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I Continue to Get Surprisingly Good Marks

I got a solid 3.4/4.0 in the essay about Dom Joâo II. That’s 85% – God, I’d have killed for marks like that in the degree courses I took in IT and computing. I made a lot of silly grammatical errors that I should have picked up in editing, but in spite of everything, he noted that I have shown that I had an original and distinctive take on the subject, and I feel quite pleased with that!

As Sombras de D. João II

Anyway, I need to start revising, so I am going to go through it in detail, fix the mistakes and think about what could be improved. Again, this is just for my own benefit, but if you’re following along, the challenge was to analyse the title and subtitle of this thriller and decide what it means, referring to what we know about the real (historic) and fictional (in legend, propaganda and media representations) person that is Dom João II. I’ll fix all the boring typos and comment on the mistakes that are interesting enough to say something about. I’m indebted to the teacher who took the time to correct the grammar but didn’t penalise me for it as I suspect he probably could have!

Introdução

Neste texto, vou tentar decifrar o significado do título e o subtítulo deste livro, mas antes de começar, é necessário perguntar “o significado para quem?” Raras vezes todos os leitores de um livro concordam sobre a interpretação de um livro. Então o nosso pensamento deve começar com o autor e a imagem que ele quer criar na mente do leitor. Mas a visão do autor não é isolada, separada da cultura e da sociedade onde vive. O seu retrato do rei tem de ser reconhecível para os leitores, ou seja, tem de ter alguma semelhança com a pessoa de João II promulgada* nas escolas e na média. Ao mesmo tempo, um autor de romances históricos sabe bem que os seus leitores querem mais do que factos, nus e crus. Se quisessem isso, teriam comprado alguma coisa da estante não-ficção. Assim podemos imaginar o autor a pensar nas várias narrativas ao longo dos anos. Não sendo historiador nem propagandista, o autor de ficção histórica é livre para escolher os aspetos da lenda que satisfazem os seus critérios.

Como o Título Chama a Atenção dos Leitores

Em primeiro lugar, a palavra “Sombras” pode ser interpretada de várias maneiras. Pode-se imaginar uma montanha ou um castelo a assombrar o território à sua volta por causa da sua imensidade. Uma sombra, então, é símbolo da imponente estatura da figura do rei nos olhos do povo. Por outro lado, a palavra sugere o lado obscuro de um governo e a sua rede de espiões. E em terceiro lugar, é fácil imaginar o rei como um protagonista assombrado pelas suas próprias dúvidas.

Destes três, a primeira explicação é a menos satisfatória. Um castelo tem uma sombra e mais nada, mas a palavra no título é plural. Quanto aos outros significados, o site da editora (Clube do Autor, 2026) fornece amplas provas de ambas. Talvez a única frase mais reveladora do seu assombramento e o do seu povo é “No meio de tudo isto, há um homem de lágrima fácil e íntimo cruel, um verdadeiro manancial de sentimentos por decifrar.”

Noutras palavras, ao** leitor está a ser prometido emoções turbulentas por parte de um rei que anteriormente teria parecido opaco e ainda por cima um enredo cheio de surpresas e que – quem sabe – é capaz de pôr em causa a nossa imagem do Príncipe Perfeito. 

Como o Subtítulo Os*** Seduz Ainda Mais

À primeira vista, o subtítulo, “Sonho, glória, poder e intriga. Os bastidores de um reinado de ouro.” garante uma visão do rei que é mais tradicional e mais normativa: o rei levou a cabo uma onda de descobrimentos cruciais para o futuro do país e do continente europeu, trazendo glória, poder e riqueza para os participantes e para o trono. Na verdade, a legacia**** dele é altamente discutível, como vemos na obra da Mafalda Soares de Cunha que mostra exemplos de historiadores serem acusados, desde o século XVII de (entre outras coisas) “[…] omitir uma série de informações importantes, como é o caso do seu papel no progresso da gesta expansionista… (Cunha 1988 pp 651) mas isso não altera a reputação do rei na imaginação pública. O seu nome é quase sinónimo dos descobrimentos, é óbvio no “Mensagem” de Fernando Pessoa, a sua mitologia poética do passado de Portugal, onde o rei aparece não só no poema que tem o seu nome onde ele parece “uma alta serra”***** (Pessoa 1934 pp 44) (e, indubitavelmente, assombra o promontório onde está!) mas também em “O Mostrengo” o navegador leva o nome dele como um talismã contra os perigos do mar****** (Pessoa 1934 pp 57)

Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!

