Tenho uma cunhada que se chama Natércia, e eu, que não tenho noção, achei que era equivalente a Natasha, ou Natalie, mas há uns dias a minha esposa partilhou este vídeo do linguista Marco Neves. Ela disse-me que a mãe delas explicou a origem quando eram jovens mas eu não fazia ideia!
E eis o poema (ou pelo menos um poema, talvez haja mais!)
Na metade do Céu subido ardia O claro, almo Pastor, quando deixavam O verde pasto as cabras, e buscavam A frescura suave da água fria.
Com a folha das árvores, sombria, Do raio ardente as aves se amparavam; O módulo cantar, de que cessavam, Só nas roucas cigarras se sentia.
Quando Liso Pastor, num campo verde, Natércia, crua Ninfa, só buscava Com mil suspiros tristes que derrama.
Porque te vás de quem por ti se perde, Para quem pouco te ama? (suspirava) E o eco lhe responde: Pouco te ama.
O que mais me chamou a atenção neste vídeo é que o meu irmão, sempre que envia cartas natalícias à minha esposa escreve o nome dela “Caterina” e eu digo “ó rapaz” (é mais novo do que eu: um menino com 51 anos) “ó rapaz, escreve-se…”
“Colin, why are you ranting in portuguese” retorque ele
“Oh sorry” digo “I mean it’s spelled C-A-T-A-R-I-N-A, you silly sausage”
Mas já sabemos que o nome era escrito com “E” antigamente, portanto ainda que ele erre, erra com o grande Camões, em vez de ser certinho com o seu irmão mais velho.
Escrevi um texto sobre Ju Jitsu Brasileiro há algum tempo mas mais recentemente ouvi falar de uma arte marcial portuguesa chamado Jogo do Pau. O meu primeiro encontro veio na forma deste vídeo louco. Pelos vistos o jogo é divertido e energético. Não negar as suas competências ainda que o efeito é ligeiramente cómico. Até consigo imaginar um grupo destes senhores a vencer uma banda de homens armados de espada, com sorte e disciplina, mas duvido que os mesmos seriam capazes de defender a aldeia se os americanos chegassem em helicópteros para raptar o presidente da câmara municipal.
O jogo de pau é igualzinho às artes marciais mais famosas no sentido de ter sido desenvolvido para defender contra um inimigo armado quando os portugueses não tivessem armas próprias, ou por falta de dinheiro ou porque tinha sido desarmados pelo atacador. Hoje em dia existem poucos praticantes mas deparei-me com este vídeo no qual um mestre da arte fala da sua missão revivificar o jogo do pau e reintroduzi-la ao povo como parte do seu património.
In no particular order and with no particular theme – I am just so addicted to blogging that I can no longer just write thing in a notebook like a normal person!
Este poema trata-se de um resumo da missão imperialista durante o reinado do El-Rei Dom João II. O marinheiro ao leme é confrontado por um mostrengo que representa os perigos do mar, mas supera o seu próprio medo em nome do povo português e em nome d’El-Rei.
O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; [breu=pitch, a component of tar – so “pitch dark”] À roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar, E disse: «Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tetos negros do fim do mundo?» [teto = AO spelling of tecto] E o homem do leme disse, tremendo: [leme = helm] «El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?» [quilha = keel] Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso, [imundo = filthy] «Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?» E o homem do leme tremeu, e disse: «El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu, Três vezes ao leme as reprendeu, E disse no fim de tremer três vezes: «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um Povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo, que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo; Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!»
Fernando Pessoa (1888-1935) In: Mensagem
D. João II e a construção do Estado Moderno. Mitos e perspectivas historiográficas
A professora explica como a nossa imagem do “Principe Perfeito” vai mudando ao longo do tempo. Em geral a sua carreira é associada com conflitos com outros políticos, principalmente da alta nobreza com objetivo da centralização de poder mas a sua figura é apropriada por diferentes correntes ideológicas.
