Writing this in a hurry. God, how am I more busy now than when I was studying for an exam and training for a marathon? Has someone broken the space time continuum?
Anyway, that’s by way of saying expect errors…
Fui com o meu irmão mais novo ao Arena O2 no leste de Londres para assistir a uma celebração da vida e da obra de Neil Innes que faleceu há cinco anos. Neil Innes era membro dos Bonzo Dog Band e escreveu várias canções para a série Monty Python’s Flying Circus nos anos sessenta. Portanto havia músicos e humoristas da sua geração (com oitenta e poucos anos) e da minha (cinquenta ou sessenta) ou ainda mais novos, por exemplo Isabella Coulston, uma menina com… Sei lá… Menos do que trinta? Bebemos cerveja e assistimos ao Sempre-mudando elenco de gigantes no palco. Michael Palin e Terry Gilliam fizeram Karaoke com as canções do Monty Python and the Holy Grail, Emo Philips contou umas anedotas surrealistas, Roger McGough leu dois poemas, Adrian Edmundson cantou, e músicos de vários países tocaram as canções do falecido. Outros famosos, como Rick Wakeman, Aimee Mann e Stephen Fry enviaram mensagens de vídeo.
No final da noite o elenco inteiro cantou a canção mais famosa do Innes, o Urban Spaceman, e a esposa dele falou sobre uma carreira que abrangiu 6 décadas.
Quando saímos da sala de concertos, estávamos rodeados por uma multidão. O nosso concerto passou-se no O2 Indigo (uma sala pequena no O2) mas, ao mesmo tempo, havia um concerto da Charlie XCX, com milhares de jovens fixes, vestidos de verde, por todo o lado. Estavam muito felizes, e a atmosfera na fila de espera na estação estava descontraída, apesar de estar sobrelotada de adolescentes a usar vapes de vários sabores nojentos.
I’ve known this song for years but I never appreciated how great it was till I heard Kevin Eldon absolutely murder it. I love him but there’s a reason that man’s an actor not a singer I tell you.
O meu irmão voltou para Preston hoje de manhã. Temos passado mais tempo juntos neste ano desde a morte do meu pai que também era fã do Innes.
Pela segunda vez neste mês, encontro-me sentado à mesa a escrever uma opinião sobre um livro mas com mais vontade de escrever sobre as circunstâncias da leitura em vez do seu teor.
Deixem-me explicar: este é um Audiolivro mas li-o na aplicação da Bertrand e a app da Bertrand é um verdadeiro monte de merda. De vez em quando, fecha-se inesperadamente e quando se reabre, a app esqueceu-se de onde ia. Isto aconteceu centenas de vezes.
Como resultado, li grande parte do livro mais do que uma vez, provavelmente saltei uns parágrafos e perdi (a) o fio à meada e (b) a minha vontade de viver.
Nada disto é culpa de Saramago, mas ainda assim, responsabilizo-o por ter escrito um livro que acabou por me causar tanta dor. Passou a ser o meu inimigo.
O livro não é típico da obra dele. Escreveu-o em 1947, e foi publicado sob o título d’A Terra do Pecado. O estilo idiossincrático de Saramago não se tinha ainda desenvolvido. O enredo, as frases e a voz autorial, todos fizeram-me lembrar dos poucos romances do século XIX que já li. Um Eça de Queirós ou um Camilo Castelo Branco.
Anteontem, enquanto estava na horta comunitária, coloquei umas coisinhas na pilha de compostagem: cascas de ovos, cascas de batatas, uma banana preta, uns saquinhos de chá e borras de café. Depois, fui buscar água para ensopar tudo. Quando virei em direção ao regador, ouvi um som atrás de mim, dentro do contentor de compostagem. Não pensei muito no som, mas quando cheguei ao contentor novamente, vim a perceber o que era que tinha feito o som. Uma ratazana aterrorizada saltou da compostagem, voando pelo ar, passando a 15 centímetros do meu braço direito e desapareceu a correr por um buraco ao fundo da cerca. “MuaAaaaAAAUAaehaeHee” disse eu, num perfeito sotaque lisboeta.
Acho que a criatura fofinha viu uma oportunidade de comer as delícias que acabei de despejar lá dentro, enquanto as minhas costas estavam viradas. E havia indícios da sua atividade noutros lugares; dentes de alho com marcas de dentes de rato, bulbos de narcisos e tulipas, desterrados e abandonados por todo o lado. Que chatice.
