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A Invenção do Dia Claro

Li este livrinho inteiro, da capa até à contracapa num só dia mas não é assim tão impressionante porque tem menos de 40 páginas.

A Invenção Do Dia Claro

O escritor é José de Almada Negreiros (geralmente conhecido simplesmente por “Almada” se não me engano). Almada fazia parte do movimento modernista nas primeiras décadas do século passado e do grupo ao redor da Revista Orpheu, mas este livro é mais brando do que os anteriores. O editor da sua página de Wikipedia atribui esta mudança de estilo a uma atitude mais construtiva depois da Grande Guerra. Em resultado disso, quando o autor leu o primeiro texto da terceira parte (“a flor”) em palco, houve* quem risse em voz alta, achando que era algo satírico o humorístico, mas não era, era sincero.

O estilo da escrita é muito bonito e não me custou entender apesar da ortografia desconhecida, oriunda duma época antes do que nós pensamos como “velha ortografia” a(c)tualmente.

*Haver is one of those verbs that almost doesn’t seem to make sense in the perfect tense. The perfect tense is usually used for things that happen and then they’re over, as opposed to the imperfect which describes things that happen continuously over time. Haver usually means something like “to exist” or “to be present” and how can something exist as a one-off? Surely if you exist you exist continuously. In this sentence I’m describing this scene of someone reading something on the stage and the audience is there at the start of the performance and they remain in place throughout the performance. If that isn’t the criteria for imperfect tense I don’t know what is. But the translator suggests I describe the scene one of two ways

quando o autor leu (o texto) em palco, houve quem risse

Or

quando o autor lia (o texto) em palco, havia quem risse

So in the first example, he read it once (leu) and the audience were there on that one occasion (houve), and in the second example, he used to read it (lia) and they were there (havia).

What I don’t seem to be able to say is that he read it (leu) for an audience that was just there (havia).

OK useful exercise since it helps me. Understand when to use havia vs houve. I think I’m stuck in thinking about imperfect and perfect in a way that’s more like my o’level French and I need to just rid myself of that way of thinking.

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Locuções Temporais

I’m struggling a bit with finding the right tenses for some of the sentence structures set out in the C1 course so decided to try and write a few for practice. Thanks to Dani Morgenstern for help with the corrections.

  • Quando acabei de ler ele já tinha escrito a sequela (when I finished reading he had already written the sequel)
  • Enquanto ele tocava bateria, eu preenchia os formulários de divórcio (while he was playing drums, I was filling in the divorce forms)
  • Quando chegares a casa, descasca as batatas (when you get home, peel the potatoes)
  • Ela disse-me que queria ser primeira ministra quando fosse grande (she told me she wanted to be prime minister when she was big)
  • Quando o vírus tivesse passado, ela voltava a treinar (when the vírus had passed she went back to training – I think the sense here is of something that happened repeatedly: she’d get ill every so often and go back to training after each occurrence, hence the imperfect tense)
  • Enquanto não leres o texto não estás capaz de responder às perguntas (since you won’t read the text you won’t be able to answer the questions)
  • Enquanto os negócios tivessem apoio financeiro não iriam à falência durante a pandemia. (as long as the businesses had financial support, they wouldn’t fail during the pandemic)
  • Enquanto o tio Rui não tivesse chegado a casa, a família não começava a jantar* (since Uncle Rui hadn’t arrived at the house the family weren’t starting their dinner)

*It’s probably worth pointing out here that this “a” is a preposition and “jantar” a verb. They hadn’t started to dine. But jantar can also be a noun so I could also have said “o jantar” instead of “a jantar” and the sentence would still work but it would mean “they hadn’t started the dinner”.

  • Logo que o comboio parta, telefona-me (as soon as the train leaves, call me)
  • Assim que receberes a carta do SNS, marca consulta. (as soon as you get a letter from the SNS, make an appointment)
  • No momento em que as cortinas se abrissem, a banda comecaria a tocar (as soon as the curtains opened the band would start to play)
  • Mal tivesse aberto a janela, o pisco entraria na sala (as soon as he had opened the window the robin would enter the room)
  • Logo que eu acordava tomava um café (as soon as he woke up, he used to have a cup of coffee)
  • Assim que enviou a carta, percebeu que se tinha esquecido do selo (Just as he posted the letter he realised he’d forgotten the stamp)
  • No momento em que o professor abriu a boca a campainha tocou (at the instant the teacher opened his mouth the bell rang)
  • Mal soube as noticias, começou a chorar (As soon as he heard the news he started to cry)
  • Antes que te esqueças, faz notas sobre a reunião (before you forget make some notes about the meeting)
  • Antes que ligasse ao meu pai, ele enviou-me uma mensagem (Before I called my dad, he sent me a message)
  • Antes de abrir a boca vou pensar duas vezes (before I open my mouth I’m going to think twice)
  • Depois de nos termos encontrado a minha vida era vazio e sem propósito (Before we met each other, my life was empty and without purpose)
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To Tu or Not To Tu, That is the Desmond

I’m not sure whether making this pun in the week when the anti-apartheid hero died will be taken as offensive, but I needed to write about when to use “tu” in a sentence and the pun was just there waiting to be made and I’m not made of wood, people. I once almost walked into him in… Cambridge, I think, after a group of us made a pilgrimage from Norwich to attend his speech in about um… 1989? He was very good-natured about it.

