Uma das contas mais novas no meu Insta é a de uma drag queen que tem o pseudónimo Sincera Mente. O homem anónimo* atrás da Dona Mente explica numa entrevista no Jornal Público que experimentou com vários nomes artísticos antes de desenvolver a personalidade que hoje é tão bem conhecida. O trocadilho da sua nome é uma chave que destranca a personalidade dela “Ela é sincera mas mente quando precisa”.
O vídeos consiste em clipes da personagem a visitar uma cidade, vestida de moda ultrajante: por exemplo, neste vídeo é disfarçada como o galo de Barcelos, mas também tem fantasias de azulejo, um estudante de traje da Universidade de Coimbra, ou “uma sereiona: metade homem, metade matrafona**”. Assim disfarçado, Sincera Mente interage com os nativos, faz piadas, tira fotos, e amima a gente à sua volta.
*Well, he was anonymous in April when the interview was published. I haven’t done any sleuthing to see if he’s revealed his true identity since
**Uau, assumi que uma matrafona seria uma espécie de bicho aquático mas não é. Segundo o Priberam, pode ser uma “mulher desajeitada”, uma “boneca de trapos” ou um “Homem que, geralmente no Carnaval, se veste e se mascara de mulher de forma espalhafatosa, desajeitada ou trapalhona” ou seja, uma versão de drag que não é igual à versão americana. Obviamente é esta terceira definição que se aplica neste caso. Encontrei um vídeo no Youtube onde se vê exemplos das matrafonas no Carnaval de Torres Vedras.
I came across this odd bit of history on Insta and I think since they are both wearing hats we can allow them into the blog this week. It’s not just a one-off either. Bruá Podcasts has a stable of mini audio series. I subscribed to what seems to be the main one, Sapiens and it seems to have followed the lead of The Rest is History, with a series of little subseries, one of which is called Portugal Negro: A História Silenciada, which seemed worth a listen especially since Hat Week this year happens to coincide with Black History Month. I started listening to the first episode, about a man called José de Magalhães who got involved in the pan-african movement started by WEB Du Bois, and I’ll probably report back on it in a few days when I have done the whole lot.
Este texto está a apodrecer na pasta de rascunhos desde Outubro de 2024 mas aqui estamos na semana gloriosa do chapéu e estou a sacudir o pó dos seus parágrafos e a prepará-lo para a publicação.
Fiquei curioso sobre a identidade deste homem, o Chapeleiro António Joaquim Carneiro.
A vida dele é assunto da maior banda desenhada de sempre. Ou seja, é ilustrada numa série de imagens pintadas em azulejos no museu do azulejo em Lisboa, onde fui após a maratona de Lisboa no ano passado. A história é menos interessante do que imaginei. O tipo não foi um herói nacional mas sim um chapeleiro (uau, à sério??) cuja habilidade e esforço resultaram em lucros impressionantes. Na época na qual o modista viveu (o século XVIII), sucesso ofereceu oportunidade de se juntar à burguesia, e ele mudei de casa da sua aldeia para a cidade onde encomendou o conjunto de azulejos para imortalizar a sua vida. E quem nega a eficácia desta estratégia? Quem teria ouvido do chapeleiro António Joaquim Carneiro em 2025 se não tivesse mandado alguém criar estas obras da arte?
Não existe mais informações, tanto quanto sei, sobre a vida do homem, além delas contidas nas imagens, mas há uma pagina que descreve minuciosamente a forma deste formato: “Painel rectangular. Medalhão oval no centro limitado por grinalda rematada por filactera com as extremidades enroladas.” O que se segue é uma descrição da imagem em si, mas os pormenores do enquadramento fascinaram-me. Não vou gastar energia em memorizar as palavras porque nunca mais as usarei, mas é fixe, não achas?
Quando escrevi sobre a mudança da marca diacrítica no site do Jazz Café, não tive qualquer plano para lançar uma série, mas olhem, vai continuando a semana dos chapéus. Hoje volto ao tópico do Cante Alentejano.
Desde 2014, este género musical é considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Esta honra é compartilhada com mais um género musical português, o fado. Consiste em dois cantores e um coro. O primeiro cantor é o ponto, e o segundo o alto. Mas cuidado, ambas estas palavras tem mais do que um significado. Eu sei menos que nada sobre a teoria da musica portanto fiz uma pesquisa e as definições relevantes do dicionário Priberam são o número 40 de Ponto: “Solista que inicia uma moda* no cante alentejano” e o numero 30 de Alto: “Solista de voz aguda que se segue ao ponto e que antecede a entrada do coro no cante alentejano.”
