Mais uma vez, virei a última página de um livro e pensei “Quem me dera ter desenhado uma árvore genealógica daquelas personagens” porque confesso que perdi o fio à meada muitas vezes e por isso não gostei da leitura tanto quanto os portugueses que lhe deram 4 ou cinco estrelas no Goodreads.
Alice Vieira escreve muito bem, e geralmente os livros dela são muito acessíveis. Talvez fosse por causa disso que não comecei com a devida cautela! Geralmente com tantos protagonistas eu pego num lápis e faço um diagrama das ligações entre eles*.
“Se Perguntarem Por Mim Digam Que Voei” conta a história de várias mulheres que moram numa aldeia provinciana, que têm os seus próprios sonhos mas que vivem num ambiente opressivo. Existem alguns homens, mas assumem um papel menor. Também há um cheiro a bruxaria mas fiquei tão confuso que nem sequer tenho certeza de se magia existe no mundo do livro ou se era apenas uma expressão da imaginação delas. Eu sei, sou idiota.
Enfim, não faz mal. Talvez volte a lê-lo um dia.
*I originally made this feminine: tantas … elas, because the true protagonists of this are all wammens, but I suppose since it’s talking about books in general, and most books will have da mens in it, I ought to make it masculine again
Finalmente acabei de ler este calhamaço de 666 páginas! É um thriller que tem lugar em Portugal e nos Estados Unidos, entre 1986 e 2017. Como a maior parte dos thrillers, este é de leitura fácil, com poucas palavras difíceis, e um leitor não-nativo não se perderá num labarinto de cláusulas. O enredo também é simples. Mas… Ora bem, é simples mas não tem pés nem cabeça. Claro que muitos thrillers e policiais têm enredos rebuscados mas suspendemos a nossa incredulidade com a ajuda do autor. Se a bolha de confiança rebenta, está tudo perdido. Para mim, esta bolha rebentou com dez milhares de agulhas.
Por exemplo (aviso: a partir daqui, haverá spoilers):
Não acredito por um instante que a Levi* ficasse presa, apesar da sua confissão. Ela era uma adolescente que tinha sido drogada por alguém e que não tinha memória das suas ações. As pistas (o sangue, a sua altura não ser suficiente) indicam que não podia ter cometido o crime, e havia um segundo assassínio na mesma noite, aparentemente cometido pela vítima dela. Não serão estes indicadores de que há algo mais complicado em causa? E a família é rica; recuso-me a acreditar que não conseguiram contratar um advogado capaz de lidar com este cenário ridiculo.
O enredo depende de muitas pessoas não serem capaz de identificar os seus próprios familiares. As duas vítimas não são quem toda a gente acham que sejam, ainda que a filha de uma tivesse confirmado e (presumo) o médico legista tivesse examinado a outra. Que raios?
Há duas pessoas que sabem bem que a Levi é inocente, porque ambos sabem o que o pai planeara, mas nem uma das duas interveio, apesar de ambas terem motivos para a ajudar. Uma dessas pessoas (Chefe Ditmas) explica a sua motivação, mas não é psicologicamente satisfatória. Tens uma obrigação para o teu amigo morto, pá, mas não te importas se a filha dele for para a cadeia durante 8 anos? És burro? E a segunda pessoa é o namorado dela, que preferia deixar a sua namorada inocente na cadeia como um bode expiatório em vez de confessar as suas próprias ações na noite em questão. Que cobardia. E após passar tanto tempo na cadeia por culpa dele ela fica com o mesmo gajo? É a personagem mais parva de sempre!
Afinal, a prova da falta de confiança, por parte do autor, no seu enredo é que nem a Levi, nem o seu namorado, que matou o pai dela, têm mais do que uma mão cheia de diálogo. Claro que o Tordo sabe bem que, se explicassem as suas motivações ao narrador no último capítulo, o leitor veria nitidamente quão absurdo era o que acabaram de ler.
(Mas tem 4.2 estrelas no Goodreads. Talvez seja eu a única pessoa que tem esta opinião negativa 🤷🏼)
*Not a mistake. Levi is female even though it’s more typically a boys name.
Thanks as ever to Cristina for splatting my errors.
And also thanks to the publisher, Companhia das Letras, for leaving a couple of typos in the text for us to find. I always love finding these because it makes me feel like an expert. Here’s one.
In the unlikely evebt that you still want to read the thing after reading my hatchet job, you can score a copy from Wook.
Já li três romances desta autora mas este livro é um diário no qual ela fala do seu confinamento em casa e dos seus pensamentos e leituras durante a época mais escura da nossa história recente. Gostei menos deste do que da sua ficção (principalmente “A Visão das Plantas” que foi um dos meus livros favoritos do ano 2023) e, com o conjunto de fotos aborrecidas tiradas pelo conjuge dela, a preto e branco, senti-me ligeiramente deprimido quando virei a última página.
