonus, to encourage you to read the footnotes, there is a free book giveaway in one of them today. Oooh! Exciting!
Uau, este livro surpreendeu-me! Mais sinceramente, deu-me água pela barba: havia tantas palavras desconhecidas, tantos regionalismos e tantas personagens que me senti desesperado. Quase desisti, mas com ajuda do dicionário… e um mapa e uma árvore genealógica e a Wikipédia… consegui, por fim*, entender tudo.
A história desenrola-se entre duas épocas: 1936, durante a Revolta do Leite, um protesto popular sobre um decreto-lei que estabeleceu um monopólio na produção de laticínios nos primeiros anos do Estado Novo e 1975, durante o assim chamado “Verão Quente” que se seguiu à revolução e à queda do governo** de Marcelo Caetano. Como é óbvio, os protagonistas são os membros de uma família, encabeçada pelo Comendador Bonifácio de Oliveira, um homem conservador, monarquista e, acima de tudo, teimoso, que rejeita o seu amigo*** por não concordar consigo sobre a implantação da República.
O livro é curto, tendo pouco mais de 130 páginas, mas o autor consegue incluir**** grande parte da história do país: a transição da monarquia para a República que depressa tornou-se ditadura, e a restauração da liberdade por um golpe de estado, que parecia prestes a dar lugar a mais uma ditadura. Entretanto, os inimigos do estado desaparecem, emigram ou são presos, e a hipocrisia e o conservadorismo da burguesia madeirense são colocados em foco, destacados pelos acontecimentos no palco nacional, mas até eles têm de mudar ao longo das gerações.
Adorei o desenlace. Pareceu-me a conclusão perfeita para esta telenovela literária.
*I wrote “afinal” here and was challenged to explain why that was wrong but my brain is broken so I’ll make that the subject of a future blog post. Anyway, the TL;DR is – that’s wrong!
**I originally wrote “que seguiu a revolução e a queda do governo” thinking like an english speaker, thinking yeah, transitive verb, “it followed the revolution”, but no, in portuguese it follows itself to the revolution. This is one of those grammatical structures that I think if only I understood why it seems natural to put words in that order I’d be a lot closer to thinking like a native.
***The name of the friend (and of the friend’s son who also plays an important role) is Meireles, so it’s sort of spooky that in between drafting this review and publishing it I got an email from another Meireles, Devin Meireles, who has just finished writing his own book about Madeira. Quite a coincidence! Anyway, I don’t know if this Meireles holds unacceptable views on the implantation of the republic like his namesake, whether he is in fact a “jacobino sem vergonha”, but what I do know is that his book, Finding Madeira, is available free on Amazon this week (17-21 December). So if that sounds like something you’d be interested in, have a look and if you like it, drop him a review on Goodreads.
****I used capturar here but that’s too much of an english expression.
Thanks again to Cristina of Say it in Portuguese for her very helpful corrections which I am too addled to understand fully right now but will hopefully make more sense in the morning.
A Cancão de Lisboa

“A Canção de Lisboa” é o primeiro filme feito por portugueses segundo o cartaz e o segundo, depois d’”A Severa”, segundo a Wikipédia. O realizador foi José Cottinelli Telmo, um arquiteto, artista e cineasta que colaborou com o Estado Novo em vários projectos, incluindo a Exposição do Mundo Português e as escadas monumentais de acesso à Universidade de Coimbra (o pior crime de sempre, na opinião da minha filha).
O filme conta a história de Vasco Leitão (protagonizado por Vasco Santana) que é inexplicavelmente sortudo: tem uma namorada linda e atrai a atenção de outras raparigas, apesar de ser pobre, gordo e pouco jeitoso.
Mas a sério, canta bem e é encantador, que provavelmente ajuda-o a engatar as raparigas. Ainda por cima, do ponto de vista dos espectadores, tem qualidades tipicamente portuguesas que permitem uma audiência nacional identificar-se com o protagonista.
