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Opinião – “A Hora Da Estrela” de Clarice Lispector

notebook_image_886683Não costumo ler livros brasileiros por causa das diferenças da gramática e vocabulário, mas tenho ouvido apenas boas coisas sobre essa escritora, e estamos no mês do dia internacional da mulher (os meus amigos do booktube chamam-no “Marco Feminino”) e por isso, pensei, “porque não ler alguma coisa diferente?”
O livro é fininho mas muito denso. A historia é contada por um narrador, ou um falso autor, que se chama “Rodrigo S M” e que se apresenta como um personagem no conto. O vocabulário não é difícil, mas há muita subtileza e filosofia, até ao ponto em que, as vezes, a historia parece menos importante do que os pensamentos do narrador sobre a problema de escrever livros. Enfim, o livro é um bom exemplo dum livro no qual “entendo as frases mas não compreendo os capítulos”, mesmo que não tenha nenhum capítulo!

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Opinião – Como é Linda a Puta da Vida

28432696_336827316811327_6148354819342991360_nO que mais me impressionou deste livro foi a maneira como o escritor comunica ideias bastante interessantes e complexas nitidamente, sem precisar de frases inchadas com palavras compridas. Eu, como estrangeiro, quase nunca tive de abrir o dicionário, mas apesar disso nunca houve nenhum capítulo aborrecido ou simples de mais.

(Tentei muitas vezes publicar este texto no iTalki com o título do livro na caixa do título na página mas sempre falhei. Pergunto-me se a quinta palavra é proibido! Nunca tive problemas com filtros mas nunca se sabe. Não é uma palavra que costume de utilizar!)

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The One With The Friends Reference

I asked a question on italki a while ago about the Portuguese equivalent of “frenemy”

Perguntei me se existe uma palavra em Português (Europeu) que descreve pessoas que parecem amigos mas na verdade há sentimentos de rivalidade ou ressentimento entre eles. Ou seja são amigos e inimigos no mesmo tempo.
Encontrei um filme que se chama “aminimigos” – tradução do inglês “frenemies”, mas será que esta palavra é comum, ou uma palavra idiomática? Ou só foi inventado por os tradutores do filme?

And didn’t think much about it for a while but this paragraph from “Como É Linda a Puta da Vida” by Miguel Esteves Cardoso seems pretty close to the mark:

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Opinião: A Abóbada (Alexandre Herculano)

502xEste livrinho conta a história da construção do famoso Mosteiro da Batalha. Em primeiro lugar, esta descrição não parece uma ideia promissora. Talvez deva publicar-se num guia turística. Mas o autor, Alexandre Herculano tem tentado escrever uma história mais interessante. Descreve o desacordo  entre o arquitecto irlandês, David Huguet e o português Afonso Domingues que ficara cego. Huguet era um imigrante, e o autor sublinha a importância de imigrantes na vida dum país. Também descreve um auto-da-fé com personagens que representam o diabo, a soberba, a caridade, entre outros. Acho que consegue pintar uma imagem das crenças religiosas dos séculos XIV e XV, por método de mostrar este espectáculo.

Ao que parece, o livro é um texto que se lê nas escolas portugueses, e posso ver os porquês. Combina história, religião e literatura num livro pequeno.

Assim como o “Morreste-me”, achei-o ligeiramente difícil. Neste caso, não era por causa da gramática, mas porque havia muitas palavras específica à época e à arquitectura em geral.

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Opinião – Morreste-me (José Luís Peixoto)

Morreste-meEu li este livrinho em 24 horas, entre a hora de jantar de segunda-feira e a hora de jantar de terça. É realmente fininho, com apenas 50 páginas, mas o conteúdo é muito intenso. Trata da perda do pai do narrador, a tristeza dele, as memórias, e o vazio que permanece depois da morte.
Os leitores do Goodreads concordam que é uma obra poderosa que os fez chorar, e sem dúvida, têm razão, mas não teve o mesmo efeito comigo porque havia tantas palavras desconhecidas. A exigência de ir consultar o dicionário seis vezes por página funciona como um escudo forte contra as tempestades de emoção. Se calhar vou voltar ao livro dentro de alguns anos e experimentá-lo mais uma vez para levar a força toda.
O livro é publicado pela editora Quetzal e é lindíssimo. Assim como a maior parte dos livros portugueses, tem orelhas* (não é comum cá na ilha de brexit) e a formatação das páginas é muito gira.