Mas apesar do susto, a vantagem deste horror é que descobri o buraco por onde entrava, e já está bloqueado com palha de aço, com uma tábua no lado dentro e uma pilha de terra no lado fora.
Acabo de ouvir um vídeo sobre o videojogo Fallout 4, enquanto fazia o pequeno almoço. O narrador fallout sobre… Hum… Falou sobre vasculhar em ruínas e casas abandonadas em busca da tralha da civilização do pré-guerra, com a qual consertar armas desgastadas, ou construir novos itens. Esta imagem de ser caçador de lixo é a metáfora que veio à mente enquanto Vascolei… Hum… Vasculhei na letra do Fado do Estudante à procura de novas palavras para colocar no Anki e, ao mesmo tempo, encontrei novas expressões interessantes:
Negra Sina – soa como uma expressão mas não é: o seu destino, ou o fim ao qual o cantor chegou é escuro… Ou se preferes “obnubilado” e nada mais.
Cabeça ao léu – significa “sem chapéu”, mas léu também significa “Ausência de preocupações ou de necessidade ou da vontade de trabalhar” portanto a expressão não foi escolhida completamente à toa, acho. No mesmo verso, “de capa ao ar” cheira a expressão idiomática, também, mas tanto quanto sei, não é. Não sei como interpretar a frase. Capa tem vários significados mas em contexto (perto da referência ao seu chapéu) tem de ser a peça de rouparia, certo? Está tão despreocupado que não repara no vento a soprar a sua capa??? Está a correr tão rápido em direção às raparigas que a capa flutua atrás de si? Adoro esta última imagem mas parece-me pouco provável porque o Vasco não tem o corpo de uma atleta ou um super-herói.
Sem me ralar – Ah, não percebi antes, mas este verbo é igual à expressão “não te rales” ou seja, não te chateies ou não te preocupes. Um ralador é uma ferramenta para picar queijo, cenouras e outras comidas mas “ralar-se” pode ter um significado mais figurativo: aborrecer-se. Noutras palavras, o Vasco nunca ficou farto de amar. Não me admira*.
É canja – “é fácil”. Em inglês, dizemos “a piece of cake” mas a equivalente em português é uma comida mais saudável! Já sabia disto, mas fui enganado pelo facto de “deixá-las eu” soar como “de chá, lazer”. A frase inteira soava como uma receita de uma vida relaxada: chá, sopa e descanso.
Traidora da franja – hum… Meu deus, quem me dera ter prestado mais atenção ao enredo. Suponho que está a referir a uma personagem do elenco. Mas quem? Enquanto canta a frase, desenha um rosto na parede** mas não é reconhecível. Tem uma franja, um olho e mais nada. Será que a “traidora” é Alice? Espero que não: ela tem uma franja, sim, mas Alice (Beatriz Costa) é mais bela, tem dois olhos e ainda por cima, está casada com o Vasco quando esta cena tem lugar!***
Tostão – uma moeda de pouco valor. Sem tostão = falido. “penniless”.
Batina – rouparia preta de um padre ou, neste contexto, a veste do mesmo estilo usada por estudantes de certas universidades.
Botas a rir – Estou a usar a imaginação aqui. Imediatamente após a referência às suas roupas rasgadas, suponho que o Vasquinho é tão pobre, mas tão pobre que as suas botas também estão ratas, com solas descoladas do couro em cima. Assim, o buraco entre a sola e o resto da bota parece uma boca a rir…? Não é inacreditável, pois não?
Bengalão – Não me lembro se o estudante usa uma bengala grossa****, mas esta palavra vem logo depois da assim mencionada “botas a rir”. Pode ser uma continuação da descrição (o feitio do buraco é curvado como a alça de uma bengala?) ou talvez o cantor simplesmente queira completar a imagem de si mesmo como o vagabundo criado por Charlie Chaplin poucos anos antes.
Afinar – Pode significar “tornar mais fino” mas suspeitava que também significa “ajustar o tom”, o que foi confirmado pelo Priberam. Ambos fazem sentido no contexto do verso, acho eu.
Tenir / Fugor – Não têm significados nenhuns. Quando cheguei a “fugor”, comecei a perguntar-me, “tratam-se de erros de digitação”? Fulgor (=brilho)? AHA!!!! Sim, as letras de ontem estavam incorretas! Raios partam! Há aqui uma versão que contém “fulgor” em vez de fugor e “tinir” em vez de tenir.