Adriana Bebiano afirma que a precariedade do mundo atual (ela estava a escrever logo depois dos atentados de 2001) produzia um desejo de regressar ” a representações identitárias onde se observa um excesso de passado” (Bebiano, 2002 pp 534) e que, no caso de Portugal, esta tendência era caracterizada por “a quase omnipresença da gesta marítima” (ibid) como o navio na capa deste romance.

Para Jorge Sousa Correia, escrevendo nos anos vinte deste século, a confiança na autoridade está catastroficamente reduzida e andamos rodeados por teorias de conspiração. Daí, não é nada surpreendente que vejamos neste título e seu subtítulo, uma combinação da glória radiante do passado, salpicada de tons mais escuros, representando a sombra de dúvida no que diz respeito ao líder daquela época dourada*******.

*I should really have said divulgada or propalada. I was really going for something that indicated the image was being put out as a sort of “official version” of events but it turns out I don’t really know what promulgated means even in my own language!

**Over-literal translation here. In english we’d say “the reader is being promised something” but that doesn’t work in portuguese; you have to say something is being promised TO the reader

***This is meant to follow on from the previous heading: having caught the eye of his readers he is seducing them further, but with such a long gap in between it was confusing, so the marker was left scratching his head and wondering who the hell I’m on about

****Woah! This falso amigo really surprised me. I should have said “legado” which means legacy. Legacia refers to the office of a legate!

*****Part of the instructions were that you had to quote something from the mandatory readings and believe it or not there three words are me paying lip service to that rule, because this poem is one of the texts. The marker didn’t notice – perhaps understandably, given how titchy it was, and I think I lost points as a result. Well, it’s a fair cop!

******I’m really not happy with this whole section, highlighted in yellow. It seems like a real tangle of thoughts. The prof didn’t penalise me for it, but I wish I had taken half an hour to straighten it out a bit and order it better.

*******I think the conclusion here went down well. I was quite pleased with it. I was criticised for not going into the “sombras” as much as I could have by referring to the death of his son or or the aristocrats he had bumped off. To be fair, neither of those is really referenced in the blurb and I had the impression the writer wasn’t really focusing on them, but OK, fair enough, maybe I should have gone darker!

Bibliografia

Bebiano, Adriana (2002) A invenção da raiz. Representações da nação na ficção portuguesa e irlandesa contemporâneas em Ramalho, Maria Irene e Ribeiro, António Sousa Entre Ser e Estar (2002) (pp 503-537)

Clube do Autor (2026). As Sombras de Dom João II, encontrado a https://www.clubedoautor.pt/livro/as-sombras-de-d-joao-ii

Correia, Jorge Sousa (2021) As Sombras de Dom João II

Cunha, Mafalda Soares da (1988) D. João II e a construção do Estado Moderno. Mitos e perspetivas historiográficas em Arqueologia do Estado pp 649-667

Pessoa, Fernando (1934) Uma Asa do Grifo em Mensagem pp 44

Pessoa, Fernando (1934) Mostrengo em Mensagem pp 56-57

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Wow!

I wrote an essay just before christmas and I said at the time that I thought maybe I had made a bad choice of book as the subject matter and maybe she would mark me down. But no! I scored 3.5 out of 4.0 and she said it was an “ótima análise”.

I had a couple of typos, despite 3 separate automatic checks and one actual bona fide portuguesa proofreading it for me. She had objected to my use of the word “desempacotar” to mean “unpack” in the way that annoying podcasters use that term, but I left it in, and the teacher redlined it too. Whoops!