*=”Orelhas” (“ears”) used her to mean the flappy bits on the covers of books or dust jackets. It’s given in Priberam as meaning number 4 for the word, and I’ve seen it on various “anatomy of a book” type pages on the web but I don’t think it’s universally recognised…

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Opinião – A Avó e a Neve Russa (João Reis)

These are some notes I wrote yesterday for a video review which I’ll probably make in the next day or two. Part of it has been corrected on italki by Fernanda and Karla – Obrigado as duas – but there was too much to fit in the box so I cut some out and hence there might be some errors remaining #UNCORRECTEDPORTUGUESEKLAXON! There’s also a shortened version on Goodreads.
Ouvi dizer deste livro através dos canais duns booktubers portugueses. Muitos deles mencionaram que o compraram e vários já o leram e gostaram. O autor é muito activo nas redes sociais e da a impressão de ser simpático (mas eu diria isso de alguém que curtiu os meus instagrams). Achei que o livro tinha bom aspecto. Portanto, comprei-o no site da Fnac. A história é contada por um menino de dez anos. Às vezes, as opiniões dele parecem reacções normais duma criança, mas, noutras situações, parecem mais maduras, mais adultas do que os pensamentos dum rapaz daquela idade – e também, na maneira com qual fala com a avó e o irmão, como se fosse ele que tinha que cuidar deles. Descreve-se como “homenzinho” por causa do seu papel na família. De forma geral, a voz do narrador fez-me lembrar outros livros contados por crianças num mundo adulto, tal como o “Espiões” de Michael Frayn ou “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto” de Jonathan Safran Foer. Também, de vez em quando, alguma coisa no registo da leitura fez-me pensar em “O Estranho Caso do Cão Morto” de Mark Haddon. Pensava que isso foi por causa da minha falta de conhecimento da língua mas depois vi um video de uma das minhas leitoras preferidas e disse que ela também perguntou-se se o narrador tivesse qualquer espécie de autismo ou Síndrome de Asperger. Mas não tem.
A Avó e a Neve RussaEste rapazinho mora no Canadá com a sua avó e o seu irmão. O irmão, que se chama Andrei, é adolescente e passa os seus dias a fumar canábis, ou algo do género (não é nomeado no texto). Antigamente a avó vivia na Ucrânia, na União Soviética, perto de Chernobyl onde o seu marido morrera. Ela tem dores de pulmões por causa de radiação – tem cancro e talvez mais problemas por cima. Também acho que tem uma espécie de demência. O rapaz deixa-lhe recados para ela fazer as coisas do dia-a-dia.
Existem outros estrangeiros perto da família – da Itália, da China, da Nigeria e até dum país chamado Portugal. Um aluno na escola goza com o rapaz e chama-lhe “Russkiy”. A grande aventura da segunda metade do livro é uma viagem que o narrador e o seu amigo, Matt, realizam para irem procurar uma cura para a doença da avó. Matt é judeu, e o holocausto torna-se uma tema menor do livro.
Há passagens no livro que eu achei um pouco lentas, mas como devem saber, leio português muito devagar e por isso, a minha percepção destas subtilezas não é o melhor guia para quem quiser saber se é um livro bom – não fiquem desanimados por minha causa! Apesar disso, o livro é encantador. O desenlace é muito triste, muito querido e muito adequado à história dessa velha e do seu neto.
Aliás, tenho uma pergunta. Li dois comentários no Goodreads, e também ouvi num video que o menino não tem nome mas acho que tem, sim. Há uma carta na página 211 em que… cá para mim, chama o menino como “Alexei” mas não é óbvio no contexto porque aparece em parênteses e por isso é possível que mal entendi. Talvez fosse o nome do jornal, ou um o pretérito perfeito, primeira pessoa dum verbo desconhecido a mim “alexar”. (Ei, meu amigo, sabes o que fiz? alexei!) mas é um nome russo, e eu simplesmente assumi que fosse o seu nome.
Links: Bertrand / Amazon
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Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas

