
Esta expressão, muito cedo no “Viagens Na Minha Terra”, chamou-me a atenção porque já escrevi um blogue sobre uma música dos Deolinda que contém quase as mesmas palavras. E eu estava como…


Esta expressão, muito cedo no “Viagens Na Minha Terra”, chamou-me a atenção porque já escrevi um blogue sobre uma música dos Deolinda que contém quase as mesmas palavras. E eu estava como…

I definitely have to see this!
Estou perplexo com o comportamento do corretor ortográfico FLiP. Escrevo a Expresso “De vez em quando” hum… quando me apetece, mas o corretor o odeia. Perguntei à boa gente do Reddit mas responderam que não é nada surpreendente porque o corretor não sabe a quem ou por quê escrevo, portanto dá conselho sobre o tom da minha escrita. Mas… É inconsistente. No seguinte texto, por exemplo, usei muita calão e informalidade, contudo a única frase sublinhada é “de vez em quando”!

Lazily recycling a question I asked in another place and turning it into a blog post to help me remember

Logo na primeira página do meu livro (Viagens Na Minha Terra de Almeida Garrett) o autor coloca a seguinte frase.
Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal
Graças ao Google, já sei o que é murta* e quem foi Xavier de Maistre mas ainda não faço ideia de porque o autor escolheu o imperfeito do conjuntivo neste contexto. Podes explicar sff?
Segundo os portugueses (e um brasileiro) que responderam, Garrett está a construir uma situação hipotética. “Que”, neste contexto, está a funcionar como “se” ou “caso”, portanto precisamos do conjuntivo.
Noutras palavras, Embora Xavier de Maistre tivesse escrito o seu livro dentro do quarto, se estivesse em Lisboa nos dias do Garrett, iria ao quintal dar uma vista de olhos à beleza das laranjeiras e a murta a florescer nos campos**.
*It’s a plant – a kind of myrtle – if you want to know.
**Thanks to u/yangruoang for paraphrasing the sentence: I have paraphrased his/her paraphrase as an exercise for myself, and if I have introduced any errors, they’re my own, but basically rewriting it helped me understand the whole thing a lot better
Ora bem, já falámos da loja e depois da tradição do Pão Por Deus, Viremo-nos agora ao outro aspeto da cultura portuguesa que surgiu naquele texto; a personagem de Zé Povinho.
É uma caricatura do povo português, criado por Rafael Boradalo Pinheiro. Para evitar qualquer confusão, este Bordalo não é o avô do atual Boradalo II, isso foi Artur Real Chaves Bordalo da Silva. Existe um lei que manda que todos os artistas no país têm de mudar de nome para Bordalo?
A figura de Zé Povinho apareceu pela primeira vez na revista “A Lanterna Mágica” em 1875: A sua personalidade e de um rústico de chapéu, com barba, com a boca aberta. É ignorante dos problemas da sua própria sociedade, aceitando com resmungão os impostos e as indignidades que ele sofre. Segundo o artigo, “caricatur[ou] o povo português na sua característica de eterna revolta perante o abandono e esquecimento da classe política, embora pouco ou nada fazendo para alterar a situação.”

