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Herança de Sangue – Penina Baltrusch

Conheci esta autora no FLILP há três meses. Achei-a muito simpática e é evidente que a sua obra tem muitas fãs no seu próprio país (aqui está uma brasileira a falar sobre o mesmo livro, por exemplo).

O romance é um thriller, que se passa em Inglaterra, e conta a história de uma funcionária de um call centre inglês chamada Ella, que descobre que foi adotada e que é a herdeira de um milionário. Em breve, apaixona-se por um rico e os dois casam-se, mas nem tudo é como parece. Em breve, a sua amiga está morta, ela mesma quase morre num acidente de trânsito e durante a sua lua de mel, ela cai montanha abaixo. Então é evidente que há alguém que quer se livrar da nossa heroína. Mas quem?

A escritora escreve bem: o diálogo parece-me natural e a ação não pára*. Infelizmente, achei o enredo um pouco rebuscado. Os planos do antagonista não têm pés nem cabeça, e há vários outros aspectos pouco credíveis. Basicamente, a experiência de ler este livro não é nada má, mas deixou-me insatisfeito. Talvez um conhecedor deste género, que esteja mais acustomado à suspensão de descrença possa gostar mais.

*Strictly speaking should be “para” following the Acordo Ortográfico but it’s the least popular change in the AO for obvious reasons, and even people who usually take care to follow the new rules tend to rebel on this one. I feel like I’ve written about this before but I can’t find it now, so here’s a Ciberdúvidas article for anyone who isn’t familiar.

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Memórias Póstumas de Brás Cubas

Mais um romance exigente. Ouvi-o como audiolivro que me deu água pela barba, e não só água mas leite e sumo de laranja também. Não estou acostumado a ouvir sotaques brasileiros durante tanto tempo.

Brás Cubas conta a história da sua própria vida após o fim da mesma. Refere-se várias vezes ao Candide de Voltaire, e realmente este livro é do mesmo género. O ritmo é mais lento: enquanto o Candide corre de cena para cena, este anda em saltinhos, de um assunto para um outro, com pensamentos aleatórios, uns profundos, outros engraçados.

O livro foi traduzido por Margaret Jull Costa (tradutora das obras mais recentes de Saramago) e também ouvi a versão inglês para reforçar a minha noção do desenrolar da história, e ainda bem, porque não compreendi muito bem o que o narrador brasileiro disse.

Eu sei que este livro está muito na moda atualmente por causa do elogio de uma influenciadora americana, e não tenho a mesma opinião, mas vale a pena, sem dúvida.

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O Clube de Leitura

Penance Eliza Clark

A minha filha, a autora, sugeriu que nós (mãe, pai e filha) lêssemos um livro juntos e depois discutíssemos as nossas opiniões uns com os outros. Escolheu o Penance (“Penitência”) de Eliza Clark para dar o pontapé de saída.

Fiquei impressionado pelo domínio da autora do seu enredo: a história é contada por um escritor de crime verdadeiro* que está a escrever um “livro dentro do livro” sobre um grupo de estudantes numa escola em Yorkshire. São raparigas com dezassete** ou dezoito anos cujos dramas, traumas e doenças mentais acabam em tragédia e três delas matam uma outra. Cada capítulo consiste numa série de entrevistas com familiares e amigos das raparigas. A história delas é, em si, incrível e Eliza Clark retrata cada um com uma personalidade realista e “dinâmicas de grupo” acreditáveis, mas o papel do escritor também está em causa. Quanto podemos confiar numa outra pessoa com os seus próprios motivos?

Falámos anteontem e todos gostámos (4/5 estrelas). Todos nós percebemos aspetos do livro que os outros perderam (por exemplo eu fui a única pessoa que não percebi que o nome do escritor no livro, Alec. Z. Carelli, é quase um anagrama do nome de Eliza Clarke (não é exato, mas sim perto!) e eu percebi uns pormenores partilhados entre as raparigas e outros adolescentes que cometeram crimes verdadeiros nas notícias***.

O livro de Setembro irá ser o Piranesi de Susanna Clarke. Mesmo sobrenome, outra grafia. Em Outubro sou eu que vou escolher um livro de autor chamado Klark.    

Penance de Eliza Clark (Audible, Amazon e que pena, não existe nenhuma versão portuguesa mas aqui está a página do Wook).

*I don’t think True Crime as a genre is very well-known in portuguese. I can see people using it (here for example) but the big kahuna of the genre, In Cold Blood by Truman Capote, is listed under “Jornalismo Literário / Romance de Não Ficção” on Wikipedia, so watch your step with this one.

**Just found out the brazilians even spell seventeen differently and now I want to smash everything.

***Might just be a coincidence but for example, one is “pretending to have a dealer”, which is a detail that appears in descriptions of the murderers of Brianna Ghey last year, and that seems to specific to be a coincidence. The two murders are very simple: apparent simple motives which were latched onto in the public imagination, but lurking just underneath are huge reserves of sadism, unhealthy online activity and general headfuckedness.

