Notícias de há 300 anos. Fala da Gazeta de Lisboa ocidental. Notícias de Portugal e da Europa. Em 1724, Lisboa era 2 cidades. Achaõ com um ~ no o. Notícias sobre a família real. Hoje é o Diário da República no qual são publicadas todas as leis do país.
Brief resumé of Portugal’s favourite one-eyed son. This is an exercise in summarising a longer text from Português em Foco.
Luís de Camões
Existe muita incerteza sobre a vida deste poeta mas tanto quanto podemos constatar, nasceu nos anos vinte do século XVI e pertencia à pequena nobreza.
Estudou filosofia em Lisboa. Lutou em Ceuta, onde perdeu um olho. Em 1547, passou 3 anos em Constância para escapar às consequências de ter ofendido uma dama da corte.
Tendo regressado para Lisboa, ficou preso por mais uma ofensa (a cultura do cancelamento já estava em curso!) mas foi libertado após um ano, em 1553.
Nesse ano, partiu para Goa para escapar à vida alfacinha. Ali, pensa-se que Camões começou a escrever os Lusíadas. Não estava feliz em Goa, portanto viajou em seguida para Macau onde trabalhou como provedor-mor dos defuntos e continuou a escrever a epopeia.
Durante a viagem de volta para Goa o navio naufragou perto do Vietname. O poeta salvou o seu manuscrito mas deixou afogar a sua amante, Dinamene, numa vitória da arte contra o cavalheirismo.
Voltando para Lisboa, com as mãos a abanar, após 16 anos de exílio, o poeta publicou os Lusíadas em 1572, dedicando-o ao D.Sebastião.
Apesar da tença anual paga pela coroa em reconhecimento da sua obra, Camões viveu os seus últimos anos doente e empobrecido.
Quando morreu em 1580, um amigo, filho de um nobre e apreciador de literatura, mandou escrever um epitáfio na campa rasa do poeta “Aqui jaz Luís de Camões, príncipe dos poetas do seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu.”
As minhas redes sociais estão sobrelotadas de histórias, vídeos e textos sobre o fenómeno de pessoas no supermercado Mercadona em Espanha e em Portugal, a aproveitar a “hora de engatar“. Para participar, basta entrar na secção de vinhos entre as 19:00 e as 20:00 com um ananás de pernas para o ar no carrinho.
Ou… Talvez não?
Acho que este boato começou como uma piada mas o supermercado, e até os seus concorrentes, como por exemplo, o Lidl estão a usar a história para cultivar relações públicas…
Ouvi uma versão desta canção recentemente no canal de David Antunes + the Midnight Band, que é sempre uma fonte de maravilhas e o desempenho neste caso é mesmo esmagador, uma vez que é tocado quase exclusivamente em instrumentos infantis (o vídeo está debaixo da tabela de letras nesta página) O original saiu em 2012 e foi lançado por Sebastião Antunes e Quadrilha. O Sebastião não é um familiar do David apesar de os dois partilharem um sobrenome, mas o David tocou várias vezes a canção ao vivo nos seus próprios espetáculos e o Sebastião até apareceu no canal do David também.
A música teve muito sucesso e (tanto quanto sei) muita gente gosta dela. A versão original é invulgar por incluir uma gaita de foles. O meu pai sabia tocar a gaita de foles escocesa e por isso estou predisposto a gostar a canção apesar de me sentir por outro lado dum abismo cultural de cem milhas de largura.
Português
Inglês
Deram-me uma burra Que era mansa que era brava Toda bem parecida Mas a burra não andava A burra não andava Nem prá frente nem pra trás Muito lhe ralhava Mas eu não era capaz Eu não era capaz De fazer a burra andar Passava do meio dia E eu a desesperar E eu a desesperar Ai que desespero o meu Falei-lhe no burrico* E a burra até correu
They gave me a donkey That was tame and that was wild Everything seemed fine But the donkey wouldn’t move The donkey wouldn’t move Neither forward nor backward I yelled at it a lot But I couldn’t I couldn’t Make the donkey move It was after midday And I was in despair And I was in despair Oh, I was in such despair I told her about the (male) donkey And it even started running
*This seems to be disputed. When I first wrote this I copied the lyrics from A Música Portuguesa and it says “falhei-lhe”. It seems like that version appears on quite a lot of pages dotted around the web, but I am reliably informed that the non-h version is the right one, so there you go!
Os habitantes de Lisboa foram acordados na madrugada do dia 26 de Agusto por um sismo de magnitude 5,3 da escala de Richter. Felizmente este não derrubou a cidade inteira como aconteceu em 1755, provocando incêndios e desencadeado um tsunâmi. No entanto, em vez de 10 mil mortos, temos uns memes fixes. E olha: livros por ler! O famoso LPL!
