Todos os dias no subreddit r/whatisthisbird alguém chegará com a mesma pergunta: que raios é este pássaro insólito que acaba de aterrar no meu jardim? Hoje a pessoa em questão estava em Portugal, o que me faz pensar “hm, e como se chama esse amigo de duas asas?
O seu nome é “Poupa”, também conhecido por “poupa pão”, poupão, poupinha ou boubela.
This jumped out at me on Instagram yesterday. I didn’t know the song so I googled it and I think I like the drag version better than the original. It’s Sincera Mente, who I mentioned a few days ago, with another drag queen who was on a talent show, I think…? I don’t know, I haven’t seen it. Anyway, they both have good voices and I thought I’d translate it because why not? The video only has the first verses and the chorus, but I’ll include the other two verses from the original
Estrala a bomba E o foguete vai no ar Arrebenta e fica todo queimado Não há ninguém que baile mais bem Que as meninas da ribeira do Sado
The bomb explodes And the rocket goes up It bursts and burns up Nobody dances better Than the girls of the Sado valley*
As meninas da ribeira do Sado é que é Lavram na terra com as unhas dos pés As meninas da ribeira do Sado São como as ovelhas Têm carrapatos atrás das orelhas
The girls of the Sado valley are the ones They plough the earth with their toenails The girls of the Sado valley Are like sheep They have ticks behind their ears.
Era um daqueles dias bem chalados Em que o sol batia forte nas cabeças As meninas viram que eu estava apanhado E disseram: Nunca mais cá apareças
It was one of those crazy days The sun was beating down on our heads The girls saw I was caught And said “Don’t come around here again”
Mas voltei e entretive-me a bailar com três Queriam que eu fosse atrás no convés Mas não fui e mandei-as irem dar banho ao meu canário Que bateu as botas com dores num ovário
But I returned and entertained myself, dancing with three of them They wanted me to go to the back of the deck But I didn’t and told them to bathe my canary Who had died of pain in the ovary**
*I’m going to translate “Ribeira do Sado” as “The Sado Valley” because even though Ribeira is a smallish river, saying they’re the Sado river girls makes them sound like mermaids. I think it’s more like the area around the river, so that’s what I’ve gone with.
**Er… well, it was going well until the end there. What the hell happened in the last verse? I asked around and the consensus seems to be that going “atrás no convés” was a euphemism for going somewhere quiet to canoodle, but it was far from certain. In the next line, telling someone too go and give the dog a bath is like telling them to go and comb monkeys or go and bother Camões, Go away in other words. But they changed it to a canary and a terminal illness just to make it more silly.
Que estranha imagem esta frase invocou! Dei uma olhada ao dicionário mas não há definição que cabe neste cenário. Então, é um metáfora? Imaginei o narrador a encostar o seu rosto ao vidro, como se estivesse a beijar o superfície, para ver o lado dentro. Mas o significado é mais simples e menos invasivo, segundo anglia gente do Reddit: para objectos, namorar significa desejar, invejar, imaginar se tivesse. E claro que isso faz mais sentido quando lemos a próxima frase!
Deparei-me novamente com este vídeo no insta. Tinha visto antes mas acho que a cena ganhou mais relevância face à xenofobia de André Ventura. Convém lembrarmo-nos de que os nossos compatriotas vivem em outros países mesmo que os estrangeiros vivem nos nossos países. Neste vídeo, portugueses celebram a sua cultura num palco no Luxemburgo.
A música é Malhão Malhão. Foi cantado por muitas pessoas ao longo dos anos, mas o melhor vídeo que já encontrei no YouTube é este de Linda de Suza
O Malhão é uma espécie de dança oriunda do Minho, e existem muitas canções que usam o ritmo para a gente dançar, como por exemplo Malhão de Portugal ou Malhão das Pulgas.
The dance in full, complete with Amália Rodrigues’s voice and the full saia rodada action!
Então porquê “Malhão Malhão”? Não tenho certeza, mas é óbvio que as letras se referem a uma pessoa. Segundo a Wikipedia (versão inglês) a pessoa em questão é um “winnower”* ou seja uma pessoa que separa os cereais das suas testas. Pode ser, pode ser, mas segundo o Priberam, Malhão, quando é aumentivo de malho não significa nada mais do que o utensílio**. Mas também pode significar “pessoa hábil e experiente”. Tendo lido as letras, acho que a pessoa a quem o narrador está a falar não é experiente, é uma jovem, uma rapariga que o narrador quer namorar. Ainda por cima, nas letras que encontrei Online, Malhão tem letra maiscula. Até pode ser uma alcunha! Noutras palavras, Malhão Malhão é um malhão (música para dançar) sobre um malhão (pessoa hábil/pessoa que trabalha na agricultura e/ou pessoa chamada “Malhão”).
Ai Jesus, tanta incerteza!