Portugal, August 2022: Tribute to cante Alentejano, monument in Monsaraz by Lago do Alqueva, Alentejo, Portugal
Se virem este vídeo, verem os dois solistas em ação: O ponto, de barba, na primeira fila, canta a primeira estrofe. Depois, o alto, quase escondido na segunda fila, entoa o primeiro verso da segunda estrofe antes do coro (incluindo ambos os solistas) cantarem o resto em uníssono. Este coro é o mesmo que colaborou com Zambujo no vídeo de ontem, O Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento. Neste contexto, um rancho é um grupo folclórico mas a palavra tem mais significados entre os quais “Grupo de pessoas, especialmente em marcha ou em jornada” também descreve o conteúdo deste vídeo!
I think the title of this video is wrong. I believe the song is called “A Moda do Chapéu“
Quando ouço o cante alentejano, lembro-me sempre do Male Voice Choir (Coro da voz masculina) tradicional do País de Gales. Ambos têm raízes na cultura céltica, ambos nascem entre gente rural em aldeias marginais, longe do capital e ambos são cantados, tradicionalmente, por homens vestidos de roupa domingueira**. No caso do coro galês, isto aconteceu (tanto quanto sei) por preferência, mas em Portugal, a roupa tradicional foi reforçado pela influência conservador do Estado Novo que queria fomentar o património para os seus próprios motivos, mas basta do Estado Novo, já falei a mais daqueles gajos. Arruínam sempre tudo que eles tocam, e não quero associar o cante com o homem que caiu da cadeira.
Dw i’n hoffi y cerddoriaeth ma ond mae cerddoriaeth portugaleg ym well (I hope I didn’t screw that up too badly – I’m only about 6 months into the duolingo course)
Apesar das semelhanças superficiais, existem diferenças marcantes. Os galeses harmonizam mais. Não têm os dois solistas e não cantam de chapéu num supermercado. Segundo a Wikipédia, as origens do cante incluem elementos da tradição grega e dos colonizadores árabe.
A página da Wiki fala no seu último paragrafo, da estagnação do cante desde a segunda guerra mundial quando a mecanização da agricultura causou um declínio da tradição de cantar na lavoura. Como resultado o género sobrevive em grupos tradicionais como uma curiosidade ou uma atração turística. Não sou especialista, claro, mas parece-me que a forma não tem tenta flexibilidade como o fado, nem hipótese de se dinamizar por hibridação com outros estilos como aconteceu com o fado nas últimas décadas. E não importa assim tanto. Não precisamos de cante alentejano com um rapper a fazer beats entre as estrofes. Às vezes, podemos deixar a tradição em paz, perfeito no seu próprio nicho.
* AI meu deus, não quero sobrecarregar o texto de definições mas nota bem que “moda” também tem um sentido diferente neste contexto. É uma cantiga!
**Not a word I had come across. It means “relative to Sunday”. So roupa domingueira is your Sunday best! Not that anyone has Sunday best now, it was a dying concept even when I was young but I recognise it as something people had in books and comics written by the generation before!
I mentioned António Zambujo’s recently acquired brazilian hat yesterday, and it reminded me of this video where he’s singing with this choir of practitioners of Cante Alentejano, who wear traditional dress, including a very distinctive hat. Why Cante and not Canto? It’s just a regionalism. I’ve been meaning to do a proper post about Cante Alantejano for a while now and I must get around to that. Anyway, here we go…
Português
Inglês
Trago Alentejo na voz Do cantar da minha gente Ai rios de todos nós Que te perdes na corrente Ai rios de todos nós Que te perdes na corrente
I carry Alentejo in my voice From the song of my people Oh the rivers that belong to us all You can lose yourself in the current Oh the rivers that belong to us all You can lose yourself in the current
Ai planícies sonhadas Ai sentir de olivais Ai ventos na madrugada Que me transcendem demais Aí ventos na madrugada Que me transcendem demais
Oh, plains of my dreams Oh the feel of the olive groves Oh the winds at dawn That are too overwhelming Oh the winds at dawn That are too overwhelming
Amigos, amigos Papoilas no trigo* Só lá eu as tenho E de braço dado contigo a meu lado É de lá que eu venho E de braço dado Cantando ao amor Guardamos o gado, papoilas em flor Que o vento num brado Refresca o calor E de braço dado, contigo a meu lado Cantamos o amor
Friends, friends Poppies in the wheat Only there do I have them And arm in arm with you at my side It’s there that I come from And arm in arm Singing of love We tend the cattle, poppies in bloom The wind in a howl Cools the heat And arm in arm, with you at my side We sing of love
Ai rebanhos de saudades Que deixei naqueles montes Ai pastores de ansiedade Bebendo água nas fontes Ai pastores de ansiedades Bebendo água nas fontes
Oh flocks of longing That I left in those mountains Oh shepherds of unease** Drinking water in the springs Oh shepherds of unease Drinking water in the springs
Ai sede das tardes quentes Ai lembrança que me alcança Ai terra prenhe de gente Nos olhos duma criança Ai terra prenha de gente Nos olhos duma criança
Oh place of warm afternoons Oh the memories that come over me Oh land, giving birth to a people In the eyes of a child Oh land, giving birth to a people In the eyes of a child
*Adoro esta rima
**O que mais me surpreendeu é que achei “ansiedade” uma palavra mais “intraduzível” neste contexto do que a famosa “saudade”. Consigo imaginar a emoção de uma pessoa longe da sua terra: homesickness, sorrow, sadness, longing, não há problema com saudade. Mas “ansiedade” é cognata com a nossa “anxiety” o que é completamente fora da questão. Que mais? Linguee oferece vários alternativos, tipo “stress”, “trepidation”, “angst”. “Anticipation” é uma tradução muito comum: já ouvi montes de booktubers a falar da sua ansiedade por ler o novo livro numa série qualquer. A palavra serviria se o narrador fosse a caminho de casa mas não é. Optei por “unease” mas não estou cem por cento satisfeito!