Para ser justo, não estou no melhor estado do espírito, atualmente, para digerir ensaios sobre assuntos pesados, e talvez o tenha julgado mais severamente do que era preciso, mas sinto o que sinto, e não gostei deste livro como dos outros…
Lazy Post, reviewing an audiobook I finished recently, about the Lisbon Earthquake.
As the name suggests, the book is organised around the event that literally shook Lisbon and figuratively shook its empire in the middle of the eighteenth century. The day itself is described well, albeit undramatically, and the Marquês de Pombal’s life and legacy gets laid out, including the grizzly bits. Smashing people’s arms and legs with hammers, burning them alive. Oh, and rebuilding the city in line with modern techniques. He’s… Well, to borrow another term from the young folk, “morally grey”.
Anyway, so far so good, but it could have been more focused. I guess his thinking was that a lot of readers wouldn’t know the background so he gives us a tour of the main points of Portuguese history but he doesn’t section it off, he just sort of rambles back in the middle of the book. Maybe the general history stuff would have been better as an optional preamble to the main book. That way, he could have really drilled down both in the horror and chaos of the day itself and on the technical details of how they recovered. I want details, dammit!
My favourite aspect was his summary of how the different groups explained the event. We sometimes think our age is uniquely divided and that the two sides in our political disputes operate with different worldviews and different sets of facts, but in 1755 we have catholics fulminating about how God sent the earthquake for allowing the protestant heretics into Portugal and meanwhile in England, at memorials services for lost Port wine merchants, the vicars are telling their flocks it’s no wonder Portugal was ruined when it is full of dreadful popish idolatry.
Some things never change.
The audiobook reader gets a solid 8/10 for trying with the pronunciation. He obviously doesn’t speak portuguese, but he’s put the effort in to learn the ground rules of portuguese pronunciation and it shows. Instead of just saying all the names like they were Mexican drug lords in Breaking Bad, he pushes in the right direction. He gets a lot wrong, but he’s tried and I appreciate that.
Que livrinho esquisito. A autora escreveu uma série de poemas como ferramenta para educar crianças sobre a diversidade, e sem dúvida fez um bom trabalho. Os poemas rimam bem e são divertidos e as ilustrações são bonitas. Mas escolheu usar uma linguagem inventada. Baseou-se no sistema elu (descrito neste blogue) mas a autora acrescentou mais mudanças para ser ainda mais “inclusiva”. Existem professores que aceitariam um livro com palavras inventadas, não de forma lúdica mas com propósito didático, para impor uma reforma ortográfica como se as ditas palavras fizessem parte da língua partilhada pelo povo?
Acho muito estranho que pessoas que aceitam que uma cadeira seja feminina (quer dizer que a palavra o seja) e o conceito de medo seja masculino, sentirão a necessidade de criar uma sistema gramatical neutro mas só para falar sobre pessoas. E isto torna-se ainda mais parvo quando percebemos que a palavra “pessoa” é feminina. Será que ela acha um grande insulto referir ao seu ilustrador, Tiago M como “uma pessoa”?
Existem algumas mudanças do sistema de género que (na minha humilde opinião) fariam todo o sentido, e já falei delas no mesmo blogue mas desta forma, eu (como estrangeiro…), achei o sistema sem pés nem cabeça.
Mas tendo feito estas queixas sobre a gramática, achei a atitude da autora muito simpática. Ela ilustra os pontos de vista de um rapaz muito constrangido, uma rapariga que anda de cadeira de rodas, uma cigana, uma imigrante e vários outros. Até as duas crianças para quais o género é a tema principal da sua história, o Rodrigo (um rapaz que não encaixa dentro do estereótipo de comportamento masculino) e a Maria Miguel (uma rapariga que gosta de atividades, penteados e roupas estereotipicamente masculinos e por isso acha que muda do sexo de dia para dia) são tratados de forma sensível. Os pais e os professores deixam-nos experimentar e exprimir-se como querem, sem pressão e sem interferência de adultos bem intencionados mas estúpidos. Acho que, num livro americano, seriam capazes de ter um desfecho muito mais escuro.
Em suma, este livro apresenta um conjunto de poemas divertidos e educativos, mas estragados pela presença de algumas palavras feias distribuídas aleatoriamente através do texto.
Some examples: “es” here seems to be a plural article replacing os/as (so the singular must be “e”, I guess – isn’t that going to be confusing?) and leitorus is in place of leitores and leitoras. Why the unchanging “ouvintes” gets the same treatment, but criança (feminine) doesn’t become criançu is a mystery. Professorus is the only acceptable one because it sounds like a dinosaur with a lesson plan and I like the idea.