There were a couple of other points where she disagreed with some of my assertions, some of them fair, some of them frustrating: I don’t really see how I am meant to justify every peripheral observation when the word count is so tiny! I’ll not go into detail here, but in general, I am quite pleased with how well I pulled this off!

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This Fella

A minha esposa partilhou este vídeo e mais 8 (!) da mesma pessoa. Tem uma voz muito “asmr” e escolhe poemas incríveis. É um jovem que ama poesia e que valoriza a literacia em geral. Já publicou um livro das suas próprias obras. Os seus vídeos até têm legendas! Recomendo como boa opção para quem quiser descobrir a poesia portuguesa.

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A Padeira de Aljubarrota Está de Volta

Sorry, I’ve no idea what anyone reading these updates is making of them: they’re all just formless, unedited brain-dumps of the texts I’ve been reading on the Literature and Culture course unit. I´ve got so used to using this blog as a way of processing and recording things that I´ve lost the ability to just write stuff down in a book.

As I write this, I have just finished sending my first ever essay to the Universidade Aberta. I

Já conheces a Padeira de Aljubarrota, não conheces? Já falei sobre a sua lenda aqui mas faz dezenas de referencias a história por exemplo isto.

Inês de Castro, a senhora mais bela (segundo as lendas escritos por homens) da história de Portugal agora cede lugar a Brites de Almeida que foi (segundo os mesmos homens) a mais feia e a mais sobrededada*. A segunda parte do curso tem a padeira como assunto, portanto dirijo-me para o campo de batalha onde os espanhóis derrotados afastam-se do exercito e correm em direção a um inimigo ainda mais assustador…

Me showing off in other people’s comment section on Instagram. The timeline is off obviously – Brites de Almeida had been in the ground for centuries when the peninsular war happened, but I like the idea that all portuguese bakers follow her example.

Os Livros Populares Portuguezes (Folhas Volantes ou Litteratura de Cordel) – Teófilio Braga

Este texto descreve a origem da tradição de “literatura de cordel” em Portugal e situa um panfleto – “Auto Novo e Curioso da Padeira de Aljubarrota” neste tradição.

Literatura de cordel surgiu de tradições mais antigas, satíricas ou religiosas, que foram dramatizados nas cidades, mas o formato dos livrinhos era que deu o nome ao género. Foram impressos em folhas soltas, penduradas em cordéis e vendidas por cegas. Existiam até no século XVI mas algumas leituras foram vítimas dos índices expurgatórios**

Houve um renascimento da literatura popular no século XVIII, fomentando uma ligação entre as várias tradições orais e a imprensa. O “Auto Novo e Curioso da Padeira de Aljubarrota” (ou “Forneira” – depende da edição) saiu em 1743 mas encontra-se nos catálogos populares no Porto em meados do século XIX. Segundo o historiador, o autor, Diogo da Costa foi pseudónimo de um professor de gramática, André da Luz

“Auto Novo e Curioso da Padeira de Aljubarrota” Diogo da Costa

Segundo a leitura anterior, “é uma relação alambicada e conceituosa” e concordo que a história é tortuosa mas não o achei assim tão sentencioso. Um pouco, sim, mas a narrativa continua em frente come cena após cena de ação. É picaresco e às vezes sangrento. Além dos espanhóis, ela degola um turco (e os filhos dele), fere de morte um homem que quer casar com ela, e mata um bando de ladrões. Estou a esquecer alguém? Sei lá.

O que mais me marcou é que o conto não tem nada de patriotismo no retrato da padeira. No primeiro parágrafo, o autor descreve a terra dela como “a famosa, e sempre leal Cidade de Faro” e salienta as origens humildes de Brites de Almeida. Estes dois elementos podem ser atributos de uma heroína popular, mas as ações dela surgem da amizade aos portugueses, ódio aos criminosos e donos de escravos, proteção da sua propriedade (o forno) mas amor da pátria, nem por isso!