O boneco impresso na t-shirt da loja é uma foto de uma escultura em barro da mesma personagem feito pela Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Está a gesticular e tem a palavra “Toma!” no seu cinto.
Dado isto tudo, e por mais que adoro a imagem, acho que não vou comprar a t-shirt. Porquê? Custa-me explicar… acho que há uma grande diferença entre usar uma caricatura da minha própria nacionalidade e uma alheia. Com a minha própria cultura, entendo a realidade, portanto é óbvio que entendo precisamente como a caricatura se aplica e como não. Se usar uma imagem de uma outra nacionalidade, ou raça ou etnicidade, pode ser por causa da minha falta de educação (por não saber a origem), ou pode até ser interpretado como falta da outra espécie de educação; em ridiculizar um outro povo – nada mais, nada menos do que o povo da minha esposa!
Sou woke demais? Ah ah, talvez, mas imagino se a Catarina comprasse uma imagem de um inglês escaldado na praia, ou um “gammon” a queixar sobre imigrantes ou algo do género… acho que eu estaria um pouco chato apesar de tudo, e portanto mais vale fazer uma nova escolha.
EDIT – I bought a Haja Paciência hoodie in the end
This one is inspired by yesterday’s post in which I was initially suspicious of the loja online because it mentions Halloween, in English. Hallowe’en (“dia das bruxas”) is an old celtic tradition but its best-known manifestation, with pumpkins and vampires and slutty nurses is all American cultural hegemony. I’ve been seeing posts talking about Portuguese traditions and I thought it might be fun to talk about this one…
O vídeo (infra) foi feito por mais uma loja online, Madeirense Puro, que tem, como foco, outros portugueses. Já escrevi sobre o livro dele e acho que existe uma sequela mas ainda não tenho. No vídeo, os empregados fingem estar numa manifestação contra o Halloween (“abaixo as aboboras!”) e a favor do Pão Por Deus. Segundo a página da Wikipédia, Pão Por Deus é uma tradição religiosa que tem laços ao festival que domina esta estação do ano mas tem lugar no próximo dia, o dia de todos os santos e portanto coloca a ênfase no lado santo da estação em vez do lado do caos e terror!
A tradição tem raízes na noção de alimentar os defuntos e de pedir esmola em tempos de fome. Especificamente, a tradição de ir de porta em porta a pedir pão “por deus” é associada com a época do terramoto, que também aconteceu no dia de todos os santos. Hum… se não me engano, este facto piorou a situação ainda mais porque as velas acesas nas igrejas causaram incêndios, acima dos danos do terramoto em si. Mas seja como for, continua como tradição até aos dias de hoje. Contudo, como podem ver neste segundo vídeo (narrado em português brasileiro – desculpa!) a sombra dos estados unidos cai através a tradição. Vemos crianças a usar cornos do diabo, chapéus de bruxa e até fantasias de abóboras. Porém, têm também sacos decorados, e a procissão decorre durante as aulas em vez da noite, com os pais.
O Podcast preferido de todos os novatos na aprendizagem de português é o Practice Portuguese, e o Rui fez um vídeo com uma amiga sobre as tradições regionais do Pão Por Deus e o dia das bruxas. Falam também dos bolos tradicionais (receita aqui). Como sempre, falam nitidamente e num sotaque deste lado do Atlántico, que é sempre bem vindo.
Sou um anglófono e um lusófilo, e a minha “presença online” mistura as duas línguas, o emoji da bandeira portuguesa e várias pistas sobre os meus gostos. Por isso, de vez em quando, o algoritmo que governa as nossas vidas todas monta uma campanha mercadológica* que tem como alvo um outro grupo demográfico: americanos cujas raízes, segundo o Ancestry.com, incluem 6% de ADN ibérico. “Kiss me, I’m Portuguese” e “Don’t talk to me until I’ve had my Pastel de Nata” e blablabla
Recentemente um novo vendedor aparece no meu insta todos os dias: “Home of Saudade”. As suas peças parecem-me acima da média e realmente não sei se os donos são portugueses autênticos ou simplesmente um tipo chamado Josh que chegou em Lisboa de Ohio em 2024 e percebeu a oportunidade de ganhar bem por vender símbolos portugueses aos seus compatriotas. Vamos considerar os factos:

Antes de mais, não vejo a opção de ler o site em português. Há um Halloween Sale em andamento, onde se vendem t-shirts e hoodies com frases bem conhecidas a quem segue influenciadores como por exemplo aquele tal Diogo Brehm no Insta. Alguns misturam inglês e português, por exemplo “Teimosa but cute” ou “You’re the canela in my nata“, outros têm versões de marcas famosas como o “Super Avô“, visível na imagem lá em cima.
Existem t-shirts no site que, garanto-vos, não foram compradas por um único português. Se vires alguém a usar “Coolest Portuguese Mom Ever“, podes apostar que se chama Nancy e mora em Upstate New York.
Sem sombra**… Os Nancies do mundo também merecem t-shirts!
Mas por outro lado, há montes de desenhos que fazem crescer água na boca:
Foi aquele terceiro desenho, acima de tudo, que me convenceu que a loja é mesmo portuguesa. Será que o Josh, recentemente chegado de Cleveland, sabe quem é Zé Povinho? Duvido. Ainda não acreditas? Então olha: não há nem um Galo de Barcelos no site inteiro***. Se fosse um site exclusivamente para turistas e pessoas sem noção****, haveria galos por todo o lado. E o rosto de Fernando Pessoa também. É ou não é?
Fui ver a página principal da loja no insta para confirmar. E não errei. Segundo este vídeo, o fundador, César é um açoriano que tem amigos e familiares no estrangeiro, e teve a ideia de criar uma loja com os seus próprios desenhos para vender aos emigrantes que têm saudades da sua terra.
Agora que constatei que a loja realmente é genuína (assumindo que o César não é uma IA, nem um ator contratado pelo mesmo Josh… ai Josh, és tão enganador!) acho que vou comprar alguma coisa.
*actually I think “campanha de marketing” is probably the term that would be used but I am not in board with this
**Not a real expression as far as I know, I am just messing about and translating “no shade” literally. I am really not a nancyphobe, I swear!
***Oh hang on, actually, I found one….. but it is only one, according to the site search! https://homeofsaudade.com/products/galo-de-barcelos-mug?_pos=1&_sid=dd586e89b&_ss=r
****I was looking for a synonym of “Poser” which is another word that actually exists in Portuguese but again it seems like a cop-out to use it
I’m noting down lots of new words in the book I’m reading but some seem too niche even to include. Like I’ve just come across “a ré” which can be a defender in a trial (feminine form of réu) but in the context I found it, it means “Espaço que se estende da popa até ao terço médio do navio” (https://dicionario.priberam.org/R%C3%A9) OK, well i know popa is the poop deck, but I couldn’t find Ré on any diagrams of ships. Anyway, after a lot of effort I found it corresponded roughly to what a British seaman would call the aft deck. Well, forgive me if I don’t spend much time committing that one to memory!
And then there’s “a cernelha”, the part at the back of a quadruped where the shoulder blades meet. I actually know the word for this in English because my daughter went through a horse phase. It’s caled the withers. Yeah, again, it seems unlikely I’ll need to know that one!
Há uma mapa que estende da contracapa para a capa do livro. Na verdade, a viagem é curta. É possível caminhar aquela distância dentro de um dia