As letras são repetitivas mas basicamente é isto:
Ó Malhão, Malhão que vida é a tua? Comer e beber, ai trrim-tim-tim Passear na rua
Oh, Malhão, Malhão, what is your life like Eating and drinking, trim-tim-tim Strolling in the street
Ó Malhão, Malhão quem te deu as botas? Foi o caixeirinho, ai trrim-tim-tim O das pernas tortas
Oh Malhão, Malhão who gave you your boots? It was the boxmaker, trim-tim-tim The one with the crippled legs
Ó Malhão, Malhão quem te deu as meias? Foi o caixeirinho, ai trrim-tim-tim O das pernas feias
Oh Malhão, Malhão, who gave you your socks? It was the boxmaker***, trim-tim-tim The one with the ugly legs
Ó Malhão, Malhão ai Margaridinha! Eras do teu pai, ai trrim-tim-tim Mas agora és minha
Oh Malhão, Malhão, oh little Margarida You were your father’s, trim-tim-tim But now you’re mine.
*winnowing, in case you don’t know, is an agricultural term, meaning separate out the wheat from the chaff proper to grinding it into flour.
** specifically: Utensílio para malhar cereais, composto de dois paus ligados por uma correia, sendo um curto e grosso (pírtigo), e outro um cabo comprido e delgado (mango).
“7 Senhoras” de Margarida Madeira é mais uma banda desenhada mas tem um ritmo mais lento do que o do Astérix. Retrata as vidas de sete mulheres que a autora conhecia na juventude. Temos, por exemplo, uma bisavó, uma professora e uma senhora que faz parte da vizinhança, mas cujo nome a autora nem sequer sabe. Não há enredo nenhum, apenas uma vista microscópica destas vidas únicas, algumas ternas, outras absurdas, mas cada uma desperta a atenção da menina que um dia tornaria artista e autora. É uma homenagem às vidas escondidas que nos influenciam ao longo do caminho, cada uma à sua própria maneira.
Look at this mess! I hadn’t even started it and already I’d done this. This is why we can’t have nice things.
Adoro esta série de bandas desenhadas e estou muito feliz que os nossos heróis, Astérix e Obélix chegam finalmente na província romana de Lusitânia. A sua missão é libertar Malmevês, um empresário de garum (uma espécie de molho de mariscos) e o pai da Saudade, (uma mulher pela qual o Obélix está caidinho, embora não admita!). O Malmevês está preso numa cadeia romana porque é suspeito de um atentado contra o imperador, mas os gauleses espertos sabem descortinar o verdadeiro assassino, disfarçando-se como Tugas para entrar sem ser capturado.
Ainda bem que não havia partidos políticos da extrema-direita porque às vezes os visitantes ajudam muito.
Como sempre, os habitantes da terra onde a história tem lugar têm as características dos atuais habitantes do país moderno: comem bacalhau, construem calçadas mosaicas e cantam poemas tão melancólicas que quem os ouve desata logo em lágrimas.
Apesar da morte dos criadores, Goscinny e Uderzo, a série retém o espírito dos livros originais: humor, otimismo, alegria e inteligência.
(Scroll down for an english translation of this one)
Este post no Insta chamou-me a atenção há uma semana. É mesmo ótimo como obra de arte mas confesso que me deixou insatisfeito porque não explica bem as lendas e eu, como estrangeiro que não sei nada de nada, queria saber mais.
Um bloguista com dois dedos de testa teria lançado um blogue ou uma série de blogues na semana antes do dia das bru… Hum… Antes do Pão Por Deus mas a minha testa não passa de um dedo e aqui estou eu no dia depois a escrever o primeiro texto numa série… Olha, para resumir uma história longa, fiz um compromisso num outro lugar escrever um texto por semana durante as próximas seis semanas sobre bruxas. Não me faça mais perguntas, tá bem? OK, vamos a isto! Hoje abordamos a primeira região na obra da Lola Ramos.
Segundo a Stôra* Google, Melgaço é a vila mais setentrional (ou seja o mais ao norte) do país, perto da fronteira com Galiza. A região é rica com lendas, entre as quais se encontra o mito das “meigas**”, ou “Feiticeiras Raianas”. Há quem achasse que eram seres sobrenaturais sem alma, capazes de se transformarem em mulheres ou em animais como por exemplo serpentes e que desejavam roubar a vida ou a alma das vítimas delas. Mas também existem pessoas com imaginações mais prosaicas que creem que as bruxas eram mulheres normais que praticavam a medicina pré-científica da tradição pagã e como resultado encontraram-se sob o olhar da igreja católica, que praticava as suas próprias rituais pré-científicas!
A Wikipédia acrescenta mais pistas prosaicas ao nosso pano de fundo: O rio naquela zona é perigoso por causa das rápidas a e a falta de um ponte, portanto não raras vezes viajantes acabaram mortos, afogados no rio e os habitantes na região responsabilizaram as bruxas em vez da natureza e do comportamento imprudente do recém-falecido!
