“A Vida No Livros” de José Jorge Letria – Tradução
Nem dez vidas me bastaram, eu sei
Ten lifetimes wouldn’t be enough, I know
para ler os livros que fui arrecadando
to read the books I’ve been collecting
e que me desafiam para que
and that challenge me because
me perca neles como um peregrino
I lose myself in them, like a pilgrim
nas rotas de um mitigado desespero.
on the trails of a muted despair
Sou eu que pertenço aos livros
It’s me that belongs to the books
e não o contrario, já o disse tantas vezes
and not the other way around, I’ve said it many times
pois o que eles vão entesourando
because the treasure they are hiding
é a pequenez do tempo que me resta
is the shortness of the time that remains to me
para os ler e neles me encontrar.
to read them and find myself in them
Os livros falam de vidas e de guerras
The books speak of lives and wars
e eu só falo do que os livros contam,
and I only talk about what the books tell me
esquecido que ando do que vivi
oblivious that I’m wandering from what I lived
e bem podia e devia contar-vos.
and can and should tell you
São os livros que me acenam
It’s the books that move me
apontando-me para os mostradores
pointing me to the faces
dos seus relógios imóveis e opacos,
of their motionless, opaque clocks
assim como quem diz: por mais que vivas,
as if they were saying: no matter how you live,
por mais que faças, tu partirás
no matter what you do, you will depart
e nós, bem ou mal, havemos de ficar,
and we, good or bad, have to stay
porque não nos cansámos de viver
because we never got tired of living
a ficção de que são feitas estas vidas.
the fiction from which these lives are made

O domingo no Porto começou mais cedo do que o sábado. Acordámos às 8:00 e comemos o pequeno almoço no hotel. A Olivia e a Catarina visitaram a Livraria Lello e passámos a manhã a fazer compras turísticas. Também atravessemos o Rio Douro na Ponte Dom Luis I. A vista da Ponte era maravilhosa.
Enfim, chegou o tempo para voltarmos ao aeroporto. O peso das nossas malas quase dobrou por causa dos livros (comprei doze e a Catarina mais dez) e outras lembranças das nossas férias. O taxista conduziu mal, mas não me importei. Costume da condução horrível dos taxistas portugueses. Tentei aproveitei a ultima oportunidade de falar português mas não consegui de pensar em muitos assuntos além do tempo e dos sinais. Esta situação mudou quando aproximamo-nos do aeroporto. Ora, o aeroporto do Porto tem o nome do ex-presidente Francisco Sá Carneiro. O Sr Carneiro morreu num acidente de avião em 1980. A serio, não é uma piada: o nome do aeroporto comemora um acidente de avião! Aqueles portuenses tem um sentido de humor muito esquisito!
Existem varias teorias sobre este acidente. Algumas pessoas crêem que o Sr Carneiro foi assassinado pelos americanos porque opôs-se à presença americana nas ilhas portuguesas. A minha esposa é uma delas. Outras pessoas afirmam que o verdadeiro assassino foi Mário Soares (
O Segundo dia na cidade invicta começou tarde. Quando descemos as escadas, o pequeno almoço já tinha acabado mas uma camareira simpática trouxe-nos café e pasteis. Depois, a Catarina e a Olivia foram a uma loja de roupas e eu andei entre as varias livrarias a procurar livros interessantes e fáceis para ler. Por causa de estar sós, consegui praticar a minha “produção oral”. Fiz perguntas sobre os livros (um velho dono dum livraria de segunda mão zangou-se quando pedi-lhe falar mais devagar se faz favor… ups!), falei sobre as cores e tamanhos de calças de ganga no “C&A” (uma verdadeira surpresa: todas as lojas de C&A inglesas fecharam há anos!) e pedi direcções para o correio (enfim, o correio estava fechado mas havia uma máquina onde comprei um selo).
Passámos a tarde juntos a explorar a cidade. Almoçámos num mercado antigo, que tinha sido convertido num centro de artes. Experimentei uma francesinha (salsichas, carne de bife e fiambre dentro de qualquer tipo de massa, coberto de queijo e regado com molho picante….) e achei bom.
Naquela noite, fomos ao Coliseu do Porto para assistir um concerto dos Deolinda. A – DO – REEEEIIII!!!! A cantora, Ana Bacalhau é muito simpática, as suas contas foram engraçadas e claro a música foi perfeita. A minha esposa, que não os conhecia ficou um fã, e até a Olivia (que não ouve música além da banda sonora de “Hamilton” hoje em dia, e quase não fala português nenhuma) gostou muito do espectáculo.
Com rosto pálido e unhas roídas, desci do avião e dei o meu primeiro passo na terra de Portugal do Norte. Era o aniversário da minha esposa, e estávamos a fazer um fim de semana longo para celebrar. Tínhamos saído de casa às 5:00 da manhã e chegámos no Porto ao meio-dia. Após de recolher as nossas malas, fomos de táxi para o hotel. Meus deuses! Não fiquei nunca num hotel tão elegante! Cada detalhe era perfeito: os edredons estava fofos, os lençóis suaves, o café de boa qualidade e tudo limpo e a com um cheiro doce.
Então, a minha esposa e filha regressaram ao hotel para descansar e eu fiz uma peregrinação à Livraria Lello.
À noite, fomos a um restaurante e comemos delicias locais: polvo grelhado (o polvo quase nunca é servido aqui em Inglaterra) e uma sobremesa que consistiu em queijo, nozes e chocolate com mel servido num prato de madeira. Sendo ingleses*, chegamos às 19:00 e o restaurante estava vazio. porque os portugueses jantam mais tarde do que nós. Quando saímos, todas as mesas estavam ocupadas.
Ontem, fui com a minha família à sala de concertos que se chama “Union Chapel” para assistir a um concerto do António Zambujo. Havia muitos portugueses. Antes do seu concerto, um grupo canadiano tocou mas fomos aborrecido*. Todavia, o António foi excelente. A música foi boa e fez várias piadas que fizeram rir a plateia. Infelizmente, achei o seu sotaque difícil de entender. As únicas palavras (quase únicas ….) que entendi foram as letras cantadas por uma mulher ao pé de mim. O seu sotaque era de Lisboa e não parou de cantar durante o concerto inteiro. Muito obrigado, mulher barulhenta!
Acabo de comprar bilhetes para um concerto da Deolinda no Coliseu do Porto. O concerto está marcado para um sábado, dia quatro de Fevereiro e pretendemos fazer umas mini-férias de fim-de-semana antes de voltar ao trabalho, à escola e à realidade. Infelizmente penso que vai ser difícil ver todas as vistas da cidade em dois dias! Serão um presente para a minha esposa que terá feito anos na sexta anterior, mas confesso que estou a puxar a brasa para a minha sardinha porque sou eu que gosto dos Deolinda. A minha esposa não os conhece bem.