O Instagram mostrou-me este anúncio sobre um concerto de Maria Luisa Jobim, a filha do Tom Jobim, que é quase um deus no mundo musical. Ela também canta muito bem, como podem ouvir neste vídeo, e compõe música e toca varios instrumentos.
O seu convidado é o cantor português António Zambujo, cujo nome tem a grafia certa no anúncio, mas nota-se que no site do Jazz Café, tem um chapéu brasileiro em vez do acento agudo português.
Pergunto-me como ocorreu este erro. Será que o realizador dos concertos é brasileiro e não sabe como se escreve em Portugal? Ou os donos da sala de concertos em Londres assumiram que o nome dele se escreve da mesma maneira como Antônio Jobim?
Ainda estou com dores nas pernas mas aqui vem o resumo da Maratona de Loch Ness.
Acordei às cinco e meia e fui à procura de um pequeno almoço saudável. O dono do hotel tinha colocado umas caixas de bananas, garrafas de aqua e bolachas de Aveia na entrada, para os corredores levarem para a prova. Logo atualizei a minha opinião do hotel de três estrelas para cinco.
Após o pequeno almoço e 78 visitas à casa de banho, deixei o hotel em direção ao centro desportivo. Daí, fomos todos de autocarro para o topo de uma montanha perto do Lago Ness. Saindo dos autocarros, toda a gente dirigiu-se sem demora para a floresta para mijar ainda mais.
A corrida começou às dez de manhã, com a música de uma banda de gaitas de foles. Corremos ao longo da rua, com vistas lindíssimas em ambos os lados. O tempo acrescentou ainda mais beleza, com luz nas folhas e um arco íris por cima da superfície da água.
I mean, nobody’s looking their best, 20 yards from the end of a marathon, are they? But they always send you these pages full of hideous caricatures of yourself in various stages of mental and physical collapse and expect you to pay for copies you can share with your friends.
Não consegui aguentar a distância toda, andei um pouco nas subidas após 20 milhas, mas corri mais do que qualquer outra maratona na qual já participei, e terminei a corrida com a cabeça erguida.
Não vi o monstro. Não me admira, é tímido.
Além da linha de chegada, havia uma feira com barracas de comida, massagem, e uma tenda com sopa gratuita, graças ao patrocínio da empresa Baxters. Comprei um gorro azul e laranja.
No final das contas, gostei imenso do dia inteiro! Uma maratona não é nada fácil mas estes desafios lembram-nos que estamos vivos!
I hadn’t come across “alfinetar” as a verb before but it’s obviously related to alfinete – a safety pin. So…. is Rowling putting a safety pin in the girl who played one of the lead characters in her most famous creation? And if so, why?
According to Priberam, alfinetar usually means what it sounds like – to pin something with a safety pin, pin it up, or prick something with the point. But it also has two figurative meanings – to satirise someone or to offend them with words.
I didn’t actually follow the story, but Watson is always being asked to repudiate Rowling to show what a good person she is, and of course Watson knows what will happen to her if she doesn’t so she always takes the bait. Rowling – surprisingly for someone of her age – is actually pretty good at bare knuckle social media brawling, so I suppose she must have clapped back on this occasion. I can’t really be bothered finding out how or why, but I like the word. Alfinetar. I must use that in future!
Após 15 milhas da maratona de Loch Ness, deparei-me com esta placa. Dei uma espreitadela aos outros corredores à minha volta mas ninguém ria. Bolas, era eu o único lusófono.
Percorremos Dores e chegámos à proxima vila escocesa, Naspernas.