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A Viúva – José Saramago

Pela segunda vez neste mês, encontro-me sentado à mesa a escrever uma opinião sobre um livro mas com mais vontade de escrever sobre as circunstâncias da leitura em vez do seu teor.

Deixem-me explicar: este é um Audiolivro mas li-o na aplicação da Bertrand e a app da Bertrand é um verdadeiro monte de merda. De vez em quando, fecha-se inesperadamente e quando se reabre, a app esqueceu-se de onde ia. Isto aconteceu centenas de vezes.

Como resultado, li grande parte do livro mais do que uma vez, provavelmente saltei uns parágrafos e perdi (a) o fio à meada e (b) a minha vontade de viver.

Nada disto é culpa de Saramago, mas ainda assim, responsabilizo-o por ter escrito um livro que acabou por me causar tanta dor. Passou a ser o meu inimigo.

O livro não é típico da obra dele. Escreveu-o em 1947, e foi publicado sob o título d’A Terra do Pecado. O estilo idiossincrático de Saramago não se tinha ainda desenvolvido. O enredo, as frases e a voz autorial, todos fizeram-me lembrar dos poucos romances do século XIX que já li. Um Eça de Queirós ou um Camilo Castelo Branco.

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Podcast

The free recording of Amor de Perdição I listened to a while ago seems not to exist any more, but I had a dig around and there’s a podcast called Livros Para Ouvir, available in a few places, including on Spotify. It’s no longer active, but there are a few whole books there, all old classics (and, presumably therefore public domain?)

  • O Primo Basílio
  • A Cidade é as Serras
  • A Abóbada
  • Amor de Perdição
  • O Crime do Padre Amaro
  • Os Maias

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Cuidado Com o Cão

Rodrigo Guedes de Carvalho - Cuidado como Cão

Cuidado Com o Cão é o segundo livro de Rodrigo Guedes de Carvalho que já li e gostei mais do que o primeiro (mas li o primeiro há três anos e tal, e custou-me ouvir um audiolivro inteiro naquela altura!)

O romance conta as histórias de várias pessoas cujos destinos parecem estar interligados, e de quatro cães, que igualmente podem ser o mesmo cão(!)

Comecei o livro há meses mas deixei de ouvir porque não tinha tempo. Voltei ao início em Outubro e retomei a história durante a minha estadia em Portugal. Fez-me companhia durante as horas a caminho entre vários lugares interessantes. O narrador é excelente e gostei dos pensamentos das personagens mas também adorei as divagações sobre as suas obsessões musicais. Explica-se bem os laços que nos ligam aos cantores que nos chamam a atenção.

Recomendo este livro para quem quiser experimentar um audiolivro português que seja mais adulto do que, por exemplo, O Principezinho, mas que não quer sofrer com um narrador que não fala nitidamente. Está tão bem lido que um ouvinte de nível B2 ou mais consegue entender.

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Memórias Póstumas de Braz Ucas

Passei algum tempo durante o fim-de-semana no jardim da minha mãe, a arrancar ervas daninhas e a ouvir o audiolivro clássico brasileiro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” mas achei-o difícil por causa do sotaque e porque os primeiros capítulos contêm montes de referências literárias e históricas. Enfim, decidi ouvir a versão inglês em paralelo. Alguns capítulos em português e depois os mesmos capítulos em inglês, para remendar os buracos no meu entendimento.

Infelizmente, a versão inglês é a versão grátis do Spotify e é horrível. Acho que foi gerado por “inteligência” artificial com reconhecimento ótico de caracteres. A voz soa humana mas vai lendo erros no texto, tipo “AU” em vez de “All” e assim por diante . De vez em quando, ouvimos um número de uma página, lido em voz alto ou um título numa outra língua qualquer. Acho que seria mais fácil ouvir a versão brasileira sem batota!

O erro que mais me irrita é quando a voz artificial traduz um verbo com o pronome indefinido “se” (veja este blogue como referência dos usos de se em situações impessoais). Seria praticamente impossível descrever precisamente de que modo é que a “inteligência” artificial falha, mas basta dizer que é uma desgraça. Estou a pensar em comprar a versão do Audible, traduzida pela estimada Margaret Jull Costa e lida por um ser humano qualquer. Custa sete libras mas tem de ser melhor.