“A Padeira de Aljubarrota: Entre Ontem e Hoje” (Capítulo 4) Cristina Pimenta

Espero que não errei em escrever o título. De acordo com o arquivo, é simplesmente “A Padeira de Aljubarrota” mas fiz uma pesquisa e acho que este é o único livro que ela escreveu.

O livro mostra a evolução ao longo dos anos, desta figura mítica, ela foi adaptado pelos autores de cada época para fortalecer o espírito nacional:

  • Restauração (1640) A evocação da padeira em contextos religiosos e historiográficos deu legitimidade á nova dinastia de Avis.
  • Século XVIII Em tempos de calma, a história foi tratado mais levemente e foram acrescentados mais pormenores à lenda (foi durante este século que foi escrito o antes mencionado “Auto Novo…”).
  • Século XIX Numa era de romantismo e liberalismo a história foi apropriado como símbolo da regeneração nacional após a derrota do Miguelismo*** Também surge como personagem no livro “A Abóbada” de Alexandre Herculano or causa do seu valor simbólico.
  • Século XX Como é óbvio, uma figura tão trabalhadora, valente e simples representa um oportunidade ao Estado Novo que colocou a padeira em selos dedicados á independência da república. Também apareceram versões Salazaristas da lenda, editado pelo Secretariado da Propaganda Nacional. Além dos já existente virtudes, o regime acrescentaram moralidade e defesa da pátria.
Once you know who she is you realise she’s pretty much everywhere in Portuguese humour.

* Not a real word, obvs. I am trying to say she is “over-fingered” because she supposedly had six on each hand

**I should probably do a blog on Censura in Portugal at some point – it’s listed here though if you’re interested.

***I should probably know what this is but I don’t

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Brevíssimas Notas Sobre Os “Estudos”

Super-speedy notes on (some of) the academic papers on the theme of Pedro and Inês. Not really attempting to summarise the whole work, just peg out the aspects of each that intersects with the theme of the course.

Drama de Inês de Castro (c. 1901-04)
Drama de Inês de Castro (c. 1901-04) Por Columbano Bordalo Pinheiro

“Ruy Belo: a Alegria em Preparação” João Miguel Bray Gomes Silva

“A Margem de Alegria” de Belo “Tematiza o amor mítica de Pedro e Inês” no qual Inês representa “o eterno feminino”. Assim, o autor da Tese retrata “o esquema do mito Inesiano” e sublinha as ligações com a poesia de Belo e com o seu próprio argumento. Inês atingiu uma forma de vida após a morte, simbolizada pela sua coroação póstuma e concretizada pelos túmulos de Alcobaça. Pedro faz a sua parte neste imortalização, facilitando a acsensão e construindo os túmulos legendados “até ao fim do mundo” ou seja o dia de julgamento. Assim, a poesia (no lugar de Pedro) consegue superar a separação numa eterna união além da morte. Ainda por cima, a morte representa a separação entre o amador e a amada, e no processo de redenção “transforma-se o amador na cousa (sic) amada”.

“A Identidade Nacional Na Literatura Portuguesa” Ana Cristina Correia Gil

“[…] duas conclusões fundamentais: os autores nacionais, até ao século xvi, contribuíram para a formação e consolidação da consciência pátria – é a fase da fundação. A segunda ilação é a de que a partir deste mesmo século, fruto da agudização dos sintomas de crise em Portugal, se desenvolve na literatura nacional um veio de crítica à conjuntura do país, que culmina, no século xix, num amplo movimento
de questionação sobre o modo de ser português, protagonizado pelo Romantismo e pela Geração de 70 – é a fase da problematização.” Ana Cristina Correia Gil.

A autora começa a sua história com Fernão Lopes (sobre o qual falei num blogue há uns dias) e dá como exemplo a sua “Crónica de Dom Pedro I”, tendo como ponto de partida os arquétipos na literatura português (Pedro e Inês mas também Dom Sebastião, O encoberto (o quê???), As Ilhas Afortunadas, O Quinto Império, entre outros) como símbolos da identidade nacional.