Anyway, let’s get down to business. Here’s the question I asked yesterday.

Why (according to the C1 course I’m doing) is the word “tu” necessary in this sentence:

Tu vais ter mais experiência de vida. Nessa altura, vais compreender-me.

But absolutely wrong in this sentence, which is my attempt to rewrite the first using different tenses.

Quando tu tiveres mais experiência de vida, vais compreender-me

The gist of the answers I got was that the course’s model answer was wrong, or at least not unambiguously right. Although you don’t need it in the second sentence, you don’t need it in the first either, and since the exercise was to rewrite the sentence, it made sense to retain it if it was already there. The “tu” is superfluous because the conjugation of “vais” and of “tiveres” tells you you’re in the second person singular. If I had been changing “vai ter” into “tiver” then it would have been necessary to add a pronoun (ele or ela, probably) because “tiver” is ambiguous in a way that “vai ter” is not. Sometimes these things are just done on what sounds better so it might have been down to the personal sensibilities of the person setting the questions. It’s not very consistent though. Minor irritation.

Anyway, one of the respondents gave me some feedback that made me swell with pride:

So here is the question in the original Portuguese as a record of the most-praised Portuguese text I have ever written!

Uma das minhas dúvidas recorrentes é quando usar e quando não usar pronomes com verbos. Regra geral, não se usam tanto quanto em inglês mas por exemplo no meu curso, tenho de rescrever a seguinte frase começando com uma palavra específica e fazendo as alterações necessárias:

Q) Tu vais ter mais experiência de vida. Nessa altura, vais compreender-me.

R) Quando ____


Respondi assim:

Quando tu tiveres mais experiência de vida, vais compreender-me


Falhei. A resposta certa é exactamente igual mas tirando o "tu". OK tuga, mas... Porque? Porque é que o "tu" é necessário no modelo mas desnecessário - até errado - na resposta? Ambos exprimem a mesma ideia. Eu sei que a forma de "tiverES" assinala que estamos na segunda pessoa mas isso é igualmente verdade de "vaiS".

Desculpem o tom irritado. É ligeiramente frustrante fazer um curso que não explicam estas coisas. 🤷🏼‍♂️

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Auscultadores

A amiga da minha filha utiliza auscultadores sem fio (airpods) mas está sempre a perdê-los. Ou seja perde sempre* um fone. Eu também desperdicei dois pares de auscultadores por perder um fone. O problema é o tamanho destes dispositivos. São minúsculos. Se deixares um fone cair ao** chão, não será fácil encontrá-lo.

A amiga dela fez exatamente isso: deixou um fone cair na rua, e logo depois um carro o atropelou e lá foram cem euros pelo cano abaixo.

Empresas de telemóveis, chega de Bluetooth. Fios! Queremos fios!

*=perde sempre, not sempre perde. Adverb after the verb.

**=ao, not no. It falls *to* the floor, not *on* the floor

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What Kind of Futlery Is This?

Today’s text in the Writestreak subreddit is a masochistic attempt to translate a single sentence from Judith Butler, who is extremely influential these days despite – or rather because of – the convoluted, opaque style in which she buries her ideas. The sentence (which I’ve screenshotted below) won an award for bad writing, so I’m going to suggest the correctors just not bother trying to correct my translation and turn it into good Portuguese. Nobody should do any work in the dead time between Christmas and New Year. I’m just doing this for a laugh, really.

A passagem desde uma conta estruturalista no qual o capital é compreendido a estruturar as relações sociais em modos relativamente homólogos para um uma vista de hegemonia na qual as relações de poder estão sujeitas à repetição, convergência, e rearticulação trouxe a questão de temporalidade dentro do pensamento sobre estrutura e marcou a mudança desde um tipo de teoria Althusseriano que toma totalidades estruturais como objetos teóricos até a um no qual as perspectivas sobre a possibilidade contingente de estrutura inauguram uma concepção renovada de hegemonia como estreitamente ligada com is sítios contingentes e estratégias da rearticulação de poder.

Genderbollocks source

UPDATE 1: there is a copy of the book available on Bertrand so some poor sod actually had to produce a rendition of this sentence for real.

UPDATE 2: the ever-helpful Dani Morgenstern decided to correct it anyway, despite my saying it wasn’t worth the effort. Here’s what she suggested:

A passagem de uma conta estruturalista no qual o capital é compreendido a estruturar as relações sociais em modos relativamente homólogos para um uma vista de hegemonia na qual as relações de poder estão sujeitas à repetição, convergência e rearticulação trouxe a questão da temporalidade para o pensamento sobre estrutura e marcou a mudança desde um tipo de teoria Althusseriano que toma totalidades estruturais como objetos teóricos até a um no qual as perspectivas sobre a possibilidade contingente de estrutura inauguram uma concepção renovada de hegemonia como estreitamente ligada com is sítios contingentes e estratégias da rearticulação de poder.

