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Um Auto À República

Opinião d'”Um Auto À República” de Cidália Fernandes

Este livrinho é um texto dramático – um guião duma peça de teatro que podia ser apresentado numa escola enquanto parte de… Suponho… um programa educativo sobre a cidadania e o crescimento da democracia em Portugal.

Um auto à República

Mas há uma peça dentro da peça. Ou seja as personagens são alunos e a sua professora pede-lhes apresentar uma peça de teatro. Então, eles assumem papéis de pessoas históricas tal como o Rei D. Carlos e o poeta Guerra Junqueiro, e representam a história daquela época, explicando o Mapa Cor-De-Rosa, o ultimato da Grã-Bretanha, e a perda de confiança no papel da monarquia.

O livro foi escrito há 12 anos. O que mais me chamou a atenção foi o seu modo como fala de África. Não só os protagonistas da peça-dentro-da-peça mas até os alunos e a sua professora (que vivia no tempo presente) falam do território disputado como se pertencesse ou a Portugal ou à Grã Bretanha e ninguém perguntou “Hum…e os africanos?”. Não há dúvida que nós ingleses sofremos da mesma cegueira de vez em quando… Acho que hoje em dia um professor de qualquer destes países seria mais cauteloso e lembraria que há mais de um lado – e até mais de dois – em cada história!

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A Metrópole Feérica

Opinião sobre um livro de José Carlos Fernandes e Luís Henriques

Quanto mais livros de José Carlos Fernandes leio, mais gosto do seu modo de criar mundos surrealistas. Nesta banda desenhada, introduzem-se seis cidades imaginárias, cada uma com a sua própria história. Embora seja BD, não é um exemplo típico do género. Os desenhos são arrepiantes e escuros, e existem poucos balões de diálogo, so de narração. É quase uma colecção de contos absurdos, cada um ilustrado com um estilo adequado ao seu assunto.

Para mim, o capítulo mais bem sucedido é o último que reconta a história da torre de babel. Adoro ficção que usa, como base, temas religiosos e este, como o Caim de José Saramago e o último capítulo do Bichos de Miquel Torga é um exemplo excelente, cheio de humor contundente.

A Metrópole Feérica de José Carlos Fernandes
A Metrópole Feérica
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Idiotas Úteis e Inúteis

Idiotas Úteis e Inúteis de Ricardo Araújo Pereira
Idiotas Úteis e Inúteis

Este é o quarto alivro do Ricardo Araújo Pereira que já li. O autor é, sem dúvida, um dos meus autores portugueses preferidos. Ri em voz alta muitas vezes. O livro é composto por vários artigos publicados num jornal brasileiro chamado “Folha de S Paulo”. Fala da nossa história recente: a vida sob a sombra do Trump e do Bolsonaro e o surgimento da pandemia que continua a estragar tudo já mais de um ano depois do lançamento do livro.
Os melhores artigos alimentam o pensamento também, porque o escritor tem um ponto de vista interessante mas, quer tenha algo importante a dizer, quer não, os artigos divertem-me sempre. Li o livro na cama mas não me trouxe um sono tranquilo porque estava a gargalhar tanto.

Idiotas Úteis e Inúteis is available from Bertrand. I don’t see any British shops selling it I’m afraid.

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Maremoto – Djamilia Pereira de Almeida

Maremoto de Djaimilia Pereira de Almeida
Maremoto

Este livro conta a história de Boa Morte da Silva, nativo de Bissau, residente em Lisboa e as suas amizades, principalmente com uma mulher sem abrigo que se chama Fatinha. Há capítulos narrados na terceira pessoa mas a maioria na primeira, como se o protagonista estivesse a falar à sua filha que ainda mora em Bissau e que mal conhece (nem sequer sabe se ou não ela está viva)

É muito bem escrito, até eu sou capaz de apreciar a confiança com a qual ela esboça as personagens e as cenas nas quais eles se encontram. Como muitos livros portugueses, custou-me julgar o “tom” da história. Na maior parte, havia um sentido de ternura em relação às personagens, sobretudo na amizade entre Boa Morte e a Fatinha mas também há momentos de humor.

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Lôá Perdida No Paraíso

Lôá Perdida No Paraíso by Dulce Maria Cardoso

Nem sequer sabia que a Dulce Maria Cardoso tinha escrito um livro infantil mas aqui está! É uma maravilha. Adorei as ilustrações de Vera Tavares e a história em si é divertida, sendo baseada na história do Jardim do Éden, mas com uma grande diferença: há uma deusa (“menina Deus”) em lugar do Deus da Bíblia. A editora, Tinta da China publica sempre livros de alta qualidade e este não é exceção. Tem páginas espessas e uma capa dura. Até cheira bem*.