“O Paradoxo Da Ficção Histórica Do Povo Lusitano” Sirlene Cristófano

A Investigadora pretende descrever a influência do mito de Inês na literatura portuguesa a partir do século XIX e a elevação da História ao estatuto de uma ciência. Começando daí, a ficção – ficção histórica – adquiriu um novo cargo, o de elaborar o lado de história mais humano, além das narrativas técnicas dos historiadores. Não passam de ser ficção mas por outro lado, tive como tema uma história verdadeira. Os exemplos dados são o “Teorema” de Herberto Helder (já referido) e o “Inês de Portugal”, um romance fino escrito por João Aguiar. Ambos os exemplos foram escritos em meados do século XX.

A ficção de Helder destaca a auto-imagem de Pêro Coelho como ator na história do país no contexto do mito inesquecível de Pedro e Inês, mas o de Aguiar salienta o papel de Inês como uma pessoa identificável, apaixonada mas ligada à cobiça da sua família.

“Mitos, Traumas e Utopias” Roberto Nunes Bittencourt

O autor toma como aporte teórico as obras de António de Macedo, Dalila Pereira da Costa, Gilbert Durand, Lima de Freitas, Sergio Franclim and Eduardo Lourenço. Em suma, a literatura portuguesa volta repetidamente a certas figuras que “sendo históricas, transcendem a própria historicidade”. Assumem “diferentes roupagens de acordo com condicionamentos históricopolítico-culturais” num processo de “definição da própria identidade nacional”. No caso de Inês e Pedro, o mito é um de “paixão que
erremete (sic*) contra a lei da morte” (segundo Lima de Freitas)

“Martírio e Sacrifício Voluntário na Tragédia Humanista e no Mito Inesiano” N. N. Castro Soares

Antonio Ferreira (1528-1569) Na sua tragédia “Castro” apresenta Inês como “vida cortada em flor”. A figura de Inês é mais complexa do que outras representações. Há um conflito entra a pureza dos motivos dela e a culpa perante Deus. Durante a cena na qual Inês morre, o romance introduz elementos de voluntariedade, como se fosse um mártir, cuja inevitável morte é aceite “por glória sua”. A cena é construída à maneira de Euripides para a apresentar como heroína sacrificial exemplar.

Camões também a trata como vítima sacrificial.

Eugénio de Castro** (1869-1944) no seu poema Constança foca na dor da esposa de Pedro. Inês é um “pessegueiro em flor” e uma mulher fatal “involuntária” mas a beleza dela ultrapassa a da Constança e ela emerge como inocente e “a imagem emblemática do amor”

“Inês de Castro na Literatura Portuguesa” Leonor Machado da Sousa

Evolução da representação do mito

Trouas*** de Garcia de Resende e a Visão de Dona Inês de Anrique da Mota: Inês como vítima inocente num ambiente bucólico.

Camões dá projeção universal ao mito delineado por Mota e Resende com os seus Lusíadas.

Nos Séculos XVIII e XIX, diversos poetas na lusofonia continuam a desenvolver o mito da sua beleza e a morte dala como símbolo de sofrimento eterno. Sousa Viterbo, em A Fonte dos Amores diz que a história é “o episódio mais sentido da paixão humana”

Nos séculos XVII e XVIII os dramaturgos escrevem de uma Inês inocente, bela e pura que é vítima da política. Durante século XIX, o romantismo reforça a ideia a “bela do colo de garça” e a tragédia do amor impossível, mas ao final daquele século vendo as limitações da personagem, os escritores começam a retirar o protagonismo a Inês, fazendo Pedro a personagem central do drama. Inês persiste como pura e bela mas os tormentos do infante é visto como fonte fecundo de narrativas como “A Morta” (1890) de Henrique Lopes de Mendonça e “Pedro o Cruel” (1915) de Marcelino Mesquita.

Na segunda metade do século XX, a partir a estreia de “A Outra Morte de Inês” (1968), de Fernando Luso Soares, o holofote volta para Inês, agora com mais agência pessoal. Torna-se um símbolo da liberdade individual contra o poder

Na prosa, Inês é sujeito de romances históricas e de historiografia, que muitas vezes acrescentam temas míticos aos factos verídicos. Ainda existem romances sobre os filhos de Inês.