Séculos XV-XVI
Chronica de el-rei D. João II (ca 1545) Garcia de Resende e Crónica de D. João II de Rui de Pina elogiam o rei e criaram uma imagem do defensor do povo e disciplinador dos nobres. Resende teve mais impacto devido às suas historias vívidas,
João de Barros (EM “Décadas na Asia”, 1552) e Damião de Góis (Crónica do Principe D. João, 1567) criticam Pina por omissões e tentam reescrever a narrativa, sobretudo sobre o seu papel na expansão e a justiça da condenação dos Bragança e Viseu. Regra geral, apoiantes dos nobres tendam a opor-se à mitologia
Séculos XVII–XVIII
Durante a dominação filipina (ou seja o reinado da monarquia castelhana) e a Restauração a figura de D. João II é usada para discutir o poder régio, a justiça e o absolutismo. D. Francisco Manuel de Melo e D. Agostinho Manuel de Vasconcelos) criticam a crueldade e precipitação dos seus atos em poder. Pedro Barbos Homem anda ainda mais longe, transformando o rei em modelo de anti-Maquiavel.
Com a chegada da dinastia Brigantina (ou seja os Braganças) o papel da monarqia
Século XIX
É no século XIX que nasce a imagem que domina os manuais escolares.
Alexandre Herculano culpa Dom João II por ter dado início á idade de absolutismo que levaria o país à decadência, abolindo a “idade medieval livre”. Ainda por cima, a lei das jurisdições foi, na opinião de Herculano, o ato que levou a cabo a destruição da liberdade pessoal Veja Cartas 4 e 5 em “Opúsculos”
Rebelo da Silva e Pinheiro Chagas reforçam a ideia da centralização ser uma mudança histórico de consolidação e racionalização de poder
Oliveira Martins retrata-o como modelo de cesarismo necessário para revivificar a força do país
Século XX
Os integralistas, seguindo o pensamento de Oliveira Martins, veem o rei como uma figura capaz de exercer poder sem restringir os direitos indivíduos, minimizam os efeitos da centralização. A divisa “Pola ley e pola grey” torna-se bandeira ideológica.
O Estado Novo, por seu turno, prefere figuras militares e fundadores como Dom Afonso Henriques. Reis que mandaram degolados nobres não serviram os seus objetivos ideológicos.
Historiografia moderna tenda a valorizar a narrativa da centralização mas o crescente poder régio não eliminar o regional, aconteceu apenas uma redefiniçao das limites do poder da monarquia face ao poder senhorial mas ao que parece a polémica não está a desaparecer.
O PRÍNCIPE PERFEITO – Miguel Torga
Um Príncipe Perfeito em Portugal, Terra da imperfeição! Que excessivo perdão Pode ter quem é rei! Na bainha do tempo, até o punhal É uma arma letal! Assim nela coubesse a alma que sujei… Perfeito, eu! Perfeito Um rei que desposava no seu leito O luto incestuoso da rainha! Perfeito, eu, que tinha Um herdeiro da esfera adivinhada, E o vi morrer, humano, Com asas de exaurido pelicano, Às portas da aventura começada! Perfeito, eu! Perfeito Quem viu agonizar dentro do peito A grandeza da vida e quanto fez por ela! Incapaz, a cobarde caravela Que mandei ao seu último destino, Desatado o nó cego, masculino, Que no sonho enlaçava A soberba cintura de Castela, -Que perfeição no mundo me ficava? Pensei, lutei, matei – fiz quanto pude, Mas em vão. A quem Deus não ajude, Tudo são índias de desilusão.
Miguel Torga, “Poemas Ibéricos” in “Antologia Poética”, Coimbra, 1981, pp. 146-147.
Devo prestar mais atenção às presidenciais, certo? Mas com o curso e o novo emprego, não tenho tempo livre. E se tivesse o direito de votar, esforçava-me, mas não tenho, portanto aqui estou a ler “Os Memoráveis” na sofá.
Por mais incrível que seja, existe um outro país na península Ibérica, cujo nome é Espanta ou Espanhel ou algo do género. E lá nasceu o realizador Pedro Almodóvar que criou filmes como “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” e “Tudo Sobre a Minha Mãe”. Mais recentemente, durante a pandemia, realizou uma curta-metragem de 30 minutos, chamada “A Voz Humana”. A atriz inglesa Tilda Swinton estreia nela. Mas porque é que estou aqui a falar sobre filmes castelhanos? Por causa do meu curso. O filme (em comum com “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”) é baseado numa peça de teatro francês, “La Voix Humaine” de Jean Cocteau, mas (ao contrário do MABDUADN) é maia parecido com o espírito da obra pela qual Cocteau foi inspirado: As Cartas Portuguesas.