Lôá Perdida No Paraíso
Lôá Perdida No Paraíso

*=I always get this wrong: it smells well, not smell good. There’s a song by Amália that includes the line “Cheira bem, cheira a Lisboa” so I should probably learn the words to that I guess.

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Supergigante – Ana Pessoa

A review of the book I’ve been reading. Thanks to Dani Morgenstern for the corrections.

Acabo de fechar a capa deste livro juvenil. É um livro daqueles que não tem um enredo muito bem definido mas está cheia de emoção. O narrador é um adolescente cujo avô faleceu recentemente. O rapaz, que se chama Edgar (também conhecido pela alcunha* “Rígel”) está a correr e a pensar. O livro é um registo dos seus pensamentos. Afirma que o dia em questão era simultaneamente o pior e o melhor dia da sua vida. O pior porque o seu avô desapareceu pela chaminé do crematório acima** e o melhor porque a Joana (irmã do seu amigo Júlio) beijou-o. Os sentimentos saltam na sua cabeça, tornando cada vez maior e o próprio Edgar sente-se maior. É o Rígel, uma estrela, uma supergigante azul, 18 vezes maior e milhares de vezes mais brilhante do que o sol. A corrida ajudá-lo a fazer sentido dos seus pensamentos até ao final quando está capaz de falar sinceramente com a Joana.

A. Capa de Supergigante de Ana Pessoa
Supergigante de Ana Pessoa

* I originally used “apelido” here, since that’s the translation gtranslate gives for nickname. At the time I thought this was weird since apelido also means surname. Sure enough, the person marking the work was confused and said Alcunha was the better choice. Apelido is only used that way in Brazil, it seems.

** pela chaminé acima =up the chimney

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Prazer, Camaradas

Quite a long text, this. I split my review up over three days. Thanks to Dani Morgenstern for the corrections. I’ve put quite a few footnotes at the bottom where the mistakes were interesting enough to warrant it.

As you’ll see in the text, I had quite a bit of trouble getting hold of a copy due to the only online supplier, FNAC, refusing to guarantee delivery due to the supply chain mess we have referendummed ourselves into, so if you’re in the UK and interested in this, you might have to wait a while.

Tive oportunidade de ver este filme num festival de cinema português há dois anos mas estava doente. Logo depois, chegou a covid e a estreia do filme foi andou adiada*. Finalmente, quando reabriram as lojas online, havia problemas com as encomendas internacionais nesta ilha parva.
Enfim, depois de tantos obstáculos, a minha sobrinha (que é muito simpática) entregou-me uma cópia** depois de fazer férias na Madeira.
Tenho tantas coisas para dizer! Mas não quero sobrecarregar as professores, portanto irei escrever mais amanhã e provavelmente fico com alguns pormenores até o dia a seguir***!

O filme que mencionei ontem conta a história de um grupo de estrangeiros que chegam a**** Portugal em 1975 para participar na criação de uma melhor sociedade depois da queda do Estado Novo. São marxistas e passam o verão numa quinta cooperativa. Os protagonistas apresentam-se no início do filme. “O meu nome é Mick e tenho 18 anos” diz um idoso de sessenta e tal anos, e os outros também se declaram “jovens” de grande idade. Fiquei curioso, mas acontece que os realizadores tomaram a decisão de usar habitantes da aldeia, agricultores das cooperativas e até uns estrangeiros que realmente fizeram a peregrinação ao centro da ação pós-revolucionária. Portanto, cada pessoa na tela tinha cabelos cinzentos mas protagoniza a um jovem radical e idealista*****. Além disso, utilizam iPhones e não há tentativa nenhuma de recriar o mundo dos anos setenta. É uma ideia gira, com resultados mistos. Mas vou escrever mais amanhã!

A filme tenta esboçar as atitudes dos portugueses e dos estrangeiros e das****** pessoas de diversas gerações em relação ao sexo*******. Naquela época, a Europa estava em plena revolução sexual mas Portugal tinha sido reprimido por um governo conservador e por uma igreja que andava de mãos dadas. Os estrangeiros trabalham nos campos (mesmo que sejam fracas, comparados com os camponeses) e trazem com eles a cultura da igualdade dos géneros e do amor livre.
Às vezes, este contraste entre culturas é iluminador ou até engraçado, sobretudo quando o idealismo dos jovens faz parte do diálogo. Por exemplo, há uma cena em que três estrangeiras aparecem num sonho dum jovem marxista (um jovem com barba grisalha!) Afagam os seus próprios seios ao tentar seduzi-lo.
“Fumo, Pedro, não só em casa mas na rua e no mercado também.”
“Não há melhor método de mudar as relações de produção do que beijar em público e fazer muito amor”.
Infelizmente, há cenas um bocado menos efecazes e até embaraçosas, mas isso não me importa muito. Adorei o filme e fico contente por tê-lo visto.