A lenda aparece raramente nos estudos etnográficos sobre os portugueses, mas é mais comum entre os galegos. Os dois povos concordam que a melhor estratégia para quem queira atravessar o rio perto de Melgaço ou a sua aldeia vizinha, Arbo, em Galiza, é colocar um seixinho ou uma moeda na boca. Assim, a viajante não se esquece de manter a boca fechada ao se deparar nas feiticeiras.
**Weird one this: Wikipedia implies it’s an old word, and maybe it is – maybe it’s related to maga in some way… but meigo/meiga means gentle and very little about their reputation sounds gentle! Priberam offers no clue so I’m not really sure what to make of it!
🇬🇧 English Version (with a bit of help from GTranslate)
Just in case somebody from “the other place” wants to come and check I did my homework…
This Instagram post caught my attention a week ago. It’s really great as a work of art, but I confess it left me unsatisfied because it doesn’t explain the legends well, and I, as a foreigner who knows absolutely nothing, wanted to know more.
A blogger with two fingers of forehead [portuguese expression meaning “with a bit of basic common sense”] would have launched a blog or a series of blogs the week before Hallowe… Umm… Before Pão Por Deus (Portuguese All Saints Day tradition which is gradually getting crowded out by American Halloween), but my forehead is barely a finger’s width, and here I am the day after, writing the first text in a series… Look, to cut a long story short, I made a commitment in another place to write one text about witches per week for the next six weeks. Don’t ask me any more questions, okay? OK, let’s do this! Today we’ll cover the first region in Lola Ramos’ work.
According to Professor Google, Melgaço is the northernmost town in the country, near the border with Galicia (a part of north-west Spain where they speak a language very similar to portuguese). The region is rich in legends, among which is the myth of the “meigas,” or “Border Witches.” Some believed they were soulless supernatural beings, capable of transforming into women or animals such as snakes, and that they wished to steal the lives or souls of their victims. But there are also people with more prosaic imaginations who believe that witches were normal women who practiced the pre-scientific medicine of pagan tradition and, as a result, found themselves under the scrutiny of the Catholic Church, which practiced its own pre-scientific rituals!
Wikipedia adds more prosaic clues by way of background: The river in that area is dangerous because of the rapids and the lack of a bridge, therefore travellers often ended up dead, drowned in the river, and the inhabitants of the region blamed the witches instead of nature and the reckless behaviour of the recently deceased!
The legend rarely appears in ethnographic studies about the Portuguese, but it is more common among the Galicians. Both groups agree that the best strategy for anyone wanting to cross the river near Melgaço or its neighboring village, Arbo, in Galicia, is to place a pebble or a coin in their mouth. That way, the traveler won’t forget to keep their mouth closed when encountering the witches.
Esta expressão, muito cedo no “Viagens Na Minha Terra”, chamou-me a atenção porque já escrevi um blogue sobre uma música dos Deolinda que contém quase as mesmas palavras. E eu estava como…
Estou perplexo com o comportamento do corretor ortográfico FLiP. Escrevo a Expresso “De vez em quando” hum… quando me apetece, mas o corretor o odeia. Perguntei à boa gente do Reddit mas responderam que não é nada surpreendente porque o corretor não sabe a quem ou por quê escrevo, portanto dá conselho sobre o tom da minha escrita. Mas… É inconsistente. No seguinte texto, por exemplo, usei muita calão e informalidade, contudo a única frase sublinhada é “de vez em quando”!
Lazily recycling a question I asked in another place and turning it into a blog post to help me remember
Xavier de Maistre, author of “Voyage autour de ma chambre” approves of this blog post
Logo na primeira página do meu livro (Viagens Na Minha Terra de Almeida Garrett) o autor coloca a seguinte frase. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal Graças ao Google, já sei o que é murta* e quem foi Xavier de Maistre mas ainda não faço ideia de porque o autor escolheu o imperfeito do conjuntivo neste contexto. Podes explicar sff?
Segundo os portugueses (e um brasileiro) que responderam, Garrett está a construir uma situação hipotética. “Que”, neste contexto, está a funcionar como “se” ou “caso”, portanto precisamos do conjuntivo.
Noutras palavras, Embora Xavier de Maistre tivesse escrito o seu livro dentro do quarto, se estivesse em Lisboa nos dias do Garrett, iria ao quintal dar uma vista de olhos à beleza das laranjeiras e a murta a florescer nos campos**.
*It’s a plant – a kind of myrtle – if you want to know.
**Thanks to u/yangruoang for paraphrasing the sentence: I have paraphrased his/her paraphrase as an exercise for myself, and if I have introduced any errors, they’re my own, but basically rewriting it helped me understand the whole thing a lot better