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It’s a Shame About Rei

Acho que já falei do meu espanto ao ver, pela primeira vez, a expressão “El-Rei” para designar o rei de Portugal. Recentemente fiz uma pergunta no reddit para esclarecer uma dúvida mais específica.

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Acabo de ler uma peça de propaganda fascista (!) A História da Grande Batalha de Aljubarrota, publicado pelo Estado Novo em 1939. Claro que é muito patriótico, e este sentimento manifesta-se principalmente contra os castelhanos que ousam pisar a terra portuguesa. É interessante ver as diferenças entre as versões da lenda, mas neste caso o que mais me chamou a atenção é que a escritora refere à figura de Dom João I como “El-Rei”. Ora, já sabia que El-Rei é muito usado em contextos monárquicos, mas neste caso específico… O motivo da batalha é negar a pretensão, por parte da monarquia espanhola, de absorver Portugal no seu território. Então porque é que usam um termo tão obviamente emprestado da língua espanhola, e que contém um pronome espanhol, para designar o monarca do país que quer afastar-se da Espanha?

Não duvido que haverá uma explicação que terá a ver com a cultura ou com a etimologia da palavra mas não estou a ver. Pode alguém explicar sff?

Recebi uma explicação que falava da etimologia da palavra no século XIV. Eu voltei à carga porque todas as palavras no dicionário mudaram a etimologia desde então tirando esta. Já suspeitava que este assunto poderia chatear a gente mas a minha curiosidade é irreprimível…

Hm… Sim, mas o livro foi escrito em 1939 e a maioria das palavras tinham mudado a sua ortografia entre o século XIV e o século XX. Creligo já é clérigo*, mas El rei não é O rei. O propósito da série da qual fez parte era fomentar o patriotismo por parte dos cidadãos. Surpreende-me que, sobretudo neste contexto muito específico, a autora manteve a tradição de “rei” ser a única palavra que leva o artigo El.

Enfim, alguém recomendou este vídeo no Youtube, gravado por Marco Neves que sabe algumas coisas sobre a língua portuguesa,

Na verdade, acho o “fóssil” surpreendente, mas não deve espantar ninguém porque… olha a minha língua. Nós ingleses lutam contra os franceses mais do que qualquer outra nação, mas a nossa monarquia é “the royal family”. Royal é enraizado na francês normanda “roial”. Apesar de sermos enlouquecidos pelo brexit, temos uns vestígios linguísticos continentais no nosso dicionário também.

*This is a reference to something somebody said about Clérigo having once been spelled Creligo which, it was implied, was closer to another language but I have tried to find out more and I can’t so I wonder if it was a typo….

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Guiana Brasileira

Surgiu há umas semanas um meme no qual vários tipos de sotaque carioca falaram de “Guiana Brasileira”. Isso enraiveceu os influenciadores portugueses tanto que não resisti investigar as origens da tendência.

Tanto quanto consigo constatar, o meme tem origem num vídeo da plataforma TikTok. Os brasileiros, percebendo que existem uma “Guiana Francesa”, uma “Guiana Britânica” (ou simplesmente “Guiana”) e uma “Guiana Holandesa” (o atual Suriname) na sua fronteira norte, pensaram “Oi galera, se estes gringos europeus têm Guianas no nosso continente, nós também devíamos obter uma Guiana no seu”.

E daí nasceu o meme: Portugal é a Guiana Brasileira, o 28° Estado daquele país e o único fora da América do Sul.

Para continuar a sua campanha de provocação, também atribuíram nomes a este novo estado, entre os quais o meu favorito é “Pernambuco em Pé”, porque o estado de Pernambuco tem a mesma forma de Portugal mas é horizontal em vez de vertical.

Como eu já disse, muitos portugueses ficaram indignados ao ouvirem deste fenómono mas o linguista Marco Neves, grande explicador de tudo sobre a língua de Camões (e não só essa língua), também gravou um vídeo sobre a Guiana Brasileira. O tom do seu vídeo é mais irónico, e acho que, nestas situações, a melhor estratégia é empregar a ironia em vez de raiva.