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Acabei de ler “Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas”, a obra-prima de Afonso Cruz. Já tinha lido um livro do mesmo escritor que se chamado “Os Livros que Devoraram O Meu Pai”, que adorei. Neste caso, demorei muito antes de realmente começar a apreciá-lo, mas, assim que comecei, fiquei viciado e acabei as últimas 400 páginas dentro de 5 dias, o que não é mau, dada a velocidade da minha leitura em português.

O livro conta a história de Fazal Elahi, um cidadão dum país sem nome do Médio Oriente, e da sua família. A maior parte das personagens são muçulmanos, mas também há um hindu e um cristão, e a religião é um tema muito forte no livro. Porém, não permanece exclusivamente na igreja e na mesquita: o enredo segue um caminho através dos altos e baixos das emoções que sofrem os seres humanos – tragédia e comédia, filosofia e absurdidade, o mágico e o quotidiano.

O livro está cheio de surpresas: piadas, contos, imagens, jogos tipográficos, e citações dum livro imaginário que se chama “Fragmentos Persas”. Passa das lágrimas às gargalhadas no espaço de de 5 páginas. É mesmo ótimo, e acho que tenho um novo escritor preferido!

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Opinião – Bichos de Miguel Torga

A minha mulher trouxe uma cópia bonita deste livro quando chegou aqui no Reino Unido, há anos. A sua beleza não é porque a capa é colorida ou chique, mas sim por causa da simplicidade da capa. É branca com o nome do livro em letras vermelhas e o nome do autor em letras pretas. A contracapa é completamente limpa, sem números, sem palavras, sem código de barras.

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Tentei lê-lo um ano atrás e o resultado foi uma humilhação. Estou exagerando, mas podes crer que não entendi patavina. No entanto, hoje em dia, o meu português está muito melhor. Consegui ler muito com a ajuda de um dicionário. Assim como o “A Costa Dos Murmúrios”, havia umas palavras desconhecidas que não se encontravam no dicionário porque o seu vocabulário é muito “rural”, e muito antiquado. Até uns amigos portugueses disseram-me que tiveram problemas com as obras do Torga. É isso que faz o livro ficar mais interessante!

Li o livro dentro duma semana. Às vezes, lia rápido em voz alta, para praticar a leitura, a pronuncia e a compreensão. Entretanto, acenei ao comboio de vocabulário enquanto ele passava à minha frente. Noutras vezes, lia mais devagar e fiz grandes esforços para entender tudo.

Não entendi tudo. Claro que não, mas segui o enredo (mais ou menos) da maioria dos contos e havia momentos de claridade em que conseguia ver a beleza do seu estilo. Mas havia poucos momentos como esses. O que mais chamou atenção foi o seu método de terminar uma historia. Não quero dar “spoilers” mas o ultimo parágrafo do conto “Morgado” foi arrebatador!

E, ainda por cima, o último conto do livro deixou-me sem palavras. A historia decorre na Arca de Noé. Na Bíblia, Noé enviou um corvo para buscar alguma terra não inundada, mas o corvo não voltou. Desesperado, Noé mandou uma pomba em vez do corvo e enfim a pomba voltou para a arca com umas folhas. Mas o enredo do conto de Torga é bastante diferente. O Corvo é um rebelde contra Deus e contra o sicofanta Noé. O pássaro preto não aceita o seu destino, preso num barco por causa dos pecados dos seres humanos. Arrisca a sua própria vida para voar longe da arca. Noé não ousa contar a verdade a Deus por causa de sua covardia. Compreendendo a autonomia do corvo, Deus tenta destruí-lo com ondas e com raios e… ah, desculpa, eu disse que não queria dar spoilers…

Bichos de Miguel Torga is probably available from Amazon but in this house we respect proper bookshops whose owners pay their workers and their taxes so I recommend either : Bertrand (in Portugal) or Foyles (in the UK)