*adiado (delayed) not atrasado (late)

**I used the word “exemplar” which is the word I usually use for a copy of a book but although not fully wrong, “cópia” was given as a suggested improvement in the context of a film.

*** O dia a seguir (the day to come) not o dia depois (the day after)

****They arrive “a Portugal” not “em Portugal”. A good example of an unexpected preposition change between languages. We would definitely arrive in Portugal, not at it.

*****I started off translating, in my head “each one… Had grey hair but they portrayed…”. But in Portuguese you don’t tend to use the “they”, so this shift from singular to plural in the same sentence doesn’t really work, and my “protagonizavam jovens radicais…” got switched to “protagonizava um jovem radical…”.

****** I keep making this mistake. In English we would say “of the Portuguese and the foreigners but in Portuguese it has to be” of the Portuguese and of the foreigners.

******* it would sound weirdly formal in English but the “em relação” is necessary here.

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Toutinegra

Toutinegra, uma banda desenhada portuguesa

Toutinegra é uma banda desenhada portuguesa escrita por André Oliveira com ilustrações de Bernardo Majer. Conta a história de duas crianças de nove anos que moram numa aldeia esquecida. A mãe adoptiva do menino é uma louca que provocou um acidente de carro que causou a morte da mãe biológica dele e a quem, por alguma razão que não compreendo é permitido ficar com o bebé que ela encontrou no carro.

Os dois encontram uma criatura negra num moinho abandonado na floresta que “traz más notícias” a quem vai morrer ou a quem vai perder alguém. A influência da criatura inicia uma série de eventos trágicos. Gostei do estilo e dos desenhos (bastantes simples e ingénuos) mas acabei por não me sentir satisfeito com a história. Quase deu em êxito mas… Sei lá… Ficou muitas coisas* por explicar e o enredo parece um pouco rebuscada e incompleta.

*This is a weird one. A lot of people will just say “muita coisa” in spoken portuguese, just like “muita gente”, or like you might say “a lot of stuff” in English. But it is meant to be plural according to Ciberduvidas.

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Sísifo – Gregório Duvivier e Vinicius Calderoni

Sísifo – Ensaios obre A Repetição em Sessenta Saltos By Gregório Duvivier and Vinicius Calderoni

#BRAZILIANPORTUGUESEKLAXON

Oi galera, estou escrevendo um comentário sobre um livro brasileiro embora eu aprenda português europeu. Blz!

Eu já conheci a obra de um dos autores, Gregório Duvivier por causa de uma conversa pública com Ricardo Araújo Pereira e ouvi falar dos seus programas televisivos. A cara é legal!

Neste livrinho, os dois rescrevem o mito de Sísifo, mesclado com outros fios culturais: Hamlet, a crise ambiental, memes, o teatro do absurdo. Nas palavras do Duvivier “‘A história se repete’ dizia Marx, ‘a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa’. Acrescentamos ‘a terceira vez como um gif'”. Para mim, esta explicação vale o preço do livro em si. Fez-me rir “kkk” disse eu. uh-oh, vem aí o cancelamento. “kkkkkk”, acrescentei, porque três cás* só não dá para ganhar amigos no mundo anglófono.

Apparently in Brazil K is written “cá”, not “capa” which makes sense because cácácá sounds like laughter whereas capacapacapa just sounds like a bunch of rooks fighting over a bag of chips.

Sísifo
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Se Eu Fosse Um Livro – José Jorge Letria

Se Eu Fosse Um Livro de José Jorge Letria
Se Eu Fosse Um Livro

Quick review of this one. As it says in the text, you can enjoy the repetitive use of the imperfect subjunctive and call it homework for the B2 exam. It’s pretty basic apart from that though because it’s a children’s book.

Este livro fala da leitura. Repete-se em cada página a frase “se eu fosse um livro…” e logo a seguir um desejo que um livro poderia sentir. Muitas vezes este desejo é uma dica para os leitores de como apreciar livros ao máximo, tal como “…não gostava que me lessem só por obrigação, ou por estar na moda”

É divertido e ainda por cima, pode ser útil para quem quiser praticar os tempos verbais conjuntivos 🙂