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“O Último Cais” de Helena Marques

Começando este livro, custou-me a entender o primeiro capítulo porque havia tantas personagens em duas linhas de tempo distintas que perdi logo o fio à meada. Desenhei uma árvore genealógica de como as várias pessoas estavam ligadas, que tornou a compreensão mais fácil, e depois fiquei absorvido na história.

O enredo anda à volta de uma família madeirense, principalmente um casal que vive nos finais do século XIX. Há uma narradora que está a contar a história mas ela é quase invisível. Poucas vezes faz referência ao seu próprio ponto de vista, cem anos depois, quando herda uma escrivaninha e vários papéis da sua tia, que também é neta do casal.

Cada capítulo é dedicado a um familiar, principalmente os elementos femininos, e a sua perspetiva. Embora Marcos, o marido do casal, seja central ao enredo, não é o protagonista. A autora está mais interessada na experiência das filhas e irmãs e outras mulheres; na primeira página há uma citação de Herberto Hélder* “Começa o tempo onde a mulher começa”.

Seria muito fácil para um livro que tem lugar numa ilha ser insular ou paroquial, mas a autora deixa uma janela aberta para o mundo lá fora: Marcos participou na luta contra a escravatura em África após a sua abolição na Europa e nos Estados Unidos, e outros capítulos abordam o movimento pelos direitos das mulheres, conhecido por sufragismo, o crescimento do sentimento republicano e até o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica na forma de um cabo telefónico sob o Atlântico. Assim situando o seu elenco num palco mundial, pintando numa tela grande (estou a misturar metáforas mas não me importa), a autora evita um sentido de claustrofobia.

Adorei o livro e estou muito contente que mo tenham recomendado antes das nossas férias na Madeira.

*i originally wrote this as “há uma citação na primeira página de Herberto Hélder” (there’s a quote on one first page from Herberto Hélder) but that is confusing because “a primeira página de Herberto Hélder” makes it sound like HH has pages, and he probably doesn’t.

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“Ideias Concretas Sobre Vagas” de Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Araújo Pereira é um dos humoristas mais confiáveis que já li: sempre que abro um livro dele, fico divertido e, às vezes, até aprendo algumas coisinhas. Nunca encontrei um livro dele aborrecido (mas nunca experimentei o que fala de futebol!)

Ideias Concretas Sobre Vagas

Neste livro, o ganda Ricardo vira a sua atenção para a pandemia e os transtornos, as parvoíces e todas as mudanças daquela época na história do nosso mundo. Ler o livro é uma espécie de viagem no tempo: é quase possível adivinhar a semana na qual um capítulo foi escrito, analisando o que ele menciona: o confinamento, as medidas contra infeção, como lavagem de entregas, máscaras, o horrível vídeo de estrelas a cantar “Imagine” e por aí fora. E não desilude.

Tanto quanto sei, o título é um trocadilho baseado no duplo significado de “vagas”: como substantivo é um sinónimo de “ondas” e como adjetivo é a forma feminina e plural de “vago” que significa “impreciso”. Portanto pode significar “sobre as vagas do vírus” ou “sobre ideias vagas”.

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“Choupos” de Adília Lopes

Choupos de Adília Lopes
Choupos

Ouvi falar desta autora e, logo no dia seguinte, um livro dela caiu no meu cesto no FNAC. Confesso que o achei um pouco aleatório. Poesia, aforismos, esboços verbais… para mim, há nisto uma certa falta de coerência, mesmo que tenha gostado de várias páginas.

Não sabia o que queria dizer o título. É uma espécie de árvore – a que nós chamamos de “Poplar”.

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“E Agora” de Raquel Sem Interesse

Encontrei este livro enquanto estava à procura de uma outra BD. Li-o logo porque me apetecia mais do que a minha leitura principal (é boa mas… densa!)

E Agora? De Raquel Sem Interesse
E Agora?

O livro é divertido, mas não consigo dizer porque é que o apreciei tanto. Pouco acontece. Ela nasce, cresce, trabalha e no final atinge algum sucesso. Não há grande drama, e talvez tenha sido disto mesmo que gostei: muitos autores querem aumentar o drama das suas vidas, exagerando os seus sofrimentos e ganhando a simpatia do leitor. A Raquel fala, sim, de vários colegas mal dispostos e até (uma vez) de “abuso” mas estes transtornos aparecem como obstáculos a superar e ela nunca assume o papel de vítima. Enfim, isto é inspirador: é uma história quotidiana, mas a protagonista é trabalhadora e aberta às possibilidades da vida. Quando cai num buraco, começa de novo e melhora a situação, por mais difícil que seja.