Por acaso, tenho um trabalho de casa que foca na posição dos adjetivos (antes ou depois do substantivo) e o livro contém este ótimo exemplo:

Tanto quanto sei, o significado é “I’m not an author who has died but a dead man who has become an author”. Daí, (como se explica logo a seguir) a sua campa é o berço do seu estado atual

O livro está muito na moda nos dias que correm por causa de um vlog americano (veja vídeo infra) mas tem estado na minha TBR há meses e estou super-entusiasmado por me gabar de o ter lido em português. Toma, monoglotas*!

*I originally wrote Chupa (Suck!) instead of Toma. Chupa sounds incredibly rude in English, but appears not to be quite as rude in portuguese. Or rather it definitely can be rude in certain contexts, and it’s always fairly uncouth, but when people say “Chupa, Dinamarca” or whatever, after a football game they are just gloating, not making an obscene suggestion, at least according to Priberam.

interjeição

5. [Informal] Indica satisfação, geralmente em relação a uma derrota ou um revés de alguém. = TOMA

“Chupa”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/Chupa.

But I asked around and I think the feeling was that it was a bit too spicy and I should de-escalate the situation by using Toma instead. In both cases, they’re interjections. Toma doesn’t really change even if you’re taking to a whole group of people “Coloquei ananás nesta pizza. Toma, italianos!” but with Chupa it seems to be more of an open question whether you say “Chupa italianos” or “Chupem italianos” (ie, conjugate it as a plural imperative because you’re addressing multiple Italians). In the kinds of situations you are saying these types of things, the niceties of grammar are often among the first casualties.

Well, that was an interesting diversion!

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O Pequeno Livro dos Medos Sergio Godinho

O Pequeno Livro dos Medos

O Pequeno Livro dos Medos é um livro infantil que está disponível como Audiolivro na livraria Wook. O autor fala, sob a perspetiva de uma criança, sobre o significado da palavra e como nós sentimos esta emoção tão constrangedora. O terceiro capítulo é um conto, lido ao narrador pelo avô dele que foi originalmente escrito para o seu filho (ou seja para o pai do narrador quando era jovem… eh pá, esta frase precisa de uma árvore geneológica para ilustrar estes relacionamentos, não é?).

Sendo um livro infantil, a linguagem é muito fácil em termos da gramática, mas o seu estilo* não é tão simples que se torne aborrecido para leitores mais crescidos. Recomendo para quem nunca tenha lido** um Audiolivro em português, mas queria experimentar.

*I wrote “estilo de escrever” but it sounds redundant since estilo is more specific than “style” (definition 6 here)

**Nesta casa, não aceitamos que ouvir um audiolivro “não conte” como leitura!

Thanks to Cristina of Say it in Portuguese for unfudging this box of chocolates

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Longe do Mar

Longe do Mar de Paulo Moura

O livro é uma descrição de uma viagem ao longo da Estrada Nacional 2, com paragens em vários lugares para conhecer os habitantes. Faz parte da série “Retratos” editada pela Fundação Francisco Manuel Dos Santos, como grande parte dos livros que compõem o catálogo português da livraria online Audible. Já dei opiniões em pelo menos 3 na mesma série. Ouvi-o à velocidade de 1.35x para ver se conseguia seguir o enredo. Foi desafiante mas consegui durante algum tempo, mas no fim, cansei-me, desisti e recomecei com o ritmo normal.

O autor encontrou várias personagens ao longo da sua rota e conta a história de cada uma: pastores, ferreiros, uma menina que “amou de mais” (ou melhor, amou o homem errado), entre outros. Como obra de literatura de viagem, acho que o livro não é suficientemente desenvolvido. Encontramos as pessoas mas não recebemos (ou pelo menos eu não recebi) uma imagem mental do carácter da terra percorrido pelo autor. É uma sequência de entrevistas mas não é uma narrativa coerente e deixou-me um pouco insatisfeito.

Thanks as ever to Cristina of Say it in Portuguese for correcting this (twice!)

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New Audiobooks

It looks like Wook have just put a new crop of Audiobooks on their website. I only noticed because I just went to look for a link to the book I’ve just finished and when I went to the “Literatura” page it was full of softcore erotica. José Saramago was sandwiched between “Sexo no Carro” and “Amarre-me”. Coitodo! Er… I mean Coitado!