“A Tragédia de Inês de Castro: Uma leitura semiótica de ‘Teorema’ de Herberto Helder” Teresinha de Jesus Baldez e Silva

Usando o modelo desenvolvido por Algirdo Julien Greimas, o autor analisa os este conto, demonstrando como o autor “desmistifica e remistifica” o mito. Pêro Coelho é elevado a ser protagonista num ritual mítico. A narrativa realista é subvertida deliberadamente, com efeito de realçar o caráter simbólico do mito. Inês não aparece porque já está morta ao arranque da história mas emerge como uma figura mítica, luminosa e eterna.

“Inês de Castro na Fénix Renascida – variações barrocas de um mito histórico-literário” Micaela Ramon

Fénix Renascida ou Obras Poéticas dos Melhores Engenhos Portugueses é um cancioneiro seiscentista português, publicado sob a direção de Matias Pereira da Silva em cinco volumes, de 1716 a 1728 (Wikipédia)

O autor começa por resumir diversas leituras já descrito. O “Fénix Renascida é um coletânea de poesia barroca. Destaca-se 3 poemas

  • Glosa de Barbosa Bacelar à estância 120 de Camões.
  • Romance de Jerónimo Baía (“Abrindo-se a sepultura de D. Inês de Castro”).
  • Sentimentos de D. Pedro e Dona Inês de Castro, atribuído a Manoel de Azevedo Pereira

Os Poetas Barrocos desprezam os aspetos factuais e históricos, focando nos aspectos lendários e sentimentais como por exemplo

  • Pedro o protagonista
  • O amor eterno de Inês
  • A fragilidade da existência

Usa-se metáforas, hipérbole e outras figuras típicas do movimento barroco.

Em suma, a lenda é um exemplo universal da efemeridade da vida e da vaidade humana e do pathos do amor trágico.

* “Erremete”? What’s going on here? I couldn’t find the word in Priberam. The same quote with the same spelling appears in another article by the same author here. But further digging found a quote from the same source but by a different author, and it’s written as “arremete” there. Arremeter is a legit verb meaning “Atacar com ímpeto”, which seems to fit in the context of the sentence, so I think it’s safe to say it’s a gralha in Bittencourt’s notes that he’s copied into two separate papers. Probably. Best avoid the hubris of correcting portuguese academics when I could have totally the wrong end of the stick, but that’s how it looks to me anyway!

**Hm, wonder if his surname had anything to do with his choice of subjects

***Trovas, presumably but it appears multiple times and is italicised so must be an older orthography rather than a typo. I referred to Resende and the Trovas in a recent post

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3 Conceitos

O professor Carlos Reis alista os seguintes conceitos como relevantes no ensino da literatura. Encontramo-los em funcionamento na forma que olhamos para o texto (está a falar sobre os Maias)

Intermedialidade

A intermedialidade é a possibilidade de descobrirmos interações entre discursos em mediáticos autónomos: livros, filmes, bandas desenhadas podem dialogar entre eles.

Transnarratividade

A transnarratividade é a disseminação da narratividade em práticas para além das narrativas formalmente constituídas como tais.

Transmedialidade

A transmedialidade trata-se de uma passagem de uma narrative de uma forma para outra. Por exemplo, uma adaptação de um livro no cinema.