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O Almanaque da Língua Portuguesa

Este livro é uma caixa de delícias, dispostas em forma de um calendário. Cada mês tem a sua lista de datas importantes (dias nacionais, aniversários de autores), uma dúvida do mês, dicas para melhorar a escrita, listas de palavras saborosas e umas amostras da perícia do autor no campo da história do desenvolvimento da língua portuguesa.

O formato do livro é perfeito para quem tem pouco tempo ou que anda distraído (como eu nas últimas semanas!) e que quer ler algo interessante mas fácil entre as tarefas do dia-a-dia. Há ideias que aparecem nos seus outros livros mas de forma menos pormenorizada e menos pesada. E também existem novidades.

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Por Que Carga de Água?

Gostei desta expressão no Almanaque da Língua Portuguesa: “Por que carga de água?’

O significado é bastante óbvio do contexto: o autor está a falar sobre a arbitrariedade de uma árvore ser feminina e um arbusto masculino, mas caso haja qualquer dúvida, aqui está a definição dada pelo Priberam

[Informal] Usa-se para questionar qual a singular ou estranha casualidade, razão de algo.

“Por que carga de água”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/Por%20que%20carga%20de%20%C3%A1gua.

A origem é desconhecida mas não me importa. Adoro!

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Learning From My Mistakes

So I wrote this silly post a few days ago and Marco Neves himself popped by to comment on it, which was nice. And then a couple of days later I realised I’d made a ridiculous typo in it and written “patroa” in place of “pátria”

*facepalm*

But it’s OK, because an eagle-eyed reader who spotted the mistake told me it still worked because patroa, the feminine form of “patrão” can also mean “wife“, just as in english you might hear blokey blokes refer to “the boss” or “she who must be obeyed” or whatever. And I’m married to someone who speaks a língua portuguesa, albeit with an accent the mainlanders sometimes affect not to understand, so I’ll just point to the publication date, 1 Abril, and pass it off as a joke. Yes, I am clever and funny and I never, ever make typos.

And I learned a new thing!

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Little Big Man

Há muito tempo que não falo do Marco Neves, o linguista bem conhecido, autor, anfitrião de podcasts, bloguista, sábio e fornecedor de conteúdos do exame C1. Neste blog, fala da expressão “Beijinhos grandes” que os portugueses usam para se despedir dos amigos. Como em inglês, existem picuinhas que gostam de interpretar de forma muito literal expressões e conjunções de palavras e fazem deles um “ódio de estimação”. Neste caso, “beijinho” é um diminutivo**. Portanto a frase significa “grandes pequenos beijos”, que não faz o mínimo sentido, pois não?

Temos esta espécie de polémica no mundo anglófono, e eu sou fã da interação entre descritivistas como o John McWhorter*** e pessoas mais escrupulosas como o (falecido) escritor Kingsley Amis. O Neves tem mais em comum com o McWhorter: tem uma predileção por desmentir os desabafos dos pedantes.

Beijinhos Grandes
So many artists’ work plundered and this is the best AI art can come up with in response to the prompt “big little kisses”. Horrifying!

O seu primeiro argumento trata da relatividade do tamanho. Por exemplo, uma criança brinca com dezenas de carrinhos, mas não são iguais. Há carrinhos maiores e menores.

Além disso, a palavra “beijinho” assumiu um novo significado, ligeiramente diferente: um beijinho não é simplesmente um beijo pequeno mas sim um tipo de beijo – geralmente no face ou no ar.

Nos últimos parágrafos, o linguista desvenda a raiz da questão: o diminutivo português transmite um sentido de carinho.

O seu ensaio é muito curto e vale mesmo a pena.

*Cumprimentar is the word he uses but more realistically, despedir-se is the more appropriate verb.

