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V-V-V-V-Variações

Recentemente, vi um filme chamado “Variações”. Já sabia que este gajo foi uma figura muito importante na música portuguesa nos anos oitenta. Nuno Markl mencionou-o na rubrica “Caderneta de Cromos” e também aparece na série 1986. Logo depois, perguntei à minha esposa que me disse que era um dos cantores favoritos dela quando era nova. Alguns outros portugueses disseram a mesma coisa. Confesso que não compartilho o entusiasmo deles, mas isto não é surpreendente, porque não cresci num país onde a música dele fez parte do dia-a-dia, mas queria saber mais sobre este artista para compreender algo que marcou a minha esposa da mesma maneira que fui marcado pelo Morrissey ou pelo Lloyd Cole ou pelo Boy George.

O filme é espectacular: Sérgio Praia, o actor que o protagonizou é um actor excelente com uma voz bonita e uma presença forte que fez toda a diferença, porque claro este tipo de filme seria lixado se não tivesse um actor capaz de carregar o espírito do protagonista. Deixou-me com uma imagem dum homem complexo, corajoso e dotado que viveu uma vida cheia, apesar de morrer relativamente novo com quarenta anos: lutou numa guerra, viajou através do mundo, seguiu o seu sonho de ser músico, participou no nascimento do clube gay mais famoso do país, etc. Ouvi pessoas a comparar o Variações com David Bowie, e pergunto-me o que conseguia fazer se tivesse atingido a idade que o Bowie tinha quando morreu, ou se a carreira dele alcançasse o mesmo tempo da de Leonard Cohen ou Bob Dylan.

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Licença Para Protagonizar

Havia uma questão bastante polémica nas redes sociais na semana passada; um boato de que o realizador dos filmes de James Bond pensa em escolher Idris Elba para protagonizar o espião no próximo episódio. Ele seria o primeiro actor negro neste papel caso isso aconteça.

UntitledOra bem, para os fãs dos livros (e para racistas também, obviamente!) isto pode ser um problema. Leitores frequentemente se queixam que realizadores de filmes não usam fidelidade o suficiente quando adaptam livros para o cinema. Há excepções, claro: de vez em quando, um realizador escolhe um elenco muito diferente para sublinhar um aspecto do enredo (por exemplo, um Othello Branco numa cidade de mouros, ou um Hamlet feminino). Noutros casos, realizadores fazem filmes baseados em livros estrangeiros e adaptam-nos para usar actores da sua própria nacionalidade para evitar a necessidade de usar legendas. Nenhum destas situações descreve o situação com James Bond.

Mas há uma problema para quem quiser se opor qualquer actor que não cabe no modelo de Ian Fleming: de acordo com os livros, Bond é branco sim, mas também é velho o suficiente para ter lutado na segunda guerra mundial. Se se importa com o personagem original, deve perceber que o Elba é velho demais para protagonizá-lo, mas é mesmo assim para qualquer outro candidato!

Na minha opinião, existem duas opções: um é aceitar o facto de que Bond deixou de ser um personagem literário. Tornou-se uma “marca”, tal como o Doctor Who que pode (por causa de ser um alienígena!) assumir qualquer rosto, nacionalidade ou sotaque. O segundo é deixar James Bond reformar-se. Ele é um guerreiro antigo de uma época passada. Hoje em dia, precisamos de novos heróis!