Carolina Deslandes is definitely growing on me. Her lyrics seem really well-crafted. Her voice doesn’t have the earth-shattering power of Sara Correia (the last portuguese singer I went to see), but she’s a different kind of singer and her voice works for the kind of music she’s making. I really like this one.
When I found the lyrics I saw they had transcribed it with “luta” in place of “puta”. You can find videos of her singing it that way on Rádio Comercial, but this video is bleeped out and I’m pretty sure they wouldn’t have bleeped luta, so I’m changing it back to what I think must be the original. Como é Linda a Puta de Vida is the name of a book by Miguel Esteves Cardoso, and I don’t know if she pinched the line from him or if it has older roots.
Português
Inglês
Esfolar os joelhos A achar que sabia voar Ignorar os conselhos Que no fim nos iam salvar
Skinning your knees And finding you don’t know how to fly Ignoring the advice That would save us in the end
Ser abandonada Não ter onde arrumar o amor Não querer saber de nada E saber-te ao pormenor
Being abandoned Not having a place to put love Not wanting to know anything And knowing yourself in detail
Como é linda e caótica A puta da vida, amor Vê lá bem a nossa sorte Vê lá bem o nosso azar Como é linda e caótica A puta da vida, amor Viver a fintar a morte Hoje saímos pra dançar
It’s so beautiful and chaotic The bitch of life, my love. Just look at our good luck Just look at our bad luck It’s so beautiful and chaotic The bitch of life, my love. Living to trick death Today we’re going out dancing
Partir o coração Dar razão a quem nos avisou Uma desilusão Uma ferida que nunca sarou
Breaking your heart Proving the people who warned us right A disappointment A wound that never healed
Ser traído, chorar Desatar os nós da garganta Querer esquecer e lembrar Quando a saudade é tanta, tanta
Being betrayed, crying Untying the knots in our throat* Wanting to forget and remember When there’s so, so much longing**
Como é linda e caótica A puta da vida amor Vê lá bem a nossa sorte Vê lá bem o nosso azar Como é linda e caótica A puta da vida amor Viver a fintar a morte Hoje saímos pra dançar
It’s so beautiful and chaotic The bitch of life, my love. Just look at our good luck Just look at our bad luck It’s so beautiful and chaotic The bitch of life, my love. Living to trick death Today we’re going out dancing
* Um nó da garganta is what english speakers would call “a lump in the throat”, so she’s talking about grief, panic or some other strong emotion
`**Should I even be translating “saudade” at this point?
Ouvi falar do Quinto Império há muito tempo numa conversa com uma estudante de português que conheci no Insta, mas não pensei mais nele até recentemente quando traduzi o “A Vida na Estrada” dos Diabo na Cruz que se refere à ideia. Ainda mais recentemente, o nome de Padre António Vieira, (autor do Sermão de Santo António aos Peixes) surgiu numa aula, e aquele clérigo foi o divulgador principal do Império, portanto decidi resgatar este texto da pasta de rascunhos onde jaz desde 2022!
Visão de D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique (c.1665), Por Frei Manuel dos Reis – MatrizPix, Domínio público
Mas afinal, o que é o tal Quinto Império? Eis um Resumo da página de Wikipédia:
O Quinto Império é uma crença milenarista que fazia parte da mitologia do país durante a expansão do seu império ultramarino, e emprestou legitimidade e apoio religioso a esta fase de conquista. Foi construído a partir de textos anteriores, principalmente o mito das três idades promulgado pelo monge Joaquim de Flora e teve como origem o livro do Daniel, onde aquele profeta viu uma estátua com pés de barro e, apesar de ser composta de várias metais, os pés eram vulneráveis a uma pedra atirada por um inimigo. Segundo o Padre, cada parte da estátua representa um império do mundo antigo e o Império Português seria a pedra que derrubaria tudo, sendo o quinto e último império que duraria durante mil anos, estabelecendo a paz por todo o mundo e realizando a vontade de Deus.
É quase indispensável para um novo reino expansionista ter uma ideologia forte para motivar os seus funcionários e soldados
Os três pilares do movimento são os seguintes
O estabelecimento da nação portuguesa após a Batalha de Ourique*, supostamente com a ajuda de Jesus Cristo e o Anjo Custódio de Portugal (o assim chamado Milagre de Ourique). Isto seria a pedra descrita no texto supra.
O messianismo de Gonçalo Annes Bandarra, ligado à obra do historiador D. João de Castro, inventor da ideia da “Quinta Monarquia”
A restauração portuguesa sob a liderança de D. João IV após o desastroso período de domínio espanhol que se seguiu à morte de D. Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir e cujo resultado foi a crença que o novo rei restauraria a glória de Portugal e seria a cabeça deste novo império.
Este mito persistiu e serviu como pano de fundo d’A Mensagem, uma coletânea de poemas da autoria de Fernando Pessoa. Já li estes poemas sem preparação mas acho que é um livro que precisa de mais conhecimento do contexto histórico e cultural.