O filme é muito diferente em termos temporais (tendo lugar nos dias que correm), e de comunicação (Mariana escreveu cartas, mas a Tilda fala ao amante através de um iphone com auscultadores, mas as emoções turbulentas das duas mulheres têm formas semelhantes: o desespero, a saudade, a súplica, mas no filme, a protagonista compra um machado para atacar o fato do ex-namorado e depois deita fogo ao apartamento antes de sair do prédio, do filme e da situação inteira.
Já falei várias vezes sobre as novas cartas portuguesas, os textos que foram censurados pelo novo estado por causa dos deus conteúdos feministas. Ainda não li mas a minha esposa tem-nos em casa.
Mas a presença daquele palavra “Novas” é uma pista de que existem outras cartas, mais velhas. E existem mesmo. As Cartas Portuguesas, também conhecidas por “Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa” (disponível online aqui e em livrarias também!) Apareceram na França em 1669, e foram atribuídas à Sóror* Mariana Alcoforado, uma freira que era ainda viva mas apesar de ser capaz de confirmar ou negar a autoria, existem muita polemico em turno da autenticidade. Foram inventadas? Alteradas? Genuínas?
Por PS. – Cartas de amor ao cavaleiro de Chamilly, Domínio público
Mariana nasceu em 1640 e foi obrigado entrar num convento como freira com onze anos apesar de não ter nenhuma inclinação religiosa. Que horror. Pois, naquela altura o país era em plena guerra de restauração contra os espanhóis, e lá seria salva, mas ainda assim, acho que não é um lar apropriado a uma rapariga daquela idade. EM 1660, com vinte anos, o seu olhar cruzou-se com o de Noel Bouton, um jovem oficial francês e os dois apaixonaram-se. Logo o amor foi descoberto. Havia um escândalo, e o francês voltou para França, temendo o poder da família dela. No seu desespero, cheia de saudades, a jovem Mariana, segundo a lenda, escreveu cinco cartas de amor que formam o conteúdo do panfleto. Segundo a Wikipedia as cartas, “contam uma história sempre igual: esperança no início, seguida de incerteza e, por fim, a convicção do abandono.”
As cartas acabaram num livro e ainda por cima em francês. Que vergonha. Não se sabe como as cartas se encontram nas mãos da editora, nem se são genuínas. Foram publicados em francês, mas há quem creiam que existem vestígios de sintaxe português na estrutura do texto. Ainda assim, existem muitas dúvidas. Os escritores Camilo Castelo Branco e Alexandre Herculano por exemplo, negaram a autoria da Mariana, dois séculos depois!
Após a publicação, as cartas foram tão comovente que influenciaram a cena literária durante muito tempo, e pôs em andamento uma indústria de escritores de cartas fabricadas – assim dito respostas de Bouton, outras cartas de outras freiras…
*Sóror isn’t part of the name of course, it’s an ‘apelido’ given too nuns.
Esta música faz parte da peça de teatro brasileira, “Cartas Portuguesas, baseada na vida de Mariana Alcoforado
Incrível! O livro é “Uma Aventura na Madeira”. Adoro quando escritores de livros infantis e juvenis usam palavras fora do normal. É mil vezes melhor do que fazer tudo fácil, sem desafio, sem abrir os olhos do leitor.
Comecei este livro no outono de 2024 e fiz uma pausa durante mais de um ano antes de terminar. É incrível! Como sempre, grande parte da ação tem lugar em sítios verdadeiros e as autoras explicam algumas coisas sobre os factos da zona onde os jovens estão. Mas este livro é mais divertido do que os outros que já li na série. Ri em voz alta. não me admira que os livros tenham tantos fãs.
If you click the link above, it’ll take you to Wook, but if you don’t want to pay postage, you can get it cheaper on Kobo and read it on your phone or tablet device for a lot less. I read this on a phone and it’s pretty easy to do. Takes a few hours and it’s a solid school-age read. -> Here’s Uma Aventura Na Madeira and the whole series.
Acho que já falei do meu espanto ao ver, pela primeira vez, a expressão “El-Rei” para designar o rei de Portugal. Recentemente fiz uma pergunta no reddit para esclarecer uma dúvida mais específica.