Além do território em si, a história enxertado pelo autor em VNMT, como já disse ontem, tem cinco personagens, entre elas três que merecem inclusão no Dicionário de Personagens da Ficção Português*. Nestes resumos daqueles resumos (por assim dizer), irei omitir os pormenores da história e concentrar no caráter de cada um.
Carlos é o herói da conta. O autor concretiza nele as ideais da revolução: singeleza, honestidade, generosidade. Na sua cara, them uma “boca desdenhosa, não por soberba mas por consciência de ‘uma superioridade inquestionável'” o que reflete, acho eu, a intenção por parte do autor que nós nos identificam com esta protagonista admirável. O conflito no seu peito entre a sua lealdade à Georgiana e o seu amor para Joaninha é motivo de ânsia, precisamente por causa das boas qualidades dele. O autor justifica-nos “rousseaunianamente” esta paixão.
A reação dele á aparência do frade mostra o sangue quente do homem, mas não «e fora do controlo, como dizemos quando deixa de atacar e em vez de cometer parricídio, junta-se ao exército liberal. Mais tarde, Carlos, após algum tempo em exílio onde “flirtara” com três irmãs britânicas a fio, “adquiriu facetas dândis”, mas ainda era capaz de tomar ação decisiva para romper os laços de amor. Também fala do amor da sua pátria, e a veemência do seu liberalismo, que dá origem ao desejo se tornar deputado. Como resultado, perde algo do seu espirito aventureiro e engorda nas vésperas da sua vida.
O artigo conclui com o seguinte parágrafo imelhorável
É bem um “herói” romântico, Carlos. De íntimo ferido no confronto da sua pureza primitiva com a poluição do grande mal e da sociedade dispersora, ganha configuração ficcional pela representação de um mundo subjetivo intenso, fragmentado, complexo, posto em relevo pela contraposição a várias personagens e pela articulação com um tempo histórico em devir, também exemplificativo do descambar fatal dos ideais.
O escritor do retrato dedica um parágrafo inteiro á aparência física da Joaninha. Não é bela mas tem “Um vulto airoso” e blabla, voz doce, olhos como esmeraldas, voz puro, árvores e espiritualidade e tal. Mas além disso tudo, ela “afasta-se, pois, dos estereótipos românticos da mulher-anjo ou da mulher-sílfide” e vive no vale que nunca abandonou, rodeado de rouxinóis e outras criaturas. É corajosa e ama sem reserva o seu primo.
Enlouquece quando ouve de como Carlos “caíra em fragmentação interior e “morte” moral no ceticismo, tornando-se incapaz de amar a inocente que poderia revocá-lo do abismo”
Explicando o lugar da mulher dos rouxinóis nesta história, Ofélia Paiva Monteiro diz o seguinte:
Joaninha, sem deixar de ter alguma consistência física e psicológica, “vale” sobretudo como poética representação da inteireza natural, irrecuperável para os que perderam, como Carlos, a unidade e a transparência nativas.
O frade é uma figura “seca, alta e um tanto curvada” da aparência, e “austero” com “crenças rígidas” e “lógica inflexível”. A sua natureza não é completamente sem simpatia mas afinal o frade representa o clericalismo do regime antigo mas também é o pai do herói romântico que tem de se submeter á raiva do filho, naquela cena miserável quando a verdade é descortinada. A consciência por parte de Frei Dinis do seu pecado imperdoável assombra a sua aparência física e as vezes até o faz tremer.
*Annoyingly, the first time I clicked on this it failed to load because there’s a problem with its security certificate, so I had to go into the security settings and tell it to ignore problems on this specific site. Doesn’t seem to happen in Edge, only Chrome.
**I had to squint at this for a bit. It’s an adverb meaning “in the manner of Jean-Jacques Rousseau”. There you go, try dropping that into your next conversation!
Oitecentista: que viveu no século XIX – os millennials daquela época
Metadiegética: Palavra não encontrada no Priberam, mas segundo este fio redditético, existem mais palavras na mesma família: um narrador extradiegético é o narrador do livro que o leitor tem nas mãos. Um narrador intradiegético é um narrador de uma historia dentro do livro que conta as aventuras de um terceiro (o redditor dá o exemplo da Sherazade nos “Mil e Um Noites”) e um narrador metadiegético é um narrador da hístoria contado pelo próprio narrador intradiegético, como por exemplo Simbad, o navegador e o protagonista d’O Marujo. Todos escrevem na terceira pessoa mas existem em níveis diferentes na contagem das histórias dentro da história principal! Uau! Nunca antes ouvi falar deste concepto!
Ontem, escrevi sobre “Um Contra o Outro” dos Deolinda e mencionei o vídeo original onde há muita gente a jogar jogos tradicionais, o que me fez pensar “mas afinal, quais jogos são?”
Admito que estou a escrever este texto apenas para procrastinar do curso, portanto vou evitar grandes divagações. Títulos e mais nada! Jogos e brinquedos! Agradeço o Atlas Lisboa por ter explicado a maioria, ainda que seja em inglês! Nota-se que o título é um contra o outro o que significa (se não me engana) que não se refere à Ana e um rapaz/homem, especificamente. Um Contra o Outro, neste contexto, refere-se a dois jogadores de qualquer género.
Eis o vídeo!
That dress 🔥 That hair🔥 This is the Bacalhauest Ana has ever Bacalhaued.
E os jogos (na ordem da aparência)