Então, que exercício profícuo! Aprendi muito e acrescentei mais 9 palavras à base de dados.
*I’m not rewriting this whole paragraph, but Cristina tells me the line is better understood as him saying he doesn’t think about the girls afterwards. “o resto são cantigas” is an actual expression, which has in turn been used as the name of at least one TV show.
**Há-de haver uma dissertação de um estudante de artes (carago!) sobre as raízes da arte dos grafiteiros portugueses tipo Vhils, Luísa Cortesão e Tamara Alves neste pequeno acto de vandalismo no maior clássico na história da cinematografia portuguesa. 😆
***Update, yes it is her, and she is being called a traitor because she’s changed him from his old gaddabout ways and made him settle down. Mate, count yourself lucky. Look at her, and look at yourself. She’s waaaaay out of your league!
****Not just this student, it was part of the standard Coimbra student getup apparently
Vasco Santana is supposed to be a graduating student in A Canção de Lisboa, but he was actually 35 years old when they made it, so it’s all a bit Steve Buscemi…
Anyway, I decided to go back and listen to one of the songs again. I’m doing this one as a listening exercise rather than as a translation, because seeing that play on my first day in Lisbon reminded me that one of the difficulties of listening to old black and white films is that the quality of the sound recording means that a lot of the dialogue sounds muffled or flattened, so it’s quite challenging to follow. The songs are doubly hard because the words have to fit the rhythm of the music instead of normal speech.
Let’s see how much I can get purely by ear… I’ll put it in one side of a table then drop the real lyrics in next to it to show how far off I am.
NOTE – I’m leaving this as it is, but some of the footnotes and even the translation turned out to be wrong when I did a deeper dive into the song the following day, so if you want to know more about how that all happened, have a look at “Scavenging Song Lyrics”
My Transcription
Actual Lyrics
Que nem quer assim de ver-me assim Que só deve ir-me degradante Ai que saudade sinto em mim Do meu viver de estudante Nesse fugaz tempo de amor Que dum rapaz é o melhor É um audaz conquistador das raparigas De capo ao ar, cabeça ao ___? Só para amar vivia eu Sem ??? e tudo mais eram cantigas De nenhum delas me aprendi De cha, lazer e de canja Até o dia em que pareci Essa fragura de franja Sempre tenir(?)-se em tostão Bati um ___ ou um rasgão Botar _____ um bengalão E artes, carago! Invade o ar com outras mães E a dançar pelos areais P’ra namorar, beber, folegar, Cantar o fado Fora agora com soledade Os calhamaços que lia Os professores da faculdade Minha amiga dá-me tremia E ouve as minhas recordações Que não tem fim dessas lições P’ra o então jardim do velho campo da Santana Aulas que eu dava e estudasse Onde estava nesta classe E eu faltava sete dias por semana* O fado é toda a minha fé Embala, encanta e nevaria Ou chega a ser bonita até Na radiotelefonia Quando é tocado com calor bem atirado e a rigor É belo fado e ninguém há que o resista É a canção mais popular Tem emoção p’ra nos vibrar E eis a razão p’ra ser doutor e ser fadista
Que negra sina, ver-me assim Que sorte vil e degradante Ai que saudade eu sinto em mim Do meu viver de estudante Nesse fugaz tempo de amor Que de um rapaz é o melhor Era um audaz conquistador das raparigas De capa ao ar, cabeça ao léu Só para amar vivia eu Sem me ralar e tudo mais eram cantigas Nenhuma delas me prendeu Deixá-las eu era canja Até ao dia em que apareceu Essa traidora da franja Sempre a tenir, sem um tostão Batina a abrir, por um rasgão Botas a rir um bengalão e ar descarado A vadiar com outros mais E a dançar nos arraiais P’ra namorar, beber, folgar Cantar o fado Recordo agora com saudade Os calhamaços que eu lia Os professores da faculdade E a mesa de anatomia Invoco em mim Recordações que não têm fim dessas lições frente ao jardim No velho campo de Santana Aulas que eu dava e se estudasse ainda estava nessa classe A que eu faltava sete dias por semana O fado é toda a minha fé Embala, encanta e enebria Pois chega a ser bonito até Na rádio telefonia Quanto é tocado com calor Bem afinado com fugor É belo o fado ninguém há quem lhe resista É a canção mais popular Tem emoção faz-nos vibrar E eis a razão de eu ser Doutor e ser Fadista
*As the kids say, “literally me!”