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Opinião – Os Livros Que Devoraram o Meu Pai

#UNCORRECTEDPORTUGUESEKLAXON

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Este livro era uma grande surpresa. Só comecei de lê-lo porque o Bichos de Miguel Torga pode ser um pouco cansativo para um aluno como eu. A historia é dum homem que perdeu o seu pai, não ao morte, mas sim aos livros no sótão:

“E foi nessa tarde que ele, de tão embrenhado, tão concentrado na leitura, entrou livro adentro. Perde-se na leitura. Quando o chefe da repartição chegou à secretaria do meu pai, ele já lá não estava. Havia, em cima da mesa, uns impressos do IRS e um exemplar da A Ilha do Dr Moreau aberto nas últimas páginas.”

O protagonista entra no mundo literário à procura do seu pai, a viajar de livro para livro, e no caminho encontra um cão (que ele acredita seja o Edward Prendick, herói do livro “A Ilha do Dr Moreau” de Jules Verne), o senhor Hyde, o Raskolnikov do “Crime e Castigo” e outros personagens da literatura do mundo. O livro é curtinho, com capítulos curtos também. Lê-se muito bem, muito suave, e (qual é o mais importante para mim!) muito fácil. Quase nunca precisei do dicionário e consegui rir as piadas e os absurdos da historia sem explicação. Já tenho mais um livro pelo mesmo autor e já meti-o perto do pináculo do gigantesca montanha que chamo o meu TBR.

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A Costa Dos Murmúrios – Opinião

Este texto era para ser uma opinião sobre um livro mas acabou por se tornar uma dupla-opinião, sobre um livro e um filme. A razão para esta decisão vai se revelar em breve.

17162622Comecei a ler “A Costa Dos Murmúrios” de Lídia Jorge no inicio de Outubro, mas custou-me muito entender o enredo. O livro desenrola-se em Moçambique, no principio dos anos setenta, durante a guerra colonial e tem que ver com o horror inerente a um sistema daquele género, baseado em violência e arrogância que envenena as vidas das pessoas assim como o álcool metílico envenenou as pessoas que beberam o vinho logo do início do livro.

Entendi cenas, sim, diálogos e parágrafos, mas é escrito num estilo muito literário que me faz lembrar os romances de Graham Greene e de Joseph Conrad. Por isso, não consegui entender o enredo inteiro.  Ainda por cima, Lídia Jorge utiliza muitas palavras desconhecidas. O meu dicionário ficou sempre perto de mim. Porém, às vezes,  até o dicionário não chegou. Por exemplo, havia uma palavra “mainata” que não conhecia. Não a encontrei no dicionário, e a minha mulher não sabia o significado. Hum, uma mulher deu nomes às mainatas e mainatos. Os nomes eram nomes de vinhos. Um deles, Mateus Rosé, morreu. Perguntei ao Google.

Exmo Google

O que é que é uma mainata por favor?

Obrigadissimo

Colin

O Google respondeu com imagens de pássaros pretos que se chamam “mynah” em inglês. Falam ainda melhor do que os papagaios. Boa. Durante o resto do livro, imaginei estes pássaros de estimação lá em casa.

Quando cheguei ao fim, decidi ver o filme para que pudesse ter certeza do que é que tinha acabado de ler. Imediatamente, vi o meu erro. Um(a) mainato/a não é um pássaro, mas sim um empregado doméstico. Talvez seja uma palavra especifica do ultramar, e só significa um empregado negro. Não sei. Senti-me ridículo por ter feito um erro tão estúpido!

Há outros aspectos do filme e do livro que me deixaram confuso. Por exemplo, ainda não entendo o relacionamento entre a escritora e a protagonista, Evita. A Autora escreveu o papel dela no primeiro capitulo mas não percebi exactamente o que é que ela queria dizer. Gostei do livro mas estou muito contente por ter visto o filme também porque ajudou-me muito a entender a história.


Queria agradecer a Fernanda pela ajuda com as correcções neste texto