**Hum, pensando nisto, porque é que esta palavra termina com -o? Beijinho é uma (palavra) diminutiva não é?

***He’s very good generally, and his Great Courses Series is absolutely mind-blowing. I can’t recommend it enough. However, I would cheerfully crucify the man for this absolute travesty. Sorry, but I have my limits.

Thanks as always to Cristina of Say It In Portuguese for the help with proofreading

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Assim ou Assado

So I was reading a graphic novel called “E Agora” by Raquel Sem Interesse yesterday and I came across this frame, in which the protagonist is on the wrong end of an overbearing, shouty boss.

Ooh, intriguing! What does that second bit, “Não é assim, é assado!” mean? Assado means roasted, so “It’s not like that, it’s roasted!”

But why? Well, it’s nothing to do with actual roasting, literal or figurative. Assado just happens to sound like assim, so if you want to say “it’s not like this, it’s like that”, then “No é assim, é assado” works quite well.

You get the same word pairing in other situations – as “assim ou assado” or “assim e assado” or “nem assim, nem assado’ this or that, this and that, neither one thing nor the other.

Here’s a children’s book by Ana Pessoa, for example, which is about making choices, and Marco Neves, who I’ve mentioned before as a great explainer of the portuguese language, has written a book with the same title. And if you dig around you’ll find restaurants and podcasts and all sorts, using variations on the theme.

When I asked reddit, I got a couple of examples. If a child says “eu quero assim”, the parent might reply “não é assim, nem é assado”, which I guess is just a way of saying “well, tough!”. And if a client at work has very detailed requirements, you might say “ele disse que queria assim e assado”. It’s pretty common to hear such things, apparently, but I guess I just haven’t been paying attention!

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Queria? Já Não Quer?

I’ve just written a brief text in Portuguese about this which will probably end up being a blog post soon but I thought I’d expand on it in English in the meantime because it’s interesting!

So apparently there’s this joke that gets made a lot in Portuguese cafés. If you ask for a coffee by saying “queria um abatenado” (an abatenado is a kind of coffee) the waiter might reply “Queria? Já não quer?” if they are a bit of a smartarse. Why?

In English we don’t usually say “I want a cup of tea” because it sounds too blunt, so we go for something gentler like “I would like a cup of tea” instead. In the same way, the Portuguese have a fondness for tweaking the tense to sound more polite. They do this by saying “I was wanting a coffee”. And so, if you are a bored waiter you might decide to interpret this in the most literal way possible and reply with “Oh, you were wanting one, we’re you? So you don’t want one any more?” I know, hilarious, right?

I quite like it actually since it is both amusing and instructive for us learners but I think some people find it irritatingly pedantic, especially when it is repeated often. A recent article on Timeout Lisboa has taken waiters to task for this and for another literalism – namely when they reply to a request for a glass of water (“um copo de aqua”) by replying that they don’t have any glasses made of water, only glasses made of glass but if you want, they can give you a glass with water in (“um copo com água”). Marco Neves, in his blog, Certas Palavras, takes up the baton and gives a few other examples of nonstandard uses of verb tenses as well as some of his pet peeves. It’s a good read if you are at intermediate level or above.

Of course, as with most things, as soon as you noticed some weird feature of Portuguese, you realise English has exactly the same weirdness. I’ve already mentioned “I would like” as a politer version of “I want” but here are some other examples of verb tenses being used in weird ways in everyday English that are completely fine but would be confusing if you took them at face value.

Present tense for future events: I hope I don’t catch covid because I’m visiting my parents at the weekend.

Conditional tense for past events: When he was depressed he would spend his evenings drinking Drambuie and watching repeats of Peep Show with his cat.

Future perfect tense for things you assume to be true: Ah, Hamish, you’ll have had your tea

Present tense for historic events (the so called “historic present” or “narrative present” which was briefly both trendy and controversial a few years ago and basically dominates podcasting): “The Romans invade the Iberian Peninsula in the third century and are met with fierce resistance, not least from the Lusitanian tribes, led by Viriatus”

Studying another language has given me a new appreciation of my own.