Oof! Wow, I started this exercise about 3 weeks ago and have only just picked up the post and restarted. I think I must have given up because it was so disheartening to realise how little of it I could write down first time. The effect of my “palpites” is pretty surreal in places, because sometimes I am just transcribing sounds and not really being able to link them back to written words I’ve seen, so I was just inventing verbs left and right. Amazingly, one of them “Tenir” turned out to be real, although I don’t know what it means and neither does Priberam.
Obviously even when I did come up with a real word, I knew some of them must be wrong “E artes carago!” was clearly stupid, but I couldn’t hear it any other way. Others were positively surreal: “Invade o ar com outras mães” is a very fine example. But misheard lyrics are nothing new. I remember at secondary school thinking there was a Gary Numan song called “I’m a Plastic Bag” (It’s actually called “That’s too bad”) and there are whole blog posts and even sites dedicated to misheard lyrics, so I’m not too downhearted!
The fact that a lot of small words – mainly pronouns – escape my ears hasn’t helped. Mostly, I should have known better: the “o” in place of “lhe” in the third-from-last line, for example. But the most maddening one was the “se” in “Aulas que eu dava e se estudasse” was the key to unlocking the sentence. I knew something wasn’t right, because there was no reason for it to change from indicative to subjunctive like that so I should have guessed there was a se in there somewhere, and if I’d realised that I probably could have unfucked the rest of the sentence too. Ugh…
I decided to translate this for fun. It’s easy peasy, but that’s OK, I’m not in exam mode, so it’s nice to do one that’s not just enjoyable and doesn’t make my brain bleed. It’s a duet between Carolina Deslandes and Rui Veloso and I thought maybe it was a version of something he’d written, simply because the lyrics sound like they are said by a man (she says she’ll become a “cavaleiro” for example, although now I think of it, is there even a feminine form of cavaleiro?) Anyway, it’s not, he doesn’t even get a joint writing credit, so I’m glad I checked before just writing that! Their voices work really well together, don’t they? They couldn’t be more different, but it’s a nice contrast.
Português
Inglês
Amor o mundo quebra-te os sonhos Às vezes cai-te todo nos ombros Eu levanto-o inteiro por ti Eu viro o cavaleiro por ti Amor o mundo deixa-te ao frio Às vezes larga-te no vazio Eu pinto de todas as cores por ti Eu viro Leonardo Da Vinci por ti
Darling the world broke your dreams Sometimes it all fell on your shoulders I’ll lift it all up for you I’ll become a knight for you Darling, the world left you in the cold Sometimes it left you in the void I’ll paint all the colours for you I’ll become Leonardo da Vinci for you
Fiz-te um avião de papel Daqueles das cartas de amor Pra voarmos nele quando o mundo é cruel E não há espaço que chegue pra dor Fiz-te um avião de papel Daqueles dos quantos queres Pra voarmos daqui em lua de mel Pra te levar pra onde quiseres
I made you a paper plane One of those made out of a love letter So we can fly in it when the world is cruel And there’s not enough room for pain I made you a paper plane One of so many you want So we can fly from here to a honeymoon To take you wherever you want
Amor o mundo tira-te o ar Chega a proibir-te de dançar Eu danço as músicas todas por ti Eu viro bailarino por ti Amor o mundo fez-te mulher Mais cedo do que tinha de ser Eu faço o tempo voltar por ti Eu viro super-homem por ti
Darling, the world took away your breath It even prevented you from dancing I danced to all the songs for you I’ll become a dancer for you Darling, the world made you a woman Earlier than it had to I’ll make time go backwards for you I’ll become Superman for you
Fiz-te um avião de papel Daqueles das cartas de amor Pra voarmos nele quando o mundo é cruel E não há espaço que chegue pra dor Fiz-te um avião de papel Daqueles dos quantos queres Pra voarmos daqui em lua de mel Pra te levar pra onde quiseres
I made you a paper plane One of those made out of a love letter So we can fly in it when the world is cruel And there’s not enough room for pain I made you a paper plane One of so many you want So we can fly from here to a honeymoon To take you wherever you want
Fiz-te um avião de papel (Pois fiz) Daqueles das cartas de amor Pra voarmos nele quando o mundo é cruel E não há espaço que chegue pra dor Fiz-te um avião de papel Daqueles dos quantos queres Pra voarmos daqui em lua de mel Pra te levar onde quiseres
I made you a paper plane (of course!) One of those made out of a love letter So we can fly in it when the world is cruel And there’s not enough room for pain I made you a paper plane One of so many you want So we can fly from here to a honeymoon To take you wherever you want
Pra te levar Pra te levar Onde quiseres Onde quiseres
To take you To take you Wherever you want Wherever you want
Já li 75% deste livro mas… Eh pá, não acredito que estou a escrever isto… Fui assistir a um concerto dos Goldie Lookin Chain (estou aqui agora, mas o support act é chato, portanto aqui estou eu a escrever!) e li o livro no trânsito público a caminho para aqui… Mas… Que vergonha… Não há maneira fácil de dizer isto… Enfim… Fui à casa de banho e o livro caiu do meu bolso pela sanita abaixo.