Se quiseres saber mais sobre o sistema elu em vez de ler apenas os meus resmungos de velho, aqui está a página a qual a autora refere no apêndice.
You don’t have to have dirty fingernails when you read it, but it helps.
Este conjunto de contos interligados é incrível. Quero comparar Joaquim Mestre a um autor britânico cuja obra está muito na moda hoje, Alasdair Gray, autor do livro “Poor Things” que foi recentemente adaptado ao cinema. O seu “Unlikely Stories Mostly” também tem ilustrações e também tem elementos de humor e de magia, mas talvez a obra do Gray seja ainda mais lúdica e ainda mais mágico. Uma comparação mais apropriada seria com Calvino ou com Borges. A escrita é onírica, assombrada pela morte, mas tem uma simplicidade e um humor que avivam a leitura. Após algum tempo, vemos os laços que ligam os contos, uns aos outros, tornando o livro quase um romance episódico. Sem dúvida vou procurar mais livros do mesmo autor.
Hoje é o dia 25 de Abril, portanto parecia-me apropriado ler alguma coisa que falasse do aniversário do estabelecimento da democracia em Portugal. A autora, Alice Vieira conta a história através de um conjunto de 7 pessoas, cada uma a falar com uma menina que está a fazer uma pesquisa sobre a revolução. Os narradores contam as suas experiências à menina e falam com ela*, mas ouvimos apenas as vozes dos testemunhos, e o diálogo não é diálogo mas sim um monólogo capturado no gravador da protagonista silenciosa!
O livro foi lançado em 1999, 25 anos após os tanques darem à luz uma nova fase na história do país. Naquela altura, havia quem estivesse preocupado com a falta de entendimento dos eventos do passado. Hoje passaram-se mais 25 e os resultados da recente eleição indicam que talvez haja ainda menos entendimento, já que os anos setenta parecem um conto datado.
*I wrote “falar a ela” because all the dialogue is just their side of the conversation. “Falar com ela” seemed to suggest two-way traffic which is why I avoided it. It’s a little like listening to one side of a telephone conversation. You know there’s someone else involved but you can only hear the person next to you on the train. In the end, I put “com” back in but altered the corrected sentence a bit to reframe it. I hope it makes sense!
Este livro é uma caixa de delícias, dispostas em forma de um calendário. Cada mês tem a sua lista de datas importantes (dias nacionais, aniversários de autores), uma dúvida do mês, dicas para melhorar a escrita, listas de palavras saborosas e umas amostras da perícia do autor no campo da história do desenvolvimento da língua portuguesa.
O formato do livro é perfeito para quem tem pouco tempo ou que anda distraído (como eu nas últimas semanas!) e que quer ler algo interessante mas fácil entre as tarefas do dia-a-dia. Há ideias que aparecem nos seus outros livros mas de forma menos pormenorizada e menos pesada. E também existem novidades.
Este livro é uma coleção de contos que têm a atmosfera de contos de fadas: as personagens são reis, princesas e feiticeiras, entre outras. Mas apesar destas histórias curtas terem o mesmo tom dos contos infantis, há algo mais escuro nos temas das narrativas. E a estrutura da linguagem e a escolha das palavras dão um ar muito mais “adulto” à coleção.
A autora é uma brasileira muito premiada, mas o meu exemplar foi publicado pela editora Tinta de China para leitores portugueses. Como sempre, o livro, como objeto físico, é muito bonito, com capa dura cantos redondos e folhas grossas. Até cheira bem.
Neste livro, o humorista Ricardo Araújo Pereira fala da sua vocação: o humor. Não admirará ninguém que o livro é engraçado e que dá motivos de reflexão nos tempos de hoje, como grande parte da obra dele. Fala sobre as raízes de humor e os métodos que os mestres usam para o produzir. Também fala sobre a tendência das pessoas, tanto nesta época quanto no passado, para ficarem zangadas e não aceitarem as piadas feitas sobre elas próprias. O exemplo mais recente é o de Chris Rock, mas há muitos ditadores e ainda mais terroristas que querem matar quem não obedece às regras aleatórias que eles querem impor à gente.
O autor dá muitos exemplos e citações selecionadas da história incluindo Roland the Farter e Ronnie Corbett (da Inglaterra), Mark Twain e Bill Hicks (dos EUA) e Dario Fo e Rabelais (de outros países europeus) para demonstrar a natureza universal do humor.
Depois de comprar o livro, percebi que existe um podcast com o mesmo título que contém não só os textos do livro mas também mais capítulos e entrevistas com comediantes e escritores. E não custa nada… Ora bem, não faz mal, tenho um livro bonito e uns conteúdos extras. É um bónus.
Thanks as always to the ever-patient Cristina of Say it in Portuguese for eviscerating my linguistic infelicities before they could be unleashed upon an unsuspecting world.