Well, that’s not so bad. I only added three additional mistakes to this train-wreck.

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Some Corrected Texts

A few recent texts with corrections below each. These are mostly pretty short since I didn’t want to give the correctors too much work over Christmas

Perder Um Streak.

A minha filha perdeu o seu Streak no Duolingo. Está a aprender francês. Usou o app todos os dias* durante 426 dias, mas esqueceu-se ontem. Eh pá.. Dói-me o coração….

*dammit, another one where I keep mistranslating. For “every day”, I keep writing “cada dia” (each day) when I should write “todos os dias” (all the days)

Feliz Natal.

Votos de um bom Natal** para todos. Espero que o Pai Natal traga tudo que vocês desejam.

**the capital letter is important.

Catolicismo.

Hoje de manhã, abri o Twitter, aquele sítio de opiniões equilibradas e cuidadosamente consideradas e deparei-me num tweet antigo. Uma mulher afirmava “não te podes considerar português não sendo católico”

O tweet é isca, claro, mas fez-me pensar um pouco sobre religião e identidade. O catolicismo constitui uma grande parte da cultura e da história do país (a isca é isca precisamente porque contém um grão de verdade) mas qualquer definição da nacionalidade que não inclua Viriato (de um lado da cronologia) nem Saramago (do outro) é evidentemente limitada de mais.

There was a little discussion in reddit about the influence of Catholicism on Portuguese culture, and how even those who consider themselves anti-catholics are to some extent influenced by it, which is all true, no doubt, but I think the original tweet I’m referring to isn’t saying that: I think she’s specifically trying to assert that any protestants or Muslims or Jews or atheists resident in the country will always be outsiders. In short, I think she was being a bit of an arsehole. To what extent that was pure trollage, or to what extent her tradwife persona is real, I don’t know, but taken on its face, it just seemed obnoxious.

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Diário Dos Dias da Peste

Diário Dos Dias da Peste

Estou a ler um livro chamado “Diário dos Dias da Peste“. Trata-se duma antologia de coisas interessantes, insólitas ou fora do comum. José Pacheco Pereira é curador duma biblioteca de tais curiosidades e durante o auge da pandemia, partilhou alguns exemplos com os membros. Partilha agora os mesmos exemplos connosco. Têm pouco a ver com a pandemia. O livro não esclarece nada sobre os dias de hoje. Se houver iluminação que conseguimos retirar deste livro, é só a seguinte: é incrivel ver a evidência de tantas tendências espantosas pelas quais a humanidade passou ao longo dos anos, e podemos imaginar que isto também há-de passar: venha o que vier, não há nada assim tão mau. Um dia, a crise actual também irá encher uma gaveta no arquivo do senhor Pereira e  os nossos bisnetos vão ver boquiaberto e mal acreditarão.

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Gló-ó-ó-ó-ó-ó-ria Hosanna in Excelsis

Whoop! Cheguei ao meu centésimo texto no subreddit Writestreakpt sem falhar* um dia!

Glória, the first ever Portuguese series on Netflix
Glória

Terminei, dois ou três dias atrás, a série Glória, que é nada mais nada menos que a primeira série portuguesa na Netflix. É incrível. Não é perfeita (=não é o Breaking Bad) mas é uma série que vale mesmo a pena: bem escrita, com um elenco de bons atores, um realizador hábil e um enredo repleto de tensão.

A história decorre em Glória do Ribatejo, em 1968 em plena guerra fria. A CIA, em parceria com o governo da época, está a transmitir notícias, entretenimento e propaganda aos países comunistas, mas entretanto o PIDE e o KGB têm os seus próprios motivos para espiar nos membros da equipa. Ao mesmo tempo, claro está que a sociedade portuguesa tinha os seus próprios insatisfeitos naquela altura, principalmente os membros das forças armadas que, daí a 6 anos, (spoiler alert) derrubariam o Estado Novo.

Vemos, então, uma história centrada num lugar anormal, que não representa bem a sociedade dos anos sessenta, mas muitos fios importantes na situação política encontram-se aí representados no fundo da série.

É muito difícil para nós estudantes ouvir o diálogo e compreender tudo mas existem legendas em PT-PT que ajudam muito. No meu caso, depôs de rever o primeiro episódio (uma vez não foi suficiente para compreender quem era quem e quem torcia pelos comunistas e blablabla!), fiquei com entendimento o suficiente para entender o resto da série.

*=i keep using “pular” in situations like this. On Internet sites, “pular anúncio” means “skip advertisement” but it’s a Brasileirismo. Portuguese people don’t use Pular in that sense.