Na verdade, não me importa assim tanto. O autor é um filósofo mas não estou acustomado ao jargão da especialidade dele: “fragmentação da subjectividade”? Pois é, pois é. Onde está o autoclimso?
Ah ah, estou a brincar, mas aquela espécie de escrita, muito abstrata e rarefeita, sem referência aos dados deixa-me insatisfeito, até em inglês. Experimentei o “sabor” do seu raciocínio mas não tenho vontade de ir buscar mais um exemplar para constatar a sua “conclusão”.
Bom, acho que os Gales estão quase a chegar. Vou publicar este texto sem revisão. Espero que seja aceitável!
Convém lembrar que ninguém consegue trabalhar sem pausa. Prescindir de descanso aumenta os níveis de stresse até estarmos prestes a saltar pela janela fora. Dito isso, a não ser que estude, vou chumbar no exame e logo vem aí a depressão, o sofrimento e a vergonha.
Tendo em conta estas duas conclusões desoladoras, larguei as canetas e, a partir da 1h30 da manhã do Domingo, escovei os dentes e deitei-me na cama com uma banda desenhada portuguesa. Pus-me a ler.
O Sentinel é a sequela do Watchers e é igualzinho: tem desenhos giros de uma Lisboa realista, no sentido de ter prédios, lojas e ruas idênticos à cidade verdadeira, mas também irrealista com elétricos voadores, e “bichinhos” (mini-girafas, hipopótamos pequeninos, elefantes de bolso) por todo o lado e árvores a irromper pelos telhados. Esteticamente, lembra-me de mais uma BD, a “Dog Mendonça e Pizzaboy”, que tem a mesma mistura de realismo, magia e humor.
O artista também tem o seu lado galhofa, como pequenos pormenores engraçados escondidos nos cantos dos quadrinhos. É claro que Luís Louro nasceu para desenhar BDs. Tem um jeito incontornável.
Então, que pena que a história não tenha pés nem cabeça.
Encontramo-nos num mundo futurista, em Lisboa, algum tempo depois dos eventos do primeiro livro. Os discípulos do “Sentinel” querem continuar a sua interpretação da sua missão por… Ora bem, não me lembro bem o primeiro livro, mas mexem nas vidas das pessoas com os seus drones de espiam-nas com as suas câmaras em prole da sua ideologia patética. Em suma, é uma chatice.
Certo dia a esposa de um homem morto no primeiro livro decide consertar o seu coração despedaçado por vingando-se da memória do Sentinel. Saca uma arma (De onde? Como? Sabe-se lá!), calça um fato de girafa (De onde? Como? Sabe-se lá!) e aprende as competências de um espião ou um agente do Serviço de Informações de Segurança* (DO? C? S-SL!). Em breve, mete-se em sarilhos mas conta com a ajuda de um bandido ucraniano que ela encontra durante um assassínio de um discípulo. Basicamente dá por ele porque está a tentar dar cabo de uns criminosos. Salva-lhe a vida. Ele quer retribuir o favor. A sua deformação profissional é exatamente o que ela precisa para continuar a matar os pilotos dos drones. Durante este tempo todo há uma espécie de coro grego na forma de mensagens numa rede social qualquer. Adoro isto. Não devia funcionar mas funciona mesmo contrariando todas as leis de Deus e do Diabo**.
Infelizmente, a vingança é um beco sem saída. Por fim, ela assassina um inocente a tiro e pinta o símbolo dela na parede com o seu sangue. Os dois ficam presos e temos de enfrentar a reviravolta mais rebuscada e mais parva de sempre.