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Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Há um capítulo do Português em Foco que explica alguns pontos altos da literatura portuguesa. Um destes pontos altos é o Soneto. Esta forma de poesia é conhecida tanto em inglês quanto em português. Shakespeare escreveu muitos e neste exemplo o seu primo zarolho, Luís Vaz de Camões* também escreveu. Creio que tem mais influência em Portugal, Não tenho nenhuma perícia neste campo mas não acho que houvesse poetas famosos a escrever sonetos em Inglaterra no início do século XX. Em Portugal, sim**.

Um soneto consiste em 14 versos*** arranjadas em quatro estâncias – duas quadras e dois tercetos. Cada verso tem 14 decassílabos. Que raio é um decassílabo? Não faço a mínima ideia mas 14 deles é igual a dez sílabas. Neste exemplo, a rima segue um padrão: ABBA ABBA nas quadras e CDC DCD no tercetos (assinalado acores no transcrito infra), mas este padrão não é obrigatório. O poema “Rústica” de Florbela Espanca que memorizei em 2021 e que tentei, com o hubris dos ignorantes recitar ontem numa aula porque não tinha feito o TPC é um soneto mas corre ABAB ABAB CCD EED.

A forma poética é importante; o autor do livro afirma que “estamos perante um soneto perfeito” por causa do modo em que o poeta distribui os conteúdos pelas estrofes de maneira que cada estância tem o seu próprio tema.

O título do soneto é igual ao primeiro verso:

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (Times change, intentions change)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

*Obviously joking about their being cousins but this made me wonder if they were contemporaries. Sort of. They overlap by 16 years. Camões was about forty years old when Shakey was born.

**I don’t think I’ll be writing a history of anglo-lusitanian poetry anytime soon though, so definitely take this with a pinch of salt!

***OK, well here’s the first false friend for you: Verso doesn’t mean verse, it means a line of the poem.

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E O Céu Mudou de Cor – Israel Campos

Neste romance angolano, vemos o mundo do ponto de vista de um jovem que mora num país opressivo, que é ficcional mas é uma versão (se não me engano) da Angola atual. Embora o narrador seja o protagonista, o personagem mais interessante (para mim) é o seu primo, Mateus. Idealista e lutador, este jovem enfrenta a corrupção quotidiana e recusa aceitar os comportamentos e as cunhas que estão a enfraquecer o seu país. Na perseguição deste objetivo, o Mateus, o narrador e um amigo deles, encontram o Sr. Zé que quer levar a cabo uma mudança social. O narrador é mais novo do que o Mateus e não entende perfeitamente o que está a acontecer ao seu redor.

Com humor e emoção, o autor lança uma crítica contra vários aspectos do sistema social. Claro que não conheço o seu país suficientemente para julgar quão exato seja esta crítica, e é muito provável que tenha perdido algumas coisas, mas foi interessante vislumbrar o mundo pelos olhos do seu protagonista.

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Neon – Rita Alfaiate

Recebi esta BD como presente de uma amiga e comecei a ler quase de imediato.

Conta a história de uma rapariga que vive com o seu cão robô numa cidade quase vazia. A única outra pessoa que ela encontra no seu dia-a-dia é uma empregada do supermercado onde ela faz as compras. A autora faz com que a cidade inteira exista só para ela.

Há pouco diálogo mas a arte é incrível, e adoro como ela usa variações no estilo artístico para sinalizar as emoções da protagonista ou o “tom” da cena. Por exemplo, à volta da página 70, temos uma série de imagens embaciadas em preto e branco, uma que parece um desenho de um livro infantil, e uma muito realista, que espelha os sentimentos de pânico, isolamento e revelação quando ela vai à procura do cão e acaba por encontrar o cinema ao ar livre.

Adorei este álbum e irei procurar mais livros desta autora durante a minha próxima estadia em Portugal.

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The Walking Dead

Acabo de ler o décimo nono episódio da banda desenhada The Walking Dead. O primeiro foi um dos primeiros livros portugueses que li por completo, e achei-o um método genial para aprender português idiomático. Ainda recomendo que novos leitores experimentem BDs antes de enfrentar um romance.

Infelizmente, a editora Devir deixou de publicar a série após o volume 14 e depois nós leitores tivemos de mudar para a versão brasileira. Confesso que acho um chatice ler tanto calão brasileiro e tenho saudades do meu mundo perdido: Os EUA pós-apocalipticos à portuguesa!

Mas não desesperes! Há uma luz na escuridão! Segundo o site bandasdesenhadas.com, a editora voltará a publicar novos livros. Esperam completar o conjunto em 2025. Fico muito feliz e antecipo ler os próximos volumes em breve.

The Walking Dead 19
Even if you don’t know any portuguese, you can pretty much guess what they’re saying here and none of it is about flowers or kittens.

Entretanto, o Rick carioca não deixa de ser interessante. Este episódio conta a história da aliança entre as três colónias*: Hilltop, O Reino e… A outra cujo nome me escapa… Juntam-se para entrar em guerra contra o grupo de Negan. Ouvi dizer que o Negan se torna um aliado do Rick na série mas é quase inacreditável porque na BD é praticamente o diabo! De qualquer maneira, a ação neste livro é incrível, com poucas páginas perdidas em coisas de telenovela. Acho que é o melhor da série até agora.