Há, sem dúvida, muitas cenas engraçadas no filme (a minha favorita é quando o Vasco se arma em veterinário no jardim zoológico para ganhar dinheiro), mas não é o mais fácil de entender. Os sotaques daquela época soam diferentes (assim como os filmes ingleses dos anos 40 do século passado) e a qualidade da gravação antiga estraga os tons mais altos e torna mais incompreensível o diálogo. Portanto, ainda que o filme seja um dos mais populares de sempre, não é muito acessível para nós estrangeiros. Talvez tivesse sido mais fácil entender a remake* de 2016, mas este blogue tem os seus princípios. Não suportamos remakes nenhumas. O que será a próxima? Se tolerarmos uma versão da Canção de Lisboa com César Mourão, teremos de aceitar uma versão do Ghostbusters com elenco feminino? Nunca!

*Wikipedia says refilmagem but our survey says (*uh erghhhh*). Might be a Brazilian thing?
Thanks as ever to Cristina of Say It In Portuguese for the helpful corrections
O Amor Infinito Que Te Tenho
I read this banda desenhada back in 2018 but I found it heavy going at the time and I decided to go back to it. At the time, what I said was
Hum… O livro tem 60 páginas e contém 10 contos. Obviamente, estamos na presença dum autor que usa um estilo bem lacónico. As histórias são esquisitas, escuras, perturbantes – mais parecidas com os contos de Franz Kafka do que uma BD tradicional. Na verdade, apenas dois contos têm a marca duma BD: balões de texto. Os outros são, antes, pequenos trechos de ficção, alguns pouco maiores do que um tweet, ilustrados com desenhos escuros ou arrepiantes. Fico contente por ter lido mas não tenho a certeza se apreciei. Vou colocá-lo numa prateleira longe da minha cama para não ter pesadelos.
But here’s what I came up with in 2023, with more fluency of reading (not having to hit the dictionary every 30 seconds)
Ah ah, a opinião do eu de há 5 anos não está assim tão longe da verdade, apesar do seu fraco domínio do idioma, mas aquele rapaz com 48 anos não tinha noção da paixão que fundamenta a maior parte do livro. No primeiro conto, o narrador tem um amor escondido. Está esboçado na forma dum monstro ou um demónio que brama fora do apartamento da amada. Noutros, encontramos outras formas de amor: amor de filhos pelos seus pais, netos pelos avós, e de uma barata gigante pelo dono da casa onde vive. Coisas quotidianas, estás a ver? Cada história tem o seu próprio estilo artístico, mas há uma sensação arrepiante que se difunde pelo livro todo. Trata-se de um amor assombrado por uma angústia existencial.
Once again I’m indebted to Cristina of “Say it in Portuguese” for correcting the errors in the original draft.
Lisbon by Neill Lochery
I’ve had the audiobook of Lisbon by Neill Lochery on my listening list for a while now and finally got around to it simply because I had started Enquanto Salazar Dormia by Domingos Amaral And wanted a little more background about wartime Lisbon to give me the context.
I learned a lot! I’d always known Portugal had a slightly odd place In World War 2 History: Salazar, as a fascist, was probably more inclined towards Hitler’s world view, but Portugal and Britain have been allies since way back. I also knew we hadn’t always been good allies (see this post about the portuguese national anthem starting life as a diss track about the treacherous land-stealing British empire).
What I hadn’t realised was how many different schemes and counter-schemes were swirling around the capital, or how delicate was the balance that kept the Iberian peninsula out of the war.
Nor had I any idea that part of Portugal’s reason for distrusting Britain was that Neville Chamberlain had offered Angola to Hitler as part of his appeasement negotiations. Or about the delicate situation regarding Wolfram (Tungsten) mining that was necessary for both sides’ war effirts. At one point, a network of SOE agents had recruiters portuguese sub-agents and poised then to blow up mining infrastructure and assassinate some key people in the event that Portugal was invaded by Spain at the behest of the nazis and there wasn’t a padeira around to hold them back.
It’s absolutely amazing. I love all that stuff.