Sadly they seem to be mostly Brazilian portuguese so be careful, they’ll damage your grammar as well as your eyesight.

I did spot a new European portuguese book though – or at least one I hadn’t noticed before: they’ve got “O Livro de Desassossego” now. Nice! I’m not sure I dare try and read it as an audiobook though… Maybe later!

Anyway I’ve got guests coming soon, but I’ve made a mental note to spend more time looking around to see if there s anything I fancy.

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Enquanto Salazar Dormia…

I’m off reddit these days so I’ve gone feral and all my book reviews for the time being are going to be accompanied by the #uncorrectedportugueseklaxon This one is “Enquanto Salazar Dormia” by Domingos Amaral

Este livro é muito interessante. Já sabia, antes de ler, que Lisboa era um covil de espiões mas quanto mais o enredo desenrolou, mais achava que precisava de mais informações, portanto ouvi um outro audiolivro (em inglês) sobre esta época. Com este como pano de fundo, esta história tornou-se mais viva, com tantas referências à história verdadeira da segunda guerra mundial.

Há imensas cenas de sexo rebuscadas, e cada vez que uma mulher entra no âmbito da história, o narrador avalia o tamanho e a aparência dos seios dela o que se tornou irritante depois de algum tempo, mas apesar disso a história é divertida.

Vacilei entre 3 e quatro estrelas mas acabei por dar 3 porque o desenlace roubou tanta emoção dum filme alheio (o Casablanca, que também aparece na capa) e achei este truque um pouco preguiçoso.

Thanks to Cristina for the corrections

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Lisbon by Neill Lochery

I’ve had the audiobook of Lisbon by Neill Lochery on my listening list for a while now and finally got around to it simply because I had started Enquanto Salazar Dormia by Domingos Amaral And wanted a little more background about wartime Lisbon to give me the context.

Lisbon - War in the Shadows of the City of Light, by Neill Lochery.

I learned a lot! I’d always known Portugal had a slightly odd place In World War 2 History: Salazar, as a fascist, was probably more inclined towards Hitler’s world view, but Portugal and Britain have been allies since way back. I also knew we hadn’t always been good allies (see this post about the portuguese national anthem starting life as a diss track about the treacherous land-stealing British empire).

What I hadn’t realised was how many different schemes and counter-schemes were swirling around the capital, or how delicate was the balance that kept the Iberian peninsula out of the war.

Nor had I any idea that part of Portugal’s reason for distrusting Britain was that Neville Chamberlain had offered Angola to Hitler as part of his appeasement negotiations. Or about the delicate situation regarding Wolfram (Tungsten) mining that was necessary for both sides’ war effirts. At one point, a network of SOE agents had recruiters portuguese sub-agents and poised then to blow up mining infrastructure and assassinate some key people in the event that Portugal was invaded by Spain at the behest of the nazis and there wasn’t a padeira around to hold them back.

It’s absolutely amazing. I love all that stuff.

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O Filho de Mil Homens – Valter Hugo Mãe.

O Filho de Mil Homens de Valter Hugo Mãe

“Li” este livro com os ouvidos (sempre que digo isto, as pessoas explicam que devo dizer “ouvi”: está bem, mas gosto de dizer “ler com os ouvidos”. Deixem-me fazer as minhas parvoíces de velho!), que tornou-o mais difícil. Geralmente, se não percebo alguma coisa, viro-o de volta e leio as ultimas páginas, mas com um audiolivro, sobretudo enquanto estou a lavar a loiça, não é nada fácil, e pouco a pouco, perdi o fio a meada. O livro conta as histórias de pessoas diversas que se juntam para formar uma família. Entendi basicamente tudo, e gostei dos acontecimentos individuais, as personagens e o estilo do autor, e o fato de ele ter gravado o seu próprio livro, mas conseguiria resumir a história? Dificilmente… Acho que vou voltar a este livro e ler mais uma vez, talvez com os olhos.

O Filho de Mil Homens is available as an audiobook or if you prefer, as an actual paper book from Wook. Don’t worry, although it’s a book from Wook, it’s not “My Booky Wook” by that guy who’s in the news a lot lately. Screw him.

Thanks to Sebas94 for the corrections