O professor esclareceu com exemplos nos quais Eça de Queirós descreve um cena com linguagem muito “visual”. Podemos pensar nisso como uma cena num filme. Também podemos imaginar uma cena na qual uma pessoa senta-se perto dum quadro de alguém muito parecido como se fosse um “casting”. Hm. A minha primeira reação é de cautela. Nós aqui no século XXI andamos muito acostumados a very filmes, ver televisão, ver filmes de curto metragem e ler bandas desenhadas. Depois voltamos aos livros que (no caso d’Os Maias) foram adaptados várias vezes e interpretamos as descrições visuais dos autores do passado com os nossos preconceitos, como se fossem guionistas de Hollywood. Existem, sem dúvida, exemplos disto: todos nós limos livros cujos autores aparecem desejosos de vender os seus romances a um estúdio cinemático qualquer, e que descrevem eventos do ponto de vista de um camera e até sugerem músicas que caberiam na cena. Mas os exemplos dados pareceram longe disso. Hm… sei lá. Estou aqui para aprender e é óbvio que o professor sabe mais do que eu sobre o ensino da literatura(!) portanto negar os seus exemplos, fazendo orelhas moucas seria um erro. Claro que preciso de pensar mais nisto, digerir, e entender como se aplica ao livro que estou a ler.

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A Vida de Estudante

Um dos meus objetivos durante este ano é estudar um curso da Universidade Aberta. Já tentei candidatar-me há algum tempo mas não suportei o site dela. Voltei a carga durante a semana passada e por acaso as candidaturas estavam abertas até ao dia 17 de Junho. Ora bem, hoje é o dia 17, e… inscrevi-me num curso chamado “Formação Modular Certificada em Literatura e Cultura Portuguesas”. Sinceramente, preferia a FMC em Literatura e Cultura Portuguesa, o que é igual mas tem “História Cultural e Artística Portuguesa” em vez de “Temas de Literatura Portuguesa” como a terceira unidade do curso. Infelizmente, este curso é ausente do formulário de candidatura e depois de tanto tempo não aguentei mais. Escolhi a segunda opção.

Ah ah, aqui vou eu mais uma vez, a aprender coisas novas (se for capaz!). Mal tenho noção de como funciona o curso mas uma longa viagem começa com um único passo e neste caso o passo em questão consiste em 35 euros e uma hora frustrante de preencher o formulário.

Me and the boys getting ready for our first seminar
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Homeworkposting

This exercise from PeF seems interesting enough to be a blog post. The questions relate to a short biographical piece about Mia Couto.

  1. Caracterize a família de Mia Couto.

É uma família de emigrantes que mudou de país para Moçambique nos anos cinquenta do século passado. O seu pai era escritor (jornalista e poeta) cujos avós enriqueceram no setor automotivo mas sabe menos sobre a sua mãe porque ela era órfã que foi criada por um padre que dizia que era o tio dela.

  1. Por que motivo os pais de Mia Couto foram para África?

Foram para África em meados do século XX porque queriam mais espaço e um novo começo, e o pai achava que teria mais hipótese de sucesso na sua carreira jornalística no estrangeiro.

  1. De acordo com o autor, qual era o ambiente racial que se vivia na cidade da Beira durante a infância do autor? Dê exemplos retirados do texto.

DIz que a Beira é uma cidade “atravessada” (ou seja, havia muitas pessoas de diversas raças) e uma vez que o seu pai mudou de bairro muitas vezes, cada vez num sítio com poucas famílias brancas, o jovem Mia brincava e andava na rua com jovens negros.

  1. “O meu pai tinha muito esta coisa que eu era o filho que lhe ia continuar a veia”. Justifique esta frase do autor.

O pai já era escritor e os seus irmãos também escreviam mas na mesma, o pai achava que Mia seria quem continuaria a tradição de trabalhar como escritor profissional.

  1. Como caracteriza o autor o seu primeiro livro?

Foi uma coleção de poesia lírica que ele escreveu para contrariar a tendência de escrever poesia Marxista falando da condição dos proletários. 

  1. Quais foram as influências literárias de Mia Couto?

Fala primeiro do poeta José Craveirinha. Depois de vários brasileiros e finalmente de três portugueses: Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e Fernando Pessoa. Acho que estas são influências poéticas; presumo que também foi influenciado por romancistas.

  1. Que tipo de escritor se considera Mia Couto? Justifique com uma frase retirada do texto.

Segundo os amigos dele, é “mais uma contista do que um poeta”. Eu sei que escreveu poemas mas tendo a pensar nele como escritor de contos também. Também diz “O que escrevo é Moçambicano”, que indica que o autor pensa de si próprio como nativo do país adotado pelos seus pais.