——-
Acabo de ler uma peça de propaganda fascista (!) A História da Grande Batalha de Aljubarrota, publicado pelo Estado Novo em 1939. Claro que é muito patriótico, e este sentimento manifesta-se principalmente contra os castelhanos que ousam pisar a terra portuguesa. É interessante ver as diferenças entre as versões da lenda, mas neste caso o que mais me chamou a atenção é que a escritora refere à figura de Dom João I como “El-Rei”. Ora, já sabia que El-Rei é muito usado em contextos monárquicos, mas neste caso específico… O motivo da batalha é negar a pretensão, por parte da monarquia espanhola, de absorver Portugal no seu território. Então porque é que usam um termo tão obviamente emprestado da língua espanhola, e que contém um pronome espanhol, para designar o monarca do país que quer afastar-se da Espanha?
Não duvido que haverá uma explicação que terá a ver com a cultura ou com a etimologia da palavra mas não estou a ver. Pode alguém explicar sff?
Recebi uma explicação que falava da etimologia da palavra no século XIV. Eu voltei à carga porque todas as palavras no dicionário mudaram a etimologia desde então tirando esta. Já suspeitava que este assunto poderia chatear a gente mas a minha curiosidade é irreprimível…
Hm… Sim, mas o livro foi escrito em 1939 e a maioria das palavras tinham mudado a sua ortografia entre o século XIV e o século XX. Creligo já é clérigo*, mas El rei não é O rei. O propósito da série da qual fez parte era fomentar o patriotismo por parte dos cidadãos. Surpreende-me que, sobretudo neste contexto muito específico, a autora manteve a tradição de “rei” ser a única palavra que leva o artigo El.
Enfim, alguém recomendou este vídeo no Youtube, gravado por Marco Neves que sabe algumas coisas sobre a língua portuguesa,
Na verdade, acho o “fóssil” surpreendente, mas não deve espantar ninguém porque… olha a minha língua. Nós ingleses lutam contra os franceses mais do que qualquer outra nação, mas a nossa monarquia é “the royal family”. Royal é enraizado na francês normanda “roial”. Apesar de sermos enlouquecidos pelo brexit, temos uns vestígios linguísticos continentais no nosso dicionário também.
*This is a reference to something somebody said about Clérigo having once been spelled Creligo which, it was implied, was closer to another language but I have tried to find out more and I can’t so I wonder if it was a typo….
Este livro ficou para ler após a unidade curricular sobre a padeira de Aljubarrota, e já acabo de ler. É interessante por várias razões. A ortografia é muito diferente do que a de hoje (veja por exemplo o texto de ontem!) mas também vemos como a história é contada, realçando os aspectos que o contador quer reforçar na mente do leitor. Especificamente, nesta versão El-Rei Dom João I e o seu Condestável, Nuno Álvares Pereira vão visitar a padeira antes da batalha e ela fala muito da sua raiva contra os espanhóis que ousam pisar o chão bendito da sua terra, e declara a sua lealdade ao trono português. Evidentemente a ditadura queria educar os seus cidadãos nesta espécie dE patriotismo (apesar de Portugal já ser República!) Também omite o pormenor mais assustador da história: quando a padeira cozinha os espanhóis no forno com o pão de chouriço. Não me admira que não quisessem criar uma geração de filhos com imagens mentais tão horripilantes!
Ora bem, eu conheço os prejuízos do governo que lançou este livro, mas convém lembrar que todos os autores têm os seus próprios prejuízos, embora não sejam tão óbvios. É fácil imaginar uma versão deste história que enfatizar o papel da padeira como mulher independente e feminista, ou como representante do poder da classe operária, ou como empreendedora que queria defender o seu negócio contra uns criminosos, o seja ou que for. Sem perceber, absorvemos essas mensagens ao longo dos anos. Não é bom, não é mau, mas convém lembrar de vez em quando…
(if you’re interested in reading this book… Well, you can buy it, but it’s super-small and I have a copy that I downloaded and printed off the Internet. I can’t find the link, but it’s out there somewhere, so have a Google, you might save yourself a few quid)
I’m on The Storygraph now so of course when I review it there I had to add trigger warnings…