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As Cartas de Amor – Madeleine L’Engle

(Contém spoilers) Madeleine L’Engle é famosa principalmente por ter escrito o clássico de ficção científica A Wrinkle in Time (Um Atalho no Tempo), e confesso que não fazia ideia de quais, nem quantos, outros romances ela escreveu, mas ao procurar as obras inspiradas pela história das cartas portuguesas, deparei-me com este livro.

Trata-se de um romance histórico que sucede em três linhas temporais: a da Charlotte, uma norte-americana dos anos sessenta do século passado (quando o livro foi lançado), a da mesma Charlotte quando era nova, numa escola católica, e finalmente no século XVII, no convento onde viveu a “freira portuguesa”, Soror Mariana Alcoforado. A história da jovem Charlotte é um enredo menor, subordinado às outras duas.

É evidente que a autora fez uma pesquisa minuciosa antes de se pôr a escrever. Embora as cenas com Mariana sejam ficcionais, são baseadas na realidade: citações das cartas, os membros da família da freira, o estado social do seu amante, a guerra, e a polémica em torno da autoria das cartas, por exemplo. O elemento fictício ilumina os factos com uma narrativa credível do estado de espírito da Mariana e das outras freiras desde antes da chegada do jovem militar francês até à publicação das cartas e a sua subsequente desgraça. Existe um epílogo no qual a autora explica quais aspectos do texto são ficcionais.

Apreciei como a autora fez a transição de um fio narrativo para outro: muitas vezes acaba com uma protagonista a dizer ou a fazer alguma coisa, e retoma a história de uma outra, num momento no qual ela está a fazer ou a dizer algo muito semelhante, o que realça como as duas vidas correm em paralelo. A Charlotte também sente-se culpada e abandonada. No seu caso, o seu filho faleceu e a seguir o luto e o sofrimento dela e do seu marido* dá-se num rompimento no casamento deles. Ainda por cima, ela está grávida. A origem da angústia dela não é idêntica à da Mariana, mas o tamanho daquela angústia é igual.

Entretanto, na terceira linha temporal, o maior acontecimento na história da jovem Charlotte tem lugar na escola internato, quando uma amiga dela trai a sua amizade e, quando a Charlotte a escreve uma carta para lhe pedir a voltar a ser amiga dela, a já ex-amiga trai la ainda mais por ler a carta em voz alta às outra alunas no dormitório.

Ao longo do tempo, lendo as cartas e falando com os padres e os amigos que conheceu em Portugal, a Charlotte vem a ter cada vez mais simpatia pela condição da Mariana, e entende a sua situação de uma nova perspectiva de aceitação do seu próprio pecado e da sua própria angústia. Mas a aceitação leva-a a uma decisão surpreendente: ela volta ao marido. O marido da Charlotte é um bruto insuportável, na minha opinião, mas a autora retrata-o como um ser humano falho, em vez de uma caricatura, apesar do seu comportamento imperdoável com a Charlotte. A escolha, por parte da Mariana, para regressar a casa é um osso difícil a roer. Geralmente, não aconselharia alguém a se reunir com um homem daquele tipo, mas na situação na qual se encontram, sabendo que a perda de um filho é capaz de despedaçar uma pessoa, fosse quão decente que fosse, quase vejo como ela chega à sua decisão.

(I posted this on the university message board and the docente asked me how she had managed to work in the controversy around the authorship of the letters so I add the following by way of follow-up)

Não quis sugerir que a autora deixou a questão completamente aberta. Na linha temporal da Mariana, é evidente que ela escreveu as cartas e entrega-as para o soldado com ajuda de um amigo. O livro chega, sem aviso, da França, nas livrarias da cidade e em breve toda a gente sabe, e as freiras tornam-se alvo de piadas grosseiras, e como podes imaginar isso tudo cria muito transtorno e raiva no convento.