Quando sair o terceiro tomo, espero que o autor largue as citações cinemáticas (bué cringe) e adicione mais uma semana de reflexão sobre o enredo e o diálogo, porque com mais investimento de tempo pode criar algo verdadeiramente impressionante.
*I should have just written it SIS but since it was followed by a string of abbreviations I thought I’d spell it out in full. Portuguese MI5, anyway.
**I originally wrote “de Deus e do Homem ” (all the laws of god and man!) but this is the actual expression, apparently. I was just being lazy and translating literally.
There’s no point messing with perfection, so I’ve updated the presentation from C1 but not really altered it much.
O meu nome é Colin. Tenho 55 anos. Sou escocês por nascimento mas quase sempre morei em Inglaterra. Estou casado com uma madeirense e temos uma filha com dezanove anos que é escritora. Sou consultor de informática. Gosto de correr. Não sou muito desportivo mas cheguei a uma idade na qual fiquei com uma escolha: ou correria para perder peso ou correria risco de infarto e outros problemas de saúde. A corrida é um desporto solitário e não sou fã de desportos da equipa, portanto a seleção da atividade foi fácil. Adoro correr logo de madrugada quando há pouca gente no parque, apenas veados, coelhos, pássaros e outros homens gordinhos de meia idade. Consigo pensar, ouvir um audiolivro, e ver o sol nas copas das árvores. Treino forte e feio para aumentar o meu desempenho, mas é difícil porque como bolos a mais. Em Outubro, participei na Maratona de Lisboa. Não batei nenhum recorde, mas foi um dia incrível.
Comecei a aprender português a sério em 2016, mas já tinha feito algumas tentativas esporádicas anteriormente. Embora a minha esposa fale inglês fluentemente, a sua tia não falava e eu queria comunicar com ela.
Pedi dupla cidadania em 2019, mas houve um problema por causa da minha residência outrora nos Estados Unidos e o processo foi por água abaixo durante a época da pandemia. Fiz um segundo pedido mais recentemente e estou à espera da resposta. Não gosto de voar e por isso, fui a Portugal poucas vezes, mas visitei Lisboa, Cascais, o Porto, Coimbra, o Algarve e a Madeira que é, sem dúvida o meu lugar favorito, e não só porque a minha mulher vivia lá!
Sendo um pouco introvertido, falo pouco com outras pessoas mas gosto de ler, e isso, para mim, é o meu principal contacto com a língua portuguesa: leio muito. Há uma citação de Fernando Pessoa que diz “A minha pátria é a língua portuguesa”. Identifico-me com este sentimento, porque estou a pedir dupla cidadania mas acho que passo mais tempo a ler livros portugueses do que passei no país. É uma situação invulgar.
Às vezes, quando comecei, custava-me muito ler livros como “Bichos” de Miguel Torga (que tem muito vocabulário desconhecido que tem a ver com a vida bucólica), “A Costa dos Murmúrios” de Lídia Jorge (cujo estilo é um pouco denso) ou os livros do João Reis, que é um autor moderno e muito simpático (falamos no Instagram de vez em quando), mas achei o seu humor difícil de entender. Mas fui melhorando pouco a pouco e, nos dias que correm, é raro perder o fio à meada. Até me apetece voltar a ler alguns livros que li há anos e mal entendi. Leio qualquer espécie de livro: adoro os livros de Ricardo Araújo Pereira, de Miguel Esteves Cardoso, de João Tordo, e de Djaimilia Pereira de Almeida mas também leio não-ficção: uma Biografia do Marquês de Pombal, a Brevíssima História de Portugal e vários ensaios sobre a língua, a história e a cultura do país. Também li um livro sobre a corrida, escrito pela atleta portuguesa Jéssica Augusto.
Sou membro da Sociedade Anglo-Portuguesa, a qual tem os seus encontros ali no outro lado da rua. É um bom método para ficar a par de aspetos da cultura, mas convém lembrar que existem muitas maneiras de nos encontrarmos com a cultura portuguesa em Londres: concertos de Fado, restaurantes, exibições de arte, como a de Paula Rego que decorreu no Tate há um ano, e até existem comediantes portugueses que montam espetáculos em Londres, porque como há tugas suficientes aqui eles encontram público disposto a ouvir comédia no seu próprio idioma.
Em resumo, pretendo viver uma vida interna que é meio portuguesa, mesmo que não fale muito.