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Cadernos da Água – João Reis

Este livro é meu terceiro do João Reis. Geralmente, acho o seu estilo um pouco difícil: a frequência com que estico o braço para agarrar o dicionário é cem vezes maior do que quando estou a ler um thriller como Segredo Mortal, por exemplo. Mas esta vez, consegui ler o livro inteiro sem sentir que estava a perder alguma coisa por falta de domínio da língua. Pois bem, qualquer evidência de progresso é muito bem-vinda!

Cadernos da Água - João Reis
Cadernos da Água

O género do livro é completamente diferente do último. Trata-se duma história distópica que se passa num futuro próximo mas não é ficção científica ou futurista como Admirável Mundo Novo, por exemplo. É um romance quase profético que conta a história de um possível futuro que pode acontecer daqui a poucos anos. As alterações climáticas dão em escassez de água e de comida (porque o crescimento das plantas também depende da disponibilidade de água). Segue-se uma sucessão de eventos catastróficos incluindo uma nova pandemia e uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Se não me engano, o livro foi escrito antes da guerra atual mas ainda assim… O enredo às vezes é indistinguível das notícias!

No meio deste transtorno, uma guerra surge entre os países do sul da Europa e do norte de África. A Península Ibérica torna-se um campo de guerra; a República portuguesa dissolve-se e portugueses e espanhóis (entre outros) fogem para a Escandinávia e Alemanha. O meu país não é mencionado. Quem sabe? Talvez as ilhas tenham afundado sob as ondas do Atlântico durante “o primeiro evento” ou talvez o primeiro-ministro seja a Priti Patel. Mas seja como for, durante este exílio, os sul-europeus vivem em “centros de acolhimento” e é aí que a protagonista do livro começa a escrever no seu caderno.

O futuro, segundo este romance, é sombrio, até desolador, mas será esse o futuro se não fizermos mudanças na nossa vida. Não há motivo para ser otimista.

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A Noiva Do Tradutor

43782967._SX318_Achei este livro muito desafiante, por causa da quantidade de palavras desconhecidas, mas isso não me importa porque, por acaso, gosto dum desafio!

Amiúde, quando leio livros difíceis, encontro-me a perder o fio à meada, porque tenho de abrir o dicionário tantas vezes, mas deste vez, consegui lembrar-me e reler os parágrafos mais densos, e de ver a história com uma visão alargada. Trata-se duma história, contada pelo Tradutor mencionado no título. A Noiva não aparece no “palco” do enredo excepto nas saudades do protagonista. Porquê? Porque tem o abandonado logo antes do início da história. O Tradutor é um herói interessante: introvertido, misantrópico até a ponto de ser cómico e cheio duma raiva impotente contra os que estão em sua volta. Conta a sua história num discurso da primeira pessoa, que, às vezes torna-se um fluxo de consciência. Lembrou-me dos protagonistas de vários outros romances, mas não é um estereótipo. É trágico, é grotesco, diz coisas fantásticas tal como “vivo mesmo numa estrumeira em chamas” e espera que (contra todas as aparências), se conseguisse comprar uma casinha amarela, a noiva voltaria. Mas acho que ela fez uma fuga bem sucedida por ter se afastado deste gajo!

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Opinião – A Avó e a Neve Russa (João Reis)

These are some notes I wrote yesterday for a video review which I’ll probably make in the next day or two. Part of it has been corrected on italki by Fernanda and Karla – Obrigado as duas – but there was too much to fit in the box so I cut some out and hence there might be some errors remaining #UNCORRECTEDPORTUGUESEKLAXON! There’s also a shortened version on Goodreads.
Ouvi dizer deste livro através dos canais duns booktubers portugueses. Muitos deles mencionaram que o compraram e vários já o leram e gostaram. O autor é muito activo nas redes sociais e da a impressão de ser simpático (mas eu diria isso de alguém que curtiu os meus instagrams). Achei que o livro tinha bom aspecto. Portanto, comprei-o no site da Fnac. A história é contada por um menino de dez anos. Às vezes, as opiniões dele parecem reacções normais duma criança, mas, noutras situações, parecem mais maduras, mais adultas do que os pensamentos dum rapaz daquela idade – e também, na maneira com qual fala com a avó e o irmão, como se fosse ele que tinha que cuidar deles. Descreve-se como “homenzinho” por causa do seu papel na família. De forma geral, a voz do narrador fez-me lembrar outros livros contados por crianças num mundo adulto, tal como o “Espiões” de Michael Frayn ou “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto” de Jonathan Safran Foer. Também, de vez em quando, alguma coisa no registo da leitura fez-me pensar em “O Estranho Caso do Cão Morto” de Mark Haddon. Pensava que isso foi por causa da minha falta de conhecimento da língua mas depois vi um video de uma das minhas leitoras preferidas e disse que ela também perguntou-se se o narrador tivesse qualquer espécie de autismo ou Síndrome de Asperger. Mas não tem.
A Avó e a Neve RussaEste rapazinho mora no Canadá com a sua avó e o seu irmão. O irmão, que se chama Andrei, é adolescente e passa os seus dias a fumar canábis, ou algo do género (não é nomeado no texto). Antigamente a avó vivia na Ucrânia, na União Soviética, perto de Chernobyl onde o seu marido morrera. Ela tem dores de pulmões por causa de radiação – tem cancro e talvez mais problemas por cima. Também acho que tem uma espécie de demência. O rapaz deixa-lhe recados para ela fazer as coisas do dia-a-dia.
Existem outros estrangeiros perto da família – da Itália, da China, da Nigeria e até dum país chamado Portugal. Um aluno na escola goza com o rapaz e chama-lhe “Russkiy”. A grande aventura da segunda metade do livro é uma viagem que o narrador e o seu amigo, Matt, realizam para irem procurar uma cura para a doença da avó. Matt é judeu, e o holocausto torna-se uma tema menor do livro.
Há passagens no livro que eu achei um pouco lentas, mas como devem saber, leio português muito devagar e por isso, a minha percepção destas subtilezas não é o melhor guia para quem quiser saber se é um livro bom – não fiquem desanimados por minha causa! Apesar disso, o livro é encantador. O desenlace é muito triste, muito querido e muito adequado à história dessa velha e do seu neto.
Aliás, tenho uma pergunta. Li dois comentários no Goodreads, e também ouvi num video que o menino não tem nome mas acho que tem, sim. Há uma carta na página 211 em que… cá para mim, chama o menino como “Alexei” mas não é óbvio no contexto porque aparece em parênteses e por isso é possível que mal entendi. Talvez fosse o nome do jornal, ou um o pretérito perfeito, primeira pessoa dum verbo desconhecido a mim “alexar”. (Ei, meu amigo, sabes o que fiz? alexei!) mas é um nome russo, e eu simplesmente assumi que fosse o seu nome.
Links: Bertrand / Amazon