Há elementos de sorte nisto tudo: ela é inteligente, com bons amigos, um namorado simpático e uma família apoiante, mas a vida dela não é um mar de rosas. Como toda a gente, ela joga as cartas que tem, e pessoalmente, gostei da sua maneira de lidar com os problemas.

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“Mary John” de Ana Pessoa

This book was the source of a couple of the recent posts about new vocabulary like “as fresh as a lettuce” and “playing for Benfica“. It seems like a straightforward read at B1/B2 level. The grammar isn’t too complex, but it’s light and funny and has plenty of nice idiomatic expressions, including a rare in-the-wild sighting of “tirar o cavalinho da chuva”. Thanks to Cataohract for the corrections

Mary John de Ana Pessoa

O “Mary John” é um livro juvenil que conta a história duma adolescente chamada Maria João. No início do livro, ela tem um fraquinho por um rapaz que mora no mesmo bairro, mas o rapaz, que é ligeiramente mais velho, acaba por namorar com uma “lambisgóia” (nova palavra!) que chega na praceta onde o grupo de amigos passa o tempo. A lambisgóia fuma e tem piercing no umbigo e fala com a protagonista de maneira desrespeitosa por causa da idade dela, principalmente.

Após algum tempo a mãe da protagonista informa-a de que os dois têm de mudar de casa para uma outra cidade. Lá, no novo lugar, ela conhece um rapaz e os dois apaixonam-se.

Não há mais nada: é uma história quotidiana, sem reviravoltas, sem grandes revelações. Mas é doce: o diálogo entre as amigas na escola é engraçado e os conselhos da mãe e da avó dela sobre amor e sobre rapazes fazem todo o sentido sem serem demasiado “pedagógicos”. Ela cresce durante o percurso do livro e passa a uma nova fase da sua vida.

O aspeto mais esquisito do livro é a estrutura dele: é contado como se fosse uma carta ao rapaz original da praceta. Não entendo porquê. Explica-lhe quão diferente é a vida dela 4 meses depois de mudar de casa. Talvez ela queira escrever a versão mais nova de si próprio mas não tenho certeza. De qualquer modo, espero que ela não envie ao coitado de moço! Além de conter informações que ele não quereria saber, tem 180 páginas!

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Águas Passadas de João Tordo

Review of this 500-page beach book which is available from Bertrand. It’s one of my favourite portuguese thrillers even if there was more shagging than really necessary.

Águas passadas de João Tordo

Gostei muito deste romance policial. A protagonista é uma agente da polícia, Pilar Benamor, que está a investigar a morte duma adolescente encontrada na praia de Assentiz. Em breve, uma nova vítima aparece, cruelmente esquartejado. A sua investigação revela ligações com crimes do passado e daí constata a malvadez que resultou nestes crimes chocantes. Pilar é uma heroína simpática. É forte mas é realista. A minha única queixa é sobre o seu “defeito fatal”. Não é fora do comum, os autores de thrillers darem aos seus protagonistas um problema pessoal (uma dependência de álcool, por exemplo, ou uma incapacidade de separar o trabalho da vida doméstica). Queremos os nossos heróis a terem de lutar contra os seus próprios demónios, ao mesmo tempo que lutam contra os criminosos, mas, neste caso, a sua falha é adição ao sexo. Isto parece-me parvo. Não tem a mínima relevância para a história. Fiquei com a impressão de que era uma desculpa para inserir cenas de sexo no enredo, que interromperam a história sem revelar nada sobre a personalidade dela.

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Um Lugar Misterioso

Amália Rodrigues - Um Lugar Misterioso
Amália Rodrigues

Passei 3 dias em Cambridge. Ou melhor, passei um dia em Cambridge e dois dias a andar de bicicleta para Cambridge e depois para casa. Não tive energia o suficiente para escrever, portanto aqui estou novamente no primeiro dia do Streak!

Durante a estadia, li um livrinho chamado “Amália Rodrigues: Um Lugar Misterioso”. É um livro ilustrado que conta a história dessa cantora de forma simples. Explica-se as suas origens familiares e as raízes da sua arte. Apesar da simplicidade, os autores não evitam os aspetos polémicos da vida dela: a maneira na qual o fado fez parte da ideologia da ditadura, e o seu papel ambíguo nessa propaganda. O livro contém exemplos da poesia do seu fado, e as ilustrações são maravilhosas.

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Governo de Portugal

Governo de Portugal

Li com os meus ouvidos* um livro chamado “Governo de Portugal“. É muito educativo e o narrador fez bom trabalho porque não o achei aborrecido.

Que pena que tenho a memória de um peixe-dourado e me vou esquecer de tudo dentro de cinco dias.

*The corrector sensibly changed this to “Ouvi um audiolivro” but I prefer my version!