  1. Nas suas crónicas, contos e poemas, Mia Couto usa muitas vezes palavras inventadas (neologismos). À luz deste facto, explique o sentido da frase “Eu acho que não tem que haver um polícia de trânsito a regulamentar a língua, dizendo: Por aqui não se pode andar. Pode tudo!”. Concorda com o autor?

Está a comparar pessoas pedantes com os polícias que aplicam as leis de trânsito.

Concordo sim, quem pode contrariar? Uma palavra inventada que explica algo novo ou que traz mais nitidez, mais graça ou mais especificidade, enriquece a língua. Shakespeare inventou centenas de palavras. Há palavras que trazem apenas confusão e regra geral reagimos não as usando. Como a palavra “Fetch” no filme “Mean Girls”. E em casos raros as palavras mudam os significados numa maneira desajeitada, tipo a palavra “literally” (literalmente) em inglês. Mas regra geral as novas palavras fornecem mais cor à nossa fala.

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Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Há um capítulo do Português em Foco que explica alguns pontos altos da literatura portuguesa. Um destes pontos altos é o Soneto. Esta forma de poesia é conhecida tanto em inglês quanto em português. Shakespeare escreveu muitos e neste exemplo o seu primo zarolho, Luís Vaz de Camões* também escreveu. Creio que tem mais influência em Portugal, Não tenho nenhuma perícia neste campo mas não acho que houvesse poetas famosos a escrever sonetos em Inglaterra no início do século XX. Em Portugal, sim**.

Um soneto consiste em 14 versos*** arranjadas em quatro estâncias – duas quadras e dois tercetos. Cada verso tem 14 decassílabos. Que raio é um decassílabo? Não faço a mínima ideia mas 14 deles é igual a dez sílabas. Neste exemplo, a rima segue um padrão: ABBA ABBA nas quadras e CDC DCD no tercetos (assinalado acores no transcrito infra), mas este padrão não é obrigatório. O poema “Rústica” de Florbela Espanca que memorizei em 2021 e que tentei, com o hubris dos ignorantes recitar ontem numa aula porque não tinha feito o TPC é um soneto mas corre ABAB ABAB CCD EED.

A forma poética é importante; o autor do livro afirma que “estamos perante um soneto perfeito” por causa do modo em que o poeta distribui os conteúdos pelas estrofes de maneira que cada estância tem o seu próprio tema.

O título do soneto é igual ao primeiro verso:

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (Times change, intentions change)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

*Obviously joking about their being cousins but this made me wonder if they were contemporaries. Sort of. They overlap by 16 years. Camões was about forty years old when Shakey was born.

**I don’t think I’ll be writing a history of anglo-lusitanian poetry anytime soon though, so definitely take this with a pinch of salt!

***OK, well here’s the first false friend for you: Verso doesn’t mean verse, it means a line of the poem.

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E O Céu Mudou de Cor – Israel Campos

Neste romance angolano, vemos o mundo do ponto de vista de um jovem que mora num país opressivo, que é ficcional mas é uma versão (se não me engano) da Angola atual. Embora o narrador seja o protagonista, o personagem mais interessante (para mim) é o seu primo, Mateus. Idealista e lutador, este jovem enfrenta a corrupção quotidiana e recusa aceitar os comportamentos e as cunhas que estão a enfraquecer o seu país. Na perseguição deste objetivo, o Mateus, o narrador e um amigo deles, encontram o Sr. Zé que quer levar a cabo uma mudança social. O narrador é mais novo do que o Mateus e não entende perfeitamente o que está a acontecer ao seu redor.

Com humor e emoção, o autor lança uma crítica contra vários aspectos do sistema social. Claro que não conheço o seu país suficientemente para julgar quão exato seja esta crítica, e é muito provável que tenha perdido algumas coisas, mas foi interessante vislumbrar o mundo pelos olhos do seu protagonista.