Mas ela usa diálogos entre as personagens na narrativa que tem lugar no século XX para elaborar certas coisas sobre o que nós sabemos, ou não sabemos, sobre as cartas, nos dias que correm. Por exemplo, perto do final do livro (os parágrafos da versão Kobo nem sempre correspondem aos de um livro de papel mas acho que há de ser 20-30 páginas antes do fim) encontramos a seguinte exposição escondida numa conversa entre a Charlotte e Dr Ferreira:

She picked up the letters.
He looked at them, raising his shaggy brows. “You must understand, Charlotte that it is perfectly possible that these letters are a fraud.”
“But what do you think?” Charlotte asked. “Do you think it all happened? There was a nun in the convent called Soror Mariana, wasn’t there?”
“Yes. But there are many people who think that the name was stolen, that she has been maligned, that the religious vocation has been smirched.”
“And you?”
“There have always been people who cannot understand the meaning of vocation and therefore would like to see it belittled. As for Soror Mariana, yes, I happen to think it probably happened, but that is hunch and personal opinion, not authentication.”
“Do you think the letters are shocking?”
“If they are real, no. If they are a literary fraud, yes.”
“Why?”
“They aren’t good enough art. If they aren’t a true outcry, they were written purely for sensationalism. It is not that as a subject I find it shocking. I don’t feel that in art there is any subject that is taboo. It is how it is handled that matters. A study of nudes is a simple enough example. Some are art; others are nothing more than pornography. “

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As Cartas Portuguesas

Já falei várias vezes sobre as novas cartas portuguesas, os textos que foram censurados pelo novo estado por causa dos deus conteúdos feministas. Ainda não li mas a minha esposa tem-nos em casa.

Mas a presença daquele palavra “Novas” é uma pista de que existem outras cartas, mais velhas. E existem mesmo. As Cartas Portuguesas, também conhecidas por “Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa” (disponível online aqui e em livrarias também!) Apareceram na França em 1669, e foram atribuídas à Sóror* Mariana Alcoforado, uma freira que era ainda viva mas apesar de ser capaz de confirmar ou negar a autoria, existem muita polemico em turno da autenticidade. Foram inventadas? Alteradas? Genuínas?

Por PS. – Cartas de amor ao cavaleiro de Chamilly, Domínio público

Mariana nasceu em 1640 e foi obrigado entrar num convento como freira com onze anos apesar de não ter nenhuma inclinação religiosa. Que horror. Pois, naquela altura o país era em plena guerra de restauração contra os espanhóis, e lá seria salva, mas ainda assim, acho que não é um lar apropriado a uma rapariga daquela idade. EM 1660, com vinte anos, o seu olhar cruzou-se com o de Noel Bouton, um jovem oficial francês e os dois apaixonaram-se. Logo o amor foi descoberto. Havia um escândalo, e o francês voltou para França, temendo o poder da família dela. No seu desespero, cheia de saudades, a jovem Mariana, segundo a lenda, escreveu cinco cartas de amor que formam o conteúdo do panfleto. Segundo a Wikipedia as cartas, “contam uma história sempre igual: esperança no início, seguida de incerteza e, por fim, a convicção do abandono.”

As cartas acabaram num livro e ainda por cima em francês. Que vergonha. Não se sabe como as cartas se encontram nas mãos da editora, nem se são genuínas. Foram publicados em francês, mas há quem creiam que existem vestígios de sintaxe português na estrutura do texto. Ainda assim, existem muitas dúvidas. Os escritores Camilo Castelo Branco e Alexandre Herculano por exemplo, negaram a autoria da Mariana, dois séculos depois!

Após a publicação, as cartas foram tão comovente que influenciaram a cena literária durante muito tempo, e pôs em andamento uma indústria de escritores de cartas fabricadas – assim dito respostas de Bouton, outras cartas de outras freiras…

*Sóror isn’t part of the name of course, it’s an ‘apelido’ given too nuns.

Esta música faz parte da peça de teatro brasileira, “Cartas Portuguesas, baseada na vida de Mariana Alcoforado