Li este livro no app Kobo no meu telemóvel mas não recomendo, porque fiquei com dores na vista. Antes, experimenta o Wook e começa no início!

*I originally wrote “povoação” which I think would normally be used for population, as in “the population of the UK is increasing by 1% per year due to net immigration” but can also sometimes mean a village or settlement (the actual word I was trying to translate) according to Priberam, but it seems povoado is a more natural word, but apparently in the TV series they are referred to as colónias – eg here (but it’s Brazilian so uses a circunflexo)

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Perguntem a Sarah Gross – João Pinto Coelho

Perguntem a Sarah Gross ' José Pinto Coelho

Perguntem a Sarah Gross é um romance que gira à volta da protagonista, que (já adivinhaste?) se chama Sarah Gross, e uma outra personagem, Kimberley, que narra os acontecimentos em Connecticut. A ação abrange décadas e continentes diversos, e a narrativa vai saltando entre a Polónia nos anos vinte do último século e os EUA em 1968-9, e aborda os males de nazismo e do racismo dos Estados Unidos na era da luta pelos* direitas civis dos cidadãos negros.

A Sarah é uma protagonista com um espírito indomável mas também tem um segredo escondido no seu passado, que vem a ser desvendado com o desabrochar dos eventos da história.

Perguntem a Sarah Gross está disponível como audiolivro para quem quiser ler com os ouvidos!

*Good example of a context where, as an english speaker you (or at least I) would naturally be inclined to write para

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A Noite – José Saramago

A Noite ' Saramago

A Noite é o… Hum… Sétimo Livro de Saramago que já li, mas é diferente dos outros porque é uma peça de teatro. A ação passa-se no escritório da redação do Jornal de Lisboa nos anos setenta. Durante o primeiro ato, conhecemos as personagens, os seus cargos na empresa e as suas atitudes face ao governo de Marcelo Caetano. Um rádio está a tocar em* pano de fundo. Após algum tempo ouvimos “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, e começamos a perceber (se ainda não soubéssemos) em que noite especifica a peça é passa-se. Mais tarde ainda, a abertura do “Grândola Vila Morena” toca, o que causa o editor do turno de noite gritar “Desliga-me isso” e as luzes apagam-se, deixando o palco na escuridão.

No segundo ato, os jornalistas ouvem os boatos da revolução que está em curso, e tentam averiguar os factos. Uma clivagem abre-se entre os apoiantes do regime (principalmente os gestores, o editor e o diretor) e os socialistas (os trabalhadores na sala de impressão**, alguns jornalistas) que vêem com entusiasmo a ditadura a chegar ao fim.

O caos daquela noite é muito bem ilustrado, e o autor também retrata as divisões no país daquela época pelo exemplo de uma empresa cuja estrutura espelha a estrutura da sociedade. Para mim, o pior do livro é o desfecho: achei o coro de vozes demasiado óbvio, como se fosse uma propaganda, mas suponho que, da perspetiva de 1979 (quando a peça se estreou) era importante defender a liberdade, contra quem ainda tinha saudades da PIDE, e talvez seja por isso que às últimas 2 páginas da peça faltam uma certa sutileza visto por gente moderna!

*Em, not no. In background, not in THE background

**A Gráfica would also work for print room

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O Que Dizer Das Flores

O que dizer das flores

Este livro tem uma capa bonita mas não julgamos um livro pela capa. Felizmente a história também vale mesmo a pena.

Não é uma história com um único protagonista. Há várias personagens que têm as suas próprias vidas e os seus próprios segredos, mas acho que o enredo centra-se* no pai da Catalina, cuja fuga da cadeia suscita a questão de se é** culpado ou inocente.

Mas o maior segredo de todos é este: de vez em quando, a narração passa para a primeira pessoa mas os protagonistas não interagem com quem está a falar, fazendo-nos*** perguntar, quem está a narrar isto tudo? O mistério desvenda-se ao longo do tempo, caso não tenhamos já adivinhado.

Lê-se bem, e até me fez rir. A minha única queixa é que queria ter lido o primeiro livro da série. Ouvi dizer que não era necessário lê-los em sequência mas há muitas referências aos acontecimentos do Onde Cantam os Grilos e acho que perdi algo por não conhecer as personagens antes de ler este segundo volume.

*gira à volta (revolves around) would have worked too, and is quite common, but some pedantic types might object to it being a tautology.

**Writing a stern note to myself because I wrote “for” here, instead of é. The “se” and the whole way it is joined onto the rest of the sentence seems to be setting it up for a subjunctive (future or maybe imperfect), which is what I thought, but I was wrong, because it isn’t setting up a hypothetical situation. If it was like “se for culpado, irá para a cadeia”, it would be subjunctive, but not here. Super-tricky, that one, at least for my way of thinking…

***I think strictly speaking there should be an extra “nos” here – Making us ask ourselves – but it sounds clunky and sometimes it’s better to be ungrammatical and soung good than be super’accurate and sound like a dork.