*Sou burro, eu sei, mas este nome “ourique” lembra-me da palavra ouriço, portanto imagino esta batalha como um exército de porcos-espinhos a lutar contra os mouros para a glória de Portugal e um grande cozido de minhocas e besouros.
Following yesterday’s blethrings about someone else’s sonnet, Português em Foco was like “OK, so why not try one yourself?”
Happy to report the number of errors was pretty low, which is a relief, because it would have been hard to correct without knackering the syllable count! Thanks as always to Cristina for helping weed out the mistakes.
Os anos passam, a vida avança, Piso sempre esta minha trilha, Olho com saudades a maravilha Desta, minha sempre-crescente pança.
Estamos neste baile, então, dança Até perderes uma sapatilha. Tu és a minha única filha Ainda que já não sejas criança.
És mulher, cada dia mais capaz Mais bela e forte do que toda a gente Igual ao teu pai, brilhante e sagaz.
Segue os teus sonhos. Por mais que tente O tempo nunca anda para trás Então, filha, vive e anda em frente.
Há um capítulo do Português em Foco que explica alguns pontos altos da literatura portuguesa. Um destes pontos altos é o Soneto. Esta forma de poesia é conhecida tanto em inglês quanto em português. Shakespeare escreveu muitos e neste exemplo o seu primo zarolho, Luís Vaz de Camões* também escreveu. Creio que tem mais influência em Portugal, Não tenho nenhuma perícia neste campo mas não acho que houvesse poetas famosos a escrever sonetos em Inglaterra no início do século XX. Em Portugal, sim**.
Um soneto consiste em 14 versos*** arranjadas em quatro estâncias – duas quadras e dois tercetos. Cada verso tem 14 decassílabos. Que raio é um decassílabo? Não faço a mínima ideia mas 14 deles é igual a dez sílabas. Neste exemplo, a rima segue um padrão: ABBA ABBA nas quadras e CDC DCD no tercetos (assinalado acores no transcrito infra), mas este padrão não é obrigatório. O poema “Rústica” de Florbela Espanca que memorizei em 2021 e que tentei, com o hubris dos ignorantes recitar ontem numa aula porque não tinha feito o TPC é um soneto mas corre ABAB ABAB CCD EED.
A forma poética é importante; o autor do livro afirma que “estamos perante um soneto perfeito” por causa do modo em que o poeta distribui os conteúdos pelas estrofes de maneira que cada estância tem o seu próprio tema.
O título do soneto é igual ao primeiro verso:
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (Times change, intentions change)
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança: Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança: Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto.
E afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto, Que não se muda já como soía.
*Obviously joking about their being cousins but this made me wonder if they were contemporaries. Sort of. They overlap by 16 years. Camões was about forty years old when Shakey was born.
**I don’t think I’ll be writing a history of anglo-lusitanian poetry anytime soon though, so definitely take this with a pinch of salt!
***OK, well here’s the first false friend for you: Verso doesn’t mean verse, it means a line of the poem.
Provavelmente já falei nisto num texto anterior, mas estou fascinado e chocado pelo facto do verbo “falar” ser, às vezes, um sinónimo de “dizer”. Este significado da palavra é comum pelo outro lado do Atlântico onde se diz
“O ex-presidente Bolsonaro é um energúmeno” falou a minha avó, e todos nós concordámos. *
mas existe em Portugal também. É raro: vislumbramo-no ao largo, como um gambozino a brincar na floresta, mas existe mesmo. Tanto quanto sei é mais usado por tugas mais velhos…? Ou talvez seja um regionalismo? Não tenho certeza. De qualquer maneira, uma vez entrei em diálogo com um jovem que negou a existência disto e eu, sendo teimoso, tentei explicar o seu próprio idioma ao rapaz.
Ouvi um exemplo hoje de manhã neste episódio do podcast Guerra Fria. A partir dos 7:30, José Milhazes diz o seguinte: “É verdade. Boris Johnson falou de tal maneira que os analistas, principalmente na Ucrânia consideram que se tratava do plano de Trump. Boris Johnson veio dizer que não; que é opinião pessoal dele, mas, grosso modo, o Nuno já FALOU que para compensar Putin pelo recuo dessas… Para o recuo*** para as fronteiras de 22 Fevereiro 2022 serão […] serão cedidas a Putin a Crimea parte de Donetsk e Lugansk”
*Este texto é apenas para ilustrar o uso do verbo. Não é um texto brasileiro autêntico. Se fosse verdadeiro, não tinha o acento em “concordámos” nem o artigo definido antes de “minha avó” e… sei lá mais o quê
**Might not be the right word but I’m sure it’s what he says.
AND JUST TO BE SUPER-CLEAR It’s very rare for portuguese peeps to use falar this way, it’s usually a brazilian thing. It’s good to know this exists so it doesn’t flummox you if it comes up in conversation but I definitely wouldn’t suggest using this yourself, because people will just think it’s a mistake.